O direito às múltiplas narrativas de mundo, por Penélope Martins

Quando a dúvida aflige a ponto de me afastar da esperança, reflito se já aprendi a resistir como o camelo atravessando impiedoso deserto carregado de si mesmo e do mundo até me insurgir contra a voz que diz “faça” para proclamar “não quero”. Isso porque se primeiro o espírito deve se transformar em camelo, depois há de se transformar em leão, e ainda aguardar com coragem para uma terceira e final transformação na ternura da infância.[i]

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imagem selecionada na internet – autoria desconhecida

Não tenho leitura suficiente para conversar com as pessoas letradas, fui criada por gente simples, todos amadrinhados na função da enxada. Mas havia na família um cantarolar insistente, e as palavras me entravam pelos sete buracos da cabeça, endoidando a máquina de perguntas do pensamento.

Por sorte distinta dos que me criaram, tive chance para livro, papel e caneta. Fui cursar faculdade de Direito, até quis parar no meio e seguir em Letras. No entanto, mais tarde, eu me vi advogada numa pós-graduação em Direito Constitucional que, como diziam outros colegas de profissão, não me serviria para ganhar dinheiro. Porém, naquelas aulas, por culpa de um professor com habilidades de louva-deus, fui obrigada a aceitar a tarefa de apresentar um tipo de seminário sobre um texto de um tal Immanuel Kant, que foi recusado de pronto por toda a turma e que minha ignorância, santa protetora, fez com que eu dissesse em voz alta: “Eu fico com ele”.

E pronto. Bastou as primeiras páginas, eu me senti recompensada pelo curso. E junto de Kant, eu com a lembrança da voz do meu pai contando como a vida dele mudou depois de ler certa frase num para-choque de caminhão. Para terminar, a retomada de um verso da escritora Anaïs Nin, “a vida se expande e se retrai à medida de nossa coragem”.

Pode parecer absurda a mistura, macarrão com feijão, farofa e ovo, ou Kant no para-choque com versos de Anaïs Nin, mas isso é perfeitamente compreensível para quem, assim como eu, entende que a leitura é fome e longa espera por comida, busca em sofreguidão que cava dentro da gente um punhado de significados.

E se eu me fiz advogada para depois ter a coragem de largar carreira, emprego e a comodidade do que foi conquistado para viver de dizer poesia, foi justamente para acolher o espanto da humanidade com palavras. O palavreado que anda na rua, na feira, na rede estendida na varanda e no menino de pés descalços, o palavreado que pensa o justo e reclama seus direitos, indicando mesma possibilidade para os demais no coletivo, uma natural valorização do que se é, enquanto ser humano, tomando direção à concepção de cidadania. (Vale abrir parênteses, afinal, a palavra cidadania tem sido aliada a uma ideia equivocada de patriotismo com viés extremamente excludente quando, em verdade, contempla na diversidade uma possibilidade de harmonia social.)

O direito está na simplicidade rotineira que nos legitima a dizer que uma pessoa qualquer é legal. Essa frase tem propriedades suficientes para pensarmos a relevância de aprender a ler, desde a infância, iluminando o peso das palavras para retirar delas todos os  significados. Muito bem, todo ser humano é legal. É legal, está dentro da lei e não deve ser tratado à margem dela. No entanto, embora todo ser humano seja legal, a distância entre o papel e o fato é um deserto que testa os limites de resistência da imensa maioria de pessoas que vive atravessando desertos sobrecarregados de si e de mundo.

Por conta disso, relembro Mia Couto[ii] e uma de suas personagens que clama por uma chuvinha dentro da prisão, a mesma prisão que já foi boa o letrinhando, dando a ele mais do que a vida além das grades deu. Se pensarmos no número assombroso de gente que é trancafiada no calabouço sem nunca ter tido o direito efetivo de frequentar a escola com regularidade, alimentando-se, vestindo-se e recebendo toda proteção contra violências, faz entender o quanto é importante afirmar que todo ser humano é legal.

As leis devem ter como objetivo principal regulamentar as relações sociais e proteger a vida humana, tornando possível a coexistência e legitimando as particularidades de cada um, garantindo que todos e todas tenham acesso à vida plena e livre. Obviamente, afirmar para toda gente é garantir que não se sobressaia o desequilíbrio da balança, um julgar de acordo com a conveniência. Por isso, é essencial uma ideia de justiça capaz de ocupar o imaginário coletivo alimentando uma utopia de bem comum. Porque lei e justiça não são sinônimos, a primeira é somente uma intenção de alcançar uma concepção da segunda, e a segunda é uma virtude sinônimo de perfeição.

O justo pode ser visto como uma repetição de atos que desejam alcançar a virtude da justiça, a realização da dignidade de toda pessoa humana. E talvez seja essa a mola propulsora para que a ficção invente histórias capazes de reviver convívios para que possam ser vistos e transvistos, proporcionando uma reflexão subjetiva, íntima e reveladora. Ao final, ao falar de virtude, recomeçamos a trilha para entender porque nos juntamos em tribos, clãs, aldeias, vilas, cidades, metrópoles. E somos capazes de chegar à conclusão de que nascemos com fome e com frio e vamos deixar a vida na mesma condição.

Mas como podemos nos “esclarecer” para deixarmos de nos apegar ao que é de si para pensar no todo? O que podemos contar para ajudar a convencer nossos ouvintes que para ser justo é preciso ter generosidade na leitura das múltiplas histórias que compõem nosso mundo?

Em suas fraseações, o poeta Manoel de Barros versou que “o olho vê, a lembrança revê e a imaginação transvê; é preciso transver o mundo”. E transver requer elaborar narrativas apropriadas para criar em nós uma gama de vivências empáticas suficientemente fortalecidas para que se busque a virtude da justiça. A harmonia com nossos semelhantes considera acolher que todos são tão diferentes entre si quanto de nós mesmos e que na pluralidade conseguimos obter uma gama imensa de possibilidades para avançarmos como grupo. Desse pensamento emerge o que conhecemos como direitos humanos, garantias que se estendem por todos os territórios, nacionalidades e culturas, para mantença de vida plena e livre.

