a intimidade da leitura

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Há um momento em que o livro me dá a oportunidade de afastá-lo de mim ou me arrebata de tal forma que já não estou neste mundo.

Lembro bem quando fiquei sentada cinco horas nas cadeiras do aeroporto esperando um voo atrasado da Tailândia na companhia de Fernando Pessoa. Mastiguei doces, “há sensações sentidas só com imaginá-las”; tirei o pacote de lenços de papel da bolsa, “como um bálsamo que não consola senão pela ideia de que é um bálsamo”; dei risada e até gargalhei, as “cartas de amor é que são ridículas”; risquei umas linhas, anotei uns absurdos, “eu, enfim, que sou um diálogo contínuo”; solucei de chorar e molhei várias páginas… Depois de tanta intimidade, o livro e eu, fechei com a capa e levantei os olhos para me deparar com aqueles estranhos que me cercavam com caras  que passavam pela perplexidade, dó, desespero, fé, romantismo e vergonha. E eu nem me levantei da cadeira, até pensei: “O resto é sombra de árvores alheias”.

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Noutras oportunidades de aeroporto, também dentro da aeronave, mergulhei nos Olhos de Ana Marta, de Alice Vieira para terminar na última página; o mesmo se deu com Léxico Familiar, que só não foi até o fim porque Natália Ginzburg me perdeu para o pouso e eu ão suporto impactos por conta da labirintite. Cumpre dizer que em cada episódio sigo eu sempre observada por incrédulos.

Maria Valéria Rezende, com Quarenta Dias, me tirou de circulação sem que me fosse possível, inclusive, atender aos clamores dos filhos. “Mãe, mãe, mãe, já termina?”, eu andando com a voz daquela mulher que subia ladeiras e se metia em dias infindáveis. O livro acabou eu com um misto de vontade  de dizer tantas coisas para as mães que eu conheço; sem contar numa certeza de que a ficção era a pura realidade.

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Os livros são assim, braços que nos acolhem ou nos repelem.

Não se sinta mal se começara ler um livro e não sentir vontade de seguir adiante, isso não significa que nada de ruim – nem sobre você, nem sobre o livro. Abandonar a leitura faz parte da vida, meu bem. Não é assim também com namoros, amizades e até casamentos? Não é assim quando decidimos mudar o caminho, trocar a programação do dia?

As vezes, falta alguma coisa para seguir a leitura. Só deixo um conselho – se conselho fosse bom – não desista no preâmbulo, antes da história começar a tecer suas tramas; seja um pouco teimoso, um pouco. Mas não seja teimoso demais, nem rígido ao ponto de afastar de si a possibilidade de mudar o que pode ser mudado. Para viver é preciso admitir uma dose de inconstância.

Também não caia na cilada de certos arrogantes, pretensiosos e chatos a beça que desenterram listas com interjeições sacanas, “você leu isso?” ou “tem certeza que é leitor?”; a leitura é mais do que um acúmulo de títulos colecionados na prateleira. Pra ler é preciso beber da alma, misturar na essência, olhar pra dentro de si e ser capaz de acender a luz daquela única lâmpada que fica pendurada no centro do peito – que também é uma sala escura.

Eu, por exemplo, sempre gostei de frases de caminhão, talvez seja por isso que entro no livro vagando na estrada, com frases a passar, e vivendo bem ou mal com isso.

Ps. Não por acaso, tenho lido muitas mulheres.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Eu sonhei com um filme em que a força das palavras ampliasse a beleza do mundo. As pessoas me falaram de tudo; das dificuldades de crescer, do amor e da felicidade. Toda essa riqueza é o centro do filme HUMAN. Esse filme representa todos os homens e mulheres que me confiaram suas historias. O filme se tornou um mensageiro de todos eles“, afirma Arthus-Bertrand ao falar do documentário Humanos, recheado com histórias inspiradoras e emocionantes, integralmente no YouTube, em português.

Um dos trechos mais compartilhados nas redes sociais é um breve depoimento do presidente uruguaio José Mujica, em que fala de sobriedade para análise das relações humanas na busca por felicidade.

 

livro tá na moda!

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Que vire moda fazer festa pro livro, no outono, na primavera, no inverno, no verão… nas ruas dos parques, nas universidades, menos nos pavilhões, por favor, onde não há respiração e nem se pode ver o céu para chorar uns versos. Que vire moda fazer festa em livraria, juntar amigos para ouvir história, fazer amigo escancarado de poesia. Que vire moda perguntar ‘o que você está lendo?’ no lugar de ‘onde você comprou esse sapato?’. Que vire moda ser elegante de tanto partilhar páginas com cheiro a tinta fresca, sem dispensar o odor amarelo embolorado, objeto recém descoberto nas pilhas de um velho alfarrábio. Que vire moda namorar palavras, trocar histórias,ficar melancólico de tão feliz por um título, soprar no ouvido um Drummond, dizer para as meninas serem mais Ruiz na vida.

