o gato

 

  • O gato é um poema que integra A Arca de Noé, de Vinícius de Moraes e foi musicado junto com a maior parte do livro para integrar um projeto grandioso para televisão, no princípio dos anos 80, com a participação de grandes artistas da música brasileira, como Elis Regina, Ney Matogrosso, Moraes Moreira, Toquinho e outros. A primeira gravação dO gato foi com a cantora Marina. Com nova versão, 30 anos depois, na voz de Mart’nália, O gato ganhou uma animação em ritmo acelerado.
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para Maria da Graça

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Agora, que chegaste à idade avançada de quinze anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas. 

Este livro é doido, Maria. Isto é, o sentido dele está em ti. Escuta: se não descobrires um sentido na loucura, acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. 

A realidade, Maria, é louca. 

Nem o papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?”

Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é o lugar comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrastes essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.

A sozinhez (esquece essa palavra feia que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice versa, isto é, fechar uma porta bem aberta. 

Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo. 

Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave. 

A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes ao dia: “Oh, I beg your pardon!”. Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gatos se fosse eu?”. 

Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! Mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não sabe quem venceu. Se tiveres que ir a algum lugar, não te preocupes com a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste. 

Disse o ratinho: “Minha historia é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance.” Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só um jeito de contar um vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos, irremediáveis, Maria. 

Os milagres acontecem sempre na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrario do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo”. Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente. 

E escuta essa parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo como hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma maquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar em disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor. 

Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado Maria, com as grandes ocasiões. 

Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”. 

Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: é feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira da nossa dor, Maria da Graça.”


– Paulo Mendes Campos

Alto, baixo, num sussurro

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Romana Romanyshyn e Andriy Lesiv nasceram na Ucrânia, em Lviv.

Agora repita comigo essa palavra LVIV, fazendo do ‘ele’ uma ponte que liga a extremidade dos incisos superiores – seus dentes da frente, oras, os de cima, claro – até o pálato, ou céu da boca, como preferir. Diga: “LVIV”.

Juro que da primeira vez eu li um algarismo romano, mas, depois,  o som prolongado no ELLL somado ao singelo sopro VIV como se o último ‘vê’ quase não existisse, ah, como me fez sentir bem.

Um barulho bom de fazer e repetir. Uma minúscula música de letras consoantes com harmonia numa só vogal. Ihhhh.

– Você está ouvindo?

Já até me esqueci dos autores, Romana e Andriy, sim, da Ucrânia: crân, crân… – um som que vibra dentro do pescoço. Pescoço, peito, ombros. Já reparou como nosso corpo é barulhento?

“Nosso corpo toca a própria música. Ele cria sons diferentes.”

COF COF COF, parece que alguém está doente. PUM, opa, assim já é demais.

Até minha cachorrinha não escapa, quando dorme solta uns gemidinhos esquisitos. Acho que ela também ronca.

Tudo que está na natureza tem som, vibração. Até mesmo aquela coisa que não parece dizer mais nada. O que dizer do barulho de mar que escutando quando encostamos uma concha do mar no ouvido?

Rom e And, ucrânnn de LVIV, os dois autores que escreveram e ilustraram ALTO, BAIXO, NUM SUSSURRO, agora esperam compartilhar barulhos e silêncios com todos os leitores brasileiros, com a batuta da Editora do Brasil, afinal esse país tem samba, bossa, teleco-teco, borogodó, ziriguidum e mais.

O mundo dos sons é o assunto principal desse livro absolutamente imperdível. Explicando conceitos relacionados às ondas sonoras e à audição, o livro é rico em informações, oferece uma leitura direta e altamente instrutiva sobre o tema. Música, intensidade do som, silêncio, barulhos – tanto os produzidos pelos seres humanos quanto os da natureza – foram mencionados como forma de nos fazer refletir sobre o quão fantástico é o universo do som e do silêncio.