A Declaração Universal dos Direitos, que acaba de completar 70 anos de existência, tem servido para afastar violências perpetuadas contra pessoas e grupos, sendo potente instrução inclusive para a formação das leis de todos os países, signatários ou não. Um exemplo: em 2015, depois de denúncias de mulheres ativistas, a Nigéria aprovou uma lei que proibiu a mutilação da genitália feminina.

No Brasil, a Constituição Federal Brasileira, assinada em outubro de 1988, incorporou como preâmbulo, espírito estimulado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, afirmando Estado laico, exercício dos direitos sociais e individuais, liberdade, igualdade e justiça para uma “sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias”.

Essa arquitetura do Direito pode ser considerada romântica, mas imagine o que é ter uma vela acesa para conseguir ler num quarto escuro, ou reconhecer com a vela um caminho até o interruptor para acender uma lâmpada. A existência da lei, embora não seja suficiente para clarear as relações dissolvendo todos os conflitos, funciona como um ponto luminoso que orienta, revela a existência das coisas e questiona seus significados. Se a lei encontra um receptor, alguém que compreenda minimamente como é possível utilizá-la, temos o caminho para o interruptor e depois a chance de se acender a lâmpada…

Conhecer os próprios direitos é tão ou mais importante quanto ter uma lei que nos defenda. A cidadania não é uma condição passiva, ao contrário, é um chamado para que continuemos buscando o ideal de justiça, a melhor forma para ser dita e a garantia de sua execução. E essas noções sobre a justiça são apreendidas também na linguagem cotidiana que reúne saberes e ditados populares, nas histórias que nos são contadas pelos avós, pais e mães, reforçadas na vivência de personagens que passam a integrar nosso imaginário por nos causarem simpatia ou indignação.

O pobre Capitão Gancho teve sua mão mastigada pelo crocodilo Tic-Tac na Terra do Nunca. Todavia é unanimidade que a maldade do Gancho não fez escapar suas vítimas da prancha para o mar, assim como, mesmo incompreendida, é sabido que nenhum senso de justiça tem Rainha de Copas perseguindo Alice no País das Maravilhas. Obviamente, nenhuma criança quer ser comparada ao sem coração Capitão Gancho ou à malvada Rainha de Copas, pois esses personagens geram repúdio àquilo que faz sofrer, que tortura, que é cruel e injusto.

Preste atenção como as crianças pequenas conseguem resolver seus conflitos sem a interferência do julgamento dos adultos. Juntas, elas dividem brinquedos, correm, fazem novas amizades, repartem lanches e brigam, depois logo fazem as pazes, evitando o isolamento, o estar só, o desamparo. Há um desejo comum na infância sobre receber tratamento com respeito, amor, carinho e cuidado. A criança se afirma e permite que a outra criança o faça, porque ela conhece a liberdade. Já o adulto, esse se afasta da criança e da liberdade, condenando a si mesmo e aos outros…

Talvez seja esse o papel da leitura: tornar os leitores aptos a afirmar suas histórias, para o sim e para o não, impedindo o injusto através de uma lente permeável que se constrói com muitas histórias e que segue enriquecida na relação entre o eu e o outro, incorporando processos anteriores e posteriores ao próprio livro, construindo trilhas nas experiências de cada um, mas também se diluindo e se restaurando à medida em que explora caminhos nunca antes percorridos, novas intersecções para o pensamento, a reflexão, o diálogo. Talvez a leitura seja a amálgama capaz de nos integrar em gigante caleidoscópio, cada um como pequeno caquinho de vidro que significa junto dos demais uma forma deslumbrante de cores diversas que “transvê” a beleza do mundo.


[i] Assim falou Zaratustra; Friedrich Nietzsche traduzido por Paulo César de Souza. Cia de Bolso.

[ii] A última chuva do prisioneiro, em Contos do nascer da Terra; Mia Couto. Cia das Letras.

 

***

Penélope Martins é advogada, escritora e narradora de histórias, autora de obras como Pinóquio (Panda Books), Minha vida não é cor-de-rosa (Editora do Brasil) e Quintalzinho (editora Bolacha Maria). Como narradora já se apresentou em diversos lugares do Brasil e em Portugal. Mantém um blog para fomentar leitura, o Toda Hora Tem História.

O texto aqui apresentado foi publicado primeiramente no Blog da Letrinhas: http://www.blogdaletrinhas.com.br/conteudos/visualizar/O-direito-as-multiplas-narrativas-de-mundo

Desenvolvendo competências leitoras…

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Às vezes, investir recursos, tempo e dedicação para a formação de leitores parece ser um desafio incomensurável. Mas esta é uma causa que vale a pena, pois investir no leitor é mais do que garantir o desenvolvimento individual de cada criança e jovem. Significa contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, regida por indivíduos capazes de compreender melhor o mundo em que vivem e valorizar sua responsabilidade no desenvolvimento de relações interpessoais.

Isso não acontece como mágica. É preciso perseverança, persistência e leitores intimamente comprometidos em mediar conversas sobre as experiências vivenciadas com a leitura literária.

Parte da dificuldade acontece quando destacamos o livro do contexto escolar. Geralmente usado como ferramenta portadora de conhecimento e conteúdo, não é fácil transpor essa barreira da obrigatoriedade para tratar da leitura como prazer, considerando a escolha e autonomia leitora de cada indivíduo. Soma-se a este panorama a necessidade de trazer a família para essa roda de conversa e leitura.

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Ampliar essa visão sobre o livro para além de sua capacidade inequívoca de ferramenta escolar, amplifica as competências de nossas crianças e jovens na criticidade e na autonomia interpretativa, além de servir como impulso para que cada pessoa, cada núcleo familiar, cada grupo, cada instituição possa reconhecer sua cidadania e exercer o direito de ler e de escrever.Image result for que amores de sons

O leitor não é um sujeito passivo da leitura. Cada leitor é protagonista, infundindo no livro sua visão de mundo e suas próprias experiências. Chamamos isso de protagonismo criativo. Ou seja, a narrativa só é embutida de sentido quando as palavras passam pelo filtro dos olhos e dos pensamentos do leitor.

