Leia-Mim

 

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Antes da roda já havia o movimento. O movimento é atávico, a roda é um meio.

A fotografia da praia não é a praia. Colocar os pés no mar transborda a sensação da iluminação do sol na água capturada num clique, por mais íntegra que seja a imagem. A vantagem de desenvolver o olhar sobre a fotografia, a pintura, o poema, é justamente recuperar em si a experiência, ainda que esta não tenha sido de fato vivida.

É preciso compreender isso para falarmos de leitura, porque a história é muito anterior à escrita e sobre isso não há a menor ponta de dúvida, ou há?

A leitura é um conjunto de ações coordenadas para compreender o próprio movimento do leitor no mundo. Quem é o leitor? O leitor é alguém que nasceu para o movimento e, por isso, ele representa a própria história do que vive, viveu, além das suas potências ancestrais e culturais, compreendidas mesmo que de forma inconsciente.

Quando eu digo de forma imperiosa ‘leia, porque ler vai transformar você em algo melhor’, é como se eu estivesse deitando fora o próprio livro que é o leitor, um livro interminável e com pontos cegos a descobrir.

A aproximação com a leitura se dá pela escuta desse leitor. Leia-me, o leitor repete de forma silenciosa e constante, como uma busca de si mesmo nas narrativas que lhe são apresentadas.Image result for dois passarinhos dipacho

Não podemos falar em literatura antes de falar de escuta, de leitura de mundo e de pessoas, e isso pressupõe aceitar a oralidade como nosso recurso originário, o lugar onde pertencemos e para o qual fomos feitos humanos, o diálogo.

Eu não acredito numa promessa de formação de leitor pelo objeto pedante de um discurso que despreza a linguagem em sua complexidade, a percepção de cada indivíduo a cerca das coisas do mundo e do além mundo.

Já faz quase um ano que atendo uma organização destinada a apoiar pessoas com deficiência intelectual, na sua maioria não-alfabetizados na escrita e com muita probabilidade de nunca possuirem tal instrumento como veículo de manifestação e compreensão de ideias. Cada menina, cada menino – digo isso de forma absolutamente carinhosa com relação aos deficientes intelectuais que resguardam em si uma porção generosa de infância – que eu atendo com minhas oficinas de narrativa, são bibliotecas infindáveis de histórias que permeiam a minha percepção das relações humanas, da vida social.

A cada novo encontro, lanço no ar a frase, que a turma já identifica como oportunidade de narrar a si mesmo, ‘era uma vez uma pessoinha bem pequenininha que vivia…’, e eles se entusiasmam em contar episódios cotidianos que revelam muito sobre a árdua perseverança de ser diferente do que a sociedade dita como ‘normal’.

A experiência de estar com eles exige que eu desloque meu pensamento para além da minha deficiência de normalidade, faz com que eu procure caminhos com uma lamparina revelando meus próprios anseios, talvez, até, meu desapego com a vaidade de ventilar a hipótese formadora de leitores.

Pessoas vivem histórias e re-significam suas histórias com outras narrativas, por isso a importância dos livros, eles podem ser novas sementes em terra fértil.

A oralidade dentro desse processo é a porta de entrada para retomarmos nossa principal tarefa na vida em grupo: saber escutar atentamente e ter a palavra medida, fielmente elaborada, para cada circunstância.

Talvez o meu texto possa parecer equivocado, talvez ele de fato seja equivocado visto que eu tenho absoluta certeza sobre minhas incertezas, mas o que é importante ressaltar aqui, neste nicho de leitura, é que cada um de nós carrega na testa um chamado único: Leia-mim, esteja em mim por um segundo.

Eu amo os livros porque eles são um meio para registrar a narrativa, levá-la para outros cantos, mas jamais poderia supor que a história do meu leitor diz menos ou é desimportante frente ao texto, isto seria como acreditar que a roda é o próprio movimento.

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Ah, e antes que eu me esqueça, para quem trabalha com crianças, jovens e adultos em situação de não-alfabetização, reforço uso dos livros ilustrados e as narrativas com imagens, entre eles, Dois Passarinhos, de Dipacho (Editora Pulo do Gato), A Onda, de Suzy Lee (Editora Cosacnaify, já extinta), Haicais Visuais, de Nelson Cruz (Editora Positivo). E permitam que a história aconteça com protagonismo dos leitores.

 

 

 

sobre minha mãe

Minha mãe levava uma bolsa pequena. O dia que desfiz a bolsa juro que pensei em como era simples a vida da minha mãe, de uma simplicidade que chega a assustar a gente, sem batom e sem rímel, sem papéis amassados, sem um doce qualquer. Na carteira, no lugar dos documentos e cartões de banco que não se viam, uma foto minha da época em que saí da casa dela para viver a minha vida… Sozinha.

Esse estar só é um estado de quem se percebe sem ter com quem repartir o peso do mundo, talvez seja até mais egoísta, pode ser o pesar de não ter quem nos ampare com um ‘tudo vai ficar bem porque estou aqui ao seu lado, e assim ficarei’. A gente se dá conta de como as pequenas coisas são grandes.

