Adélia

Era uma vez uma noite na biblioteca em uma casa no campo em que morava uma menina chamada Eveline, também uma porquinha cor-de-rosa batizada com nome de Adélia que vivia num chiqueirinho com seus irmãos, ao menos durante o dia.

Não, na verdade, era uma vez uma porquinha cor-de-rosa chamada Adélia que morava num chiqueiro com seus irmãos, ao menos durante o dia, porque a noite ela ia na casa de uma menina batizada de Eveline, onde havia uma biblioteca, e tudo isso ficava no campo.

Não, não, na verdade, era uma vez uma menina cor-de-rosa que não dormia no chiqueiro, mas gostava de encontrar uma porquinha que vivia na biblioteca, não durante o dia, ao menos, porque a casa era no campo e as duas se chamavam amigas.

Ai, ai, que já não sei mais o Era uma vez, era uma vez… de uma história eu já fiz três! Qual será a melhor para contar pra vocês?

 

“Adélia morava em uma casa no campo.

Durante o dia, Adélia brincava com seus irmãos.

Mas à noite, quando todos estavam dormindo, acontecia

algo bem estranho…”

Adélia

O novo livro de Jean-Claude Alphen conta a história de uma porquinha cor-de-rosa que mantém um pequeno segredo. A noite, quando todos se recolhem, Adélia sai do chiqueiro e vai até a casa, entra pela portinhola, feita para os cães da casa, e se esbalda nos livros da biblioteca.

Acontece que, numa noite dessas, Adélia é surpreendida pela menina Eveline. As duas juntas descobrem a amizade através da mesma paixão: o livro.

A história de Adélia reúne vários elementos para um leitor apaixonado por livros ilustrados. A narrativa mantém delicadeza no mistério e um entusiasmo que descreve a vida da personagem e o hábito da leitura.

Curiosamente, ao buscar o significado do nome Adélia nos deparamos com características semelhantes às atribuídas ao signo do porco, no horóscopo chinês: atrevimento, concentração, coragem, força interior e capacidade de fazer amizades duradouras.

Jean-Claude Alphen, reconhecido por seu trabalho como autor e ilustrador, novamente não decepciona seus leitores em Adélia. Além de trazer um texto com poder de encantamento, a obra é precisa na narrativa das imagens e deslumbrante no traço simples e sofisticado.

Cor-de-rosa que adoça os olhos, a história conduz o leitor ao convite infindável da leitura. Adélia espreita, atravessa os cercadinhos e as portas, usa astúcia na medida para conquistar amigos para toda vida…

* O livro recebe o selo da editora Pulo do Gato.

 

 

 

além das penas

Plumas crescentes
Penas passadas… Não…
não fazer mais fardos
de antigos desenganos…

Sentir o esvaziamento…
Aprender sem espanto…
Assombrar o espírito para
o vigor do gesto epifânico!

Coragem pra perder,
ousadia pra sonhar!…
Não é possível viver mais sem…
essa criança que me despertas!

Quero me lançar
na chuva outra vez!…
Sorrir pra suavidade
nua dos teus olhos…

Não mais viver em fuga de mim mesmo…
Não é certa a anulação por amor…
Amar todas as crescentes plumas!
Superar penas passadas, minhas… tuas…

– canção de Joel CostaMar e Alexander Martins Vianna –

poemas ao alcance da mão

Perguntaram-me quais os poemas que eu mais gosto e respondi que seria impossível fazer uma lista que representasse meus anseios… Eu consigo gostar de poemas que ainda nem nasceram… Enfim… Resolvi fazer uma pequena tiragem de três poemas que mantenho ao alcance das mãos e dos olhos e da cabeça e do coração e da alma e de tudo que é mistério e que ainda não sei e do que nunca saberei… Enfim, transcrevo os poemas abaixo antes que termine com um nó na minha cuca, faço com menção aos livros em que estão inseridos para que possam ser buscados e lidos com o conjunto. Espero que gostem ou podem não gostar, pronto! Mas leiam para não gostar, se for o caso. E beijinhos. E até a próxima.

I. Nada, de Selma Maria Kuasne, inserido na obra “Isso, Isso”, com ilustrações de Silvia Amstalden, da Editora Peirópolis.

 

Nada no Ocidente é nada vezes nada.

Nada no Oriente é o começo de tudo.

O peixe nada na água.

