Carolina, um nome, uma história, um tempo presente

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“A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.”

Carolina Maria de Jesus – Quarto de Despejo (1960)

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“Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, no interior de Minas Gerais, no dia 14 de março de 1914. Neta de escravos e filha de uma lavadeira analfabeta, Carolina cresceu em uma família com mais sete irmãos.” Biografia de Carolina Maria de Jesus

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“A autora viveu boa parte de sua vida na favela do Canindé, na zona norte de São Paulo, sustentando a si mesma e seus três filhos como catadora de papéis. Em 1958, tem seu diário publicado sob o nome Quarto de Despejo, com auxílio do jornalista Audálio Dantas. O livro fez um enorme sucesso e chegou a ser traduzido para catorze línguas.” Carolina de Jesus no Wikipedia

“Quando o ilustrador e roteirista João Pinheiro tomou contato com ‘Quarto de despejo: diário de uma favelada’, de Carolina Maria de Jesus, a cabeça dele virou. “Fiquei fascinado”, resume. Até aquele momento, João não conhecia a literatura marginal dessa mulher negra, que muito tempo passou desconhecida na academia e livrarias do país. “Eu estava assistindo aquele programa que passava na TV Cultura, o ‘Manos e Minas’, e aí uma rapper falava o nome de várias mulheres negras importantes e citava Carolina. Eu anotei o nome e fui procurar o livro depois, encontrei uma edição de bolso da década de 80 de Quarto de Despejo, comprei e li. Aí passei para Sirlene”, conta.Image result for carolina maria de jesus

(…) Sirlene Barbosa é professora do ensino público municipal, leciona em escolas da zona leste de São Paulo, onde inclusive nasceu, e exemplifica em experiências da sala de aula o que disse. “Eu comecei a observar a partir de um ato até ingênuo de uma estudante de uns 10 anos, hoje mais velha, de que faltava representatividade negra na escola. Por que eu falo negra e não indígena, LGBT, enfim, de vários outras minorias, que prefiro chamar de maioria silenciada? Vou te explicar: nesse dia eu fui ler um conto de fadas para as crianças e pensei: não vou ler Branca de Neve nem Cinderela. Isso eu já leio. Mas eu quero ler também livros cujas princesas sejam negras, latinas, indígenas, sejam meninas que se pareçam com as meninas para as quais eu dou aula. Eu escolhi uma que a princesa era negra e fechei a capa para eles não verem . Iniciei a leitura e tinha uma fala que dizia que a princesa era muito linda. Essa menina colocou a mão na boca com expressão de susto e disse: ‘você mentiu para a gente’. E eu disse: ‘mas por que?’ e ela: ‘porque você disse que ela era linda’. Eu não briguei, mas quis saber de onde ela tinha tirado essa ideia. E ela travou. O coleguinha do lado disse: ‘porque ela é negra’”, recordou Sirlene. “Eu não quero calar a voz do branco europeu. Mas eu quero inserir a voz do negro, do indígena, do latino, do africano, enfim, inserir essas vozes caladas”, afirmou.” Carolina, biografia em quadrinhos

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Tenham paciência com a leitura

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Por onde eu vou, contando histórias ou falando de leitura e mediação, acabo escutando a ladainha: “as crianças não leem” ou “eu não tenho tempo de ler”. Destaco que a palavra ladainha aqui tem um propósito correlato ao sentido religioso: essa prece cantarolada em que alguém diz “as crianças não” e outra pessoa responde “eu não tenho tempo” colocaria a leitura em prova de fé?

Certamente cantarolar uma prece não seria de todo ruim, uma vez que muitos de nós, inclusive eu, aprendeu a ler a partir do cantar as canções, do lamento das rezas, das revelações das benzedeiras… Mas a literatura não é composta de única predominância com equipamento sonoro que ecoa por fora e por dentro dos nossos corpos. A literatura propõe movimento e inércia, barulho e silêncio: estado quase fetal das ideias. O quase é por não estarmos sós na leitura de um livro, o que foi visto antes resiste e impregna o que vem depois.

A literatura é a arte de realinhar as palavras. Há uma provocação estética de forma que revela seu conteúdo. E há uma voz narrativa que conversa com a nossa voz narrativa. E essa conversa nem sempre é amigável. Image result for penelope martins

Talvez a leitura literária seja um rompimento com a construção formal do discurso. Ela ousa ser imagem, transbordar de orquestra, contornar frio do mármore revelando Eros. Todavia, diferentemente das artes plásticas, em que o impacto visual pode acelerar um pensamento reflexivo a partir de sentimentos despertos, ler um livro propõe outro tipo de relação para percorrer o espaço-tempo; trata-se de uma imersão em silêncio constrangedor. A leitura propõe uma quebra, uma ruptura de sociabilização; o livro transforma quem o lê em espécie distinta, algo entre pedra, areia, vento e gente.

