Bammm!

2017-07-07 16.40.35

Só podia ser,  se hoje eles brincam de criar uma banda é porque quando eram crianças, cultuavam o gato preto que cruzava a estrada e passava por debaixo da escada enquanto lá no fundo azul da noite da floresta a lua iluminava a dança, a roda a festa (!).

Os três não mudaram nada, ainda andam meio desligados sem sentir os pés no chão.

Um deles é  o alquimista, mistura o malandro pra valer com o João Ninguém, poderoso pra chuchu, e acha que os dois são ‘champions, my friend‘.

O outro é o visionário, desde que o céu inteiro se abriu numa fenda de fogo que aparece quando sete botas pisaram no telhado num galope soberano. A outra é vidente, viu a cara da jia num determinado dia enquanto andava dispersa entre os automóveis.

Nenhum texto alternativo automático disponível.

Leo Cunha, Alex Lutkus, Penélope Martins, os três autores da Banda Bammm, a Banda Mais Monstruosa do Mundo, já abriram a garagem e convidam para o ensaio geral com seus leitores. E que todos tenham ouvidos atentos para brincar.

O livro reúne um grupo de monstros com talentos especiais: cada monstro é monstruosamente genial em um instrumento. Mas nem sempre foi assim; na infância, eles se depararam com desafios e dilemas comuns a muitas crianças: baixa estima, bullying, solidão. E também com as alegrias e delícias da vida: amizades, brincadeiras, descoberta de talentos.

Nem bonito, nem feio, cada monstro é único, como seus autores. Leo Cunha, nunca tocou um instrumento; no entanto, ele já soma quase 100 poemas musicados. Alex Lutkus faz com traços e cores o que os músicos fazem com o ar, mas ele também ativa umas notas no saxofone. Penélope Martins fez aula de piano e violão, mas não deu em nada, só a poeta segue cantando porque a voz também é instrumento.

Nem feio, nem bonito, cada autor é um pouco desses monstros esquisitos que moram dentro de nós desde a infância.

Agora tá feito! Tem livro no ar para ensaiar um monte de canções que vocês podem inventar, além de se juntar ao fã clube dessa banda monstro – BAMMM! Aliás, os leitores podem adquirir o livro com a Editora Tribos e solicitar uma foto autografada por todos os membros da BAMMM.

Se você se interessou, pode comprar o livro no link: Livro Bammm !

E não é só, aqui nesse texto algumas músicas tiveram trechos citados e você pode descobrir um pouco mais… Basta seguir o ritmo que ‘pinta’ o coração. Vamos lá?

* As canções citadas são: O vira (Luhli e João Ricardo), Ando meio desligado (Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sergio Dias),  Ópera do Malandro (Chico Buarque), João Ninguém (Rita Lee), We are the champions (Freddie Mercury), Canção agalopada (Zé Ramalho), Gênesis (Caetano Veloso). Já encontrou?

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Posições de Leitura

O ilustrador Jean Jullien cativou-me em 2011. Escrevi sobre ele – o pouco que dele sabia no espaço do Clube. De então para cá tenho acompanhado o seu crescimento, a sua evolução. Continuo a aplaudi-lo como no primeiro dia.

Em agosto de 2016, a exposição Flat Out trouxe sua primeira mostra a solo de escultura, em Ghent, na Bélgica. Isto é, uma mostra de algumas das suas ilustrações transpostas para três dimensões, em que os livros têm também (como sempre tiveram) um papel de relevo.

Deixo-vos algumas imagens. Há apetites que devem ser despertados.

Ana Almeida, do Blog Clube de Leitores – de Portugal para o Toda Hora Tem História  -do Brasil, na conexão É giro!
  

 

para onde vamos

 

Image result for para onde vamos jairo buitrago

Desde muito pequena eu compreendi que eu e meu pai poderíamos ser grandes amigos. Ele brincava comigo e tínhamos longas conversas, algumas bem difíceis por sinal, e essa convivência não deixava escapar nada: meu pai sabia se eu estava triste ou se eu queria esconder alguma coisa para alcançar outra – o que nunca dava certo pra mim.

Mas não era só por estarmos eu e meu pai nessa rotineira amizade que se construía apesar de ser eu submetida à figura paterna durante aquele tempo de vida em que os pais tomam muitas decisões por nós. Havia outro elemento muito forte para celebrarmos uma amizade, meu pai e eu, era o meu avô.

Quando criança, meu pai ganhou uma foice de seu padrinho. Meu pai me contou isso quando eu também era bem criança, por volta dos seis anos.