Por isso, o desenvolvimento da leitura na escola deve considerar que cada leitor é único. Ao invés de tratar as crianças e jovens como agentes passivos da leitura, devemos incentivá-los a assumir seu papel ativo e oferecer a eles novos instrumentos para que possam ampliar seus repertórios de acordo com as capacidades e os interesses de cada um. Só assim poderemos compor um debate múltiplo e rico em interpretações dentro e fora da escola.Image result for artur e ana na grecia

A objetivo do intermediador de leitura na escola é semelhante à de um maestro junto a sua orquestra, que une cada instrumento individual para criar uma bela sinfonia. O intermediador estabelece um diálogo de impressões individuais que, unidas, possam promover transformações profundas nos sentimentos e comportamentos de cada um. Sem dúvida, trata-se de trabalho árduo, mas gratificante.

Essa jornada de autoconhecimento e de reconhecimento do coletivo é apenas uma das possibilidades concretas oferecidas pela leitura.

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O desenvolvimento amplo das competências leitoras requer um projeto desafiador de leitura, capaz de incentivar uma educação questionadora e de oferecer os instrumentos necessários para a formação de um repertório amplo e robusto. O real desafio é, como escolher?

Os livros certamente são pontes para atravessarmos e penetrarmos diversas áreas do conhecimento humano. No caso da literatura, a subjetividade poética cria um ambiente propício para que diversas áreas do saber conversem entre si, contemplando múltiplos interesses dos leitores ao mesmo tempo e impulsionando um raciocínio crítico, autônomo, criativo.Image result for layla a menina siria

Não importa se estamos falando de um romance, um conto, uma crônica, um poema, uma parlenda, uma cantiga ou uma narrativa visual; a relevância da leitura está em reconhecer que o protagonismo leitor é essencial na construção do saber. Ou seja, quanto melhor preparado o leitor, mais ele usufruirá de suas leituras.

Mas não devemos descartar o poder do livro que, assim como seus leitores, traz um universo de diversidades e possibilidades. Como um mosaico composto por inúmeros cacos de vidro colorido, a conversa entre os leitores e os livros formam juntos uma sublime imagem caleidoscópica que surpreendem pela composição.

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* Os livros que ilustram esse texto podem ser encontrados no Site da Editora do Brasil: https://www.editoradobrasil.com.br/

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Carolina, um nome, uma história, um tempo presente

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“A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.”

Carolina Maria de Jesus – Quarto de Despejo (1960)

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“Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, no interior de Minas Gerais, no dia 14 de março de 1914. Neta de escravos e filha de uma lavadeira analfabeta, Carolina cresceu em uma família com mais sete irmãos.” Biografia de Carolina Maria de Jesus

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“A autora viveu boa parte de sua vida na favela do Canindé, na zona norte de São Paulo, sustentando a si mesma e seus três filhos como catadora de papéis. Em 1958, tem seu diário publicado sob o nome Quarto de Despejo, com auxílio do jornalista Audálio Dantas. O livro fez um enorme sucesso e chegou a ser traduzido para catorze línguas.” Carolina de Jesus no Wikipedia

“Quando o ilustrador e roteirista João Pinheiro tomou contato com ‘Quarto de despejo: diário de uma favelada’, de Carolina Maria de Jesus, a cabeça dele virou. “Fiquei fascinado”, resume. Até aquele momento, João não conhecia a literatura marginal dessa mulher negra, que muito tempo passou desconhecida na academia e livrarias do país. “Eu estava assistindo aquele programa que passava na TV Cultura, o ‘Manos e Minas’, e aí uma rapper falava o nome de várias mulheres negras importantes e citava Carolina. Eu anotei o nome e fui procurar o livro depois, encontrei uma edição de bolso da década de 80 de Quarto de Despejo, comprei e li. Aí passei para Sirlene”, conta.Image result for carolina maria de jesus

(…) Sirlene Barbosa é professora do ensino público municipal, leciona em escolas da zona leste de São Paulo, onde inclusive nasceu, e exemplifica em experiências da sala de aula o que disse. “Eu comecei a observar a partir de um ato até ingênuo de uma estudante de uns 10 anos, hoje mais velha, de que faltava representatividade negra na escola. Por que eu falo negra e não indígena, LGBT, enfim, de vários outras minorias, que prefiro chamar de maioria silenciada? Vou te explicar: nesse dia eu fui ler um conto de fadas para as crianças e pensei: não vou ler Branca de Neve nem Cinderela. Isso eu já leio. Mas eu quero ler também livros cujas princesas sejam negras, latinas, indígenas, sejam meninas que se pareçam com as meninas para as quais eu dou aula. Eu escolhi uma que a princesa era negra e fechei a capa para eles não verem . Iniciei a leitura e tinha uma fala que dizia que a princesa era muito linda. Essa menina colocou a mão na boca com expressão de susto e disse: ‘você mentiu para a gente’. E eu disse: ‘mas por que?’ e ela: ‘porque você disse que ela era linda’. Eu não briguei, mas quis saber de onde ela tinha tirado essa ideia. E ela travou. O coleguinha do lado disse: ‘porque ela é negra’”, recordou Sirlene. “Eu não quero calar a voz do branco europeu. Mas eu quero inserir a voz do negro, do indígena, do latino, do africano, enfim, inserir essas vozes caladas”, afirmou.” Carolina, biografia em quadrinhos

Tenham paciência com a leitura

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Por onde eu vou, contando histórias ou falando de leitura e mediação, acabo escutando a ladainha: “as crianças não leem” ou “eu não tenho tempo de ler”. Destaco que a palavra ladainha aqui tem um propósito correlato ao sentido religioso: essa prece cantarolada em que alguém diz “as crianças não” e outra pessoa responde “eu não tenho tempo” colocaria a leitura em prova de fé?

