o gato

 

  • O gato é um poema que integra A Arca de Noé, de Vinícius de Moraes e foi musicado junto com a maior parte do livro para integrar um projeto grandioso para televisão, no princípio dos anos 80, com a participação de grandes artistas da música brasileira, como Elis Regina, Ney Matogrosso, Moraes Moreira, Toquinho e outros. A primeira gravação dO gato foi com a cantora Marina. Com nova versão, 30 anos depois, na voz de Mart’nália, O gato ganhou uma animação em ritmo acelerado.
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Alto, baixo, num sussurro

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Romana Romanyshyn e Andriy Lesiv nasceram na Ucrânia, em Lviv.

Agora repita comigo essa palavra LVIV, fazendo do ‘ele’ uma ponte que liga a extremidade dos incisos superiores – seus dentes da frente, oras, os de cima, claro – até o pálato, ou céu da boca, como preferir. Diga: “LVIV”.

Juro que da primeira vez eu li um algarismo romano, mas, depois,  o som prolongado no ELLL somado ao singelo sopro VIV como se o último ‘vê’ quase não existisse, ah, como me fez sentir bem.

Um barulho bom de fazer e repetir. Uma minúscula música de letras consoantes com harmonia numa só vogal. Ihhhh.

– Você está ouvindo?

Já até me esqueci dos autores, Romana e Andriy, sim, da Ucrânia: crân, crân… – um som que vibra dentro do pescoço. Pescoço, peito, ombros. Já reparou como nosso corpo é barulhento?

“Nosso corpo toca a própria música. Ele cria sons diferentes.”

COF COF COF, parece que alguém está doente. PUM, opa, assim já é demais.

Até minha cachorrinha não escapa, quando dorme solta uns gemidinhos esquisitos. Acho que ela também ronca.

Tudo que está na natureza tem som, vibração. Até mesmo aquela coisa que não parece dizer mais nada. O que dizer do barulho de mar que escutando quando encostamos uma concha do mar no ouvido?

Rom e And, ucrânnn de LVIV, os dois autores que escreveram e ilustraram ALTO, BAIXO, NUM SUSSURRO, agora esperam compartilhar barulhos e silêncios com todos os leitores brasileiros, com a batuta da Editora do Brasil, afinal esse país tem samba, bossa, teleco-teco, borogodó, ziriguidum e mais.

O mundo dos sons é o assunto principal desse livro absolutamente imperdível. Explicando conceitos relacionados às ondas sonoras e à audição, o livro é rico em informações, oferece uma leitura direta e altamente instrutiva sobre o tema. Música, intensidade do som, silêncio, barulhos – tanto os produzidos pelos seres humanos quanto os da natureza – foram mencionados como forma de nos fazer refletir sobre o quão fantástico é o universo do som e do silêncio.

Eu já peguei meu livro, busquei um prato e uma colher, comecei a tirar sons da caixinha – ou seria casinha? ou cacholinha? – tá-tá-tá, tudo bem querer brincar de fazer som com palavras, também.

 

Foto 1 - Alto, Baixo, Num Susurro

A Poesia Vai, Manuel António Pina


A Poesia Vai


A poesia vai acabar, os poetas 
vão ser colocados em lugares mais úteis. 
Por exemplo, observadores de pássaros 
(enquanto os pássaros não 
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao 
entrar numa repartição pública. 
Um senhor míope atendia devagar 
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum 
poeta por este senhor?» E a pergunta 
afligiu-me tanto por dentro e por 
fora da cabeça que tive que voltar a ler 
toda a poesia desde o princípio do mundo. 
Uma pergunta numa cabeça. 
— Como uma coroa de espinhos: 
estão todos a ver onde o autor quer chegar?

Manuel António Pina

*este é um re-post do Rodrigo Ferrão, do blog de Portugal – Clube de Leitores. Esta conexão É giro!

a-ver-livros: 432

Já somos tão pouco
de repente menos ainda
um dia nada
meia dúzia de ossos presos
no tecido com que embrulhámos
a memória
um cheiro vago a terra
estrumada a dias vividos
meio litro de lágrimas
uma flor ou outra

O que fica de ti é isto que sou,
sal, pedra, fogo,
abençoada a nesga de sol
que me escondeu
o olhar

Ana Almeida

*este é um re-post da Ana Almeida, do blog de Portugal – Clube de Leitores. Esta conexão É giro!

Olívia tem dois papais

O título do livro já diz, Olívia tem dois papais, e isso significa falar sobre relações humanas e formação de núcleos familiares.

