na tarde

Socorro Lira e Penélope Martins para ampliar nosso coração, na tarde de hoje, celebrando todas as mulheres poetas que fazem da palavra seu estar no mundo.

 

“Na tarde em que te beijei

Botei colibri no peito

Cresceu meu maior desejo

O que na boca calei.

Silêncio, olhos cerrados

Olhando por dentro de mim

Cheiro de mel e jasmim

Minha alma tinha tomado.

Um beijo mais fundo chorei

Sem pensar no que sentia

Sua boca tomando minha sina

Sua boca me assina, me ensina

O que já sei.

 

Amor, são meus olhos de chuva n’ocê

A principitar do céu a gentileza

De apagar essa brasa acesa

sem ter nem pra quê.

Amor são meus olhos chovendo manso

Brotar da terra entre nós

Rio passando vale, serra

Pedra da minha canção.

 

 

 

 

Outras formas de leitura, com a StoryMax

Você sabe o que é uma startup? Eu também não sabia muito bem o que era isso, achava a palavra até esquisita, talvez porque eu tenha nascido no tempo da enceradeira e do tocador de disco, e naquele tempo a gente não rodava com muita tecnologia…  Mas daí eu conheci a Samira e ela me contou sobre sua experiência com uma startup, uma empresa que começa no conhecimento das pessoas em desenvolverem produtos de alta tecnologia. Junto com Fernando, Samira fundou a StoryMax, uma startup de inovação editorial.

Aqui é preciso abrir parênteses para lembrar que já superamos aquela discussão sobre o livro digital acabar com o livro de papel, não é? Já vimos que as coisas convivem justamente porque ocupam participação distinta na nossa vida social.

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Pois, então… O casal começou o trabalho por causa de uma trajetória pessoal, vivenciando de perto o processo de digitalização nas editoras, e o projeto foi nascendo a partir das observações que faziam em conjunto. “Já naquela época, nos desagradou muito o modo como estavam sendo pensados os livros para as crianças – na nossa opinião, bem menos atraentes que os de papel: estáticos, sem cores, tudo muito sem graça. Por outro lado, percebemos também que os jovens  e as crianças estavam trocando a leitura por conteúdo em outras linguagens e mídias, eles já tinham aparelhos tablets e smartphones em casa, mas só usavam isso tudo pra jogar e ver vídeo. Daí que começamos a pensar em como fazer esses leitores em formação se interessarem de fato por leitura, começarem a ler no digital e continuarem como leitores por toda a vida! Mergulhamos em experimentação e foi uma delícia!”

O primeiro experimento publicado pela StoryMax foi uma versão audiovisual interativa de Frankenstein chamada “Frankie for Kids”, que não só serviu para mostrar que havia interesse por parte dos leitores, como rendeu dois reconhecimentos bacanas: o ComKids Prix Jeunesse Iberoamericano e o Hipertexto de Tecnologias em Educação. O segundo app book foi o Via Láctea de Olavo Bilac, que recebeu o Prêmio Jabuti em 2015 – e logo depois, a empresa entrou num programa de aceleração em Minas Gerais.

Como diz Samira, foi como fazer um MBA na prática, enquanto na vida acadêmica ela seguia com pós-graduação na USP, na área de Educomunicação, que estuda precisamente as interfaces de mídia, tecnologia e espaços educativos.

Image result for storymax o rei do ouroDepois de tanta experiência e dedicação, o momento era buscar parceiros que pudessem oferecer mais sustentabilidade para esta fase inicial do nosso negócio e foi com o Goethe-Institut que isso se realizou, juntos criaram o app LiteraTour, que traz quatro mini contos baseados em histórias relevantes na cultura alemã – o leitor pode conhecer as quatro histórias e ainda formar suas próprias narrativas ao misturar as diferentes partes delas: é possível ler até 64 histórias, algumas engraçadas, outras encantadas. Esse projeto foi premiado com “Prêmio Brasil-Alemanha de Inovação”, o que tornou viabilizou outras parcerias, tais como a coleção Novozymes Nova Perspectiva, uma parceria da StoryMax com a empresa que dá nome à coleção e com o Sesi Paraná, tem como tema os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, indicados pela ONU como formas de tornar o mundo melhor até 2030, como o fim da fome, da pobreza e das diferenças entre os gêneros.