“Assim como um trovão. Tanta coisa pra lembrar e fui me lembrar do beijo. ‘Eu não beijiei mamãe esta manhã, Artur, e não vou beijá-la nunca mais’, choraminguei, mordida de remorso. Ele não me respondeu, perdido que estava em algum lugar onde eu não podia penetrar.”

Como prosseguir a vida sem estar com quem desejamos estar, como avançar projetos e concluir pequenas alegrias tendo coragem para sorrir e brincar e seguir em frente?

Quando minha mãe perdeu a mãe dela, a desorientação foi tamanha que ela me disse que desejava morrer. Fiquei muito revoltada com aquela frase, não compreendi nada e nem queria porque era a minha mãe dizendo que não queria estar viva ao meu lado. Pobre de mim, não pude perceber a metáfora pra dor que ela sentia.

Poucos anos depois, eu chorava a morte de minha mãe. Atordoada entre pessoas que me diziam que eu deveria ser ‘forte’, e outras que me lembravam ‘você tem os seus filhos’, meu desejo era desfalecer, cair no chão frio daquele lugar frio em que nada fazia o menor sentido.

Eu tinha 42 anos quando perdi minha mãe, ela aos 63. Minha mãe tinha 60 quando perdeu minha avó com mais de 80…

Não sei por qual razão, pensar que eu ao menos tinha vivido com minha mãe durante a infância e a adolescência, assim como grande parte da vida adulta, aos poucos me confortava.Image result for sozinha edelbra editora

Sozinha, obra de Márcia Leite, conta a história de Júlia, uma adolescente que é surpreendida com a notícia de um acidente de automóvel que coloca fim à vida de sua mãe. Naquela manhã, ao se despedir da mãe e entrar na escola, como tantas outras manhãs iguais, Júlia não dá um beijo que seria o último.  A partir daquilo, com o mundo de cabeça pra baixo, Júlia tem que superar a dor na sua trajetória de autoconhecimento, tomando decisões e escolhendo caminhos para tornar sua vida possível.

Numa narrativa que começa por resgatar a tristeza profunda que Júlia, a personagem, vivencia durante sua perda – e que muitos de nós já conhece, a autora consegue transcender o sofrimento para alcançar diálogos que a menina teria com sua mãe e que, agora, acontecem dentro dela a partir das memórias dos dias em que as duas viviam juntas…

Aos poucos, Júlia e nós, como leitores de nossas próprias jornadas, restabelece um eixo de harmonia para os seus dias, assimilando a falta da presença da mãe no amor que resiste dentro dela, compreendendo a solidão como um estado e não a própria existência.

“Coragem, Júlia, vai dar tudo certo!”.

Sempre é bom ter alguém que não tenha receio de nos dizer isso no meio de um abraço.

 

 

 

 

verdade! mentira!

Essa semana rolou uma brincadeira na rede social, toda gente escrevendo uma série de verdades que escondiam uma única mentira. Coisas esdrúxulas, difíceis de descobrir.

Eu, como gosto de uma minoria, fiz ao avesso a brincadeira, escrevi umas mentiras e perdi a conta porque a gente sempre se perde quando mente, quase num sobra nada mais do que a verdade nisso. Depois vieram alguns mau humores, gente que queria parar a brincadeira dos outros de publicar suas verdades engraçadas e mentiras imperceptíveis, e eu quis ser minoria de verdade.

Fiz um jogo novo, verdade e mentira:

” verdade!!! eu num gostava de jogar queimada. detestava brincadeiras com bola, tudo aquilo era agressivo demais pra minha falta de jeito. no entanto, na minha rua, na rua de cima, no quarteirão ao lado, no bairro todo, as crianças brincavam de queimada, os adolescentes brincavam de queimada, alguns pais entravam no rolo.

mentira!! que eu só ficava olhando, algumas vezes eu até arriscava. de toda forma, eu nunca negava minha alegria de ver gente se divertindo na brincadeira.

brincar é ser inteiro. é um refúgio e um ponto de partida.”

Curiosamente, ninguém veio comentar dizendo sobre a última parte do meu texto: brincar é um ponto de partida pra viver… Mas vieram alguns defensores da queimada. Eu dei risada com isso.

Curiosamente de novo, chegou pelo correio (eu adoro essa parte) um pacote com livros pra mim. Dentro, de cara, a capa dizendo MAIORIA Minoria. Corri ler e a história começou com algo que também me seduz: palavras.

Há uma palavra para cada coisa, uma palavra pesa extamente o seu significado e isso pode parecer engraçado já que não podemos dizer uma palavra na balança e ver o ponteiro se mexer… O ponteiro, ah… Essa balança é do tempo que eu era menina e visitava a farmácia do Seo Renato, bem na esquina do quarteirão onde minha mãe tinha sua loja de roupas e eu vou quase me perdendo em outro caso diferente do livro, sim o livro.

João Pedro é um garoto curioso que não é bom de bola, mas tem muito jeito com palavras. São elas que povoam o dia a dia desse menino, fazendo com que ele entenda (ou desconfie de entender) aquilo que acontece ao seu redor.

A primeira descoberta de João Pedro foi com Seo Antônio, que vezes demonstrada excelente humor, vezes ralhava até com as plantas.