Certamente cantarolar uma prece não seria de todo ruim, uma vez que muitos de nós, inclusive eu, aprendeu a ler a partir do cantar as canções, do lamento das rezas, das revelações das benzedeiras… Mas a literatura não é composta de única predominância com equipamento sonoro que ecoa por fora e por dentro dos nossos corpos. A literatura propõe movimento e inércia, barulho e silêncio: estado quase fetal das ideias. O quase é por não estarmos sós na leitura de um livro, o que foi visto antes resiste e impregna o que vem depois.

A literatura é a arte de realinhar as palavras. Há uma provocação estética de forma que revela seu conteúdo. E há uma voz narrativa que conversa com a nossa voz narrativa. E essa conversa nem sempre é amigável. Image result for penelope martins

Talvez a leitura literária seja um rompimento com a construção formal do discurso. Ela ousa ser imagem, transbordar de orquestra, contornar frio do mármore revelando Eros. Todavia, diferentemente das artes plásticas, em que o impacto visual pode acelerar um pensamento reflexivo a partir de sentimentos despertos, ler um livro propõe outro tipo de relação para percorrer o espaço-tempo; trata-se de uma imersão em silêncio constrangedor. A leitura propõe uma quebra, uma ruptura de sociabilização; o livro transforma quem o lê em espécie distinta, algo entre pedra, areia, vento e gente.

Posso falar por mim e só isso é pouco, entretanto, por vezes acordei em praças, parques e aeroportos chorando compulsivamente, rindo descaradamente, assombrada, triste, boba, eu e aquelas personagens que caminhavam comigo até a última página – para a contracapa na surpresa, ao erguer a cabeça e notar os olhos em interjeições de espanto e dúvida, todos ao meu redor, indignados até.

Peço desculpas, senhoras e senhores, se durante a leitura eu me tornei rude ou deselegante, isso não foi intencional. Acontece que o livro acaba me subtraindo do mundo dos vivos para me conduzir por jornadas entre os além-vivos, com motivações variadas, mas isso nem importa, não agora…

A experiência com a leitura requer mais de paciência do que de vocação. Paciência de quem lê, paciência de quem lê quem lê, paciência de quem lê e deseja despertar quem não lê, paciência de quem não lê com o desejo sobre si de quem lê. Paciência com quem leu e não gostou. Paciência com que lê e diz que precisamos ler. Paciência com nossa falta de paciência.

Ou seja, leitor é gente comum que insiste passar linha pelo buraco da agulha até conseguir. Equívoco pensar que a literatura se dá para alguns “eleitos” portadores de certo tipo de dom para ler livros, uma misteriosa qualidade, uma inteligência que os torna capazes de submergir entre as páginas decifrando palavras e revelando suas histórias.

Nas rodas de conversa, leitores exibem seus títulos favoritos e as observações por vezes são extremamente desfavoráveis: “o começo é bem despretensioso”; “comecei duas ou três vezes”; “demora um pouco para começar a história”; “precisei insistir no primeiro capítulo e talvez no segundo”; “comprei pelo tema, mas a forma me desatinou o juízo”; “a estrutura é confusa e emocionante”; “depois da página 30, fui fisgado”.

Trata-se de paciência. As primeiras vezes pode ser por insistência, teimosia, que se é paciente. As demais, por convicção mesmo. O leitor passa a cultuar essa demora que antecede o mergulho profundo. É como um namorico, depois um beijo e logo são um só, leitor e livro.

A literatura se assemelha ao cultivo de bonsais, mas, ao contrário da imagem de uma tesoura precisa nos ramos verdes, o desafio da poda é ínfimo perto da tarefa contínua de amparar a semente. A leitura requer terra que se fertiliza, água na medida, luz de sol e luz de luar, e muita, muita, paciência para fazer brotar solidez dessa amizade que mescla silêncios longos e breves com conversas intermináveis por dentro da nossa própria cabeça.

Tem outra coisa bem complicada sobre a leitura: a literatura traz muitas revelações indesejadas para quem não se dispõe a desconstruir conceitos mofados, velhas verdades. Em outros momentos, muito pior, a literatura se contrapõe ao que nos identifica, fragiliza nossas memórias com transversais divergências.

O livro, esse amigo que nos afeta na (in)diferença cutucando uma cultura já acomodada dentro da gente, é companhia errante, sedutora, que torna possível aprofundar intersecções preciosas entre universos aparentemente incomunicáveis. Ler um livro nos coloca em perigo. Se assim não fosse, como explicar o apaixonar-se pelo extraordinário Poe, ou a alma curumim entoando o pesadelo, Tutu-Moringa, as repetidas frases de assombramento até a chegada de um bicho que o puxa criança pelo pé? Como poderíamos desdizer do amor perfeito entre o imenso elefante envolto pelos véus da mínima odalisca, e todas as 999 vidas em constante transformação passando por Tristão e Isolda, Otelo e Desdêmona, Romeu e Julieta?

Diante disso, é plausível que muitos dispensem a leitura sob o argumento concreto (e cinza): “não tenho tempo para essas coisas”. De fato, devo admitir que a leitura, assim como a escrita, tem me roubado do tempo dos vivos para que eu me confunda entre além-vivos, isso eu já disse e não tenho pretensão de explicar. Por vezes, eu me submeti ao esquecimento da panela no fogo, o relógio que alardeava um compromisso. No mais, igualmente admito que a vida real é a primeira mentira que a literatura faz questão de atacar. Isso dói muito, e como leitora eu me surpreendo como fico contente sentindo essa dor.

A literatura é essa máquina de moer realidades que não cansa de construir mundos novos. Cada leitura sob uma ótica leitora distinta forma pequenos caquinhos de vidros que convergem em ricas mandalas caleidoscópicas. A cada diálogo sobre esses livros, pessoas repensam relacionamentos, instituições, educação, política…

Acontece que nós estamos vivendo o tempo de aceleração desmedida: impulsos, cortes, fragmentos, uma palavra, milhares de fotografias, vídeos curtíssimos, catástrofes entre memes, gifs, figurinhas, emojis, e-mail (coisa ultrapassada), aquelas mensagens gravadas que ninguém quer ouvir etc.