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Dessa coleção, os leitores podem buscar em aplicativos para android e ios,  o primeiro app book desta coleção, Frritt-Flacc, conto homônimo do Verne que ajuda a discutir o fim da pobreza (listado pela Cátedra Unesco de Leitura entre os dez melhores livros infantojuvenis publicados no Brasil em 2016 – sendo o único livro digital a receber este “Selo Distinção”). Também o segundo app book da coleção, sobre a erradicação da fome e, para isso, apresentado com o conto do Tchékhov chamado “Ostras”.

A história da StoryMax faz a gente compreender bem o que é essa startup: gente que é capaz de ajudar a estimular outras pessoas a despertar para a autonomia do pensamento. E eles não param de fazer isso; hoje é dia de festa StoryMax com novo lançamento para a coleção:  o conto “O Rei do Rio de Ouro”, de John Ruskin, para debater a questão do acesso à água.

Os meus dedinhos estão coçando para virar as páginas com um único toque.

branca de neve fuLL_gil!

Branca de Neve fugiu. Fugiu? FuLL_Gil, apaixonada pelo poeta que enxergou sua história pelo avesso, fez de gato e sapato e ainda botou o retrato da bruxa pendurado por cima de um par de sapatos.

Chuva e eu

Então, eu pergunto, qual anão é mais bacanudo?

“Os anões deste reconto são um bocado sem graça, a nenhum dou destaque. A Branca de Neve é bem mais interessante. Eles não têm nomes e agem todos da mesma forma. São apenas Os sete anões, como se fossem sete em um, vivendo uma rotina igualmente desinteressante; veja que são sete os dias da semana. A menina entra nestas rotinas e dá mais vida, como nas vezes todas que desobedece e corre perigos, morrendo e renascendo sempre. Ela é o encanto, a graça. Os anões, embora de estaturas pequenas, representam os adultos e suas limitações. Ela é a fada, eles o enfado.”

E no en_fado dos anões a fenecer, teria algo que Branca gostaria de esquecer?

“A Branca de Neve já é bastante esquecida, não parece saber que a rainha madrasta a quer matar, e todas as vezes que aparece alguém vendendo algo ela atende e nem desconfia que pode ser a morte que bate à sua porta. Este fato é interessante, pois assim são -ou deviam ser-  as crianças, não estão ligadas ao que passou e tampouco ao futuro, o momento presente é o que importa e predomina. Por isso comecei o texto com Era uma vez um inverno… O tempo é o mais importante. E também o espelho ganha brilho especular. O tempo, a vaidade e o espelho, todos os demais são coadjuvantes.”

Essa coisa de príncipe que surge e já beija, e se ele virasse sapo quem o suportaria?

“Alguém que gostasse de beijar sapos, a sapa, por exemplo; será que se chama sapa a criatura? E será que sapos se beijam? Sabemos que sapos coaxam e pulam, e certamente copulam. Não nesta ordem necessariamente. A propósito, quem é que já não dormiu com príncipes e acordou com sapos? Coaxo eu que muita gente!”

Muita gente vira sapo ou já é sapo e a gente fica esquecido que nem Branca de Neve, a cada coaxo… Mas se eu fosse bruxa e você fosse um feitiço, o que a gente botaria no tacho? Maçã envenenada ou sopa estragada?

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“Maçã é bem mais interessante simbolicamente, é tão romântica quanto a romã e tão antiga quanto o tal paraíso de Adão, Eva e a serpente. Você usou o adjetivo Estragado, que significa podre, inútil, deteriorado etc., mas também gosto de pensar nesta palavra como algo que não se pode tragar ou engolir. Note que eu disse O adjetivo estragado. Um adjetivo tem o poder de qualificar e também de estragar, sabemos. O espelho de Espelho, espelho meu… usa e abusa destas qualificações. Eu gosto mais de sopas, espero um dia ficar bem velhinho e sem dentes, tipo suavemente estragado, para viver somente de sopas e ensopados. Agora sim este nosso papo ficou cheio de sopas e sapos: Sopapos.”

Sopa de sopapos pode causar estrago, e isso na história é um clássico. Faz sentido ler clássicos no nosso mundo contemporâneo onde tudo é mais pra macarrão instantâneo?