Curiosamente, ouvi da própria autora, Márcia Leite, que algumas vezes, pessoas comentaram, sem ler, que devia ser uma beleza de livro tratar da vida familiar de Olívia que tinha o pai e um padrasto, por conta de novo casamento da mãe.

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Essa ‘conclusão brilhante’ fez com que eu me lembrasse de algumas outras histórias, uma delas com a minha incursão no mundo como mãe de uma criaturinha a quem tenho a chance de chamar de filho.

Cansei de responder perguntas indesejáveis de pessoas estranhas e outras nada íntimas sobre a origem dos meus filhos. O mais velho, por uma diferença nos traços e na cor da pele, foi vítima, junto comigo, de comentários alheios na feira, no mercado, na porta da escola. A aproximação sempre abismada, ‘nossa, como pode, uma mãe tão branca’, ‘o pai dele é negro, é?’, e daí pra mais, com minha vontade de aprender a sair da cena sem me igualar aos praticantes de ignorância.Image result for olivia tem dois papais

O episódio com Olívia, também me fez lembrar de uma questão trazida recentemente pelo meu filho, que cresceu e é politicamente engajado. Ele me contou que levou um problema de lógica para a sala de aula e que ninguém decifrou o mistério. Teria um menino sofrido um acidente terrível com seu pai, que morreu na hora. Levado para o hospital, os paramédicos pediram ajuda à chefia da cirurgia, mas a pessoa disse que não teria condições de operar o próprio filho.

Mais da metade da turma gritou com espanto, ‘mas o pai dele morreu’, enquanto a outra metade disse que ‘o menino só pode ser filho de um casal gay’. Ninguém sugeriu que a mãe do menino fosse a chefe da cirurgia.

Mundo, mundo, vasto mundo…

Olívia tem dois papais, e não tem mamãe. É isso mesmo. Olívia é uma menina que integra uma família formada por adoção onde dois homens assumem juntos a paternidade. Existem famílias com duas mamães, eu mesma sou madrinha de uma linda que foi adotada recentemente.

Qual o problema disso? Pra mim e para muitos, óbvio que nenhum problema – aliás, óbvio é uma palavra que Olívia gosta de usar (o vocabulário dela é excepcional) – mas pra muita gente, essas crianças são vítimas de um equívoco, de um absurdo de decisão judicial que concede a adoção para casais homoafetivos.

Para não rolar nenhum tipo de ciúmes, deixo claro, também tenho uma filha. Ela tem excelente vocabulário e a mesmíssima dose de opinião de Olívia, sabe meter a colher em qualquer cumbuca. Quando a pequena chegou em casa, imensa com seus 40 e poucos centímetros em dois quilos de perninhas e bracinhos que sambavam dentro dos macacões, muita gente lançou olhares de discriminação: ‘como pode alguém abandonar uma filha?’

Eu não abandonei ninguém, e a filha era minha. Tentava deixar isso claro. Quando não era possível, eu simplesmente repetia a história que aprendi e que me disseram ser um velho ditado indígena norte americano: “uma pessoa só pode te julgar, depois de andar as mesmas léguas trilhadas com os teus sapatos”.

Curiosamente – olha essa palavra aqui, de novo -, ninguém comenta que os pais abandonam mulheres grávidas que muitas vezes não desejam seguir a gravidez, sem terem opção legal que garanta esse direito sobre o próprio corpo, ou que não possuem estrutura alguma para criar uma criança. Ao final, as mulheres são ‘culpadas’ pelo abandono. Lastimável…

Minha filha também teve que enfrentar muito preconceito no colégio quando mostrou fotos de seu tempo de bebê. Ela foi chamada de coisas terríveis e a escola não agiu até que eu me manifestasse. Pena que custei a saber… Minha filha, antes de me contar, resolveu agir sozinha e foi advertida por isso.

Olívia é uma narrativa que pode nos ajudar a pensar a agressão do preconceito junto de nossas crianças. A história re-significa os cotidianos familiares, mostra que somos capazes de nos adaptar e de criar relações a partir do afeto, além de manter uma postura fortalecedora para que a criança tenha autoconfiança e amorosidade.

Muita boa conversa pode sair dessa leitura… Basta ter coragem para falar sobre núcleo familiar sem afastar as possibilidades múltiplas, como as relações monoparentais, homoafetivas, a filiação por adoção, a formação de irmandade por filiação de núcleos diferentes, e tantas outras possibilidades de amar nesse mundo.