“Não tenho esse tempo de ler.” Isso é justificável. Sim, as pessoas são acompanhadas pelos seus celulares e os celulares parecem conter pessoas dentro… Já o livro, aquele silêncio no começo, aquela história que eu não sei bem em que ponto vai começar a me interessar…

Felizmente, não é por acaso que a poesia reagiu às redes sociais como o gênero multimídia da literatura. A poesia é orgânica, e poetas são cozinheiros de botecagem – fazem do pouco muito. A poesia vem servida do jeito que o diabo gosta, gordura, açúcar, sal, pimenta: e todos bebem.

Cresceram os números de poetas publicados. A internet é a editora mais generosa de todas. Tem para todo gosto, um temporal de links com amostras de e-books, séries infinita de vídeos, poesia falada, poesia interpretada, poesia em imagens, roda de poesia, gif de poesia etc etc etc. As mais inusitadas formas com os mais variados tipos de conteúdo.

A diversidade na leitura é o fim daquela ladainha lá da primeira linha, lembra?

A poesia se associa, daí que vem a música, e qual criança resiste explodir gritando palavra cantada? Qual adulto dirá que não ter tempo para os versos de Chico Buarque? E convenhamos, mesmo agora com estranhos que deram para acusar a prosa e a bossa de ideológica, até os mais sisudos param para ver, ouvir e dar passagem ao cantar da banda e suas coisas de amor.

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Essa canção, irmã daquela que corre nas bocas das benzedeiras, das rezadeiras do rosário, já se provou aliada dos livros. Só digo uma coisa, paciência, tenha paciência. Eu mesma comecei assim: foi ali uma letrinha brilhante, uma tipografia, depois um verso, a curiosidade da autoria e, quando eu me dei conta, tinha lido o encarte inteiro do LP. Daquilo para avançar nos livros foi paciência, mais nada. E até hoje eu já vivi mais de 999 vidas extraordinárias, desde a caverna, passando por Ítaca, Tróia e com olhos abertos para dentro da imaginação no centro da terra.

 

***

Penélope Martins é advogada, escritora e narradora de histórias, autora de obras como Pinóquio (Panda Books), Minha vida não é cor-de-rosa(Editora do Brasil) e Quintalzinho (editora Bolacha Maria). Como narradora já se apresentou em diversos lugares do Brasil e em Portugal. Mantém um blog para fomentar leitura, o Toda Hora Tem História.

 

Esse texto foi publicado também no Blog da Letrinhas, link anexo: Tenham paciência com a leitura.

A moça que dançou depois de morta

Curta de Animação 35mm – 2004 Vencedor de diversos prêmios na categoria Curta Metragem, incluindo 01 Kikito e 01 Candango.

 

 

Quem quiser mais terror em cordel, essas histórias de alma penada, cemitério, coisas de outro mundo além dos vivos, corre para a livraria procure pelo autor Marco Haurélio em “Noivo Defunto e outros contos de mal assombro”. A leitura desse livro é de arrepiar a espinhela!

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Ponte aérea literária

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A escritora capixaba Isa Colli está lançando este mês três livros para infância simultaneamente no Brasil e na Bélgica, onde mora atualmente. Duas histórias são inspiradas em reis, castelos e o universo das monarquias. “O Rei está no Trono” é uma aventura do rato monarca que desaparece dentro do próprio castelo. Já em “Ulisses no Reino das Letras Douradas”, o rei é um livro antigo que tem o sonho de chamar a atenção da menina Iná.
O outro livro que chega ao mercado é “O Elefante Mágico e a Lua”, título bilíngue português – inglês, com uma versão online em árabe. A fábula se passa em um reino nos Emirados Árabes. No enredo, o elefante mágico Aman resolve atender aos desejos do amigo Radi. Em retribuição, Radi ajuda o elefante a aproximar-se de seu grande amor, a Lua.
No fim do ano passado, a escritora abriu sua própria editora, a Colli Books. Além de escritora, Isa é também jornalista. Aos 50 anos, a autora vem conquistando espaço no mercado literário nacional e internacional com participações nas principais feiras do mundo, como as bienais de São Paulo e do Rio de Janeiro e as feiras internacionais do livro de Bruxelas, Bolonha, Lisboa e Frankfurt.
O talento literário surgiu na infância, mas a profissionalização chegou há poucos anos. Isa nasceu no Espírito Santo e adotou o Rio de Janeiro para começar sua carreira na área da comunicação. Trabalhou por mais de 20 anos em emissoras de TV. Após descobrir uma doença degenerativa, decidiu lutar pela vida e se reinventou. Inspirada nas histórias que ouvia da mãe quando criança e da experiência que acumulou na TV, decidiu mergulhar no mundo da literatura.
Desde o lançamento do primeiro livro, em 2011, Isa já publicou 14 títulos infantis, um romance e um livro de poesias. Seus livros abordam temas como sustentabilidade, respeito pelo próximo, tolerância às diferenças e valorização do consumo de alimentos saudáveis.

Edmundo, o cético

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Naquele tempo, nós não sabíamos o que fosse ceticismo. Mas Edmundo era cético. As pessoas aborreciam-se e chamavam-no de teimoso. Era uma grande injustiça e uma definição errada.

Ele queria quebrar com os dentes os caroços de ameixa, para chupar um melzinho que há lá dentro. As pessoas diziam-lhe que os caroços eram mais duros que os seus dentes. Ele quebrou os dentes com a verificação. Mas verificou. E nós todos aprendemos à sua custa. (O ceticismo também tem o seu valor!)

Disseram-lhe que, mergulhando de cabeça na pipa d’água do quintal, podia morrer afogado. Não se assustou com a ideia da morte: queria saber é se lhe diziam a verdade. E só não morreu porque o jardineiro andava perto.

Na lição de catecismo, quando lhe disseram que os sábios desprezam os bens deste mundo, ele perguntou lá do fundo da sala: “E o rei Salomão?” Foi preciso a professora fazer uma conferência sobre o assunto; e ele não saiu convencido. Dizia: “Só vendo.” E em certas ocasiões, depois de lhe mostrarem tudo o que queria ver, ainda duvidava. “Talvez eu não tenha visto direito. Eles sempre atrapalham.” (Eles eram os adultos.)

