Carolina de Jesus e o Livro

A imagem pode conter: 1 pessoa, texto

Carolina Maria de Jesus nasceu na zona rural de Minas Gerais, estudou até o segundo ano primário, foi católica devota embora sua mãe tivesse sido banida da Igreja por conta de parir filhos ilegítimos. Adulta, foi parar em São Paulo, trabalhando como catadora de recicláveis. Moradora da comunidade do Canindé, zona norte paulista, Carolina registrava o cotidiano das pessoas em seu diário, o que viria a formar seu primeiro livro e a obra consagrada de uma das primeiras escritoras negras do Brasil.
Mudou-se para a capital paulista em 1947, num momento em que surgiam as primeiras favelas na cidade, e apesar do pouco estudo, escreveu mais de vinte cadernos com testemunhos sobre a favela. Seu livro, Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, publicado em 1960, teve mais de 100 mil exemplares vendidos, tradução para 13 idiomas e vendas em mais de 40 países. No entanto, Carolina de Jesus morreu em 1977, aos 62 anos,  pobre e esquecida.
* Eu sou Penélope Martins, e este post também pode ser lido no Blog português Clube de Leitores, para onde escrevo, aqui do Brasil, criando uma ponte para unir lusófonos na leitura, porque LER é do borogodó.

menina mal amada, por Cora Coralina

Image result for cora coralina biografia

“(…)
Menina atrasada da escola da mestra Silvina…

(…)

Vamos ver, agora, como faz a Coralina…
Nesse tempo, já não era inzoneira. Recebi denominação maior, alto lá! Francesa.
Passei a ser detraquê, devo dizer, isto na família.
A família limitava, Jamais um pequeno estímulo.

(…)

Fui menina chorona, enjoada, moleirona.
Depois inzoneira, malina.
Depois, exibida. Detraquê.
Até em francês eu fui marcada.
Sim, que aquela gente do passado,
tinha sempre à mão o seu francês. ”

Image result for cora coralina biografia

* Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas. Nascida em Goiás, aos 20 de agosto de 1889, morreu em 1985, depois de somar os anos como doceira e escritora rica em motivos cotidianos. Alheia aos modismos literários, Cora atingiu o máximo da liberdade sendo ela mesma na sua obra.

um papo com Eva Furnari, por Cristiane Rogério

“Tenho falado bastante de Eva Furnari por aqui. Mas ninguém há de reclamar: assim é falar desta artista brasileira, que faz parte da minha infância e de tantos, tantos brasileiros. No primeiro minidocumentário do Esconderijos do Tempo, Ricardo Fiorotto e eu compartilhamos com vocês alguns minutos de horas e horas de conversas com ela que, de alguma forma, reflete meus anos de pesquisa na área de literatura infantil. Aqui, meu respeito pela NOSSA literatura infantil brasileira, as artes plásticas, a ilustração como arte, a palavra no nonsense, a paixão no momento de narrar uma história, a dedicação em transformar infâncias.”

– Cristiane Rogério, jornalista e autora de literatura infantil –

sobre um poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder

* Nota de falecimento. Nesta terça-feira, morreu o poeta Herberto Hélder, aos 84 anos. O poeta que nasceu em 1930 no Funchal morreu em casa, em Cascais. Fez questão de se manter no anonimato, por isso não dava entrevistas, desejando ser conhecido por sua poesia. Leia a notícia no link do Diário de Notícias – Morreu o poeta Herberto Hélder.

E você, já encantou seu mundo hoje?

Tenho uma amiga com uma cabeleira linda, os olhos grandes castanhos que parecem jabuticabas docinhas, e uma boca que fica iluminada com as cores que ela pinta. O nome dela é Ana Zarco Câmara, ela é escritora, poeta, brincante com as palavras. E advivinha só, Ana escreveu um livro delicioso para dizer cabelo de menina.

Eu bem me lembro, quando pequenina, não tinha fivela que parasse nos meus cabelos. Aquilo escorregava feito quiabo. Era uma chatice. Quando eu ficava com minha mãe em casa, pedia trancinhas na cabeça toda, bem fininhas, para depois soltar e ficar com uma enorme cabeleira. Na adolescência enrolei os cabelos diversas vezes. Não queria ser tão lisa, aquilo pra mim era sem graça. Hoje eu gosto dos meus cabelos, mas sempre me imagino com um mundo imenso na cuca… Deve ser muito bom ter um cabelo igual ao de Ana.

