a arca de noé

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Minha filha, certo dia, perguntou-me sobre os planos divinos, se eles eram de todo bons ou se alguma ideia era falível.

Eu disse que eu não sabia o que a Criação pretendia, tamanha a complexidade que fez gerar campo e cidade.

Mas a menina, não contente, com minha explicação evasiva, disse-me que Deus, por seus erros, devia a nós uma missiva.

Com espanto eu ouvia a criatura expondo na grande arquitetura múltiplas falhas, projetos inúteis, criações horrendas e coisas fúteis.

Mas de toda explicação, o que mais chamou minha atenção, foi a análise da menina sobre o dia em que a Terra encheu, e ao homem, Noé, a missão se estendeu.

Pois se Deus tinha errado ao inventar barata, rato, pomba, aranha e mosquito, Noé poderia salvar nosso Planeta desse conflito.

E eu, mãe dessa pequena de pensar raro, concordei com o benefício do reparo, corri tirar da imensa arca: rã, serpente e bolsonaro.

Agora é com você, leitor e leitora dessa história, se ainda não conhece de lá da Arca o bafafá, corra buscar melhor rima e boa métrica no livro de Marco Haurélio sabido cantador poeta.

 

 

*

Bafafá na Arca de Noé, texto de Marco Haurélio e ilustrações de Anabella Lopez, selo da Editora DCL.

Sinopse:  Então uma chuva enorme estava para cair e Noé construiu uma arca bem grande para abrigar sua família e também um casal de cada espécie de animal. Mas não é que, entre os bichinhos, apareceu um muito estranho que ninguém sabia dizer o que era?! Pois é assim que começa este Bafafá na Arca de Noé!

Uma fábula contada em versos, com muito humor, que mostra como as diferenças fazem parte da vida dos bichos e dos homens.

O livro pode ser encontrado aqui!

 

 

 

 

 

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uma mulher negra

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O que pretende essa autora que reúne quinze histórias de mulheres negras, todas destinadas ao esquecimento por força de um flagrante racismo que dilacera nossa cultura?

O que pretende essa autora ao contar as histórias em versos, como se para nós cantasse a ancestralidade,  e encerrar cada uma delas com uma breve e precisa biografia que corporifica a experiência de leitura?

O que pretende essa autora que, ao final do livro, convida sua leitora e seu leitor a escrever nas linhas vazias uma história de uma heroína negra que tenha marcado sua  vida?

Jarid Arraes é essa autora. Uma escritora que pensa o seu tempo à luz da história e que não deixa esvaziar as palavras capazes de registrar os signos e os significados de cada episódio.

Heroínas Negras Brasileiras é meu primeiro encontro com Jarid. Primeiro eu tomei o livro num único gole, sedenta de saber quem, onde e os inúmeros porquês. Um sentimento de orgulho me envolve. Nem eu mesma sei a razão disso. Jarid é uma mulher, eu também sou uma mulher, e isso me comove com uma simplicidade pueril de quem reconhece na outra algo de si. Depois afasto o livro, sem esquecer dele. Deixo por perto,  vou lá de vez em quando e leio uma história, leio as biografias. Fecho o livro e um golpe me acerta o meio do peito. Já não vejo Jarid. São dezesseis mulheres me olhando pelas páginas do livro. Na verdade, o dia de hoje, são dezessete mulheres, porque também vejo escrito em vermelho o nome de Marielle.

Ontem, hoje. Voltei ao livro de Jarid não por acaso.  Li, disse em voz alta, escutei as vozes, como descreveu Cecília Bajour em seu livro Ouvir nas Entrelinhas*, deixei vir lágrimas, sorri de satisfação, refleti profundamente sobre quem, onde e inúmeros porquês.

Ao final do livro, a maturidade da escritora Jarid Arraes nos atravessa. Um convite ao reconto – linhas vazias para que completemos ali com uma história de uma mulher negra que tenha marcado a nossa vida.

Sim, talvez eu não tenha mencionado até agora, Jarid é uma mulher negra. Uma escritora mulher e negra. E foi a escritora que é essa mulher negra que me fez encolher os ombros na poltrona e voltar ao lugar originário de mim mesma, lá no colo de Zinha, ou nas broncas que eu ouvia de Zezé.