Que vire moda pensar o livro como um lugar onde o tempo reina misteriosamente calmo.

Que vire moda fazer do livro uma ponte para transcender o real, povoar do imaginário, crescer a alma, vencer o medo e se saber invencível da fragilidade humana.

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Meu pedido atendido: amigos autores, jornalistas, professores, leitores de todos os cantos, ajudaram a compor uma lista de livros imperdíveis. Separei aqui alguns títulos para começar a diversão de vocês… E sobrou lista para mais outros dias de leitura…

 

  1. Dom Quixote em Quadrinhos, de Caco Galhardo, Editora Peirópolis;
  2. Iluminuras, de Rosana Rios, ilustras de Thais Linhares, Editora Lê;
  3. Quando chove a cântaros, poema de Gloria Kirinus e ilustras de Graça Lima, Editora Cortez;
  4. Mico não usa pinico, texto de Alessandra Roscoe e ilustras de Anabella Lopez, Editora Edelbra;
  5. A vída íntima de Laura, de Clarice Lispector, ilustras de Odilon, Editora Rocco;
  6. O livro do palavrão, texto e ilustras de Selma Maria Kuasne, Editora do Brasil;
  7. Chá de Sumiço de outros poemas, de André Ricardo Aguiar, ilustras de Luyse Costa, Editora Autêntica;
  8. Era uma vez três velhinhas, texto de Anna Claudia Ramos e ilustras de Alexandre Rampazo, Editora Globo;
  9. Jardins, poemas de Roseana Murray e ilustras de Roger Mello, Editora Manati;
  10. Terra de Cabinha, de Gabriela Romeu, Editora Peirópolis;
  11. Um dia, um rio, poema de Leo Cunha e ilustras de André Neves, Editora Pulo do Gato;
  12. Sozinha, de Marcia Leite, Editora Edelbra;
  13. Contos Mouriscos, de Helena Gomes e Susana Ventura, Editora Callis;
  14. A pontinha menorzinha do enfeitinho da colherzinha de café, da Elvira Vigna, ilustras de Simone Matias, Editora Positivo;
  15. Uniforme, texto de Tino Freitas e ilustras de Renato Moriconi, Edições de Janeiro;
  16. Contos da Rua Brocá, de Pierre Gripari, Editora Martins Fontes;
  17. Museu desmiolado, poemas de Alexandre Brito com ilustras de Graça Lima. Editora Projeto;
  18. Meus romances de cordel, de Marco Haurélio, Editora Global;
  19. Roupa de brincar, texto de Eliandro Rocha com ilustras de Elma, Editora Pulo do Gato;
  20. Saci, de Ilan Brenman, ilustras de Guridi, Editora Companhia das Letrinhas;
  21. O elefante entalado, de Alonso Alvarez, Editora Ficções;
  22. O vento de Oalab, de João Luiz Guimarães, Editora SM;
  23. Jeito de bicho, de Alice Ruiz com ilustras de Eder Cardoso, Editora Iluminuras;
  24. Conversa de morango e outros textos cheios de graça, de Drummond, Editora Companhia das Letrinhas;
  25. Arranjos para assobio, de Manoel de Barros, Editora Alfaguara.

 

LeituraMAIS

Na última terça-feira, junto com os autores Ilan Brenman, Silvia Oberg, e Marco Haurélio, com curadoria da escritora Rosana Rios, mediei o debate Contos de Fadas e Folclore na Literatura para Infância.

Foi um papo muito rico, com informações preciosas e muita generosidade.

Pra quem não pôde comparecer ou deseja rever, aqui vai o link da gravação:

 

a voz dos livros

A editora Bamboozinho me chamou para gravar a voz da narradora em dois livros, Papagaio Pepetela e Qual é o Monstro?, ambos com ideias sonoras em aplicativos para tablet e smatphone.

Fui até a editora cantarolando pelo caminho, esquentando os tamborins para brincar com a voz.

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Para Papagaio Pepetela, preparei a totalidade da narração da história, deixando o leitor curtir junto ao ler e ouvir as aventuras desse amigo emplumado que late para avisar a vizinha que tem barulho novo na casa.

Em Qual é o Monstro? eu pude realizar um sonho antigo, transformada na senhora dicionário, sou eu quem diz o que significa cada palavra estrambólica que dá nome aos monstros da história.

Mas não para por aí! Além dos livros que eu narrei, a editora tem no catálogo muitas novidades para leitores vorazes, ouvintes apaixonados e cantores que bagunçam o plantão.