Por isso, convidei minha amiga para contar aqui algo sobre ser menina e poder se expressar com tudo que se é. E Ana disse bem assim:

“Assim, certinho, certinho, eu não sei dizer as datas. Mas quer saber? Foi mais ou menos o mesmo tempo que deixei engavetados meus manuscritos de “O cabelo de Cora” e meus próprios cachinhos. Se isso quer dizer alguma coisa não sei, mas leva a pensar.  Engavetamentos podem durar uma vida toda, amarelam não somente o papel mas ideias. Não somente o objeto, mas os conceitos. O que nos leva a engavetar é por vezes tão misterioso quanto o que nos leva a desengavetar, a reintegrar as coisas a um universo de sentido. Quando meus cachinhos deixaram de fazer sentido? Bom, talvez , como ocorre com tantas crespas e cacheadas, eles não tenham chegado verdadeiramente a fazer sentido por muito tempo. Durante quase toda a minha vida, meus cabelos sequer foram concebidos simplesmente como uma das características que me identificam, como a cor dos olhos ou o tamanho das mãos.

Possivelmente os cabelos de textura distinta do padrão, mas que estão na maioria das cabeças dos brasileiros, sejam para tantas (os) de nós durante anos como a orelha que consideramos grande, o queixo que enxergamos desproporcional, o nariz, que desconcerta na hora das fotos de perfil. Não uma característica, mas um erro, como se obra de distração do demiurgo, já que nos cegamos à possibilidade de que aquela diferença tantas vezes será nossa assinatura, linda como as de caderno de caligrafia. Não nascemos com este desconforto, mas a cada olhar, a cada capa de revista, e  no caso da minha geração, com a indisponibilidade de produtos adequados aliada ao desconhecimento de como usá-los, o cabelo ganha definitivamente aquele selo de “non grato“, e torna-se mais um obstáculo que uma ponte, mais uma coroa de espinhos que de rainha. Definitivamente ou até que o reencantamento aconteça, como um desfazer de feitiço, capaz de re-transformar sapo em príncipe e fazer princesa acordar de longo sono.

O que desengaveta sonhos a não ser o reencantamento? Foi preciso renovar os horizontes da vida para no momento oportuno, após mais de dez anos, desengavetar meu texto, “O cabelo de Cora”. Da mesma forma, foi necessário que a personagem influenciasse a autora, a criação mudasse os rumos da criadora, que Cora agora desengavetada e  materializada pelas mágicas mãos de Taline Schubach, reencantasse meu mundo exatamente da mesma forma que fez, faz e fará com o mundo de tantas crianças e adultos. Esse toque mágico mantém o mundo exatamente como antes, mas renova nosso olhar para ele. O cabelo é o mesmo, os desafios também. Continuamos a ter todas as possibilidades de experimentar nossa imagem, mudar a paleta de cores de nossos cabelos, fazer pinturas no rosto, para a guerra ou para o baile. Podemos e sempre poderemos brincar com nossas texturas e alquimicamente manipular a estrutura de nossos fios. O que mudou então? Que agora isso é realmente uma opção, dentre várias. E que não precisamos lamentar o crescimento natural de nosso cabelo, aquela raiz crescida que insiste em não se adequar ao já “disciplinado” comprimento. Que nada nos obriga a colocar em risco a própria saúde recorrendo a substâncias tóxicas somente porque é como dizem que deve ser.

Não, não fica estranho fazer carão de linda com aquele volume… E digo mais: você não precisa jogar o cabelo no lixo para ir a uma festa, não é crime sair de casa com frizz (e é um charme), não sai no Diário Oficial umday after ruim. Ou nunca passamos por maus momentos com os cabelos alisados? Então. Mas nenhum day after desastroso consegue demover a rainha de seu trono, se seu olhar, seu sorriso, seus gestos, estilo e personalidade,  fazem corar qualquer súdito, se ela apresenta sua coroa como jóia com incrustados rubis. Aliás, as rainhas, princesas e fadas de nosso imaginário infantil, de cabelos lisos, hoje morrem de inveja de nossas rainhas de cabelos densos e volumosos, livres para exercer seu reinado. Não porque sejamos mais belas do que elas, mas porque hoje não é essa beleza terceirizada que guia nosso olhar. Aqueles profissionais da beleza que tantas vezes fizeram chacota com essa beleza (muito nossa, sim senhor), hoje recebem de tantas de nós um “Obrigada, não sou obrigada”, quando da oferta exclusiva de escovas e alisamentos como procedimentos possíveis para nossos cabelos, que  intentam exatamente, engavetá-los.  A propósito, sabe o que a gente poderia engavetar para sempre? Nossos medos,  inseguranças, aquele pensamento insistente sobre o o que o outro pensa de nós, a vontade de estar igual aos demais. Nosso pertencimento ao mundo não demanda que sejamos iguais. Ao contrário, é nossa singularidade que criará novos e lindos mundos, onde só entra quem a gente quiser. Como no baile do conto de fadas, em que recebe-se em casa o convite, intransferível.

E você, já encantou seu mundo hoje?”

*Day after – Dia(s) após lavar os cabelos, em que precisamos finalizar e modelar os fios, que tendem a apresentar frizz.