O que Jarid pretende com esse livro talvez somente ela possa responder. Para mim, mulher branca, mãe de um garoto negro mas ainda mulher branca, que ontem foi menina criada pelas mãos de duas mulheres negras, mas que ainda assim era uma menina branca – e agora, mulher branca cada vez mais consciente do que essa condição representa, Jarid quis recontar a história ressignificando as nossas trajetórias.

Fica sempre a pergunta pairando no ar, quem são nossas heroínas, nossos heróis…

E eu não vou falar da importância desse livro para meninas porque é explícita. E eu não posso falar da relevância dessa voz para as meninas negras porque eu, embora tenha empatia, não vivencio o lugar dessas meninas. Mas fica aqui, até a última letra do meu texto, a generosa partilha que vem da voz narrativa dessa escritora, Jarid Arraes, a convicção de que essas histórias não serão esquecidas.

 

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Serviço:

Para comprar Heroínas Negras, de Jarid Arraes, visite: https://polenlivros.lojavirtualnuvem.com.br/

* Ouvir nas Entrelinhas, de Cecília Bajour, está disponível com selo da Editora Pulo do Gato: https://editorapulodogato.lojaintegrada.com.br/

Histórias de ninar para garotas rebeldes

 

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Uma das histórias de mulheres que mais me impressionou, ouvi de minha avó Laura. Aquilo ficou martelando durante a adolescência, mas acho que só depois de adulta é que fui entender a dimensão do estrago…

Minha avó foi uma das filhas de uma casamento entre um italiano e uma portuguesa da Ilha da Madeira. Enquanto o pai era super pra frentex, a ponto de levá-la para cantar no rádio aos 13 anos, a mãe se tornou uma exímia conservadora, chegou a bater na minha avó com um pedaço de madeira e cravar um prego em uma de suas pernas. (Minha avó sempre me mostrava a cicatriz.)

A bisavó perdeu o marido muito cedo e ficou só, com cinco filhas mulheres, na sina de criar todas para o bom casamento, longe das línguas ferinas que, vez por outra, falavam que o bolo ia desandar naquela casa onde uma viúva não tinha um homem pra botar pulso firme.

Não posso me queixar do meu avô. Era amoroso comigo, pelo menos. Foi ele quem me ensinou a escutar o rádio com atenção e valorizar cada verso dos cantadores de viola. Não é por acaso que tenho essa referência tão forte quando lido com o letramento pela oralidade. Acontece que  esse mesmo homem, ainda namorado da avó, foi culpado por múltiplas violências contra a minha avó e contra os filhos que tiveram juntos… Um dia, foi buscar a moça para um passeio e a encontrou com as unhas esmaltadas de vermelho.

– Vá tirar esse esmalte, Laura. Isso num é coisa de mulher direita.

Minha avó ficou indignada. Ela trabalhava desde muito cedo na fábrica das alpargatas. Tinha salário, tinha jeito com as pessoas. Laura poderia ter sido uma administradora tamanha era sua habilidade com a matemática e com a gestão de recursos (meu avô foi prova disso por décadas, enquanto ela controlava todos os gastos da casa no esmero de não dever pra ninguém, fazendo render os poucos bifes – quando havia bife).

A madrinha de Laura estava na casa, naquele dia fatídico do esmalte vermelho e da voz de comando.

– Obedece seu noivo, menina. O que custa tirar um esmalte?

Custou. Foram 54 anos de um casamento custoso. Minha avó não foi mais trabalhar fora de casa. Nunca mais ousou cores, nem opiniões. Quer dizer, nunca mais até completar os tais 54 anos de casada, no seu aniversário de 72 anos, quando ela fez a malinha de roupas e deixou pra trás a casa e o avô.

O vidro de acetona transformou Laura num coração agingantado batendo com todo esforço, e pouco ar nos pulmões.

Eu compreendi a dimensão da história só quando me despedi da minha avó. Ela tinha tudo para se tornar uma mulher rebelde no melhor sentido da palavra.

Vermelho é cor de vida, feito o sangue da gente.

(Hoje, insisto contar histórias que libertam minha filha.)