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– Olívia tem dois papais, Márcia Leite, ilustrações de Taline Schubach, Companhia das Letrinhas – –

 

 

 

 

 

Tenho mil irmãs para amar sem palavras – José Luís Peixoto

raquel

“Tenho mil irmãs para amar sem palavras.
Tenho aquela irmã que caminha encostada
às paredes e sem voz, tenho aquela irmã de
esperança, tenho aquela irmã que desfaz o
rosto quando chora. Tenho irmãs cobertas
pelo mármore de estátuas, reflectidas pela
água dos lagos. Tenho irmãs espalhadas por
jardins. Tenho mil irmãs que nasceram
antes de mim para que, quando eu nascesse,
tivesse uma cama de veludo. Agradeço com
amor a cada uma das minhas irmãs. São mil
e cada uma tem um rosto a envelhecer. As
minhas mil irmãs são mil mães que tenho.
Os olhos das minhas irmãs seguem-me com
bondade e, quando não me compreendem,
é porque eu próprio não me compreendo.
Tenho mil irmãs a esperar-me sempre, com
silêncio para ouvir-me e para proteger-me
no inverno. Tenho aquela irmã que é uma
menina que sai de casa cedo para chegar cedo
à escola e tenho aquela irmã que é uma
menina que sai de casa cedo para chegar cedo
à escola. Tenho irmãs como música, como
música. Tenho mil irmãs feitas de branco.
Eu sou o irmão de todas elas. Sou o guardião
permanente e incansável do seu sossego.
Eu tenho de ser feliz pelas minhas irmãs.
Eu tenho de ser feliz pelas minhas irmãs.”

José Luís Peixoto, in Gaveta de Papéis

O médico das palavras

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“Para começar, vai ser preciso recuar no tempo. Coisa que não é tão difícil quanto possa parecer: basta seguir pelas linhas e descer pelas páginas com elas. Pouco a pouco, vão nos levar para trás, cada vez mais para trás, ao encontro de uma criança pequena… até voltar aos primeiros anos de um certo menino.

Um menino que nem sonhava que seria Médico um dia, muito menos das Palavras.”

Meu pai me ensinou que a verdade pode ser como um bisturi, se usada por alguém que saiba conduzir sua ação, pode salvar uma vida, mas se usada por quem desconhece seu poder, pode ferir gravemente. A verdade é uma palavra que tem muitas faces. E com palavra a gente não brinca… ou melhor, a gente tem que aprender a brincar.

Na próxima quarta-feira, a Livraria NoveSete convida a todos para o lançamento do livro O médico das palavras, de Fábio Malavoglia, com selo da Editora Laranja Original.

É um livro para jovens, é uma aventura. Também é uma trama a ser decifrada. É para todos que gostam das fábulas. A história é curiosa: um menino vindo “do outro lado de um escuro oceano” não entende nem lê as palavras que todos usam. Com esforço e  teimosia começa a decifrar o novo idioma, frequentando livros e revistas. Torna-se amigo das palavras, mas descobre, à medida que cresce, que nem todas são boas: existem as dúbias, as venenosas, as violentas. São as palavras doentes. Intrigado por esse duplo caráter, já que palavras tanto podem levar à poesia e à beleza, quanto ao temor e às trevas, começa a pensar se seria possível curar as doentes. Até que um dia, por acaso, encontra um Livro, que é o portal para um Bosque de Palavras Perdidas onde, magicamente, penetra. O que sucede nessa escura caminhada e o resultado da busca compõem a trama do livro O Médico das Palavras, a fábula de um jovem, mas também um relato simbólico, da editora Laranja Original.

A imagem pode conter: desenhoAs qualidades poéticas do texto de O Médico das Palavras chamaram a atenção de Filipe Moreau, fundador e publisher da Laranja Original: “É fascinante notar que, à medida em que a história corre e o protagonista passa da infância à juventude, a linguagem do texto também muda e amadurece, até culminar num poema”.

A infância do autor, Fabio Malavoglia, tem pontos de contato com a história: “Eu gostei de fábulas desde menino e, mais ou menos como no livro, aportei à língua portuguesa como a uma terra nova, onde plantei lenda e poesia”. E a vida foi colhida como jornalista, locutor, roteirista, contador-de-histórias, tradutor e intérprete de versos. Hoje ele comanda o programa Radiometrópolis, da Cultura FM de São Paulo. O Médico das Palavras é seu terceiro livro.

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No texto foi embutido também um jogo para conhecedores de literatura: uma trama de citações que são pistas das referências do autor. Já a capa e a série de desenhos da história são assinadas por Libero, ilustrador conhecido, afeito ao nanquim e às fábulas e, para mais entrosamento entre texto e imagens, irmão do autor. É a primeira vez, em anos, que os irmãos trabalham juntos. O design é do Gatoazul Estúdio Gráfico por sua titular, Thereza Almeida.