– Ana Zarco Câmara –

ana

Minha amiga Ana Zarco Câmara, nasceu no Rio de Janeiro, fez doutorado em filosofia e é professora da Universidade Federal Fluminense. Criança ainda hoje, adora se fantasiar, brincar com seus gatinhos, sentir cheiro de chuva e comer sobremesa. Mora numa casa cercada pela floresta e recebe ilustres visitas no seu quintal, como pica−paus, porcos−espinhos, beija−flores e gambás. Ana é casada e tem dois filhos: os lindos Dimitri, de 10 anos, e Petra, de 4 aninhos (a Corinha dela).O cabelo de Cora, publicado pela Editora da Pallas, é a primeira experiência de Ana no universo da literatura infantil. Deste universo, ela não pretende mais sair. E a gente também quer que ela não saia!

QUINTANA, LEMINSKI E O MUNDO INVENTADO DE MACAQUINHOS NO SÓTÃO, por Vanessa Balula

Pra mim poesia é assim: gosto ou não gosto. Faz cosquinha? Gosto. Emociona, gosto. Tem música, gosto. Esquisita, distante, pedante, empolada, não gosto.

imagem 1_ post de 10 de abril 2014

Ah! A métrica, a rima rica(?!), a prima pobre (sic) e a isso a aquilo a aa a  aa não sei. Gosto ou não gosto. Depende do quê? Do gosto. Da memória. Do que toca lá dentro. Feito Leminski, “(…) era uma língua bonita, música, mais que palavra”. Bem assim.

E poesia pra mim não tem muito esse papo de idade. Verso bom é verso que conquista, arrebata, integra, tatua e balança.Verso bom faz ventar.

Digo e provo. Ó: quem diz que os versos de Raul Bopp no poema “Cobra Norato”, escrito lá na década de 30, não podem embalar a noite de sonhos de seus filhotes: “(…) Um dia / eu hei de morar nas terras do Sem-fim / (…) Faz de conta que há luar / A noite chega de mansinho / Estrelas conversam em voz baixa”. E Veríssimo, o Luis Fernando, com os versos “(…) Calma / Devagarinho / Como quem abre o estojo do mundo com um aramezinho”, não pontuaria com mágica um dia comum na ida para a escola? E mais uma vez Leminski com sua “Dança na Chuva”: “senhorita chuva /  me concede a honra / desta contradança” – não seria um bom companheiro nas tardes sem videogame?

“Lili inventa o mundo” de Quintana – por vezes perdido e esquecido lá nas prateleiras dos livros infantis – tem recheio de minicontos com gostinho de poesia.

E que ‘gente grande’ não abriria sorriso de norte a sul com o verso “Eu te amo como se ama um cachorrinho verde”? Ou não mergulharia nas colheradas de infância feliz com os versos de Penélope Martins: “QUERO MORAR NUM SORVETE! (…)Uma casinha de sorvete. Sem calda de caramelo ou chantilly / Sem confeito que derreta por aqui /Uma casinha de sorvete /Não quero nada chique, complicado /Tralhas que deixam tudo melecado”.

E quem não leu Cecília? E quem não leu “Ou isto ou aquilo”? E quem não tem já pronto no repertório do ouvido a “língua do nhem”? “(…)Depois veio o cachorro

/ da casa da vizinha, pato, cabra e galinha, / de cá, de lá, de além, / e todos aprenderam / a falar noite e dia / naquela melodia  / nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem…” Quem me lembrou desse poema foi a vó Mara que povoa a infância do Biel com afeto e poesia – e a nossa vida também!

Para não mais dizer, Veríssimo me toma novamente o post: “(…) uma poesia não é feita com palavras”.

Poesia é mesmo pra gostar. “Poesia numa hora dessas” e em todas. Em doses nada homeopáticas para toda a família.

Aqui a biblioteca do P de poesia para ter para sempre no seu travesseiro de folhas.

“Lili inventa o mundo” de Mário Quintana pela Global Editora com as ilustras-ilustres de Suppa.

“Toda Poesia” de Paulo Leminski pela Companhia das Letras.

“Ou isto ou aquilo” de Cecília Meireles – que merecem um post só pra eles; ela e o livro! – também pela Global Editora. Com as ilustras-ilustres de Odilon Moraes.

Mais de Cecília Meireles aqui em sua última entrevista para a Revista Bula. Vale a leitura.

Mais da moça que também leva o pê da poesia no nome, Penélope Martins aqui .

E mais do traço de Tati Moes que aqui ilustra (mais do que ilustre!) o “Quintalzinho”. Mais da moça e tudo,aqui.

 por

assinatura 2014

 

* Quer acompanhar a Vanessa Baula, é só espalhar macaquinhos no sótão!

Clique aqui: http://blog.orangotangoloja.com.br/?p=4058