Nada é uma coisa que vai surgindo

devagarinho.

Existe mesmo alguma coisa que é nada?

Não foi nada! Mas foi…

 

II. “sem título”, de Mercedes Calvo, inserido na obra “Los espejos de Anaclara”, com ilustrações de Fernando Vilela, da Editora Fondo de Cultura Económica.

 

Espejo, espejito

yo no quiero saber quién es más bella.

Sólo dime tres cosas

espejito:

quién soy

quién fui

quién seré.

 

III. Coisas que não prestam, de Alice Vieira, inserido na obra “Rimas Perfeitas, Imperfeitas e Mais-que-perfeitas”, com ilustrações de Afonso Cruz, da Editora Texto.

 

Há uma candeia

que não alumia

há uma roca

que já não fia

há um coche

que já não roda

e no armário

há vestidos

fora de moda

há um triciclo

que pede escusa

e um chapéu

que já não se usa

 

e aquilo que já não fia

nem alumia

nem roda

nem se veste

nem se usa

nem corre

 

– tem uma beleza

do que já não presta

e esta

nunca morre.

 

 

RELAÇÃO TEMPO-IMAGEM-NARRATIVA em “PRINCESA DE COIATIMBORA”, por Alexsander Martins Vianna

Alexander Martins Vianna, é Mestre e Doutor em História Social pela UFRJ. Professor de História Moderna no DHRI-UFRRJ. Ex-coordenador do PROFHISTÓRIA-UFRRJ, no qual atuou como pesquisador e orientador na linha “Linguagens e Narrativas Históricas”, também desenvolve pesquisa sobre a relação entre teatro, materialidade editorial e religião nos contextos protestantes da Inglaterra Elisabetana e Jacobita, com foco nas peças teatrais associadas ao nome ‘Shakespeare’.

A seguir, Alexsander provoca nossa reflexão percorrendo a leitura com sua resenha detalhada sobre a a RELAÇÃO TEMPO-IMAGEM-NARRATIVA em “PRINCESA DE COIATIMBORA”, texto de Penélope Martins e ilustrações de Flávio Fargos, numa literatura para infância sem infantilismo idiotizante.

Um convite para ler atentamente o livro e a própria leitura, como veremos:

Estou aqui me experimentando numa resenha sobre o livro Princesa de Coiatimbora. Estou particularmente interessado pelo efeito final da relação tempo-ilustração-narrativa. Estou menos voltado para a intenção psicológica de Penélope Martins e de Flávio Fargas do que para a “intenção enquanto efeito final do discurso”, a sua operação, mesmo que inconsciente, de uma “máquina de gênero”…

No processo ilustrativo da história da princesa, optou-se pelo desenho associado à colagem fotográfica, além da materialização viva, também como colagem, das palavras novas do vocabulário vivo do seu ambiente imaginativo. Coiatimbora é princesa sem castelo, sem redenção de príncipe, com macacão e pais imaginativos que se expandem em suas brincadeiras… Vê-la em sua soltura é evocar, para século XXI, um tipo de energia criativa de infância, com sua complexidade não maniqueísta, o que me reporta a Tom Sawyer (mas sem seus códigos de época)…

Coiatimbora tem potencial para vários rodopios em outras narrativas de aventuras imaginativas (textuais, visuais e audiovisuais) para além do quintal, para além da família, para além das páginas planas…, com tincuns e firulás fantabulásticos ao lado do seu cãozinho malhado Puli-Pulá… Em seu mundo, manga chupada é mágica para quem sabe “des-ver”, como provocaria – de outro lugar quintaneiro imaginativo – o velho Manoel de Barros.

Eis a inquietação viva da infância em expansão, com perguntas e dobras figurativas que desmontam os hábitos adultos. Coiatimbora guarda em si um potencial de “rústico filosófico” ao modo de Barros, do tipo que diz: “Faz olhar de árvore, sapo!”. Tudo isso ali guardado na fenda das artes de Penélope e Flávio!… Pluralidade dá frutos no ‘sapere audi’ da infância que se expande sem traumas adultos: “FURTIPLURI!”…

E, finalmente, venho ao meu ponto no início enunciado: a relação tempo-imagem-narrativa no livro ilustrado de Penélope e Flávio… As principais marcas de tempo e as suas passagens de vínculos causais se fundem numa efetiva paralaxe dos dois elementos (texto e imagem). Se tento ler o texto separado da ilustração (e das palavras ilustradas que provocam neologismos deliciosos e sonoros em suas marcas humorais), percebo que as ancoragens causais de tempo não estão no texto, no qual há uma espécie de suspensão da narrativa textual que depende da forma como a ilustração de Flávio concebe preenchimento temporal.

