a mendiga

“Contam os mais velhos que, há muito tempo, numa fazenda, vivia um homem muito avarento, que não dava esmola para ninguém. Certo dia, escutando batidas na porta da frente, ele foi atender e encontrou uma mendiga quase morta de fome, implorando por um prato de comida. O bruto não só lhe negou a comida como também a expulsou da fazenda com xingamentos e ameaças. A pobrezinha, não tendo outro jeito rompeu; mas estava tão fraca que não conseguiu andar muito e, um pouco adiante, acabou caindo para não mais se levantar.

Pouco depois de ela ter saído, o fazendeiro foi tocado pelo remorso e resolveu procurá-la. Adiante a encontrou morta. Arrependido, providenciou mortalha e caixão e a pedinte foi enterrada no mesmo local em que morrera.

No outro dia, cedinho, o fazendeiro ouviu algo semelhante a batidas na porta. Ao sair, ele deparou com um quadro assustador: estavam na sua frente a mortalha e o caixão com que a morta havia sido sepultada. Entendeu, mesmo tarde, que ela o que ela precisava mesmo era um prato de comida e tudo o mais lhe era inútil.

E ainda há hoje gente que nega o valor da caridade!”

 

Marco Haurélio nos reconta essa história da tradição oral, como lhe contou  Joana Batista Rocha RamosIgaporã, Bahia.

In: Contos e Fábulas do Brasil, Nova Alexandria, 2011.

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*  Marco Haurélio, poeta e pesquisador da literatura e das histórias da tradição oral,  nasceu em Ponta da Serra, Bahia. Conviveu, desde cedo, com as manifestações da cultura popular, como reisados, procissões, festas de padroeiros. Na própria família, Marco se aproximou do contar de histórias e muito de seu trabalho retoma essas conversas com os seus familiares. Entre seus livros, estão: Contos folclóricos brasileiros(Paulus), Contos e fábulas do Brasil (Nova Alexandria), Os três conselhos sagradosPresepadas de Chicó e astúcias de João GriloBelisfronte, o filho do pescador (Luzeiro), Galopando o cavalo (Pensamento), As três folhas da serpente (Tupynanquim), A lenda do Saci-Pererê em cordel e Traquinagens de João Grilo (Paulus).

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Angela Lago, um abraço…

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Sou uma escritora e narradora de histórias apaixonada por contos de morte. Algumas pessoas podem achar isso estranho, mas explico, a morte pra mim é a própria vida. Todos os dias, ou noites, experimentamos entregar nossa consciência para o escuro. Partimos para uma viagem ao desconhecido. Depois voltamos como quem vem do além. Cheios de sonhos. Cheios de mistérios que buscamos significar. Entre as histórias que gosto muito de contar, uma tá no topo da lista. De morte!, conto escrito por Angela Lago. Encontrei o livro numa caçamba pra lixo. Quando li o título – zapt! – resgatei da morte, sequestrei a história pra mim. Acontece, porém, contudo, todavia… que eu, sorrateiramente, troquei a personagem principal. Era um velho espertalhão e eu transformei numa velha inteligente, mais astuta do que o diabo. Contei uns par de vezes essa história por aí. Um dia, por prudência já amanhecida, escrevi pra Angela Lago. Resolvi contar pra autora que eu tinha mexido um tantinho na personagem dela… Esperei uma bronca, claro, que folga a minha. Mas antes da bronca, justifiquei.

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“Sabe, Angela, a astúcia com que a trama se desenvolve só pode ser coisa de mulher, uma inteligência matreira que sabe olhar lá na frente onde ninguém mais enxerga. Ocê acha ruim?”

” Menina, você me fez ver uma coisa que eu num tinha visto antes.” – Angela, respirou. ” Se eu mexer numa edição desse conto, vou trocar por uma velha desse jeitinho.”
Recentemente, a gente se encontrou. Retomei o assunto. Ela reforçou que eu poderia contar toda história dela que eu quisesse, podendo mexer nelas com meu ‘jeitinho’. Falei pra ela que a voz narradora é um brinquedo de monta e desmonta. A gente se abraçou. Eu beijei as mãos dela, agradecida. Ela devolveu o beijo, gentil que só ela.

O encontro com Angela fez com que eu redobrasse o valor do seu conto. Como foi bom ter ressuscitado aquele livro da caçamba. Coisa de véia astuta que nem eu. Coisa de quem dá nó até em pingo d’água de São Pedro… E por falar nele, hoje deve ter festa no céu, e vai ter fila pra beijar as mãos da convidada de honra.

