Uma pequena história do Mundo, E. H. Gombrich

Gombrich escreve um livro obrigatório, diria, para todos os que quiserem ter uma luz de História Mundial, mas de uma forma bastante clara e objectiva. Resumiria este livro a uma aula, não a um semestre ou a um ano lectivo.

“Uma pequena história do Mundo” foi escrito tinha o autor 26 anos. Neste livro dirigido aos jovens (mas que qualquer adulto deve ter por perto), faz-se uma breve cronologia dos assuntos mais fracturantes da História.

Gombrich trata-nos na primeira pessoa e coloca várias perguntas. A melhor maneira de responder é lê-lo rápido.

Experimento deixar isto, sobre o Budismo:

“Buda pensava de forma diferente. Dizia que era possível controlar os nossos desejos, mas que para fazer isso era preciso trabalhar sobre nós próprios, se calhar durante vários anos, para que no fim só se tivesse os desejos que se queria ter. Por outras palavras, podemos tornar-nos senhores de nós mesmos, da mesma forma que um condutor de elefantes aprende a controlar o elefante. A maior realização que uma pessoa pode conseguir na Terra é chegar a um ponto em que deixa de ter desejos. É assim a «calma interior» de Buda, a paz abençoada de quem já não tem desejos, de quem é bondoso com toda a gente e não pede nada em troca. Buda também dizia que uma pessoa que conseguisse dominar todos os seus desejos deixava de reencarnar depois da morte. Só as almas que se agarram à vida é que voltam a nascer; é nisso que acreditam os seguidores de Buda. Quem deixa de se agarrar à vida liberta-se do ciclo interminável de nascimento e morte, e fica livre de todo o sofrimento. Os budistas chamam a este estado o «Nirvana».”

*este é um re-post da Rodrigo Ferrão, do blog de Portugal – Clube de Leitores.

Esta conexão É giro!

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mamãe tem medo

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Quando eu era pequena, com longos cabelos pescoço bem fino, tinha muito medo, mesmo muito medo de vampiro. Na hora de dormir eu pedia para meu anjo de guarda ficar atento ao pé da minha cama. Minha mãe não era religiosa e, por isso, não existia nenhuma cruz na minha cabeceira – o que era um mal sinal pra mim… e bom para o vampiro. Lembro como eu enrolava os cabelos ao redor do pescoço. E pensava:  “ele pode até morder, mas vai comer cabelo antes de acertar a carne do meu pescoço”.

Minha mãe nunca me proibiu de ler histórias de terror ou de asssitir coisas horripilantes na tevê. Ela sabia, no entanto, que eu tinha um medo danado, mas muito medo danado  de vampiro.

– Vampiros não existem. – Alguém diria nessa hora, ou em qualquer outra hora que outro alguém revelasse que sente pavor causado por coisa que não existe.

–  Mas se o medo não é coisa de comer, nem coisa de vestir, o medo também não existe. E quem é que não tem medo de alguma coisa?

O fato é que cresci, fiquei alta e meu pescoço não é tão fino. Cortei os cabelos, quase nem penso em vampiro. Hoje, sou mãe de dois filhos e não me aborreço quando eles querem ler histórias tenebrosas ou assistir  filmes de monstros, zumbis, serras elétricas, serpentes devoradoras, sangue, gosma… Eu gosto de olhar de perto pro medo que essas histórias trazem. Eu gosto de fazer nascer coragem e de ter humor para rir do medo. Tem tanto medo que, no final das contas, num se aproxima em nada da realidade, não é?

Meus medos de hoje eu tento sarar com conversa. Principalmente medos de mãe, que são de uma espécie ruim – uma mãe nunca terá olhos suficientes, nem braços e nem pernas, para afastar os perigos que podem (ou que nunca poderão) atingir seus filhos.

O primeiro medo que tive com meu primeiro filho foi que ele não gostasse de mim. Que medo absurdo. Eu ficava olhando para aquela cara de bebê  e pensava que seria terrível se ele simplesmente não gostasse de mim. Mas e se ele não gostasse de mim?

– Você parecia uma velha toda enrugada e vermelha, um filhote de coruja amassado. Sorte ter olhinhos azuis, uma criaturinha tão feia… – Minha mãe me dizia isso sem nenhum constrangimento. Era uma piada? Para cada um dos meus irmãos ela tinha uma história desse tipo. Era uma piada.

Quando eu virei mãe, quis que meus filhos se sentissem bonitos. Mas não muito. O suficiente para se amarem. Sem exageros. Um tanto de esquisitice nos singulariza e nos recorda que a qualquer momento podemos ficar exageradamente feios. É preciso cuidar para não nos transformarmos em monstros, zumbis, ou até gostar de vampirizar outros pescoços.