Edmundo foi aluno muito difícil. Até os colegas perdiam a paciência com as suas dúvidas. Alguém devia ter tentado enganá-lo, um dia, para que ele assim desconfiasse de tudo e de todos. Mas de si, não; pois foi a primeira pessoa que me disse estar a ponto de inventar o moto contínuo, invenção que naquele tempo andava muito em moda, mais ou menos como, hoje, as aventuras espaciais.

Edmundo estava sempre em guarda contra os adultos: eram os nossos permanentes adversários. Só diziam mentiras. Tinham a força ao seu dispor (representada por várias formas de agressão, da palmada ao quarto escuro, passando por várias etapas muito variadas). Edmundo reconhecia a sua inutilidade de lutar; mas tinha o brio de não se deixar vencer facilmente.

Numa festa de aniversário, apareceu, entre números de piano e canto (ah! delícias dos saraus de outrora!), apareceu um mágico com a sua cartola, o seu lenço, bigodes retorcidos e flor na lapela. Nenhum de nós se importaria muito com a verdade: era tão engraçado ver saírem cinquenta fitas de dentro de uma só… e o copo d’água ficar cheio de vinho…

Edmundo resistiu um pouco. Depois, achou que todos estávamos ficando bobos demais. Disse: “Eu não acredito!” Foi mexer no arsenal do mágico e não pudemos ver mais as moedas entrarem por um ouvido e saírem pelo outro, nem da cartola vazia debandar um pombo voando… (Edmundo estragava tudo. Edmundo não admitia a mentira. Edmundo morreu cedo. E quem sabe, meu Deus, com que verdades?)

Cecília Meireles

Texto extraído do livro “Quadrante 2”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1962, pág. 122.fonte

Coisas que não prestam

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Há uma candeia

que não alumia

há uma roca

que já num fia

há um coche

que já não roda

e no armário

há vestidos

fora de moda

há um triciclo

que pede escusa

e um chapéu

que já não se usa

 

e aquilo que já não fia

nem alumia

nem roda

nem se veste

nem se usa

nem corre

 

– tem a beleza

do que já não presta

e esta

nunca morre.

 

 

– Alice Vieira, poema recolhido da obra RIMAS PERFEITAS, IMPERFEITAS E MAIS-QUE-PERFEITAS, da Editora Texto, Portugal.

 

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o medo de ter medo

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Eu sempre gostei de histórias de suspense e de terror.

Pera… Antes de falar de histórias há uma informação preciosa sobre minha infância. Eu tinha uma boneca descabelada por mim mesma que me metia medo, além de um poster, que minha mãe mandou fazer com uma fotografia minha, vestida de caipirinha, na frente de uma cortina cor vermelho sangue, que eu juro, por todos os seres sagrados e profanos, piscava e mexia o pescoço todas as noites.

Voltando, eu sempre gostei de histórias de suspense e de terror. Escolhi na prateleira da escola, O gênio do crime, de João Carlos Marinho, Eu, detetive, da Stella Carr, como companheiros de primeiras leituras. Junto com eles, claro que veio Drácula, de Bram Stocker, e Frankenstein, de Mary Shelley. Desde as primeiras seleções livreiras, eu tive a sorte de juntar a escrita de homens e das mulheres, autoria nacional e estrangeira, e isso certamente me formou como leitora que eu sou, aberta às variadas formas narrativas e com imenso interesse em expandir os horizontes sobre a linguagem.

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Mas não é só sobre isso que eu gostaria de falar aqui, ou é, também.

O medo me fascinava enquanto sentimento paralisante e desafiador, quando eu era criança. Lembro o dia de uma prova de olimpíada de matemática que eu, essa pessoa hoje das letras, estava selecionada para competir. Uma dor de barriga me petrificou na frente da escola e quase me matava. Falei pra minha mãe que eu não conseguia respirar. Tive que me investigar a sério naquele momento, com a ajuda da pedagogia de minha mãe, que não era das mais afáveis. O medo era de errar, o medo era de ser desclassificada na frente dos meus amigos. A final das olimpíadas era com dois garotos com os quais competi mais duas finais nos anos posteriores, um deles, um menino japonês com a fama ou o estigma de ser superior na arte exata de calcular. O outro era o Zé, que virou comediante, outra história. Morri na frente da minha mãe e ressuscitei, porque ela me empurrou pra fora do carro e me botou na vida sem dó. Minha mãe tinha várias facetas de bruxa má, outras de bruxa boa.

Senti medo. Eu sinto medo. Tive medo quando meu médico me falou, aos 13 anos, que eu teria que retirar um tumor do tamanho de uma laranja que crescia dentro da minha barriga. Ficou tudo bem no final, a palavra era substantivo feminino, benigna, mas o corte foi profundo, a recuperação foi dolorosa e vieram consequências. Passei pelo esfaqueamento, corri de mim zumbi, e aqui estou, quase com 46 anos.

Durante a recuperação daquela primeira cirurgia – olha só o que eu me lembrei agora – li um livro pesado, Christiane F. Sim, aos 13 anos. Meu argumento com a mãe foi dizer que se a história se passava com uma menina com a mesma idade, eu aguentaria. Minha mãe deixou numa faceta de bruxa boa, mas talvez com risada de bruxa má… Antes ela leu o livro, pra conversar comigo sobre a história. Foi dos livros mais importantes da minha vida. Passei a respeitar a dependência química, olhar os monstros internos com atenção, e ver o ser humano como um bicho frágil e, ao mesmo, imensamente corajoso. Fiquei impressionada como aquela menina do livro vencia o medo. E eu sentia medo por ela; queria que ela se livrasse daquele emaranhado de horror.