Posso falar por mim e só isso é pouco, entretanto, por vezes acordei em praças, parques e aeroportos chorando compulsivamente, rindo descaradamente, assombrada, triste, boba, eu e aquelas personagens que caminhavam comigo até a última página – para a contracapa na surpresa, ao erguer a cabeça e notar os olhos em interjeições de espanto e dúvida, todos ao meu redor, indignados até.

Peço desculpas, senhoras e senhores, se durante a leitura eu me tornei rude ou deselegante, isso não foi intencional. Acontece que o livro acaba me subtraindo do mundo dos vivos para me conduzir por jornadas entre os além-vivos, com motivações variadas, mas isso nem importa, não agora…

A experiência com a leitura requer mais de paciência do que de vocação. Paciência de quem lê, paciência de quem lê quem lê, paciência de quem lê e deseja despertar quem não lê, paciência de quem não lê com o desejo sobre si de quem lê. Paciência com quem leu e não gostou. Paciência com que lê e diz que precisamos ler. Paciência com nossa falta de paciência.

Ou seja, leitor é gente comum que insiste passar linha pelo buraco da agulha até conseguir. Equívoco pensar que a literatura se dá para alguns “eleitos” portadores de certo tipo de dom para ler livros, uma misteriosa qualidade, uma inteligência que os torna capazes de submergir entre as páginas decifrando palavras e revelando suas histórias.

Nas rodas de conversa, leitores exibem seus títulos favoritos e as observações por vezes são extremamente desfavoráveis: “o começo é bem despretensioso”; “comecei duas ou três vezes”; “demora um pouco para começar a história”; “precisei insistir no primeiro capítulo e talvez no segundo”; “comprei pelo tema, mas a forma me desatinou o juízo”; “a estrutura é confusa e emocionante”; “depois da página 30, fui fisgado”.

Trata-se de paciência. As primeiras vezes pode ser por insistência, teimosia, que se é paciente. As demais, por convicção mesmo. O leitor passa a cultuar essa demora que antecede o mergulho profundo. É como um namorico, depois um beijo e logo são um só, leitor e livro.

A literatura se assemelha ao cultivo de bonsais, mas, ao contrário da imagem de uma tesoura precisa nos ramos verdes, o desafio da poda é ínfimo perto da tarefa contínua de amparar a semente. A leitura requer terra que se fertiliza, água na medida, luz de sol e luz de luar, e muita, muita, paciência para fazer brotar solidez dessa amizade que mescla silêncios longos e breves com conversas intermináveis por dentro da nossa própria cabeça.

Tem outra coisa bem complicada sobre a leitura: a literatura traz muitas revelações indesejadas para quem não se dispõe a desconstruir conceitos mofados, velhas verdades. Em outros momentos, muito pior, a literatura se contrapõe ao que nos identifica, fragiliza nossas memórias com transversais divergências.

O livro, esse amigo que nos afeta na (in)diferença cutucando uma cultura já acomodada dentro da gente, é companhia errante, sedutora, que torna possível aprofundar intersecções preciosas entre universos aparentemente incomunicáveis. Ler um livro nos coloca em perigo. Se assim não fosse, como explicar o apaixonar-se pelo extraordinário Poe, ou a alma curumim entoando o pesadelo, Tutu-Moringa, as repetidas frases de assombramento até a chegada de um bicho que o puxa criança pelo pé? Como poderíamos desdizer do amor perfeito entre o imenso elefante envolto pelos véus da mínima odalisca, e todas as 999 vidas em constante transformação passando por Tristão e Isolda, Otelo e Desdêmona, Romeu e Julieta?

Diante disso, é plausível que muitos dispensem a leitura sob o argumento concreto (e cinza): “não tenho tempo para essas coisas”. De fato, devo admitir que a leitura, assim como a escrita, tem me roubado do tempo dos vivos para que eu me confunda entre além-vivos, isso eu já disse e não tenho pretensão de explicar. Por vezes, eu me submeti ao esquecimento da panela no fogo, o relógio que alardeava um compromisso. No mais, igualmente admito que a vida real é a primeira mentira que a literatura faz questão de atacar. Isso dói muito, e como leitora eu me surpreendo como fico contente sentindo essa dor.