Tenho tentado cuidar dos meus filhos. Minha mãe foi excelente nisso, embora eu tenha passado por algumas coisas ruins e sobrevivido. Também por causa disso administro meu medo de mãe – sentimento que diminui à medida que meus filhos crescem. O tempo na função de mãe me ensina que não tenho olhos suficientes, nem braços e nem pernas, para afastar os perigos que podem (ou que nunca poderão) atingir meus filhos.

No mais, muitas vezes nossas crianças sabem ser mais chatas do que pastel de camarão estragado. Dá nó na tripa de  nervoso (que vontade de comer esses cabritinhos com purê de maçã) (conte até três, se não resultar, conte outra vez).

É o que sempre digo, ser mãe é não ter medo de admitir que os filhos despertam o melhor da gente e  uma dose do pior, também.

 

* Se você quer mais história de medo de mãe e medo de filho, procure Mamãe tem medo, de Beatrice Masini e Alizera Goldouzian, com tradução de Márcia Leite, e selo da Editora Pulo do Gato.

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a-ver-livros: O pai da ‘república das bananas’

Se adoro livros – e já sabemos que adoro – não posso negar que quase tanto prazer me dá também cruzar-me com uma imagem que me leva para o interior de uma história. Como estas fotos, singelas diga-se, de uma homenagem escultórica em três peças ao escritor O. Henry, pseudónimo de William Sydney Potter (1862-1910), algures numa zona verde da cidadezinha de Greensboro, sua terra natal, no estado norte-americano da Carolina do Norte. Um livro seu à escala humana, uma estátua do próprio e outra do cão que entrou em várias das suas histórias, tudo com assinatura de Maria J. Kirby-Smith.

Dele sabia pouco mais do que o nome, apenas a fama de autor de contos – na senda do meu adorado Somerset Maugham e de Mark Twain. Sei hoje que foi homem de mil profissões – de marçano na botica do tio, em adolescente, a farmacêutico, pastor, rancheiro, cozinheiro, baby-sitter, desenhador técnico, caixa de banco, jornalista…

Descubro que, aos 20, era puto a modos que enfermo, que parte com o tio para o Texas para ver se escapa a uma tosse persistente. Recupera e dedica-se, nos tempos livres, a cantar, tocar e fazer teatro. É nessa fase que conhece Athol Estes, rapariguinha de 17, tuberculosa e podre de rica, com quem foge para casar. Curiosamente devia ser mesmo amor – e não interesse. É ela que, ao mesmo tempo que lhe dá um filho (que morreria poucas horas após nascer) e logo em seguida uma filha, o encoraja a escrever..

O entusiasmo paternal e literário deve tê-lo distraído – William é um bocado trafulha e é afastado do banco onde trabalha então por suspeitas de desfalque. É nessa altura que dá o salto para os jornais, com uma coluna humorística que lhe ia grangeando popularidade. Diz-se que arranjava ideias para os seus escritos passando horas sentado na entrada de hotéis a observar e a falar com as pessoas com que se ia cruzando.

Neste meio tempo uma auditoria no banco confirma o desfalque de que andava suspeito e William é engavetado. O sogro, já aceite que estava o casamento à sorrelfa, chegou-se à frente e pagou a fiança para lhe tirar os costados da cadeia. Mas no dia em que era suposto aparecer para o julgamento, o réu deu às de vila-diogo, primeiro para Nova Orleães e depois para as Honduras. Pois foi precisamente por lá, imagine-se!, refundido num hotel manhoso de Trujillo, entretido a escrever “Cabagges and Kings”, que lhe surgiu a expressão “república das bananas” – que, se em determinada altura se referia apenas a pequenos e instáveis países da América Latina, hoje serve para meio mundo que nem sonha de onde a dita surgiu.

Adiante na história: Athol e a filha, se estão a interrogar-se, tinham ficado a viver com os pais dela. Mas quando a saúde da mulher se deteriora de vez e surge prenúncio de morte, William volta para o Texas e entrega-se. O sogro volta a pagar fiança e permite-lhe assim que acompanhe Athol nos últimos dias. Ela morre em Julho de 1897 e, meio ano depois, ele vai passar cinco na penitenciária. Tanta sorte que, consta que graças à sua anterior profissão de farmacêutico, acaba por arranjar trabalho lá dentro e até lhe dão um quarto na ala hospitalar. Nessa fase da cadeia publica cá fora 14 contos sob vários pseudónimos, um deles ganhando força: O. Henry.

Três anos cumpridos, corria 1901, o escritor sai por bom comportamento, junta-se à filha, então com onze anos e convencida de que o pai tinha estado fora em trabalho, e muda-se para Nova Iorque. É nesta cidade que vive a sua fase mais prolífica: 381 contos, um por semana para o New York World Sunday Magazine, com grande êxito. Em 1907 volta a casar-se, agora com Sallie, uma namoradinha de infância que reencontra numa visita à Greensboro natal. Mas, bebedor cada vez mais inveterado, saúde a definhar, ela abandona-o no ano seguinte, a escrita começa a esboroar-se e ele morre no verão de 1910, com apenas 47 anos.

