O trem

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“O trem passa – piuííííííí…

levando as pessoas para longe dali.

Leva a menina para ver a vovó.

Leva a mocinha para ver se xodó.

Leva o garoto que morre de medo.

E o moço tristonho que tem um segredo.

O trem passa ligeiro e esperto,

e na janelinha, de olhar aberto,

a moça atenta a tudo que passa

enquanto ela passa do lado de lá.”

 

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*Este é um poema do livro “Lie e o feitiço da palavra”, de Marília Moreira, com ilustrações de Maria da Betania Galas, Editora ÔZé.

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7 livros para conversar sobre a representatividade

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Fotografia de Samuel Macedo, Terra de cabinha, Editora Peirópolis

I. Histórias de ninar para garotas rebeldes 1 e 2Resultado de imagem para historias de ninar para rebeldes 2

Cem histórias que provam a força de um coração confiante: o poder de mudar o mundo.

Histórias de ninar para garotas rebeldes é um livro com 100 histórias sobre a vida de 100 mulheres extraordinárias do passado e do presente, ilustradas por 60 artistas mulheres do mundo inteiro.

Com textos que remetem ao estilo de conto de fadas, muitas das histórias começam com o clássico “Era uma vez”, pois, segundo a própria autora – Favalli –, a ideia é dar a sensação de um conto de fadas moderno, para embalar o sono das pequenas antes de dormir.

* Elena Favilli e Francesca Cavallo, Editora V&R

 

II. Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis

Desde 2012, a autora Jarid Arraes tem se dedicado a desvendar a história das mulheres negras que fizeram a História do Brasil. E não bastava conhecer essas histórias, era preciso torná-las acessíveis e fazer com que suas vozes fossem ouvidas.

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Para isso, Jarid usou a linguagem poética tipicamente brasileira da literatura de cordel. E vendeu milhares de seus cordéis pelo Brasil, alertando para a importância da multiplicidade de vozes e oferecendo exemplos de diversidade para as mulheres atuais. Neste livro, reunimos 15 dessas histórias, que ganharam uma nova versão da autora e a beleza das ilustrações de Gabriela Pires.

* Jarid Arraes e Gabriela Pires, Editora Pólen

 

 

III. Olhe para mim

Olhe para mim

Kitoko foi adotado. Sua nova mãe está grávida e ele se pergunta se continuará a ser amado depois que sua irmãzinha nascer. Enquanto espera pela mãe, Kitoko adormece e sonha com a África, continente onde nasceu. Em sonhos, reencontra a irmã biológica,

relembra tudo o que aconteceu com sua primeira família… agora o futuro o espera, terá uma nova irmã a quem irá amar e construir uma nova história.

* Ed Franck e Kris Nauwelaerts, Editora Pulo do Gato

 

IV. O presente de Jaxy Jaterê

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Kerexu tinha ouvido dos mais velhos várias histórias de Jaxy Jaterê, o protetor da floresta. Por ser poderoso, as pessoas podem fazer pedidos a ele, mas a índia não sabia como chama-lo. Porém, sua prima conhecia o segredo e o ensinou a Kerexu. Certa noite, a índia adentrou na floresta, realizou o ritual e fez um pedido. Será que Jaxy Jaterê irá atendê-lá?

 

 

Abra as páginas deste livro e descubra o desejo de Kerexu e como termina esta lenda do povo guarani.

* Olívio Jekupe, Fran Junqueira e Werá Jeguaka Mirim, Editora Panda Books

 

V. Vento forte, de sul e norte

Desde criança, em alguns momentos da vida, Luísa teve de enfrentar três situações de preconceito: o fato de ser negra, adotada e ter pais gays. Quando chamou Henrique para sua casa a fim de ajudá-lo com as aulas de matemática, jamais pensou que ele agiria como tantas outras pessoas.

Mas e aquela repentina aproximação de Gabriel? Será que ele realmente era um idiota como seu amigo Henrique? Uma história envolvente que lida com assuntos como homofobia, racismo e preconceito, mas na qual a amizade e o amor farão Luísa, protagonista deste sensível texto, se tornar forte para aguentar os ventos do sul e do norte.

* Manuel filho e Paola Saliby, Editora Editora do Brasil

 

VI. Terra de cabinha: pequeno inventário da vida de meninos e meninas do sertão

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Este livro traz histórias, causos, brincadeiras, receitas, versos e adivinhas. Aqui você ouve a voz do cabinha, dos mestres e contadores de histórias, e também da pesquisadora visitante, que registrou num caderninho as coisas mais interessantes a respeito de como vivem aqueles meninos e meninas para quem o mundo é feito de castelos, árvore é brinquedo e assombração existe, sim, senhor.