A literatura é essa máquina de moer realidades que não cansa de construir mundos novos. Cada leitura sob uma ótica leitora distinta forma pequenos caquinhos de vidros que convergem em ricas mandalas caleidoscópicas. A cada diálogo sobre esses livros, pessoas repensam relacionamentos, instituições, educação, política…

Acontece que nós estamos vivendo o tempo de aceleração desmedida: impulsos, cortes, fragmentos, uma palavra, milhares de fotografias, vídeos curtíssimos, catástrofes entre memes, gifs, figurinhas, emojis, e-mail (coisa ultrapassada), aquelas mensagens gravadas que ninguém quer ouvir etc.

“Não tenho esse tempo de ler.” Isso é justificável. Sim, as pessoas são acompanhadas pelos seus celulares e os celulares parecem conter pessoas dentro… Já o livro, aquele silêncio no começo, aquela história que eu não sei bem em que ponto vai começar a me interessar…

Felizmente, não é por acaso que a poesia reagiu às redes sociais como o gênero multimídia da literatura. A poesia é orgânica, e poetas são cozinheiros de botecagem – fazem do pouco muito. A poesia vem servida do jeito que o diabo gosta, gordura, açúcar, sal, pimenta: e todos bebem.

Cresceram os números de poetas publicados. A internet é a editora mais generosa de todas. Tem para todo gosto, um temporal de links com amostras de e-books, séries infinita de vídeos, poesia falada, poesia interpretada, poesia em imagens, roda de poesia, gif de poesia etc etc etc. As mais inusitadas formas com os mais variados tipos de conteúdo.

A diversidade na leitura é o fim daquela ladainha lá da primeira linha, lembra?

A poesia se associa, daí que vem a música, e qual criança resiste explodir gritando palavra cantada? Qual adulto dirá que não ter tempo para os versos de Chico Buarque? E convenhamos, mesmo agora com estranhos que deram para acusar a prosa e a bossa de ideológica, até os mais sisudos param para ver, ouvir e dar passagem ao cantar da banda e suas coisas de amor.

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Essa canção, irmã daquela que corre nas bocas das benzedeiras, das rezadeiras do rosário, já se provou aliada dos livros. Só digo uma coisa, paciência, tenha paciência. Eu mesma comecei assim: foi ali uma letrinha brilhante, uma tipografia, depois um verso, a curiosidade da autoria e, quando eu me dei conta, tinha lido o encarte inteiro do LP. Daquilo para avançar nos livros foi paciência, mais nada. E até hoje eu já vivi mais de 999 vidas extraordinárias, desde a caverna, passando por Ítaca, Tróia e com olhos abertos para dentro da imaginação no centro da terra.

 

***

Penélope Martins é advogada, escritora e narradora de histórias, autora de obras como Pinóquio (Panda Books), Minha vida não é cor-de-rosa(Editora do Brasil) e Quintalzinho (editora Bolacha Maria). Como narradora já se apresentou em diversos lugares do Brasil e em Portugal. Mantém um blog para fomentar leitura, o Toda Hora Tem História.

 

Esse texto foi publicado também no Blog da Letrinhas, link anexo: Tenham paciência com a leitura.

A moça que dançou depois de morta

Curta de Animação 35mm – 2004 Vencedor de diversos prêmios na categoria Curta Metragem, incluindo 01 Kikito e 01 Candango.

 

 

Quem quiser mais terror em cordel, essas histórias de alma penada, cemitério, coisas de outro mundo além dos vivos, corre para a livraria procure pelo autor Marco Haurélio em “Noivo Defunto e outros contos de mal assombro”. A leitura desse livro é de arrepiar a espinhela!

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Ponte aérea literária

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A escritora capixaba Isa Colli está lançando este mês três livros para infância simultaneamente no Brasil e na Bélgica, onde mora atualmente. Duas histórias são inspiradas em reis, castelos e o universo das monarquias. “O Rei está no Trono” é uma aventura do rato monarca que desaparece dentro do próprio castelo. Já em “Ulisses no Reino das Letras Douradas”, o rei é um livro antigo que tem o sonho de chamar a atenção da menina Iná.
O outro livro que chega ao mercado é “O Elefante Mágico e a Lua”, título bilíngue português – inglês, com uma versão online em árabe. A fábula se passa em um reino nos Emirados Árabes. No enredo, o elefante mágico Aman resolve atender aos desejos do amigo Radi. Em retribuição, Radi ajuda o elefante a aproximar-se de seu grande amor, a Lua.
No fim do ano passado, a escritora abriu sua própria editora, a Colli Books. Além de escritora, Isa é também jornalista. Aos 50 anos, a autora vem conquistando espaço no mercado literário nacional e internacional com participações nas principais feiras do mundo, como as bienais de São Paulo e do Rio de Janeiro e as feiras internacionais do livro de Bruxelas, Bolonha, Lisboa e Frankfurt.
O talento literário surgiu na infância, mas a profissionalização chegou há poucos anos. Isa nasceu no Espírito Santo e adotou o Rio de Janeiro para começar sua carreira na área da comunicação. Trabalhou por mais de 20 anos em emissoras de TV. Após descobrir uma doença degenerativa, decidiu lutar pela vida e se reinventou. Inspirada nas histórias que ouvia da mãe quando criança e da experiência que acumulou na TV, decidiu mergulhar no mundo da literatura.
Desde o lançamento do primeiro livro, em 2011, Isa já publicou 14 títulos infantis, um romance e um livro de poesias. Seus livros abordam temas como sustentabilidade, respeito pelo próximo, tolerância às diferenças e valorização do consumo de alimentos saudáveis.