Adulta, descobri algo sobre esterilidade. Tive que ouvir coisas terríveis de mulheres que me consolavam sobre o ‘defeito’ em não poder ser mãe. Uma delas chegou a dizer que era esquisito alguém tão bonita por fora, como eu, ser defeituosa por dentro. Tive medo de ser uma mulher como aquela que me retalhava com palavras, e voltei a ser um Frankenstein, naqueles dias, tratado pela faca, ressurgido de um tumor, costurado às suas penas. Foi triste, confesso. Triste perceber que ser mulher, para algumas pessoas, era uma condição de parir.

Anos depois, eu aqui, com dois filhos, ainda consolo mulheres que me dizem não poder ser mãe. Todo mundo pode, meu bem, tem que ver se é o que se quer. Porque também tem o medo de não querer, e de ser julgada por isso. No mais, quero dizer que os filhos são anjos e bestas. Eles tiram o melhor e o pior da gente. Quebra-se o mito da perfeição, do amor incondicional, da lisura materna. É essa a grande bruxaria da vida.

Por conta disso tudo, e mais um monte de histórias, sigo apreciadora das narrativas de pânico, terror, sombras, desilusão, desamparo, medo. Meus filhos comigo assistem filmes, leem livros, contam histórias, e, juntos, rimos dessa condição abismal da nossa espécie, ser bicho frágil e potencialmente de pura coragem.

Recentemente, uma polêmica sobre ler ou não histórias de bruxas e outros seres assombrosos para crianças me fez pensar em compartilhar minha experiência levando em consideração a nossa cultura, nosso jeito de pensar… Bom, só há um jeito de viver: sendo pego de surpresa pela dor, ou se preparando para enfrentá-la. Eu escolho a segunda. Por isso, escolho ler quem pensa o medo na minha cultura, com a diversidade de simbologia que forma o meu país; isso tudo está no meu imaginário e conversa comigo e me identifica enquanto sujeitinha pensante. De que me adianta ler somente os russos ou os ingleses se eles não carregam intimidade com o barulho do samba, nem tem em mente a beleza do golpe de capoeira, tão pouco eles compreenderiam esse amor que temos pela língua que massacrou, ao se instalar oficial, liquidando tantas outras línguas e culturas… As bruxas, é nossas são tipicamente sulamericanas e com elas que devemos nos entender.

Já tive oportunidade de ver uma criança pedir para eu parar a narração de histórias quando o lobo apareceu para pegar sua vítima. A mãe, numa atitude de bruxa boa, fechou os ouvidos do menino. Eu parei, fiz a bruxa má, disse: – Menino, esse lobo é de mentira, só existiu nessa história e você tá aqui vivo e forte. Ele secou as lágrimas e ouviu até o final. Ficamos todos bem. Vivos, e mais experientes.

Então, se é que eu posso dar um conselho sobre a leitura na vida, digo: enriqueça suas viagens em narrativas lúdicas de humor, de amor, de terror, de desamparo, de solidão, de recomeço. Misture na escolha a autoria de autores com origens e gêneros diversos, porque cada qual vê o mundo e permeia relações sociais a partir do que é, e a empatia nasce de admiração dessas variadas pessoas e de nossa identificação com elas.

No mais, saibam que o carnaval é uma festa pagã que foi batizada pelo cristianismo como tempo do diabo solto; e o diabo, minha gente, é a ignorância.

Ilumine-mo-nos, pois, com glitter e histórias.

*

Agora, com um olho na mão e outro no meio da testa, faço a lista dos primeiros 13 que lembrei, esse número de sorte, e minha gata, Nina Simone, que está dormindo debaixo da escada enquanto eu mando essas dicas, mia pro além como se visse espírito. Ela vê. E, pensando num carnaval que passei em Paranapiacaba, relembro A menina que perdeu o trem, de Manuel Filho (Besouro Box), frio na espinha. Recomendo que apaguem a luz do abajour e deixem entrar a neblina… Pra já, esperta,

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de 13 na lista, eu saltei para o infinito… Toma que vai ser de arrepiar:Related image

  1. A Lenda do Batatão, de Marco Haurélio com ilustras de Jô de Oliveira, Editora Sesi;
  2. Sete histórias de gelar o sangue, de Antônio Schimeneck, Besouro Box;
  3. Contos de fadas sangrentos, de Rosana Rios com ilustras de Jean-claude Alphen, Farol Editorial;
  4. Medo? Eu, heim?, de Moreira de Acopiara, Editora Duna Dueto;
  5. Encontros folclóricos de Benito Folgaça, de Alexandre de Castro Gomes, Editora do Brasil;Image result for alex gomes de castro livro cemiterio
  6. Um esqueleto em quadrinhos, texto de Machado de Assis no desenho de Diego Molina e Márcio Koprowski, Editora Pulo do Gato;
  7. Histórias mal assombradas de Portugal e Espanha, e os demais livros que acompanham a coleção, de Adriano Messias, Editora Biruta;
  8. Fábulas ao anoitecer, de Georgette Silen, Giz Editorial;
  9. Sete histórias para sacudir o esqueleto, de Angela Lago, Cia das Letrinhas;
  10. Se eu abrir esta porta agora…, de Alexandre Rampazzo, Editora Sesi;
  11. Histórias do velho Nestor contando seus contos de horror, de Janine Rodrigues com ilustras de Fernanda Castanho, Editora Piraporiando;
  12. A caveira rolante, a mulher lesma, e outras histórias indígenas de assustar, de Daniel Munduruku com ilustras de Maurício Negro;
  13. Cidade dos deitados, de Heloisa Prieto, Coleção Ópera Urbana…Related image

Ao pé de sua criança, de Pablo Neruda

 

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O pé da criança ainda não sabe que é pé,
e quer ser borboleta ou maçã.

Mas depois os vidros e as pedras,
as ruas, as escadas,
e os caminhos de terra dura
vão ensinando ao pé que não pode voar,
que não pode ser fruta redonda num ramo.

Então o pé da criança
foi derrotado, caiu
na batalha,
foi prisioneiro,
condenado a viver num sapato.

Pouco a pouco sem luz
foi conhecendo o mundo à sua maneira,
sem conhecer o outro pé, encerrado,
explorando a vida como um cego.

