Poetas populares

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A nossa poesia é uma só
Eu não vejo razão pra separar
Todo o conhecimento que está cá
Foi trazido dentro de um só mocó

E ao chegar aqui abriram o nó
E foi como se ela saísse do ovo
A poesia recebeu sangue novo
Elementos deveras salutares

Os nomes dos poetas populares
Deveriam estar na boca do povo
No contexto de uma sala de aula
Não estarem esses nomes me dá pena

A escola devia ensinar
Pro aluno não me achar um bobo
Sem saber que os nomes que eu louvo
São vates de muitas qualidades.
O aluno devia bater palma

Saber de cada um o nome todo
Se sentir satisfeito e orgulhoso
E falar deles para os de menor idade
Os nomes dos poetas populares.

 

– Antônio Vieira, o poeta

 

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Ai se sêsse

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dos se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cum insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?…
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!

 

Zé da Luz, o poeta

 

onde se conta a agradável história do moço das mulas…

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Ó minha doce esp’rança,
que, afrontando impossíveis na verdade,
prossegues sem mudança
na senda que traçou tua vontade,
conserva ânimo forte,
inda que surja a cada passo a morte.
Não ganham preguiçosos
triunfo honrado, ou singular vitória,
nem podem ser ditosos
os que, mostrando uma fraqueza inglória,
entregam desvalidos
ao ócio vil os lânguidos sentidos.
Que amor suas glórias venda
caro, é razão, e é justo o que contrata;
nem há tão rica prenda
como a que pelo gosto se aquilata.
E é caso natural
custar só pouco o que só pouco val.
Coisas quase impossíveis sempre alcança
quem emprega porfias amorosas.
Com firme confiança
sigo eu do amor as mais dificultosas.
E nem sequer me aterra
ter de ganhar o céu, estando na terra.

– Miguel de Cervantes, 1591

* este poema está no Capítulo XLIII,

Dom Quixote

Imagem: Moinhos da Paz, Salvador Dalí

Acrobata da dor

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Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta …

Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d’aço. . .

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.

 

– Cruz e Souza (1861-1898)

* a fotografia que ilustra esse post foi colhida da internet e tem autoria desconhecida; informe se souber.

Coda

 

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à terra voltarão

suor lágrimas engano

o que não vingou

o que saiu do plano

a terra há de cobrar

todos os danos

àqueles que se dizem

seus donos

 

– Reynaldo Damazio

Com os dentes na esquina, Dobradura Editorial

* a fotografia que ilustra este post foi colhida da internet e não há menção de autoria.

O trem

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“O trem passa – piuííííííí…

levando as pessoas para longe dali.

Leva a menina para ver a vovó.

Leva a mocinha para ver se xodó.

Leva o garoto que morre de medo.

E o moço tristonho que tem um segredo.

O trem passa ligeiro e esperto,

e na janelinha, de olhar aberto,

a moça atenta a tudo que passa

enquanto ela passa do lado de lá.”

 

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*Este é um poema do livro “Lia e o feitiço da palavra”, de Marília Moreira, com ilustrações de Maria da Betania Galas, Editora ÔZé.