Edmundo, o cético

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Naquele tempo, nós não sabíamos o que fosse ceticismo. Mas Edmundo era cético. As pessoas aborreciam-se e chamavam-no de teimoso. Era uma grande injustiça e uma definição errada.

Ele queria quebrar com os dentes os caroços de ameixa, para chupar um melzinho que há lá dentro. As pessoas diziam-lhe que os caroços eram mais duros que os seus dentes. Ele quebrou os dentes com a verificação. Mas verificou. E nós todos aprendemos à sua custa. (O ceticismo também tem o seu valor!)

Disseram-lhe que, mergulhando de cabeça na pipa d’água do quintal, podia morrer afogado. Não se assustou com a ideia da morte: queria saber é se lhe diziam a verdade. E só não morreu porque o jardineiro andava perto.

Na lição de catecismo, quando lhe disseram que os sábios desprezam os bens deste mundo, ele perguntou lá do fundo da sala: “E o rei Salomão?” Foi preciso a professora fazer uma conferência sobre o assunto; e ele não saiu convencido. Dizia: “Só vendo.” E em certas ocasiões, depois de lhe mostrarem tudo o que queria ver, ainda duvidava. “Talvez eu não tenha visto direito. Eles sempre atrapalham.” (Eles eram os adultos.)

Edmundo foi aluno muito difícil. Até os colegas perdiam a paciência com as suas dúvidas. Alguém devia ter tentado enganá-lo, um dia, para que ele assim desconfiasse de tudo e de todos. Mas de si, não; pois foi a primeira pessoa que me disse estar a ponto de inventar o moto contínuo, invenção que naquele tempo andava muito em moda, mais ou menos como, hoje, as aventuras espaciais.

Edmundo estava sempre em guarda contra os adultos: eram os nossos permanentes adversários. Só diziam mentiras. Tinham a força ao seu dispor (representada por várias formas de agressão, da palmada ao quarto escuro, passando por várias etapas muito variadas). Edmundo reconhecia a sua inutilidade de lutar; mas tinha o brio de não se deixar vencer facilmente.

Numa festa de aniversário, apareceu, entre números de piano e canto (ah! delícias dos saraus de outrora!), apareceu um mágico com a sua cartola, o seu lenço, bigodes retorcidos e flor na lapela. Nenhum de nós se importaria muito com a verdade: era tão engraçado ver saírem cinquenta fitas de dentro de uma só… e o copo d’água ficar cheio de vinho…

Edmundo resistiu um pouco. Depois, achou que todos estávamos ficando bobos demais. Disse: “Eu não acredito!” Foi mexer no arsenal do mágico e não pudemos ver mais as moedas entrarem por um ouvido e saírem pelo outro, nem da cartola vazia debandar um pombo voando… (Edmundo estragava tudo. Edmundo não admitia a mentira. Edmundo morreu cedo. E quem sabe, meu Deus, com que verdades?)

Cecília Meireles

Texto extraído do livro “Quadrante 2”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1962, pág. 122.fonte

Coisas que não prestam

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Há uma candeia

que não alumia

há uma roca

que já num fia

há um coche

que já não roda

e no armário

há vestidos

fora de moda

há um triciclo

que pede escusa

e um chapéu

que já não se usa

 

e aquilo que já não fia

nem alumia

nem roda

nem se veste

nem se usa

nem corre

 

– tem a beleza

do que já não presta

e esta

nunca morre.

 

 

– Alice Vieira, poema recolhido da obra RIMAS PERFEITAS, IMPERFEITAS E MAIS-QUE-PERFEITAS, da Editora Texto, Portugal.

 

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