Talvez vos deixe uma pulga atrás da orelha literária se vos disser que um dos seus contos mais conhecidos, “Ransom of Red Chief”, conta a história de dois homens que raptam um miúdo de dez anos tão reguila que, no final, são os raptores que pagam aos pais para o aceitarem de volta. Se isso não é o enredo-base do filme “Sozinho em Casa”, macacos me mordam. Ah, e o pseudónimo por que ficou conhecido: O. Henry. O escritor deu várias explicações para a origem do nome. Esqueçam, provavelmente nenhuma é verdadeira, vindas como vinham de um tipo cujo talento maior era contar histórias. Acho muito mais divertido revelar-vos que existe um O. Henry Hall, edifício administrativo da Universidade do Texas, e que anteriormente era, imagine-se, o tribunal onde foi condenado por desfalque. Que tal, como curiosa ironia do destino?

P.S: Amazon, here I come! Em inglês, uma excelente selecção dos melhores contos. http://www.amazon.com/Short-Stories-Henry-Modern-Library/dp/0679601228

Para quem preferir ler em português, há que comprar via Brasil, onde há vários livros, nomeadamente publicados pela editora Hedra. http://hedraonline.posterous.com/48698774

Não conheço qualquer edição da obra deste autor em Portugal. Corrijam-me caso esteja enganada. – e pronto, fui corrigida. Existem, pelo menos, “A Teoria e o Cão/Os Caminhos que Tomamos” da Assírio & Alvim, e também “Polícias e Ladrões”, na colecção Vampiro, da Livros do Brasil. Muito obrigada, Redonda e Ubik!

*este é um re-post da Ana Almeida, do blog de Portugal – Clube de Leitores.

Esta conexão É giro!

a mendiga

“Contam os mais velhos que, há muito tempo, numa fazenda, vivia um homem muito avarento, que não dava esmola para ninguém. Certo dia, escutando batidas na porta da frente, ele foi atender e encontrou uma mendiga quase morta de fome, implorando por um prato de comida. O bruto não só lhe negou a comida como também a expulsou da fazenda com xingamentos e ameaças. A pobrezinha, não tendo outro jeito rompeu; mas estava tão fraca que não conseguiu andar muito e, um pouco adiante, acabou caindo para não mais se levantar.

Pouco depois de ela ter saído, o fazendeiro foi tocado pelo remorso e resolveu procurá-la. Adiante a encontrou morta. Arrependido, providenciou mortalha e caixão e a pedinte foi enterrada no mesmo local em que morrera.

No outro dia, cedinho, o fazendeiro ouviu algo semelhante a batidas na porta. Ao sair, ele deparou com um quadro assustador: estavam na sua frente a mortalha e o caixão com que a morta havia sido sepultada. Entendeu, mesmo tarde, que ela o que ela precisava mesmo era um prato de comida e tudo o mais lhe era inútil.

E ainda há hoje gente que nega o valor da caridade!”

 

Marco Haurélio nos reconta essa história da tradição oral, como lhe contou  Joana Batista Rocha RamosIgaporã, Bahia.

In: Contos e Fábulas do Brasil, Nova Alexandria, 2011.

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*  Marco Haurélio, poeta e pesquisador da literatura e das histórias da tradição oral,  nasceu em Ponta da Serra, Bahia. Conviveu, desde cedo, com as manifestações da cultura popular, como reisados, procissões, festas de padroeiros. Na própria família, Marco se aproximou do contar de histórias e muito de seu trabalho retoma essas conversas com os seus familiares. Entre seus livros, estão: Contos folclóricos brasileiros(Paulus), Contos e fábulas do Brasil (Nova Alexandria), Os três conselhos sagradosPresepadas de Chicó e astúcias de João GriloBelisfronte, o filho do pescador (Luzeiro), Galopando o cavalo (Pensamento), As três folhas da serpente (Tupynanquim), A lenda do Saci-Pererê em cordel e Traquinagens de João Grilo (Paulus).

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Dorme Sobre o Meu Seio, Pessoa

Caricatura: Hugo Enio Braz

Dorme Sobre o Meu Seio

Dorme sobre o meu seio,
Sonhando de sonhar…
No teu olhar eu leio
Um lúbrico vagar.
Dorme no sonho de existir
E na ilusão de amar.

Tudo é nada, e tudo
Um sonho finge ser.
O ‘spaço negro é mudo.
Dorme, e, ao adormecer,
Saibas do coração sorrir
Sorrisos de esquecer.

Dorme sobre o meu seio,
Sem mágoa nem amor…

No teu olhar eu leio
O íntimo torpor
De quem conhece o nada-ser
De vida e gozo e dor. 


*Fernando Pessoa, in Cancioneiro

Este é um post do Blog Clube de Leitores – de Portugal para o Toda Hora Tem História  -do Brasil, na conexão É giro!
Rodrigo Ferrão, correspondente do Clube de Leitores.