 

* Gabriela Romeu, Sandra Javerá e Samuel Macedo, Editora Peirópolis

 

VII. Pode pegar

Um coelhinho de saia, batom e sapatinho de salto. Outro coelhinho de botas, calça e gravata. Assim fica fácil saber quem é menina e quem é menino! Mas e quando a menina quer usar botas pra atravessar o riacho? E quando o menino precisa de salto pra ficar

Pode pegar!

mais alto? Batom serve pra desenhar? E esse chapéu, é de quem? Trocar de roupa é divertido! E agora, como faz pra saber quem é menina e quem é menino? Bom… Mas isso importa mesmo?

* Janaína Tokitaka, Editora Boi Tatá

Céu menino

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“Céu de palavras, céu de aventura,

céu de solina, de vento, de chuva,

céu lua cheia, de neve e estrela,

céu de aguaceiro caindo na telha,

céu de relâmpago, céu trovoada,

céu de oceano, de terra molhada,

céu que circula e se achega pertinho,

céu de poeta, meu céu menino.”

 

*Este poema é encontrado no livro “Céu menino”, de Alessandro Riccioni, com ilustrações de Alicia Baladan, Editora Pulo do Gato.

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a arca de noé

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Minha filha, certo dia, perguntou-me sobre os planos divinos, se eles eram de todo bons ou se alguma ideia era falível.

Eu disse que eu não sabia o que a Criação pretendia, tamanha a complexidade que fez gerar campo e cidade.

Mas a menina, não contente, com minha explicação evasiva, disse-me que Deus, por seus erros, devia a nós uma missiva.

Com espanto eu ouvia a criatura expondo na grande arquitetura múltiplas falhas, projetos inúteis, criações horrendas e coisas fúteis.

Mas de toda explicação, o que mais chamou minha atenção, foi a análise da menina sobre o dia em que a Terra encheu, e ao homem, Noé, a missão se estendeu.

Pois se Deus tinha errado ao inventar barata, rato, pomba, aranha e mosquito, Noé poderia salvar nosso Planeta desse conflito.

E eu, mãe dessa pequena de pensar raro, concordei com o benefício do reparo, corri tirar da imensa arca: rã, serpente e bolsonaro.

Agora é com você, leitor e leitora dessa história, se ainda não conhece de lá da Arca o bafafá, corra buscar melhor rima e boa métrica no livro de Marco Haurélio sabido cantador poeta.

 

 

*

Bafafá na Arca de Noé, texto de Marco Haurélio e ilustrações de Anabella Lopez, selo da Editora DCL.

Sinopse:  Então uma chuva enorme estava para cair e Noé construiu uma arca bem grande para abrigar sua família e também um casal de cada espécie de animal. Mas não é que, entre os bichinhos, apareceu um muito estranho que ninguém sabia dizer o que era?! Pois é assim que começa este Bafafá na Arca de Noé!

Uma fábula contada em versos, com muito humor, que mostra como as diferenças fazem parte da vida dos bichos e dos homens.

O livro pode ser encontrado aqui!

 

 

 

 

 

uma mulher negra

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O que pretende essa autora que reúne quinze histórias de mulheres negras, todas destinadas ao esquecimento por força de um flagrante racismo que dilacera nossa cultura?

O que pretende essa autora ao contar as histórias em versos, como se para nós cantasse a ancestralidade,  e encerrar cada uma delas com uma breve e precisa biografia que corporifica a experiência de leitura?

O que pretende essa autora que, ao final do livro, convida sua leitora e seu leitor a escrever nas linhas vazias uma história de uma heroína negra que tenha marcado sua  vida?

Jarid Arraes é essa autora. Uma escritora que pensa o seu tempo à luz da história e que não deixa esvaziar as palavras capazes de registrar os signos e os significados de cada episódio.

Heroínas Negras Brasileiras é meu primeiro encontro com Jarid. Primeiro eu tomei o livro num único gole, sedenta de saber quem, onde e os inúmeros porquês. Um sentimento de orgulho me envolve. Nem eu mesma sei a razão disso. Jarid é uma mulher, eu também sou uma mulher, e isso me comove com uma simplicidade pueril de quem reconhece na outra algo de si. Depois afasto o livro, sem esquecer dele. Deixo por perto,  vou lá de vez em quando e leio uma história, leio as biografias. Fecho o livro e um golpe me acerta o meio do peito. Já não vejo Jarid. São dezesseis mulheres me olhando pelas páginas do livro. Na verdade, o dia de hoje, são dezessete mulheres, porque também vejo escrito em vermelho o nome de Marielle.

Ontem, hoje. Voltei ao livro de Jarid não por acaso.  Li, disse em voz alta, escutei as vozes, como descreveu Cecília Bajour em seu livro Ouvir nas Entrelinhas*, deixei vir lágrimas, sorri de satisfação, refleti profundamente sobre quem, onde e inúmeros porquês.

