Casa do Cuco

 

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Eu era pequena quando visitei aquela casa na Cidade de Piedade. Nunca mais voltei pr’aqueles lados. Nem sei direito onde fica. Talvez eu pudesse colocar na internet para ver o mapa. Resolvi não descobrir porque o que conto tem mais magia do que realidade. Então…

Eu era pequena quando visitei aquela casa, em Piedade. A palavra piedade me cutucava. Quem teria pedido, por quem teriam clamado?

Visitamos uma plantação de alcachofras. Aparência de planta carnívora. Corremos entre as fileiras de mordidas e saímos intactas.

No final do percurso, uma cerca convidava à transgressão. Pulamos. Exploramos. Deixamos de ser gente pra ser bicho. Mato alto. Adultos muito longe para dizer que não podia, que era perigoso. Quase não dava pra ver o que tinha adiante.

Foi quando vieram os chifres na nossa direção. Minha amiga era ágil, pensou subir numa árvore, mas deu umas pernadas e pulou a cerca de volta. Eu fui pro outro lado. Mato alto. Quase não dava pra ver adiante.

Os chifres e aquela bufada de diabo procurando por mim.

Sempre fui péssima em pular cercas. Sempre fui péssima em correr rápido. Sou um bicho fácil de apanhar.

Minha amiga gritou ‘por aqui, por aqui’, e eu fui. Salvei o couro antes que os chifres me furassem.

Voltamos pra casa disfarçando o ocorrido. Ninguém poderia saber que invadimos o terreno do vizinho. Quer dizer, alguém já sabia. Esse alguém bufafa, tinha chifres e era o diabo nos cascos atrás de nós.

Voltamos para a casa pra tomar o lanche da tarde. A casa ardia o sol do dia inteiro. Quase cinco horas. Chá em xícaras de porcelana decoradas com raminhos verdes de bambu.

– Bambu me lembra Saci. – eu disse pra minha amiga.

– Não seja boba, Saci não existe. – ela respondeu.

Foi nessa hora que a casinha de madeira, pendurada na parede da sala, estalou. A porta se abriu. Um pássaro com olhos vidrados apareceu gritando:

– CUCO, CUCO, CUCO!

Soltamos um berro. A tia veio da cozinha rindo.

– Calma, crianças, é só o Cuco.

Depois a tia contou uma história.

Cuco tinha sido aprisionado por uma velha bruxa que vivia naquelas matas. Cuco era um protetor dos outros animais. Quando a bruxa tentava aprisionar um deles, Cuco gritava:

– CUCO, CUCO, CUCO!

A bruxa foi pegando raiva do pássaro… Queria ele pra sempre calado.

– E como era a bruxa? – eu perguntei, interrompendo a história.

– Ah… Dizem que ela tinha cascos nos pés. Dizem que bufafa. Dizem até que tinha chifres como o diabo.

Minha amiga e eu, paralisadas.

E mais história, por aqui não conto. Deixo que saibam sobre a ‘Casa do Cuco‘, de Alexandre Camanho, da editora Pulo do Gato. Pode ser que vocês descubram o caminho pra alcançar piedade…

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O tempo de ouvir, o tempo de ler, o tempo de contar nossas histórias

A convite do Clube de Leitura Quindim, Penélope Martins conta…

 

 

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Fernand Leger  (1881 – 1955)

 

Quando eu era pequena, minha avó, mãe de minha mãe, sentava ao meu lado para ensinar o tricô. Minha avó contava os pontos. Laçadas. Tranças. Dizia: “é matemática pura!”. Contava que ela mesma tinha feito casaquinho e manta para me vestir bebê. Eu enchia os ouvidos dela com as minhas perguntas. Ela não perdia o ritmo, alfinete, linha, agulha, tec tec tec, entre as histórias também vinha uma canção da casinha com varanda na beira da praia: só vendo que beleza. Minha avó se chamava Laura, como as folhas de louro. O nome dela era um presente para desejar boa sorte.