Tudo isso cria um efeito especial na narrativa global: nenhuma das artes reduz a outra; elas não formam paralelos mutuamente ilustrativos; elas já formam a paralaxe, ou seja, dois processos de criação artística que têm pontos de partidas distintos e sobreiam uma intercessão que cria outro discurso, já não só de Penélope, nem só de Flávio, mas algo que não pertence a ambos, porque a paralaxe é estruturalmente despertencente e vai na fronteira do gênero, apontando para possibilidades de outros enredos…”

Sobre a narração da história produzida pela autora do texto, Penélope Martins, que também é narradora, e permeada por canções de Joel Costa Mar, Alexsander estende sua leitura:

“Confesso que fiquei com muita vontade de ver a performance deste livro com o tempo da narrativa musical de Joel CostaMar com Penélope, que é outra forma de preencher a narrativa com o corpo cênico de ambos na interatividade viva e desprevenida das crianças em suas contações (en)cantadas… Que preenchimentos de tempo e voz-corpo emergem disso? A performance texto-imagem em página já vi… Falta-me ver ambos em ação ao vivo, fazendo o livro escapar das páginas, sendo outro, sendo vivo, sendo fímbria… contra os buracos dos Roçacaxixas que ainda circulam por aí…traumatizando infâncias com seus tempos funcionais…”

– Alexsander Martins Vianna –

 

o grande amigo

No começo deste ano, em oficina de narrativa, convidei minha turma de crianças para uma jornada no espelho.

Ofereci um papel e um lápis para cada um e pedi que retratassem no papel aquilo que eles viam ou gostariam de ver no espelho.

Comentei que o espelho era uma espécie de bobo da corte, um brincalhão que joga com nossa percepção de realidade nos desvios da imaginação.

As crianças quiseram saber o porquê.

Escrevi uma frase no papel e mostrei para o espelho. A frase ficou invertida e as crianças se danaram a rir, alguns dizendo:

– Ihhh, a gente fica ao contrário no espelho, também.

Do lado do avesso, ao contrário, de pernas pro ar, em rebuliço. Para além da própria imagem refletida, há sempre milhões de partes do que sou eu mesmo.

Também num mergulho pelo autoconhecimento, Katia Canton conta a história de Rodrigo, ume menino tímido que deseja fazer amigos mas que não sabe como…

No primeiro passo, a conquista de seus pais, com boas notas no boletim e um comportamento impecável na escola, traz a decepção para Rodrigo. Seus pais nem notam o esforço em ganhar atenção, eles estão certos que o filho tem bom desempenho.

Nos dias seguintes, no bairro, na praça, na praia, na escola, no futebol, Rodrigo não desistiu de fazer amigos, embora suas tentativas fossem sucessivamente frustradas por culpa de sua tristeza esquisita, por conta de gestos estranhos, por um silêncio constrangedor, pelo pedido solitário… Nem com os animais Rodrigo tinha jeito.

“Até que um dia, ele finalmente desistiu de buscar amigos.”

E pensou, quieto e distraído o suficiente para cair no sono. E acordou, distraído e quieto como de costume enquanto escovava os dentes em frente ao espelho.

O espelho que também espiava Rodrigo. Rodrigo enxaguou a boca, fez caretas. Mostrou a língua, piscou. Uma conversa consigo mesmo disparou o riso.

Rodrigo se viu engraçado e gostou do que viu. Era um cara legal, um garoto expressivo. Um amigo.

Depois dessa primeira amizade vieram muitas outras.

O livro O grande amigo, com texto de Katia Canton, acompanha a narrativa de imagens de Renato Moriconi, que escolheu o carvão sobre papel como técnica para elaborar retratos do próprio Rodrigo e de seus possíveis amigos. Renato Moriconi posiciona as personagens de costas para o leitor, explorando mais do que a mera curiosidade, mas uma reflexão ativa sobre o medo e a ansiedade que podem surgir a cada novo encontro com um desconhecido.

O livro é da editora Panda Books e está disponível em livrarias.

Aproveitem para olhar no espelho e sorrir!