Por que um menino ganha uma foice? Essa pergunta poderia me atormentar durante anos, porém meu pai falava daquilo como se fosse um pacto de amizade com o pai dele, que também precisava de uma foice para trabalhar em sua quinta (uma roça, alguns diriam).

Meu avô trabalhava duro e meu pai criança era seu parceiro fiel a cortar capim, a colher o trigo, a dar de comer para animais de criação.

As vezes meu pai tinha uns repentes de criança; ao invés de trabalhar, fugia pela janela para nadar no rio. Meu pai me contou que, numa dessas vezes, o meu avô escondeu as roupas dele – que estavam na beira do rio – e ameaçou dar um castigo com uma varinha. Mas meu avô nunca estendeu a mão para castigar meu pai, nem varinha. Meu pai também não me castigou na minha infância, e a história do menino que ele foi combinada com a minha história de menina, confirmava ao longo de nossa convivência os grandes amigos que seríamos, e somos.

Aperta meu coração saber que meu pai teve que sair obrigado de seu lugar, seguindo meu avô para um país novo e distante. A viagem dos dois, meu avô e meu pai, deixou para trás a paisagem da aldeia, as fileiras de oliveiras cultivadas durante anos, os animais de criação, o castelo de pedra que servia para acolher meninos, também o rio. O rio.

– Para onde estamos indo?

Meu pai perguntou inúmeras vezes, mas ninguém da família saberia explicar. Não havia ideia de sair da aldeia, nem desejo para fazê-lo: era uma imposição mal compreendida do tipo que nunca se poderá compreender sob pena de nos tornarmos mais frios e menos humanos.

Ao chegar no Brasil, meu pai foi ridicularizado pela forma como se vestia, pelo jeito como falava e pensava. Era uma travessia pra além da geografia dos mapas, ele era obrigado a viajar dentro de si, desapegando-se de suas referências mais caras para reaprender a viver com coragem e fé.

Esse olhar para o menino que existiu antes do adulto que é meu pai, ajudou na construção de nossa amizade – duas crianças que seguem suas memórias de afetos.

Hoje a gente se reune, meu pai e eu, e as histórias se misturam numa viagem por nossas existências. E é tão bom seguir viagem com um amigo por perto.

Related image

Sobre grandes travessias, uma história pode desdobrar outras tantas leituras… Como a de Jairo Buitrago Para onde vamos. O livro tem ilustrações de Rafael Yockteng, tradução de Márcia Leite, está disponível pela Editora Pulo do Gato, de São Paulo. A narrativa conta os momentos de uma menina que viaja com seu pai, mas não sabemos para onde eles vão. Durante a longa caminhada, ela vai contando os animais, as nuvens e as estrelas do céu. Também conta crianças e soldados. Às vezes, eles param em algum lugar, durante uns dias, pois o pai precisa ganhar dinheiro para prosseguirem.

 

 

 

verões verdes

“De repente me lembro do verde”, e isto me leva de volta para os tacos de madeira da sala do apartamento do meu avô português. Era verão, eu sei porque usávamos poucas roupas, meu avô voltava sempre cheirando a peixe.

No canto da sala, uma vitrola que não era verde, mas vermelha, tocava um disco de Caetano Veloso e o nome dele sempre retumbava pergunta na minha cabeça:

– Veloz, Veloso?

Palavra é um bicho esquisito que anda na gente de dentro pra fora e de fora pra mexer com o que tem dentro.

Conheci no encarte do disco o poeta verde, Paulo Leminski, e pensei que ele talvez fosse alguém muito parecido com o meu avô – não no cheiro a peixe, mas por plantar pimentões verdes, rúcula, couve, agrião. Mais tarde eu soube que estava enganada; o verde poderia ser tantas outras coisas.

Mas, de volta, na minha infância, verões verdes com vitrola vermelha às voltas com a Verdura na voz de Veloso.

Pimentões verdes para um avô português que gosta de peixe. Não há peixe verde, há?

Lembrei agora, juro, de uma moça vestida de verde numa festa de casamento. Um verde vistoso que mais parecia uma viva verdura vinda da venda. Lembrei junto de uma outra canção chamada Verde, que diz ‘ver de novo um lugar, ver adiante’, o que faço agora enquanto olho para os verões verdes que ficaram na sala com tacos de madeira onde tocava uma vitrola vermelha. Estranhamente,  da canção eu penso no livro – porque, afinal de contas, não eram versos na voz que voava pela vitrola?