Cresci perto de meu avô. Ele veio para o Brasil por causa de uma ditadura. Saiu de lá com seis filhos e ainda teve uma última aqui, brasileirinha. Meu avô era um homem de aldeia, arado, enxada, semente. Tinha jeito com as plantas. Um dia  eu perguntei: “avô, porque não plantamos flores nos canteiros?”; ele só repetia “flores não se comem, flores não se comem”. Depois ele virou pescador. Suas mãos eram magras e fortes, sua disposição para fazer e fazer e fazer. Além do mais, o avô tinha força na palavra, e o mesmo sotaque que eu escutava timidamente cantar na boca do meu pai. O nome de meu avô era Valentim, uma dádiva de bravura.

Minha mãe era brasileira, meu pai é português. Fui batizada com nome de rainha, Penélope, história de espera antiga, lá de antes da Grécia. Meu pai não queria esse nome, mas achou bonito porque foi minha mãe quem tinha escolhido. Cresci ouvindo as histórias daquela Penélope distante de mim e perdida numa história de mil fios. Os fios que minha avó tricotava enquanto meu avô, este mineiro, aumentava o volume do rádio para escutar a tristeza do Jeca.

Não tínhamos muitos livros para crianças quando eu era pequena. Minha família não lia livros. Eram todos trabalhadores braçais, feirantes, tricoteiras, caminhoneiros, agricultores… No entanto, todos eles me contavam histórias e ouviam com muita atenção o que eu tinha a dizer.

Hoje eu não tenho mais meus avós, faz imensa falta o cheiro do feijão na panela de minha avó, eu poderia comer sardinhas fritas na manhã de domingo, e nem minha mãe pode mais me telefonar para dizer que me ama. Todos eles me enchem de saudades. Acho injusto, inclusive, porque eu continuo tendo um monte de perguntas para fazer sobre as nossas histórias. O tempo passa depressa.

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Revisito minhas memórias para contar… A história da história é o encontro, uma trama que se tece aproximando nossa ancestralidade com os dias de hoje, numa composição múltipla que traduz nossas vidas. Cada palavra é um pequeno fio de linha, um botão, um elemento preciso. Quem ama sua história reconhece o peso de cada palavra dita, ouvida, guardada.

Crescer numa família que conta histórias não nos torna leitores de livros, mas faz com que possamos ler o mundo e suas gentes, vozes, formas, cores, movimentos. As histórias podem desenvolver em nós a sensibilidade para enxergar a narrativa de todo ser vivo e sua composição com o todo do qual também fazemos parte.

Mas é essencial não esquecer: o tempo é ágil e as histórias são muitas. Precisamos aproveitar cada segundo cultuando a experiência de trocar boa palavra por palavra de bem querer.

 

 


A imagem pode conter: uma ou mais pessoasPenélope Martins, escritora e narradora de histórias, pensa a história com desdobramentos para melhorar a vida cotidiana, transcendendo a obra para um fazer coletivo de leitores, uma possibilidade de reunirmo-nos com nossas memórias e características culturais para prática de empatia. Entre seus livros publicados estão A incrível história do menino que não queria cortar o cabelo, pela Editora Folia das Letras; Poemas do jardim, pela Editora Cortez, Quintalzinho, pela Editora Bolacha Maria; Princesa de Coiatimbora, pela Editora Dimensão; e Que amores de sons, pela Editora do Brasil.

O mar de Cecília

A canção se fez presente,

 

“No desequilíbrio dos mares,

as proas giraram sozinhas…

Numa das naves que afundaram

é que tu certamente vinhas.”

 

E o corpo se estendeu no mar,

 

“Água densa do sonho, quem navega?”

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A poesia de Cecília Meireles inquieta. Traz um movimento de mar, ora aconchega, ora se espalha, ora ergue, gota a gota, nossas barcas vazias.  Dói uma dor de alma ferida, faz parar diante da paisagem à procura de uma imagem que revele um sonho. É uma poesia que conhece a morte. Não. É uma poesia que tem intimidade com a morte, e por isso não se apavora. Ao contrário, mais límpida, a poesia de Cecília é um murmúrio sem dó, infinitos desamparos onde nada é em vão.

