a língua que a gente fala

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Parte de nós é curiosidade de experimentar. Outra parte, lembrança do que já vivemos, e do que outras pessoas antes de nós e também outras antes delas viveram… nessa trama de feitios, ao longo de tantos anos, décadas, séculos, somos cultura.

A cultura é o patrimônio do ser. Em diversas linguagens se registra nas palavras dos livros, desenhos, pinturas, esculturas, gravuras, arquiteturas, instrumentos, artefatos e artesanias, culinária, vestimentas e tanto mais.

Ao longo da história da humanidade muitos registros de cultura são destruídos, restando apenas a memória de quem pode contar o que precisamos saber para dizer quem somos.

Por isso é tão precioso aprender a dizer as coisas, nomear sentimentos, buscar significados, sentidos, contar histórias.

A partir da nossa língua falada, nossas crianças aprendem a perceber sua possibilidade de expressar o mundo interior para o exterior. A partir da língua que a gente fala, nossa cultura pode ser levada para muitos lugares.

Esse é o nosso museu portátil.

 

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brincar a sério

 

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“Em minha casa reuni brinquedos pequenos e grandes, sem os quais não poderia viver. O menino que não brinca não é menino, mas o homem que não brinca perdeu para sempre o menino que vivia nele e que lhe fará muita falta.”

Pablo Neruda

muito esquisito

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De manhã, sou muito esquisita. Dorminhoca, bicho descansado que não resiste ao cochilo dobrado. Devo ser feito a preguiça quando desperta, ainda com sono, ainda lenta…

Lembro o tempo de escola, que tortura sem fim: acordar antes das seis, ter que mastigar uma fatia de pão dormido, recém-amanhecido. Sem contar as aulas de matemática, coisa mais esquisita: já pensaram naquilo de negativos se transformarem em positivos? E o infindável pi, que coisa esquisita, parecia uma cobra tão comprida, uma tripa aritmética depois da vírgula esquelética…

De manhã eu sou coisa nenhuma, digo nada com nada, não tenho ritmo, nem estação, não me importa o inverno, faço pouco do verão. Pareço um ser abissal, um kryptophlanarion, nada tenho da perspicácia da sinapsicobélida: sou o ‘monstro que mora atrás do quadro’, mais não consigo.

Não dura essa sina, todavia, o relógio aponta, avança, mexe com a nossa biologia.

Quando vem a hora do almoço sou mais forte e feroz, tenho dentes pontiagudos, você não sabe do que sou capaz!

Outro dia foi um prato com arroz, feijão, salada, tudo dentro, e de sobremesa um pastel recheado com carne e coentro.

Nessa hora, minha amiga, que também é esquisita – parece até bicho ilustrado, disse com ar espantado: “Nossa, que bicho doido você traz nessa pança, será que não acaba essa comilança?”; e eu nem liguei, assanhada por uma sobra de bolo de milho, “se cru é bom, imagina cozido?”.

Bicho esquisito eu sou, mas quem não é afinal? Não venha me dizer que você aí, lendo minhas palavras não lembrou de ter feito coisa parecida e ter sido chamado de estranho, mistura de lacraia com elefante, cabeça de bagre em formiga, seja menino ou menina?

De perto, normal é ser diferente. Isso é a regra para todo bicho gente.

E se quiser mais, poesia de ler e ver, procure Muito Esquisito, livro de Alexandre Brito com Gustavo Piqueira, da Editora Pulo do Gato.

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onde se conta a agradável história do moço das mulas…

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Ó minha doce esp’rança,
que, afrontando impossíveis na verdade,
prossegues sem mudança
na senda que traçou tua vontade,
conserva ânimo forte,
inda que surja a cada passo a morte.
Não ganham preguiçosos
triunfo honrado, ou singular vitória,
nem podem ser ditosos
os que, mostrando uma fraqueza inglória,
entregam desvalidos
ao ócio vil os lânguidos sentidos.
Que amor suas glórias venda
caro, é razão, e é justo o que contrata;
nem há tão rica prenda
como a que pelo gosto se aquilata.
E é caso natural
custar só pouco o que só pouco val.
Coisas quase impossíveis sempre alcança
quem emprega porfias amorosas.
Com firme confiança
sigo eu do amor as mais dificultosas.
E nem sequer me aterra
ter de ganhar o céu, estando na terra.

– Miguel de Cervantes, 1591

* este poema está no Capítulo XLIII,

Dom Quixote

Imagem: Moinhos da Paz, Salvador Dalí

Acrobata da dor

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Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta …

Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d’aço. . .

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.

 

– Cruz e Souza (1861-1898)

* a fotografia que ilustra esse post foi colhida da internet e tem autoria desconhecida; informe se souber.

O vaqueiro e a caveira

Image result for caveira fincada num pauConta o povo que existiu um vaqueiro que não deixava passar nada: tudo que via ou ouvia ele tinha que passar adiante. Ficou com má fama por causa disto. Um dia, viu uma coisa que era melhor não ter visto ou ter ficado quieto. Quando ele tocava o gado do patrão, avistou uma caveira, fincada num pau. Nisso a caveira falou:

— O que mata o corpo é a língua.

O vaqueiro correu, apavorado, para contar ao patrão o que tinha visto e ouvido. O fazendeiro resolveu acompanhar o vaqueiro até onde estava a caveira para saber o que ela havia dito. Não houve resposta, perguntou de novo e nada. Pensando que havia sido enganado, o fazendeiro, cego de raiva, matou o vaqueiro. Depois disto ouviu a caveira falar:

— Eu não disse que quem mata o corpo é a língua?!

Contos folclóricos brasileiros, Marco Haurélio, Editora Paulus.

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* Gostou e quer ler outras histórias da tradição brasileira. pois vá visitar o blog do escritor e pesquisador, Marco Haurélio, foi ele quem nos cedeu esse conto de muitas outras histórias que ele sabe contar… Corra no link : http://contos-fabulas.blogspot.com.br/2017/10/o-vaqueiro-e-caveira.html