muito esquisito

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De manhã, sou muito esquisita. Dorminhoca, bicho descansado que não resiste ao cochilo dobrado. Devo ser feito a preguiça quando desperta, ainda com sono, ainda lenta…

Lembro o tempo de escola, que tortura sem fim: acordar antes das seis, ter que mastigar uma fatia de pão dormido, recém-amanhecido. Sem contar as aulas de matemática, coisa mais esquisita: já pensaram naquilo de negativos se transformarem em positivos? E o infindável pi, que coisa esquisita, parecia uma cobra tão comprida, uma tripa aritmética depois da vírgula esquelética…

De manhã eu sou coisa nenhuma, digo nada com nada, não tenho ritmo, nem estação, não me importa o inverno, faço pouco do verão. Pareço um ser abissal, um kryptophlanarion, nada tenho da perspicácia da sinapsicobélida: sou o ‘monstro que mora atrás do quadro’, mais não consigo.

Não dura essa sina, todavia, o relógio aponta, avança, mexe com a nossa biologia.

Quando vem a hora do almoço sou mais forte e feroz, tenho dentes pontiagudos, você não sabe do que sou capaz!

Outro dia foi um prato com arroz, feijão, salada, tudo dentro, e de sobremesa um pastel recheado com carne e coentro.

Nessa hora, minha amiga, que também é esquisita – parece até bicho ilustrado, disse com ar espantado: “Nossa, que bicho doido você traz nessa pança, será que não acaba essa comilança?”; e eu nem liguei, assanhada por uma sobra de bolo de milho, “se cru é bom, imagina cozido?”.

Bicho esquisito eu sou, mas quem não é afinal? Não venha me dizer que você aí, lendo minhas palavras não lembrou de ter feito coisa parecida e ter sido chamado de estranho, mistura de lacraia com elefante, cabeça de bagre em formiga, seja menino ou menina?

De perto, normal é ser diferente. Isso é a regra para todo bicho gente.

E se quiser mais, poesia de ler e ver, procure Muito Esquisito, livro de Alexandre Brito com Gustavo Piqueira, da Editora Pulo do Gato.

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O vaqueiro e a caveira

Image result for caveira fincada num pauConta o povo que existiu um vaqueiro que não deixava passar nada: tudo que via ou ouvia ele tinha que passar adiante. Ficou com má fama por causa disto. Um dia, viu uma coisa que era melhor não ter visto ou ter ficado quieto. Quando ele tocava o gado do patrão, avistou uma caveira, fincada num pau. Nisso a caveira falou:

— O que mata o corpo é a língua.

O vaqueiro correu, apavorado, para contar ao patrão o que tinha visto e ouvido. O fazendeiro resolveu acompanhar o vaqueiro até onde estava a caveira para saber o que ela havia dito. Não houve resposta, perguntou de novo e nada. Pensando que havia sido enganado, o fazendeiro, cego de raiva, matou o vaqueiro. Depois disto ouviu a caveira falar:

— Eu não disse que quem mata o corpo é a língua?!

Contos folclóricos brasileiros, Marco Haurélio, Editora Paulus.

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* Gostou e quer ler outras histórias da tradição brasileira. pois vá visitar o blog do escritor e pesquisador, Marco Haurélio, foi ele quem nos cedeu esse conto de muitas outras histórias que ele sabe contar… Corra no link : http://contos-fabulas.blogspot.com.br/2017/10/o-vaqueiro-e-caveira.html

 

croninquietas

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Mulheres da Beira – imagemdo filme realizado por Rino Lupo -1923

 

quem vê cara, num vê os tombo que a gente leva.
uma vez eu ouvi de uma moça: ‘você é uma princesa, eu imagino seu banho com leite de cabra.’. fiquei passada. sou intolerante à lactose. mas ainda assim, respondi sistemática: ‘você adivinhou meu segredo, eu crio cabras no meu banheiro. mas dá um baita trabalho lavar as bichinhas. cheiram mal feito o diabo.’. a moça riu meio sem jeito. era pra ser um elogio o codinome princesa, mas eu num tenho nenhum pingo de sangue nobre.
pobre gosta de pão com ovo, pão com banana nanica, meu bem. foi, aprendi com mamãe, que era fina e elegante até costurando buraco de meia.
no mais, a gente vê cara mas num vê as horas de rodo que a pessoa passa na casa.
hoje mesmo, criatura, levantei perto das 6h. lavei roupa, esfreguei pano com cândida, tirei pó, passei rodo.
almoço tá pronto. rabada, fia. com molho apurado porque reduzir é coisa pra gente chique. minha finesse, pipol, é enfiar as unhas no canteiro pra plantar manjericão, melissa, hortelã. ainda não tem couvinhas… desvantagem de morar num apartamento.
ah, o tombo que comecei lá no primeiro fiasco de parágrafo, o tombo é doído, mas a gente levanta, sacode a poeira e num chora pra num borrar o rímel. afinal, eu sou do time da adélia, desdobrável escamando peixe pra fazer história.
deve ter mais gente que pensa que eu tô no banheiro com as cabrinhas a dar leite. elas, não eu. que seja, meu estereótipo é uma falácia, a nobre classe branca falida. ainda bem que nasci numa família que num tinha muito tempo pra essas bestagi.
e chega de conversa. o molho apurou. o angu já tá pronto pra esperar as cria. pensa que eu durmo no ponto?
– Penélope Martins

Coda

 

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à terra voltarão

suor lágrimas engano

o que não vingou

o que saiu do plano

a terra há de cobrar

todos os danos

àqueles que se dizem

seus donos

 

– Reynaldo Damazio

Com os dentes na esquina, Dobradura Editorial

* a fotografia que ilustra este post foi colhida da internet e não há menção de autoria.