“Parece-me que sim. Um clássico é um clássico é um clássico é um clássico…  Pertencem à classe daquilo que não estraga, constitui modelo, não sai de moda. Lê-los é importante nestes tempos difíceis de se lidar com o contemporâneo.”

E como foi escrever algo tão antigo e já tão escrito?

“Foi demais divertido, extremamente. Esqueci que a história era antiga, também sou como a De Neve, tenho a memória esquecida, suavemente estragada. Reconto-a como se fosse minha; de certo modo é. É de todo mundo e a ninguém pertence. E sobretudo é um texto sobre a vaidade, nada mais contemporâneo, não?

Já perguntei demais, eu sei, mas cabe mais uma? Se você fosse contar a história de outra princesa, qual seria?

“De nenhuma. Não tenho predileção por princesas, tampouco por príncipes, que me parecem sempre um tanto tolos, deslumbrados, distantes da realidade. O oposto disso deviam ser os reais atributos da realeza. Você não Penélopeperguntou, mas direi: Um dos meus livros preferidos é O Pequeno Príncipe, mas este está tão perfeitamente contado que não há porque recontar, nem nada para tirar ou por. Ele sim é um príncipe de verdade.”

E eu, eu nem te conto, Gil, eu quero ler FuLL_Gil, porque é uma delícia revisitar uma história ou conhecer uma nova trajetória nas palavras de um poeta que sabe misturar filosofia, humor e poesia.

Você também ficou com vontade de ler mais? Foge pra floresta e leva a Branca de Neve, com Gil Veloso, no selo enfeitiçado  da Editora Pulo do Gato.

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Carolina de Jesus e o Livro

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Carolina Maria de Jesus nasceu na zona rural de Minas Gerais, estudou até o segundo ano primário, foi católica devota embora sua mãe tivesse sido banida da Igreja por conta de parir filhos ilegítimos. Adulta, foi parar em São Paulo, trabalhando como catadora de recicláveis. Moradora da comunidade do Canindé, zona norte paulista, Carolina registrava o cotidiano das pessoas em seu diário, o que viria a formar seu primeiro livro e a obra consagrada de uma das primeiras escritoras negras do Brasil.
Mudou-se para a capital paulista em 1947, num momento em que surgiam as primeiras favelas na cidade, e apesar do pouco estudo, escreveu mais de vinte cadernos com testemunhos sobre a favela. Seu livro, Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, publicado em 1960, teve mais de 100 mil exemplares vendidos, tradução para 13 idiomas e vendas em mais de 40 países. No entanto, Carolina de Jesus morreu em 1977, aos 62 anos,  pobre e esquecida.
* Eu sou Penélope Martins, e este post também pode ser lido no Blog português Clube de Leitores, para onde escrevo, aqui do Brasil, criando uma ponte para unir lusófonos na leitura, porque LER é do borogodó.

Quem sabe o que é Tutu-Moringa?

Uma história de medo eu vou contar. Mas antes um segredo, um segredo pra você guardar. Todo mundo tem medo de alguma coisa; alguns medos são de coisa absurdas e outros até podem parecer engraçados. Mas o caso é o seguinte: o melhor jeito de tirar o medo que a gente tem da coisa é pensar qual é o medo da coisa…

Medo, medo… Medo de bruxa cabeluda que guarda uma rã no sovaco. Medo de pegar carrapato e ficar todo sugado, da cabeça ao pé. Medo de engasgar ou morrer só de comer manga com leite. Medo de inflação, medo de bicho-papão, medo de sogra e medo de ir embora.

Medo é um caso sério. A gente tem que enfrentar o medo, pois quem não enfrenta fica tipo molengão, tremendo bocó, basta um susto e vira pó.

E pra enfrentar medo, nada melhor do ouvir história de tutu contada pela tataravó, ela que ninguém sabia ao certo de onde vinha, ela que apostava corrida com o vento que assobiava pelos canavais, muito embora tivesse aquele andar vagaroso…

–  Tataravó, conta aquela história de bicho-papão?

A noite já era escura quando os meninos se juntavam no terreiro, debaixo dos galhos da velha mangueira, tudo para ouvir os causos da tataravó.