Ao final do livro, a maturidade da escritora Jarid Arraes nos atravessa. Um convite ao reconto – linhas vazias para que completemos ali com uma história de uma mulher negra que tenha marcado a nossa vida.

Sim, talvez eu não tenha mencionado até agora, Jarid é uma mulher negra. Uma escritora mulher e negra. E foi a escritora que é essa mulher negra que me fez encolher os ombros na poltrona e voltar ao lugar originário de mim mesma, lá no colo de Zinha, ou nas broncas que eu ouvia de Zezé.

O que Jarid pretende com esse livro talvez somente ela possa responder. Para mim, mulher branca, mãe de um garoto negro mas ainda mulher branca, que ontem foi menina criada pelas mãos de duas mulheres negras, mas que ainda assim era uma menina branca – e agora, mulher branca cada vez mais consciente do que essa condição representa, Jarid quis recontar a história ressignificando as nossas trajetórias.

Fica sempre a pergunta pairando no ar, quem são nossas heroínas, nossos heróis…

E eu não vou falar da importância desse livro para meninas porque é explícita. E eu não posso falar da relevância dessa voz para as meninas negras porque eu, embora tenha empatia, não vivencio o lugar dessas meninas. Mas fica aqui, até a última letra do meu texto, a generosa partilha que vem da voz narrativa dessa escritora, Jarid Arraes, a convicção de que essas histórias não serão esquecidas.

 

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Serviço:

Para comprar Heroínas Negras, de Jarid Arraes, visite: https://polenlivros.lojavirtualnuvem.com.br/

* Ouvir nas Entrelinhas, de Cecília Bajour, está disponível com selo da Editora Pulo do Gato: https://editorapulodogato.lojaintegrada.com.br/

Histórias de ninar para garotas rebeldes

 

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Uma das histórias de mulheres que mais me impressionou, ouvi de minha avó Laura. Aquilo ficou martelando durante a adolescência, mas acho que só depois de adulta é que fui entender a dimensão do estrago…

Minha avó foi uma das filhas de uma casamento entre um italiano e uma portuguesa da Ilha da Madeira. Enquanto o pai era super pra frentex, a ponto de levá-la para cantar no rádio aos 13 anos, a mãe se tornou uma exímia conservadora, chegou a bater na minha avó com um pedaço de madeira e cravar um prego em uma de suas pernas. (Minha avó sempre me mostrava a cicatriz.)

A bisavó perdeu o marido muito cedo e ficou só, com cinco filhas mulheres, na sina de criar todas para o bom casamento, longe das línguas ferinas que, vez por outra, falavam que o bolo ia desandar naquela casa onde uma viúva não tinha um homem pra botar pulso firme.

Não posso me queixar do meu avô. Era amoroso comigo, pelo menos. Foi ele quem me ensinou a escutar o rádio com atenção e valorizar cada verso dos cantadores de viola. Não é por acaso que tenho essa referência tão forte quando lido com o letramento pela oralidade. Acontece que  esse mesmo homem, ainda namorado da avó, foi culpado por múltiplas violências contra a minha avó e contra os filhos que tiveram juntos… Um dia, foi buscar a moça para um passeio e a encontrou com as unhas esmaltadas de vermelho.

– Vá tirar esse esmalte, Laura. Isso num é coisa de mulher direita.

Minha avó ficou indignada. Ela trabalhava desde muito cedo na fábrica das alpargatas. Tinha salário, tinha jeito com as pessoas. Laura poderia ter sido uma administradora tamanha era sua habilidade com a matemática e com a gestão de recursos (meu avô foi prova disso por décadas, enquanto ela controlava todos os gastos da casa no esmero de não dever pra ninguém, fazendo render os poucos bifes – quando havia bife).

A madrinha de Laura estava na casa, naquele dia fatídico do esmalte vermelho e da voz de comando.

– Obedece seu noivo, menina. O que custa tirar um esmalte?

Custou. Foram 54 anos de um casamento custoso. Minha avó não foi mais trabalhar fora de casa. Nunca mais ousou cores, nem opiniões. Quer dizer, nunca mais até completar os tais 54 anos de casada, no seu aniversário de 72 anos, quando ela fez a malinha de roupas e deixou pra trás a casa e o avô.

O vidro de acetona transformou Laura num coração agingantado batendo com todo esforço, e pouco ar nos pulmões.

Eu compreendi a dimensão da história só quando me despedi da minha avó. Ela tinha tudo para se tornar uma mulher rebelde no melhor sentido da palavra.

Vermelho é cor de vida, feito o sangue da gente.

(Hoje, insisto contar histórias que libertam minha filha.)

 

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