Estendi os olhos sobre o labirinto do mar de Cecília. Quis mapear os caminhos para redescobrir os versos que já foram lidos. Desejei conhecer o novo mundo só para poder esquecer e ter o prazer futuro de redescobrir.

Diante do ovo, medita-se. Ovo é um perfeito labirinto para pensarmos a ação humana na vida. O que é de primeiro, originário, único; o que se pode conceber como criação de algo novo?

Re-existindo, Rosinha mergulha na a arte de Cecília Meireles , e cria um mapa labiríntico para que os leitores dialoguem perdidos na poesia. O livro se chama O mar de Cecília, e começa com a menção às paredes de um imenso labirinto, o que sugere uma busca por um caminho de saída…

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A cada dupla, Rosinha cria quatro imagens em movimentos de aproximação e distanciamento de seus detalhes, reproduzindo, com isso, as ondas do mar, ou um voo sobre o mar que suspende e mergulha. Acompanhando as imagens, quatro versos, e uma pista que provoca a leitura da próxima dupla de páginas…

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A cada imagem, Rosinha oferece um poema visual que fala por si. Todavia, há uma simbiose entre as imagens e o propósito do livro: quais poemas de Cecília Meireles inspiram as cenas?

Corri buscar na minha biblioteca os livros de Cecília e comecei: ler, reler, procurar. Mandei mensagem cifrada para Rosinha. S.O.S., seu mar já está invadido os meus pulmões e eu, e agora?, o que me restará a não ser viver rolando pelo mundo sob um sol contente até os ermos domínios de vocês duas? Ah, as poetas, Rosinha e Cecília.

A sensação que se tem é de uma leitura interminável, O mar de Cecília é um salto ornamental com olhos bem abertos, convida a mente a mudar de perspectiva sem perder os mínimos detalhes.

E eu não poderia deixar de compartilhar uma leitura tão deslumbrante…

 

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Ulisses sabe escolher

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Acho difícil escolher. Concordo com Cecília. Essa coisa de ou se põe o anel e não se calça a luva, sempre me deixou pirada. Há um certo minimalismo em escolher, o que é bom. Mas como ser mínimo quando se é barroco? Cecília, Cecília, eu compreendo tanto sua enorme aflição.

Lembro que um amigo encontrou uma nota de 5 cruzeiros numa esquina perto de casa. Tinha uma garrafa de cerveja, uma vela e uma caixa de fósforos. Ninguém quis botar a mão no dinheiro. Mas aquele menino escolheu pegar. Pegou, de fato. Foi para o bar comprar doces. Mas o martírio foi escolher entre as guloseimas. Praga do dinheiro encontrado no acaso ou no ocaso. Não me peça para escolher.

Ulisses soube bem lidar com a indecisão. Entrou no barco e saiu pra vida. Escolheu viver tudo o que quisesse. Traçou a rota no acaso. Opa, isso já parece se repetir. Você por “acaso” se lembra do cavalo de Troia? Ulisses foi quem mandou entrar no ocaso… e os troianos colocaram pra dentro de seus muros aquele presente de grego. Escolheram errado. Em compensação, a vitória dos navegantes foi certeira.

Nem ao mar, nem à terra. Ulisses também teve suas escolhas equivocadas. Mas ele era um estrategista e enganava até o tempo – escolho isso, mas se fosse aquilo também ao mesmo tempo. Foi isso que fez quando apareceram as sereias no mar revolto. O canto delas era irresistível. Melodias em perfeita execução. Ulisses queria ouvir. Ouvir seria o fim. Então ele se amarrou ao mastro do navio e fez as duas coisas: ficou com a vida e com a possibilidade de morrer de amor.

Situação difícil essa. Escolha. Ou se tem chuva e não se tem sol, ou se tem sol e não se tem chuva…

Ora, mas quem disse: chuva e sol não é na parlenda casamento de espanhol?

De toda forma, uma coisa é certa: não queremos que outra pessoa escolha por nós o que podemos escolher por nós mesmos.