E lá no alto, no fascínio das palavras e na toada de sua voz, o céu se tornava um breu, um manto que se fundia com sua pele, e a tataravó dizia:

– Menino vai dormir encolhido ao pé da cama depois de ouvir história de tutu…

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Tutu-Moringa tem pescoço comprido, garras afiadas, barriga gorda, e faz um som que parece água saindo do gargalo de um garrafão: GLOP! GLOP!

Não parece bem saber que Tutu-Moringa comeu um garoto todinho numa só bocada. Também não parece pouco assustador dizer que ele aparece atrás de menino que anda sozinho pelo mundo, pode ser até atravessando o quintal.

Mas por que será que tutu faz medo? Será que o medo que ele faz é de medo que ele tem?

Tem jeito pra se livrar do Tutu-Moringa, basta saber dele um segredo… Tem coragem pra saber?

Agora, eu vou cantar baixinho, uma canção de dormir e sonhar com o bicho-de-sete-cabeças, assim, pra ganhar coragem e ler a história do Tutu-Moringa até o fim.

Sem fazer xixi nas calças, hein?

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Tutu-Moringa, texto de Elizabeth Rodrigues da Costa e Gabriela Romeu, ilustrações de Marilda Castanha, é um livro da editora Companhia das Letrinhas.

Bú!

 

 

 

 

 

doce quindim

Minha mãe viu que eu gostava de livros e assinou um clube de leitura para que eu pudesse escolher um título a cada compra. Eram tempos de vacas gordas, eu pensava, já que houve o tempo em que a eu lia na livraria ao lado da escola e a dona do estabelecimento, minha professora, deixava eu chegar ao fim da história antes de vender o livro. Mas aqui é outra história…

Eu já contei mil vezes que não sou filha de hábeis leitores. Meus pais tiveram uma vida direcionada para o trabalho, pouco estudo e muitas dificuldades financeiras para superar. No entanto,  minha família sempre apreciou boa música, roda de conversa e muitas sessões de histórias antigas trazidas lá do tempo do guaraná de rolha.

Resultou que eu pedia livro de presente, lia de graça nas graças da professora que era dona de uma pequena livraria onde eu, vez por outra, comprava os meus exemplares, tinha carteirinha da biblioteca municipal Monteiro Lobato, em São Bernardo do Campo, e, nas vacas gordas, caia nos braços da revista do Círculo do Livro para escolher um título no clube de leitura. Tudo isso me fez a leitora que sou: ainda em formação, sempre apaixonada.

Recentemente, fui convidada a conhecer o Clube Quindim de Leitura. Bom, bem, bem-bom, eu adoro quindim, é meu doce favorito (saibam), e adoro leitura: juntar quindim e livro é folia sem ressaca.

Detalhe, o quindim do Clube Quindim é maiúsculo! O nome do doce dá nome ao rinoceronte de estimação de Volnei Canônica, responsável pelo Clube ao lado da editora Renata Nakano.

O Clube Quindim é um site de assinatura para leitores em formação – assim como eu – que curtem boas histórias para todas as idades. Mas o barato é que os livros são selecionados por um grupo muito heterogêneo de especialistas em literatura e leitura: escritores, ilustradores, pesquisadores; gente como Adriana Calcanhoto, Marisa Lajolo, Roger Mello, Marina Colasanti.

O leitor recebe os livros do Clube Quindim em casa, por correio (ai, como eu gosto disso), num pacote composto com guia de leitura e diário do leitor, ilustrado por artistas do mundo todo, para que a própria experiência da leitura protagonize a brincadeira.

Bem, bom, bem-bom, é claro que assinar o clube não significa deixar de ir à livraria: de jeito nenhum! Faz parte da formação do leitor escolher títulos e inclusive se decepcionar com algumas escolhas. A autonomia do leitor é imprescindível para aguçar seus gostos e sua trasnformação pessoal no curso do processo de esclarecimento. Mas, como eu disse, podendo combinar vários quitutes na festa da vida, um clube de leitura é um bolo com cereja.

Eu gosto de bolo, de cereja, de escolher sorvete na prateleira e de pegar emprestado… Todas as experiências literárias pra mim são deliciosamente prestigiadas. E se tiver quindim, ai de mim… Não resisto.

Conheça mais sobre o Clube no link https://www.clubequindim.com.br/, sem medo de se lambuzar!

Também foi notícia na Globonews: