as pedras, Maria Alberta Menéres

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As pedras falam? pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma história que não calam.

Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nós?
O que de nós pensarão?

As pedras cantam nos lagos
choram no meio da rua
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.

Riem nos muros ao sol,
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como aves
e nem mais tarde regressam.

Brilham quando a chuva cai.
Vestem-se de musgo verde
em casa velha ou em fonte
que saiba matar a sede.

Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou:
uma germinou em flor
e a outra nos céus voou.

As pedras falam? pois falam.
Só as entende quem quer,
que todas as coisas têm
um coisa para dizer.

– Maria Alberta Menéres, poeta portuguesa.
*poema inserido na obra Conversando Com Versos.

a bailarina e o lobo

Cansei de pedir aulas de piano para minha mãe. Também me faria muito bem um piano, que não tive porque não cabia em casa o piano, nem tal compra na conta bancária dos meus pais. As aulas de piano ficaram por conta de uma professora com problemas sérios de humor ou mau feitio (ou outra coisa qualquer que adulto esconde e não diz o nome com medo de pegar doença).

Larguei o piano porque eu gostava mesmo era de cantar e tocar a bossa nova e a professora queria que eu me fizesse no clássico, com aquelas chatices da pobre Elise que anuncia a venda do gás. E o solfejo. A professora levava muito a sério as aulas de solfejo.

Larguei o piano e arranjei umas aulas de violão com uma amiga adolescente. Também não daria certo uma empreitada que começava mesmo mal: eu andava enlouquecida com Caio Fernando Abreu e Caetano Veloso, minha professorinha era o sonho dourado da boa aluna e filha mais-do-que-perfeita. Terminou que eu consegui tocar a Tigresa. Já era algo.

Larguei as aulas de canto, quase recentemente. Comecei anunciando com clareza que eu queria cantar assim sem muito jeito de cantora mas com melhor fôlego. Vieram os tais exercícios para dar conta e eu, pronto.

Nem preciso dizer que lá atrás, por conta de não saber virar estrela, fui retirada da vontade de aprender o ballet.

Acho que eu não nasci para princesa de história, meu caso estava mais para bruxa, duende, ogro, lobo… E digo isso também pelas amizades: meu apetite voraz para conversas intensas magoava coraçõezinhos.Capa

Princesas perfeitas terminam tudo o que começam e são sempre as primeiras alunas da classe. São as princesas as meninas disputadas para ir na frente dos carros de desfile, das rodas de quadrilha, das fotos do colégio, das escolhas dos times.

Eu estava do lado das esfarrapadas e hoje faço isso com muito gosto.

Ainda bem que me deixei com o “muito sem terminar”, tornei-me uma adulta com lacunas e imperfeições que preencho todos os dias de infância perene, experimentando, brincando, rodopiando sem dar estrela (porque para mim não é boa ideia), abrindo minha boca de lobo para dizer coisas com dentes enormes que se ajustam no tamanho do meu abraço.JOSEFINA QUER SER BAILARINA

Para os adultinhos e crianças que queiram ler sobre bailarinas e lobos, recomendo os livros Josefina quer ser bailarina, de Claudia Souza e Alexandre Rampazo (editora do Brasil); e Este é o lobo, de Alexandre Rampazo (editora DCL).

Ah, e só para reforçar, aqui em casa temos um piano herdado da avó. Ninguém faz aulas, ainda, mas todo mundo toca lá umas coisinhas.

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Os cabinha do Sertão

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Quando eu era menina num sabia que eu podia ser cabinha, uma Maria Bonitinha. Ah, se eu sêsse amiga de Gabriela desde aquela época, eu seria cabinha da rua da minha casa, entre as molecagens do trancelim e das bilas, azuis e verdinhas, que atirávamos na calçada.

A infância é um tempo, é um lugar ou é um feitio, um jeito?

O fato é que eu era uma menina com fome de rua, e nunca andava só. A gente brincava de riscar amarelinha, a gente explorava o morrão pra além das últimas casinhas bonitinhas – umas azuis, outras rosadas, verdes também – na vila operária em que morávamos. A gente era rei e rainha.