Eu já peguei meu livro, busquei um prato e uma colher, comecei a tirar sons da caixinha – ou seria casinha? ou cacholinha? – tá-tá-tá, tudo bem querer brincar de fazer som com palavras, também.

 

Foto 1 - Alto, Baixo, Num Susurro

A Poesia Vai, Manuel António Pina


A Poesia Vai


A poesia vai acabar, os poetas 
vão ser colocados em lugares mais úteis. 
Por exemplo, observadores de pássaros 
(enquanto os pássaros não 
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao 
entrar numa repartição pública. 
Um senhor míope atendia devagar 
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum 
poeta por este senhor?» E a pergunta 
afligiu-me tanto por dentro e por 
fora da cabeça que tive que voltar a ler 
toda a poesia desde o princípio do mundo. 
Uma pergunta numa cabeça. 
— Como uma coroa de espinhos: 
estão todos a ver onde o autor quer chegar?

Manuel António Pina

*este é um re-post do Rodrigo Ferrão, do blog de Portugal – Clube de Leitores. Esta conexão É giro!

a-ver-livros: 432

Já somos tão pouco
de repente menos ainda
um dia nada
meia dúzia de ossos presos
no tecido com que embrulhámos
a memória
um cheiro vago a terra
estrumada a dias vividos
meio litro de lágrimas
uma flor ou outra

O que fica de ti é isto que sou,
sal, pedra, fogo,
abençoada a nesga de sol
que me escondeu
o olhar

Ana Almeida

*este é um re-post da Ana Almeida, do blog de Portugal – Clube de Leitores. Esta conexão É giro!

Olívia tem dois papais

O título do livro já diz, Olívia tem dois papais, e isso significa falar sobre relações humanas e formação de núcleos familiares.

Curiosamente, ouvi da própria autora, Márcia Leite, que algumas vezes, pessoas comentaram, sem ler, que devia ser uma beleza de livro tratar da vida familiar de Olívia que tinha o pai e um padrasto, por conta de novo casamento da mãe.

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Essa ‘conclusão brilhante’ fez com que eu me lembrasse de algumas outras histórias, uma delas com a minha incursão no mundo como mãe de uma criaturinha a quem tenho a chance de chamar de filho.

Cansei de responder perguntas indesejáveis de pessoas estranhas e outras nada íntimas sobre a origem dos meus filhos. O mais velho, por uma diferença nos traços e na cor da pele, foi vítima, junto comigo, de comentários alheios na feira, no mercado, na porta da escola. A aproximação sempre abismada, ‘nossa, como pode, uma mãe tão branca’, ‘o pai dele é negro, é?’, e daí pra mais, com minha vontade de aprender a sair da cena sem me igualar aos praticantes de ignorância.Image result for olivia tem dois papais

O episódio com Olívia, também me fez lembrar de uma questão trazida recentemente pelo meu filho, que cresceu e é politicamente engajado. Ele me contou que levou um problema de lógica para a sala de aula e que ninguém decifrou o mistério. Teria um menino sofrido um acidente terrível com seu pai, que morreu na hora. Levado para o hospital, os paramédicos pediram ajuda à chefia da cirurgia, mas a pessoa disse que não teria condições de operar o próprio filho.

Mais da metade da turma gritou com espanto, ‘mas o pai dele morreu’, enquanto a outra metade disse que ‘o menino só pode ser filho de um casal gay’. Ninguém sugeriu que a mãe do menino fosse a chefe da cirurgia.

Mundo, mundo, vasto mundo…

Olívia tem dois papais, e não tem mamãe. É isso mesmo. Olívia é uma menina que integra uma família formada por adoção onde dois homens assumem juntos a paternidade. Existem famílias com duas mamães, eu mesma sou madrinha de uma linda que foi adotada recentemente.

Qual o problema disso? Pra mim e para muitos, óbvio que nenhum problema – aliás, óbvio é uma palavra que Olívia gosta de usar (o vocabulário dela é excepcional) – mas pra muita gente, essas crianças são vítimas de um equívoco, de um absurdo de decisão judicial que concede a adoção para casais homoafetivos.