 

Dois Dedinhos de Prosa

Penélope Martins conta história da África no Blog da Letrinhas

 

Cada história guarda uma semente e, quando alguém decide narrá-la, liberta uma força que contagia quem fala e quem ouve. É assim na seção Dois dedinhos de prosa, que traz narrações de trechos de livros.

Quem estreia a seção é a escritora paulista Penélope Martins, que desde sempre cultiva a mania de “palavrear para viver”. Hoje ela evoca em sua fala suave as imagens de uma África ancestral, de muitas cores, narrada pelos diálogos afetuosos entre um avô do tamanho de um baobá e seu neto, cheio de curiosidade filosófica. Ouça a seguir um trecho do livro A África, meu pequeno Chaka, escrito por Marie Sellier.

* Confira aqui o Blog da Letrinhas:

http://www.blogdaletrinhas.com.br/conteudos/visualizar/Penelope-Martins-conta-historia-da-Africa

 

gostar de ler

 

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Este mês, encerro um contrato para realização de um trabalho em Paraisópolis, no Instituto Prof. Minha proposta era trabalhar narrativas com crianças de 6 a 13 anos, incluindo, é claro, a apresentação do livro como um objeto a ser conquistado. Comecei as visitas no Instituto em fevereiro, e já se foram dez meses de muitas descobertas.

O desafio de encantar para leitura sempre aparece como um esqueleto atrás da porta (opa, isso não é um romance da Stella Carr?). Mas o esqueleto sempre se mexe, sacode, dança, desmonta e remonta até conseguir contar sua história…

Com os pequenos leitores, o grupo iniciante com idades entre 6 e 7 anos, foi muito fácil começar. As crianças pequenas estão muito próximas do contato físico; um com abraço já quebra barreiras suficientes para se estabelecer um elo. Os meninos não só queriam ouvir histórias como explorar o livro, em todos os elementos: como é a capa, se tem orelhas (seria engraçado se fossem 7 orelhas – e isto também é nome de livro), quais os nomes da ficha catalográfica, que número tão grande na ficha, quem deu o título, nomes de autores e o que cada um fez no livro, biografias com fotos (eles realmente adoram), o que é miolo do livro (e não miolo do pão feito em casa – outra história aqui) etc. Digo etc porque o livro vira de tudo quanto é lado com criança curiosa.

O grupo seguinte, idades entre 8 e 9 anos, não foi muito diferente. Ainda são pequeninos e muito interessados em ouvir histórias. Eis aqui o pulo do gato (epa, isso não é nome de editora?).

Despertar a criança para leitura nos dá uma ideia de desenvolver neles a escuta de uma boa história para que exista o desejo de procurar por outras mais.

– Isso, Isso! (Pera, não, Peirópolis! Isso, isso é livro também!)

Mas e a nossa escuta? Será que no desafio de formar leitores a gente se harmoniza na própria escuta?

O desafio muda de nível com crianças com idade igual ou superior a 10 anos. Já não estão tão fáceis de apanhar num abraço; já não gostam da gente de primeira; já sabem responder dando de ombros; já aprimoraram argumentos e birras, inclusive; já estão tempo demais sem escuta…

E daí vem a percepção do leitor investigativo somada às lições de disciplina do amor (um livro que eu fiz criar raízes na minha cabeceira, tanto tempo que ficou comigo):

– Quem é você, criança, qual é a sua história?

Durante o período em que estive com as crianças e adolescentes do Instituto Prof fiz várias vezes perguntas parecidas com esta. Também não me afastei quando me perguntaram quem eu era, sou e gostaria de ser…

No meio disso tudo eu dizia um poema, contava uma história, compartilhava um curta-metragem, cantava uma moda, inventava uma memória (com Manoel de Barros) e andava sempre com livros, pra cima e pra baixo.

O tempo, sempre sentido como algo diminuto, curto mesmo – as vezes só temos meia hora para mudar a nossa vida, seja com canção, seja com romance de Alice Vieira, ou os dois – faz com que a gente se esqueça de escutar o outro para poder escutar a si mesmo.

O que é ler, afinal, se não um jeito de olhar ao redor e se compreender melhor para poder seguir em frente?

Escuta. Depois de um ano de trabalho com esses meninos eu reforço em mim o poder da escuta. Escuta até pra ouvir que ‘isso é muito chato’, desfeito pelo momento seguinte do ‘eu posso tentar fazer um verso, também?’, na complexa atividade que é estar vivo.

No meio disso tudo, por não saber viver de outro modo, continuo eu com os livros, pra cima, pra baixo, pro lado, pro outro, carregando destemida todo o peso do mundo (como eu fiz dizer a formiga nos Poemas do Jardim)… afinal, eu sempre usei livro pra tudo, até pra altear pé de mesa, igualzinho Lygia Bojunga.

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