Cansei de arrancar pedrinhas dos joelhos por conta dos tombos que levei naquelas carrinhas que os meninos faziam e botavam pra descer ladeira. Minha mãe aconselhava, desconfio que de zombaria:

– Menina, esses joelhos ralados e você nunca vai ser Miss.

Ora, se era a mesma mãe que apanhava ovo do galinheiro da vizinha e escondia, embaixo da saia, pra cozinhar mais tarde, quando a mãe dela não estivesse por perto e nem pudesse dar conta do fato.

E Gabriela, minha amiga da infância de agora, num sei por onde ela andava naquele tempo em que eu usava meu tamanquinho dourado até ficar roto, pequeno pro calcanhar de fora. “Gabriela, minha linda, olha que eu tinha um vestido azul que levava um laço na cintura com florinhas: veja só se eu num podia participar daquela festa no Sertão?”

Só sei que Gabriela, por força do ‘dominamento’ dos reis e das rainhas que governam nosso mundo e o universo, cruzou meu caminho inda agora e já me acarinhou com o espírito da infância que mora dentro dela, fez cutucar meu mesmo feitio, reforçou fé cega e coragem inabalável para abrir o baú de histórias.

Num vou falar muito mais pro senhor, nem pra senhora, mas posso deixar aqui um pouco de desejo, uma peneira de generosidade pra brincadeira, um vidrinho com o tônico da saúde revelada.

Aproveite bem, cabinha. Ressuscite esse Lampiãozito, essa Maria Bonitinha, essa criança que ilumina sua vida.

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Terra de Cabinha, livro de Gabriela Romeu, com ilustrações de Sandra Jávera. Publicação da Editora Peirópolis, de São Paulo.

SINOPSE

Cabra da peste, cabrinha, cabinha. Assim é conhecida a criança que vive no Cariri, um sertão verde, quase um oásis, em meio ao semiárido brasileiro, que cobre quatro Estados do nordeste: Ceará, Pernambuco, Piauí e Paraíba. Terra das pinturas rupestres, do Padre Cícero, do poeta Patativa de Assaré, lugar em que menino vira rei, caça jumento e foge de encantados, o Cariri se destaca, na extensa pesquisa sobre a infância conduzida por Gabriela Romeu em todo o Brasil, como um delicado relicário: um lugar em que o brincar traz muitos outros sentidos que podem passar desapercebidos para muita criança e gente grande da cidade.

Este livro traz histórias, causos, brincadeiras, receitas, versos e adivinhas. Aqui você ouve a voz do cabinha, dos mestres e contadores de histórias, e também da pesquisadora visitante, que registrou num caderninho as coisas mais interessantes a respeito de como vivem aqueles meninos e meninas para quem o mundo é feito de castelos, árvore é brinquedo e assombração existe, sim, senhor.

Como lembra a autora, trata-se de um livro para se ler de dia, reler de noite – ou vice-versa – e recontar pra quem quiser.

 

 

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Num acabou, não. Deixo um sonzinho bom demais da conta pra acompanhar a leitura do livro de Gabi. Depois num diga que eu num sou boa pá tu. E salve a Maria Bonita Déa Trancoso!

 

 

botão de rosa

Quando nos mudamos pra nova casa, a existência de um pequeno quintal realizou projetos antigos: ter uma rede pra descansar, ver o jasmim se enroscar no pergolado, cultivar pequenas árvores que pudessem crescer em vasos, sentir o aroma acolhedor da lavanda e da alfazema…

Passamos a colher manjericão, hortelã, cidreira e até morangos. Entre experiências botânicas, fomos desafiados a reconhecer a força da paciência e da perseverança.

Um pé de alface, por exemplo, demora três meses para crescer ao ponto de colheita. Os rabanetes, mesmo pequeninos, devem esperar debaixo da terra no mínimo de 60 dias.

A roseira do jardim vez em quando dá botão e floresce. Vez em quando é uma festa. O resto do tempo ficam lá folhas no caule espinhoso, carecendo atenção para poda, água, terra nutrida.

A nova casa com o pequeno quintalzinho se revelou um grande laboratório de sentimentos.