Essa é a minha viagem ao ler um livro: ver de novo, ver tudo de novo.

Junto comigo outros, assim vai Dipacho, em Verões Verdes, recém lançado pela Editora do Brasil, com frescor de verdura na vida das palavras verdes.

Image result for veroes verdes

quero ler meu livro

Image result for quero ler meu livro

 

“PSSSIU! Silêncio.”

Eu sei que ela gosta de correr pela casa e ficar me perguntando uma coisa – e outra coisa – e bater a bolinha no chão para brincar com a cachorrinha e aumentar o som da música e, e, e… Enquanto eu, eu só preciso de um pouco de silêncio.

Note bem você, pessoa distinta que me lê neste humilde desabafo, eu peço pouco, um pouco de silêncio, embora eu tenho certeza de que não me faria mal uma parcela inteira do dia, ou da noite.

O pior dos meus avessos é a bolinha – TUM, TUM, TUM – como um bumbo ressoando pela casa. Então, meu pensamento se enche de devaneios, ‘ah, que saudade do tempo em que não existiam bolinhas ou que elas eram feitas de silêncio’.

– Pssiu! Você não está vendo que eu estou lendo? Eu estou lendo um livro.

Isso também não adianta. Logo é um rosnado pela casa atrás da bolinha, um mar de risadas, uma correria.

– Ai, minha santa paciência que não é pouca!

Depois, a menina canta. Depois, a menina dança. Depois, a menina descarrega uma caixa de brinquedos. Depois, a menina arranja mais alguma coisa que faça barulho.

Related image

– Psiu! Por favor, por favorzinho, você não vê que eu estou… Hei, você quer ler comigo?

De repente, um silêncio que só se interrompe quando a menina diz pertinho do meu ouvido:

– Podemos ler mais um?

 

* Essa história se repetiu na casa do meu vizinho. Ele lia. Ele lia um livro. Mas a criança que mora no apartamento ao lado do meu vizinho, não ajudava em nada na leitura dele: aquilo não cedia em ruído, uns estrondos incabíveis para um alguém que lê (ou tenta) um livro. Felizmente, meu vizinho teve uma ideia… O pulo do gato! Quer saber qual foi? É fácil, leio – leia – lemos, QUERO LER MEU LIVRO (de Koen Van Biesen, com tradução de Cristiano Zwiesele do Amaral, selo da Editora Pulo do Gato).

 

Image result for quero ler meu livro

os cinco esquisitos

 

Image result for os cinco esquisitos beatrice

 

– Sim, de perto ninguém é normal.

– Como?

– Come!

– Você é mesmo uma pessoa esquisita, uma coisa esquisita, sei lá, muita esquisitice.

– Olha aí quem tá falando, justo você que nem sabe se a pessoa é ou se é só uma coisa que dá e que escapa da vontade da pessoa.

– Mas que papo furado!

– Melhor papo furado do que papo quadrado, né não?

– Quadrado é uma coisa que parece pontuda, pode furar o papo.

– Rá Rá Rá, tá vendo como você não é nada normal com esse papo?

– É que me desdobrei na sua doidice, e é claro que guardo muitas lembranças absurdas, surreais, pouco sensatas, também, dentro da minha cabeça…

– Isso me deixa mole.

– Tédio?

– Não, ao contrário, uma moleza aconchegante com vontade de dormir nas nossas vozes.

– Porque a gente tá vendo tudo de ponta cabeça, né?

– E isso dá tontura.

– Rá Rá Rá Rá Rá! Como somos cheios de esquisitices.

– Somos um erro da cabeça ao cotovelo!

– Pra que querer ser normal e perfeito e tal, se é no desdobrado papo furado que a gente se amolece e se reconhece tão mais perto do coração, né?

– Ah… S2

– ESSE DOIS?

– rÁ rÁ RÁ RÁ!! Agora tem emoticon desenhado na palavra que você fala.

– Desatinada palavra.

– Uma catástrofe.

– Completamente.

 

Related image

Ps. Fui à Livraria e voltei com um livro muito esquisito. ‘Os cinco esquisito’, que eram seis, ou mais, porque eu pensei em mim e em você (que é um absurdo). O livro foi escrito e desenhado por Beatrice Alemagna, que é italiana apesar do nome que me confundiu. Não sei se Beatrice é esquisita, mas me parece que sim, desde o princípio.

Ps2. O livro está publicado no Brasil com selo da wmf martins fontes.