 

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o gato

 

  • O gato é um poema que integra A Arca de Noé, de Vinícius de Moraes e foi musicado junto com a maior parte do livro para integrar um projeto grandioso para televisão, no princípio dos anos 80, com a participação de grandes artistas da música brasileira, como Elis Regina, Ney Matogrosso, Moraes Moreira, Toquinho e outros. A primeira gravação dO gato foi com a cantora Marina. Com nova versão, 30 anos depois, na voz de Mart’nália, O gato ganhou uma animação em ritmo acelerado.

para Maria da Graça

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Agora, que chegaste à idade avançada de quinze anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas. 

Este livro é doido, Maria. Isto é, o sentido dele está em ti. Escuta: se não descobrires um sentido na loucura, acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. 

A realidade, Maria, é louca. 

Nem o papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?”

Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é o lugar comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrastes essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.

A sozinhez (esquece essa palavra feia que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice versa, isto é, fechar uma porta bem aberta. 

Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo. 

Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave. 

A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes ao dia: “Oh, I beg your pardon!”. Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gatos se fosse eu?”. 

Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! Mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não sabe quem venceu. Se tiveres que ir a algum lugar, não te preocupes com a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste. 

Disse o ratinho: “Minha historia é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance.” Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só um jeito de contar um vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos, irremediáveis, Maria. 

Os milagres acontecem sempre na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrario do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo”. Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente. 

E escuta essa parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo como hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma maquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar em disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor. 

Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado Maria, com as grandes ocasiões. 

Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”. 

Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: é feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira da nossa dor, Maria da Graça.”


– Paulo Mendes Campos

Alto, baixo, num sussurro

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Romana Romanyshyn e Andriy Lesiv nasceram na Ucrânia, em Lviv.

Agora repita comigo essa palavra LVIV, fazendo do ‘ele’ uma ponte que liga a extremidade dos incisos superiores – seus dentes da frente, oras, os de cima, claro – até o pálato, ou céu da boca, como preferir. Diga: “LVIV”.

Juro que da primeira vez eu li um algarismo romano, mas, depois,  o som prolongado no ELLL somado ao singelo sopro VIV como se o último ‘vê’ quase não existisse, ah, como me fez sentir bem.

Um barulho bom de fazer e repetir. Uma minúscula música de letras consoantes com harmonia numa só vogal. Ihhhh.

– Você está ouvindo?

Já até me esqueci dos autores, Romana e Andriy, sim, da Ucrânia: crân, crân… – um som que vibra dentro do pescoço. Pescoço, peito, ombros. Já reparou como nosso corpo é barulhento?

“Nosso corpo toca a própria música. Ele cria sons diferentes.”

COF COF COF, parece que alguém está doente. PUM, opa, assim já é demais.

Até minha cachorrinha não escapa, quando dorme solta uns gemidinhos esquisitos. Acho que ela também ronca.

Tudo que está na natureza tem som, vibração. Até mesmo aquela coisa que não parece dizer mais nada. O que dizer do barulho de mar que escutando quando encostamos uma concha do mar no ouvido?

Rom e And, ucrânnn de LVIV, os dois autores que escreveram e ilustraram ALTO, BAIXO, NUM SUSSURRO, agora esperam compartilhar barulhos e silêncios com todos os leitores brasileiros, com a batuta da Editora do Brasil, afinal esse país tem samba, bossa, teleco-teco, borogodó, ziriguidum e mais.

O mundo dos sons é o assunto principal desse livro absolutamente imperdível. Explicando conceitos relacionados às ondas sonoras e à audição, o livro é rico em informações, oferece uma leitura direta e altamente instrutiva sobre o tema. Música, intensidade do som, silêncio, barulhos – tanto os produzidos pelos seres humanos quanto os da natureza – foram mencionados como forma de nos fazer refletir sobre o quão fantástico é o universo do som e do silêncio.

Eu já peguei meu livro, busquei um prato e uma colher, comecei a tirar sons da caixinha – ou seria casinha? ou cacholinha? – tá-tá-tá, tudo bem querer brincar de fazer som com palavras, também.

 

Foto 1 - Alto, Baixo, Num Susurro