Uma vez, meu pai me disse para desistir de uma folhagem que estava muito feia mesmo. Tive pena de jogar fora a plantinha; ela estava minguada, mas ainda vivia, resistindo à sua própria decadência. Deixei o vaso e a folha única. Demorou um ano para voltar a ser um espetáculo de novos brotos e folhas cada vez mais largas…

Entre plantas, temperos e livros, paixões que se assemelham na forma de cultivar e usar, amigos observadores também contribuem para reflexões que nos fazem viver melhor.

Manuel Filho, recentemente lançou um novo livro, Meu pequeno botão de rosa, uma fábula contemporânea que conta a história de uma abelha doceira fascinada pelo broto de uma rosa. A abelhinha faria o melhor mel com pólen da rosa, mas era preciso paciência até o ponto em que a rosa crescesse, amadurecesse e se abrisse. Não seria necessário arrancar da roseira, nem despetalar a rosa; bastava um cocegar de patinhas no pólen pra colher o necessário. E os dias da confeiteira se sucederam na ardente espera: ver nascer a flor ao pé de sua janela. Acontece que o grande dia chegou e a rosa? Sumiu…Image result for meu pequeno botão de rosa vicente mendonça

Não vou me estender e nem vou revelar toda história, deixo apenas um convite: cultivem plantas e livros – duas ótimas maneiras de rever a narrativa da vida valorizando cada segundo de brava existência, ou melhor, resistência no existir. Sim, é certo que haverão espinhos, mas paciência… também se colhe muito mel.

* Meu pequeno botão de rosa, texto de Manuel Filho, ilustrações de Vicente Mendonça, selo editorial Panda Books, de São Paulo.

 

Como e por que contar histórias para crianças?

Denise Guilherme, responsável pelo projeto de leitura e formação de leitores A Taba, reuniu um pessoal para conversar sobre o ato de contar histórias.

Por que é tão importante narrar? Como narrar histórias? De que maneira é possível conquistar a atenção do público?

Entre os narradores convidados, Giuliano-Tiento2Giuliano Terno de Siqueira | Doutor e mestre em artes pelo programa de pós-graduação do Instituto de Artes da UNESP. Sócio-fundador d’A Casa Tombada [Lugar de Arte, Cultura, Educação]. Idealizador, coordenador e professor do curso de pós-graduação lato sensu A Arte de Contar Histórias – Abordagens poética, literária e performática pela FACON – Faculdade de Conchas, pólo A Casa Tombada. Professor colaborador do Programa de Mestrado Profissional do Instituo de Artes da UNESP. Contador de histórias, escritor, pesquisador, professor e assessor de programas públicos e privados de livro, leitura e bibliotecas.

10407918_10203387899889655_3346874991112871519_nOutro narrador presente, Magno Farias, pedagogo é educador, com experiência nas redes públicas e privada e no terceiro setor. Trabalha em comunidades desde 2005 e atuou como supervisor de educadores na 29ª Bienal de Artes de São Paulo e educador de arte contemporânea no “Projeto Jovens Emergentes”, em 2011/2012. É educador de biblioteca e contador de histórias no Instituto Acaia e, desde 2003, sonoplasta em espetáculos de circo e teatro.

11170363_889846137704203_9175329297026196525_nPor fim, a terceira integrante dessa roda virtual de conversa, Penélope Martins é escritora e narradora de histórias. Em 2009, iniciou a ação Construindo Leitores, em Santo André, reunindo crianças em encontros mensais para narração de história e atividades artísticas. Mais tarde, passou a ser convidada como narradora de histórias e oficineira para trabalhar com crianças, jovens e educadores, por escolas e instituições ligadas à cultura (SESC, Fábricas de Cultura, Museus etc), atividades para as quais se dedicada até o momento. Entre seus projetos de narração, mantém ligação permanente com os leitores através da ponte entre seu blog Toda Hora Tem História e o Clube de Leitores, de origem portuguesa. Entre seus livros já publicados, Poemas do Jardim (editora Cortez), incluído na lista de Bolonha, Princesa de Coiatimbora (editora Dimensão), Quintalzinho (editora Bolacha Maria), A incrível história do menino que não queria cortar o cabelo (ediota Folia das Letras).

A conversa foi transmitida ao vivo na terça-feira, dia 06 de setembro, às 21h, mas pode ser assistida no link abaixo:

Milágrimas,

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Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre

Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre

 

– Do poema se fez canção:

Letra de Alice Ruiz

Música de Itamar Assunção