Minha mãe queria muito que eu fosse médica. Eu não fui. Meu pai queria que eu não fosse namoradeira. Eu fui. Desculpa lá, mas era a minha vida que estava pra ser vivida. E os dias passam rápidos demais.

Conheço mais gente com a mesma aflição que a minha. Manoel de Barros descobriu logo cedo que queria ser fraseador. Num era doutor de cuidar de gente, nem doutor de fazer lei, também não tinha vocação para doutor de medir terras. Manoel descobriu-se fraseador. Pra espanto da família. Sorte Manoel ser tão sabido em teimar suas escolhas.

Mas eu disse que conheço mais gente nessa aflição. Fábio Monteiro é professor. Também é escritor. Fábio é ator. Ele não se decide. Escolhe ser tudo. Tantas vidas numa pessoa só pode dar confusão. Inegável que nós somos menos do que as escolhas que podemos.

E se por acaso – ele de novo – você ficar na dúvida e não souber como escolher? Respire fundo… Leia um livro. Saiba que somos muitos escolhedores. Você não está só.

 

 

*  Ulisses sabe escolher é o novo livro de Fábio Monteiro, com ilustrações de Denise Gonçalves e Catarina Costa, edição da Abacatte, de Belo Horizonte.

 

 

Bammm!

2017-07-07 16.40.35

Só podia ser,  se hoje eles brincam de criar uma banda é porque quando eram crianças, cultuavam o gato preto que cruzava a estrada e passava por debaixo da escada enquanto lá no fundo azul da noite da floresta a lua iluminava a dança, a roda a festa (!).

Os três não mudaram nada, ainda andam meio desligados sem sentir os pés no chão.

Um deles é  o alquimista, mistura o malandro pra valer com o João Ninguém, poderoso pra chuchu, e acha que os dois são ‘champions, my friend‘.

O outro é o visionário, desde que o céu inteiro se abriu numa fenda de fogo que aparece quando sete botas pisaram no telhado num galope soberano. A outra é vidente, viu a cara da jia num determinado dia enquanto andava dispersa entre os automóveis.

Nenhum texto alternativo automático disponível.

Leo Cunha, Alex Lutkus, Penélope Martins, os três autores da Banda Bammm, a Banda Mais Monstruosa do Mundo, já abriram a garagem e convidam para o ensaio geral com seus leitores. E que todos tenham ouvidos atentos para brincar.

O livro reúne um grupo de monstros com talentos especiais: cada monstro é monstruosamente genial em um instrumento. Mas nem sempre foi assim; na infância, eles se depararam com desafios e dilemas comuns a muitas crianças: baixa estima, bullying, solidão. E também com as alegrias e delícias da vida: amizades, brincadeiras, descoberta de talentos.

Nem bonito, nem feio, cada monstro é único, como seus autores. Leo Cunha, nunca tocou um instrumento; no entanto, ele já soma quase 100 poemas musicados. Alex Lutkus faz com traços e cores o que os músicos fazem com o ar, mas ele também ativa umas notas no saxofone. Penélope Martins fez aula de piano e violão, mas não deu em nada, só a poeta segue cantando porque a voz também é instrumento.

Nem feio, nem bonito, cada autor é um pouco desses monstros esquisitos que moram dentro de nós desde a infância.

Agora tá feito! Tem livro no ar para ensaiar um monte de canções que vocês podem inventar, além de se juntar ao fã clube dessa banda monstro – BAMMM! Aliás, os leitores podem adquirir o livro com a Editora Tribos e solicitar uma foto autografada por todos os membros da BAMMM.

Se você se interessou, pode comprar o livro no link: Livro Bammm !

E não é só, aqui nesse texto algumas músicas tiveram trechos citados e você pode descobrir um pouco mais… Basta seguir o ritmo que ‘pinta’ o coração. Vamos lá?

* As canções citadas são: O vira (Luhli e João Ricardo), Ando meio desligado (Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sergio Dias),  Ópera do Malandro (Chico Buarque), João Ninguém (Rita Lee), We are the champions (Freddie Mercury), Canção agalopada (Zé Ramalho), Gênesis (Caetano Veloso). Já encontrou?