 

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* Angela Lago (1945-2017), nasceu em Belo Horizonte. Escritora e ilustradora, com formação superior na Escola de Serviço Social da Universidade Católica de Minas Gerais. Frequentou o atelier do escultor Bitter, com um grupo de artistas plásticos. Em 1969, lecionava na Escola de Serviço Social e trabalhava como assistente no Instituto Psico-Pedagógico, para crianças com dificuldades psico-pedagógicas e psiquiátricas. Em 1975, abriu seu próprio atelier de programação visual para publicidade, onde criou marcas, logotipos, propaganda institucional entre outros. Como autora, produziu diversas obras contendo ilustrações e textos próprios nacionais, ilustrações de livros para outros autores nacionais, livros com textos e ilustrações da autora no exterior, ilustrações para livros de outros autores estrangeiros. Das diversas obras, destacam-se:

  • Cena de Rua, Editora RHJ, Belo Horizonte, 1994
  • Tampinha, Editora Moderna, São Paulo, 1994
  • A festa no céu, Editora Melhoramentos, São Paulo, 1995
  • Uma palavra só, Editora Moderna, São Paulo, 1996
  • Um ano novo danado de bom, Editora Moderna, São Paulo, 1997
  • A novela da panela, Editora Moderna, São Paulo, 1999
  • Indo não sei aonde buscar não sei o quê, Editora RHJ, Belo Horizonte, 2000
  • Sete histórias para sacudir o esqueleto, Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2002
  • A banguelinha, Editora Moderna, São Paulo, 2002
  • Muito capeta, Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2004
  • A raça perfeita, Ângela Lago e Gisele Lotufo, Editora Projeto, Rio Grande do Sul, 2004
  • A casa da onça e do bode, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2005
  • A flauta do tatu, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2005
  • O bicho folharal, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2005
  • João felizardo, o rei dos negócios, Cosac-Naif, São Paulo, 2006
  • Um livro de horas, Editora Scipione, São Paulo, 2008

 

* Leia, também a homenagem do Blog da Cia das Letrinhas.

Carolina de Jesus e o Livro

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Carolina Maria de Jesus nasceu na zona rural de Minas Gerais, estudou até o segundo ano primário, foi católica devota embora sua mãe tivesse sido banida da Igreja por conta de parir filhos ilegítimos. Adulta, foi parar em São Paulo, trabalhando como catadora de recicláveis. Moradora da comunidade do Canindé, zona norte paulista, Carolina registrava o cotidiano das pessoas em seu diário, o que viria a formar seu primeiro livro e a obra consagrada de uma das primeiras escritoras negras do Brasil.
Mudou-se para a capital paulista em 1947, num momento em que surgiam as primeiras favelas na cidade, e apesar do pouco estudo, escreveu mais de vinte cadernos com testemunhos sobre a favela. Seu livro, Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, publicado em 1960, teve mais de 100 mil exemplares vendidos, tradução para 13 idiomas e vendas em mais de 40 países. No entanto, Carolina de Jesus morreu em 1977, aos 62 anos,  pobre e esquecida.
* Eu sou Penélope Martins, e este post também pode ser lido no Blog português Clube de Leitores, para onde escrevo, aqui do Brasil, criando uma ponte para unir lusófonos na leitura, porque LER é do borogodó.

menina mal amada, por Cora Coralina

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“(…)
Menina atrasada da escola da mestra Silvina…

(…)

Vamos ver, agora, como faz a Coralina…
Nesse tempo, já não era inzoneira. Recebi denominação maior, alto lá! Francesa.
Passei a ser detraquê, devo dizer, isto na família.
A família limitava, Jamais um pequeno estímulo.

(…)

Fui menina chorona, enjoada, moleirona.
Depois inzoneira, malina.
Depois, exibida. Detraquê.
Até em francês eu fui marcada.
Sim, que aquela gente do passado,
tinha sempre à mão o seu francês. ”

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* Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas. Nascida em Goiás, aos 20 de agosto de 1889, morreu em 1985, depois de somar os anos como doceira e escritora rica em motivos cotidianos. Alheia aos modismos literários, Cora atingiu o máximo da liberdade sendo ela mesma na sua obra.

um papo com Eva Furnari, por Cristiane Rogério

“Tenho falado bastante de Eva Furnari por aqui. Mas ninguém há de reclamar: assim é falar desta artista brasileira, que faz parte da minha infância e de tantos, tantos brasileiros. No primeiro minidocumentário do Esconderijos do Tempo, Ricardo Fiorotto e eu compartilhamos com vocês alguns minutos de horas e horas de conversas com ela que, de alguma forma, reflete meus anos de pesquisa na área de literatura infantil. Aqui, meu respeito pela NOSSA literatura infantil brasileira, as artes plásticas, a ilustração como arte, a palavra no nonsense, a paixão no momento de narrar uma história, a dedicação em transformar infâncias.”

– Cristiane Rogério, jornalista e autora de literatura infantil –

sobre um poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder

* Nota de falecimento. Nesta terça-feira, morreu o poeta Herberto Hélder, aos 84 anos. O poeta que nasceu em 1930 no Funchal morreu em casa, em Cascais. Fez questão de se manter no anonimato, por isso não dava entrevistas, desejando ser conhecido por sua poesia. Leia a notícia no link do Diário de Notícias – Morreu o poeta Herberto Hélder.