“Acho que o seu Antônio devia ter muitos antônimos dentro dele, isso sim.”

Sim, quem não tem uma porção de antônimos dentro de si? Verdade ou mentira?

Mas a brincadeira é sempre o ponto de partida para a vida, como eu disse ali, ó, logo acima, sem querer tentar confundir você que ainda resiste lendo isto. João Pedro num era bom de bola, mas era bom de perceber os arredores botando palavra onde só tinha o vazio da ignorância.

Foi assim que ele reparou na minoria dele mesmo e de Rei, outro menino, que diferente de João queria o futebol, mas mesmo assim não se encaixava na maioria.

João descobre outra palavra no meio desse jogo: preconceito contra as minorias, e isso, senhoras e senhores, me faz pensar novamente em mentiras e verdades: quantos antônimos dentro de nós cultivam preconceitos?

O resto do livro eu não conto porque fica chato demais revelar o segredo da brincadeira. Leiam lá, no livro, mas voltem aqui para brincarmos mais um pouco…

 

MAIORIA minoria é um livro com texto de Tânia Alexandre Martinelli, ilustras de Veridiana Scarpelli, com selo da Editora do Brasil.

 

 

Os contos da noite

Michel Ocelot é escritor, animador e diretor de cinema. Francês, nascido em 1943, passou a infância na Guiné povoando seu imaginário com histórias fantásticas que certamente inspiram seus filmes.

Da filmografia do artista, Os contos da noite, lançado em 1992, é uma animação que retorna ao teatro de sombras. Delicado e profundo, Os contos provam que a animação é um feitiço sobre todas as idades…

Aproveitem.

 

 

 

quando você não está aqui

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Quando eu era pequena, não tão pequena, rabisquei a porta do quartinho de bagunças que ficava embaixo da escada. Não rabisquei, na verdade, fiz uma intervenção artística e assinei meu nome e tudo. Projeto completo. Quando meus pais chegaram, eu culpei meu irmão.
Meus pais nunca foram cães raivosos do tipo que mordem, espancam, babam por cima. Ao contrário, havia um sermão constante para que nos tornássemos responsáveis.
Fizeram com que eu ficasse na frente da porta junto com meu irmão que era mais novo do que eu; esticamos os braços pra ver quem conseguia escrever na parte de cima da porta. Eu ganhei a competição, desajeitadamente.
Ainda tentei argumentar que ele usou a escada…
Num foi tão péssima, assim, a infância toda. Meu irmão chorava demais, era chato e boboca, muitas vezes era feito de tonto pelos meninos que moravam na nossa rua.
Tínhamos lá muitas diferenças, é certo. Gênios distintos. Um pra ação, outro pra molenguice.
Minha mãe muitas vezes me dizia que eu era estúpida. Eu lembro disso. Lembro da mãe também achando meu irmão frágil, enquanto meu pai queria que ele reagisse, não fosse feito de tonto por causa de brinquedos ou coisas assim…
A vida muda a gente, a gente cresce, uns amolecem, outros endurecem. Eu fiquei mole, choro fácil. Meu irmão num sei por onde anda. Talvez ele ainda seja um menino magoado com as brigas de criança, por causa de portas rabiscadas, uns tapas aqui e ali, umas bandas de chocolate que lhe foram roubadas.
Fazer o quê?
Somos adultos e, hoje, a ausência parece um oco do qual não podemos fugir.
Apelar pra memória é a distração das perdas. Pelo menos temos as histórias que coleciamos no fundo esquisito da alma nossa e dos baús de outros…
“Quando você não está aqui, não tenho que dividir nada com ninguém.”
– María Hergueta – do livro, Quando você não está aqui, com tradução de Márcia Leite, Editora Pulo do Gato.
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Mais…
” Eu era bem pequena, uns seis anos, talvez, … tímida (como ainda sou, só que um pouco menos). Fui sorteada na escola pra ganhar um bolo, os cinco irmãos mais velhos, gritaram meu nome, e eu abri o maior berreiro de vergonha. Disparei disparei correndo, sem o bolo, sozinha por um quilômetro de estradinha da chão, direto pra casa. Os cinco foram lá, juntos, pegaram o bolo e trouxeram cuidadosamente pra nossa mãe.”
*
“Por falar em manteiga no pão, meu irmão, para não dividir comigo o pão com manteiga comigo, lambia ele inteiro. Era delícia quando os mais velhos me deixavam fazer as rabiolas das pipas. Eu amava.”
*
“Meu irmão corinthiano. Fim.”
*
“Eu brincava de boneca e de escola, ela andava de bicicleta e jogava bola. Eu acordo cedíssimo, ela é DJ. Eu namoro meninos, ela namora meninas. Somos diferentes em quase tudo… Quase, porque quando pequenas, a gente se juntava pra brigar, uma com a outra ou as duas contra alguém. Gostar de brigar é coisa em comum da gente. “
*
“Sou filha única :(“
*
“Eu sou filho do meio. Precisa falar mais?”
 *
PS. Os comentários foram cedidos por amigos na rede social depois de uma provocação minha sobre a irmandade.