Para não rolar nenhum tipo de ciúmes, deixo claro, também tenho uma filha. Ela tem excelente vocabulário e a mesmíssima dose de opinião de Olívia, sabe meter a colher em qualquer cumbuca. Quando a pequena chegou em casa, imensa com seus 40 e poucos centímetros em dois quilos de perninhas e bracinhos que sambavam dentro dos macacões, muita gente lançou olhares de discriminação: ‘como pode alguém abandonar uma filha?’

Eu não abandonei ninguém, e a filha era minha. Tentava deixar isso claro. Quando não era possível, eu simplesmente repetia a história que aprendi e que me disseram ser um velho ditado indígena norte americano: “uma pessoa só pode te julgar, depois de andar as mesmas léguas trilhadas com os teus sapatos”.

Curiosamente – olha essa palavra aqui, de novo -, ninguém comenta que os pais abandonam mulheres grávidas que muitas vezes não desejam seguir a gravidez, sem terem opção legal que garanta esse direito sobre o próprio corpo, ou que não possuem estrutura alguma para criar uma criança. Ao final, as mulheres são ‘culpadas’ pelo abandono. Lastimável…

Minha filha também teve que enfrentar muito preconceito no colégio quando mostrou fotos de seu tempo de bebê. Ela foi chamada de coisas terríveis e a escola não agiu até que eu me manifestasse. Pena que custei a saber… Minha filha, antes de me contar, resolveu agir sozinha e foi advertida por isso.

Olívia é uma narrativa que pode nos ajudar a pensar a agressão do preconceito junto de nossas crianças. A história re-significa os cotidianos familiares, mostra que somos capazes de nos adaptar e de criar relações a partir do afeto, além de manter uma postura fortalecedora para que a criança tenha autoconfiança e amorosidade.

Muita boa conversa pode sair dessa leitura… Basta ter coragem para falar sobre núcleo familiar sem afastar as possibilidades múltiplas, como as relações monoparentais, homoafetivas, a filiação por adoção, a formação de irmandade por filiação de núcleos diferentes, e tantas outras possibilidades de amar nesse mundo.

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– Olívia tem dois papais, Márcia Leite, ilustrações de Taline Schubach, Companhia das Letrinhas – –

 

 

 

 

 

Tenho mil irmãs para amar sem palavras – José Luís Peixoto

raquel

“Tenho mil irmãs para amar sem palavras.
Tenho aquela irmã que caminha encostada
às paredes e sem voz, tenho aquela irmã de
esperança, tenho aquela irmã que desfaz o
rosto quando chora. Tenho irmãs cobertas
pelo mármore de estátuas, reflectidas pela
água dos lagos. Tenho irmãs espalhadas por
jardins. Tenho mil irmãs que nasceram
antes de mim para que, quando eu nascesse,
tivesse uma cama de veludo. Agradeço com
amor a cada uma das minhas irmãs. São mil
e cada uma tem um rosto a envelhecer. As
minhas mil irmãs são mil mães que tenho.
Os olhos das minhas irmãs seguem-me com
bondade e, quando não me compreendem,
é porque eu próprio não me compreendo.
Tenho mil irmãs a esperar-me sempre, com
silêncio para ouvir-me e para proteger-me
no inverno. Tenho aquela irmã que é uma
menina que sai de casa cedo para chegar cedo
à escola e tenho aquela irmã que é uma
menina que sai de casa cedo para chegar cedo
à escola. Tenho irmãs como música, como
música. Tenho mil irmãs feitas de branco.
Eu sou o irmão de todas elas. Sou o guardião
permanente e incansável do seu sossego.
Eu tenho de ser feliz pelas minhas irmãs.
Eu tenho de ser feliz pelas minhas irmãs.”

José Luís Peixoto, in Gaveta de Papéis