 

* Pablo Neruda (1904-1973) foi um poeta chileno, considerado um dos mais importantes escritores em língua castelhana. Recebeu o Premio Nobel de Literatura em 1971.

** A fotografia foi colhida da internet, a autoria é desconhecida. Se souber, pode nos informar por mensagem nos comentários.

se eu fosse um grande gigante

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Eu me lembro de muitos formigueiros na minha infância. Uma vez, na praia, catei uma pedaço de cano para brincar. Achei tão divertido aquele objeto furado que deixava escorrer a areia de dentro que nem me dei conta da colônia de formiguinhas vermelhas subindo pelo meu braço. Fiquei uns dias me coçando. Pele ardida, vermelha que nem formiga. Agora me dei conta, difícil achar daquelas formiguinhas vermelhas. Nunca mais vi.

Outra vez, era eu regando as plantas do jardim de casa quando descobri uma montanha entre bromélias. O formigueiro era tão grande, mas tão grande, que eu supus ter uma rainha do tamanho de uma centopeia. Foi só por isso que eu espichei a água da mangueira dentro do formigueiro até desmanchar tudo. Pura curiosidade. Inocência. Procurando a rainha, esqueci que o exército caminhava entre os meus dedos dos pés.

Aprendi na vidinha prática de criança que as formigas sabem lutar de maneira silenciosa. Atacam seus inimigos sem que eles percebam. Quando o agressor dá conta, tá todo picado. Foi assim comigo, várias vezes.

Quando eu era pequena tinha verdadeiro fascínio por formigas e formigueiros. Ficava pensando o que elas comiam, se tinha um quarto pra dormirem, se haviam escadas para andar de um lugar para outro, como funcionava aquele condomínio de milhares de seres inquietos, tudo sem desmoronar.

Detalhe, depois de aguar o formigueiro, acordei o dia seguinte com um formigueiro novinho em folha. Elas, as incansáveis. Nenhuma desistiu. Todas juntas. Ninguém soltou a mão de ninguém.

A sorte de observar essas coisas quando se é pequeno, criança inocente e fatalmente alvo de picadas em resposta da abusada curiosidade, é que a gente cresce consciente que somos mínimos na imensidão que é o mundo.

Se eu era, para aquelas formigas do passado, uma grande gigante, aos meus 5, 6, 7 anos, hoje, por contemplá-las de tão perto, tenho convicção que a natureza é absolutamente maior e mais inteligente. Já reparou samambaia brotando no meio do asfalto? Como consegue sobreviver a semente fincada sem terra, sem água, sem uma sombra…

É, feliz a pessoa que segue a vida plena de sua ‘pequenitude’. Uma formiguinha que abraça as outras pessoas, que não abre mão de ninguém por menor que pareça, e assim se faz imenso gigante…

* Uma dica sobre formigas, gigantes, gente pequena e dose generosa de carinho, Se eu fosse um grande gigante,  de Guridi, com selo da Editora Pulo do Gato.

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Velha Contrabandista, Stanislaw Ponte Preta

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Diz que era uma velhinha que sabia andar de lambreta. Todo dia ela passava pela fronteira montada na lambreta, com um bruto saco atrás da lambreta. O pessoal da Alfândega – tudo malandro velho – começou a desconfiar da velhinha.

Um dia, quando ela vinha na lambreta com o saco atrás, o fiscal da Alfândega mandou ela parar. A velhinha parou e então o fiscal perguntou assim pra ela:

– Escuta aqui, vovozinha, a senhora passa por aqui todo dia, com esse saco aí atrás. Que diabo a senhora leva nesse saco?

A velhinha sorriu com os poucos dentes que lhe restavam e mais os outros, que ela adquirira no odontólogo e respondeu:

– É areia!

Aí quem sorriu foi o fiscal. Achou que não era areia nenhuma e mandou a velhinha saltar da lambreta para examinar o saco.

A velhinha saltou, o fiscal esvaziou o saco e dentro só tinha areia. Muito encabulado, ordenou à velhinha que fosse em frente. Ela montou na lambreta e foi embora, com o saco de areia atrás. Mas o fiscal ficou desconfiado ainda. Talvez a velhinha passasse um dia com areia e no outro com muamba, dentro daquele maldito saco.

No dia seguinte, quando ela passou na lambreta com o saco atrás, o fiscal mandou parar outra vez. Perguntou o que é que ela levava no saco e ela respondeu que era areia, uai! O fiscal examinou e era mesmo. Durante um mês seguido o fiscal interceptou a velhinha e, todas as vezes, o que ela levava no saco era areia. Diz que foi aí que o fiscal se chateou:

– Olha, vovozinha, eu sou fiscal de alfândega com 40 anos de serviço. Manjo essa coisa de contrabando pra burro. Ninguém me tira da cabeça que a senhora é contrabandista.

– Mas no saco só tem areia! – insistiu a velhinha.

E já ia tocar a lambreta, quando o fiscal propôs:

– Eu prometo à senhora que deixo a senhora passar. Não dou parte, não apreendo, não conto nada a ninguém, mas a senhora vai me dizer: qual é o contrabando que a senhora está passando por aqui todos os dias?

– O senhor promete que não “espaia” ? – quis saber a velhinha.

– Juro – respondeu o fiscal.

– É lambreta.

Poetas populares

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A nossa poesia é uma só
Eu não vejo razão pra separar
Todo o conhecimento que está cá
Foi trazido dentro de um só mocó

E ao chegar aqui abriram o nó
E foi como se ela saísse do ovo
A poesia recebeu sangue novo
Elementos deveras salutares

Os nomes dos poetas populares
Deveriam estar na boca do povo
No contexto de uma sala de aula
Não estarem esses nomes me dá pena

A escola devia ensinar
Pro aluno não me achar um bobo
Sem saber que os nomes que eu louvo
São vates de muitas qualidades.
O aluno devia bater palma

Saber de cada um o nome todo
Se sentir satisfeito e orgulhoso
E falar deles para os de menor idade
Os nomes dos poetas populares.

 

– Antônio Vieira, o poeta