O trem

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“O trem passa – piuííííííí…

levando as pessoas para longe dali.

Leva a menina para ver a vovó.

Leva a mocinha para ver se xodó.

Leva o garoto que morre de medo.

E o moço tristonho que tem um segredo.

O trem passa ligeiro e esperto,

e na janelinha, de olhar aberto,

a moça atenta a tudo que passa

enquanto ela passa do lado de lá.”

 

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*Este é um poema do livro “Lia e o feitiço da palavra”, de Marília Moreira, com ilustrações de Maria da Betania Galas, Editora ÔZé.

7 livros para conversar sobre a representatividade

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Fotografia de Samuel Macedo, Terra de cabinha, Editora Peirópolis

I. Histórias de ninar para garotas rebeldes 1 e 2Resultado de imagem para historias de ninar para rebeldes 2

Cem histórias que provam a força de um coração confiante: o poder de mudar o mundo.

Histórias de ninar para garotas rebeldes é um livro com 100 histórias sobre a vida de 100 mulheres extraordinárias do passado e do presente, ilustradas por 60 artistas mulheres do mundo inteiro.

Com textos que remetem ao estilo de conto de fadas, muitas das histórias começam com o clássico “Era uma vez”, pois, segundo a própria autora – Favalli –, a ideia é dar a sensação de um conto de fadas moderno, para embalar o sono das pequenas antes de dormir.

* Elena Favilli e Francesca Cavallo, Editora V&R

 

II. Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis

Desde 2012, a autora Jarid Arraes tem se dedicado a desvendar a história das mulheres negras que fizeram a História do Brasil. E não bastava conhecer essas histórias, era preciso torná-las acessíveis e fazer com que suas vozes fossem ouvidas.

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Para isso, Jarid usou a linguagem poética tipicamente brasileira da literatura de cordel. E vendeu milhares de seus cordéis pelo Brasil, alertando para a importância da multiplicidade de vozes e oferecendo exemplos de diversidade para as mulheres atuais. Neste livro, reunimos 15 dessas histórias, que ganharam uma nova versão da autora e a beleza das ilustrações de Gabriela Pires.

* Jarid Arraes e Gabriela Pires, Editora Pólen

 

 

III. Olhe para mim

Olhe para mim

Kitoko foi adotado. Sua nova mãe está grávida e ele se pergunta se continuará a ser amado depois que sua irmãzinha nascer. Enquanto espera pela mãe, Kitoko adormece e sonha com a África, continente onde nasceu. Em sonhos, reencontra a irmã biológica,

relembra tudo o que aconteceu com sua primeira família… agora o futuro o espera, terá uma nova irmã a quem irá amar e construir uma nova história.

* Ed Franck e Kris Nauwelaerts, Editora Pulo do Gato

 

IV. O presente de Jaxy Jaterê

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Kerexu tinha ouvido dos mais velhos várias histórias de Jaxy Jaterê, o protetor da floresta. Por ser poderoso, as pessoas podem fazer pedidos a ele, mas a índia não sabia como chama-lo. Porém, sua prima conhecia o segredo e o ensinou a Kerexu. Certa noite, a índia adentrou na floresta, realizou o ritual e fez um pedido. Será que Jaxy Jaterê irá atendê-lá?

 

 

Abra as páginas deste livro e descubra o desejo de Kerexu e como termina esta lenda do povo guarani.

* Olívio Jekupe, Fran Junqueira e Werá Jeguaka Mirim, Editora Panda Books

 

V. Vento forte, de sul e norte

Desde criança, em alguns momentos da vida, Luísa teve de enfrentar três situações de preconceito: o fato de ser negra, adotada e ter pais gays. Quando chamou Henrique para sua casa a fim de ajudá-lo com as aulas de matemática, jamais pensou que ele agiria como tantas outras pessoas.

Mas e aquela repentina aproximação de Gabriel? Será que ele realmente era um idiota como seu amigo Henrique? Uma história envolvente que lida com assuntos como homofobia, racismo e preconceito, mas na qual a amizade e o amor farão Luísa, protagonista deste sensível texto, se tornar forte para aguentar os ventos do sul e do norte.

* Manuel filho e Paola Saliby, Editora Editora do Brasil

 

VI. Terra de cabinha: pequeno inventário da vida de meninos e meninas do sertão

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Este livro traz histórias, causos, brincadeiras, receitas, versos e adivinhas. Aqui você ouve a voz do cabinha, dos mestres e contadores de histórias, e também da pesquisadora visitante, que registrou num caderninho as coisas mais interessantes a respeito de como vivem aqueles meninos e meninas para quem o mundo é feito de castelos, árvore é brinquedo e assombração existe, sim, senhor.

 

* Gabriela Romeu, Sandra Javerá e Samuel Macedo, Editora Peirópolis

 

VII. Pode pegar

Um coelhinho de saia, batom e sapatinho de salto. Outro coelhinho de botas, calça e gravata. Assim fica fácil saber quem é menina e quem é menino! Mas e quando a menina quer usar botas pra atravessar o riacho? E quando o menino precisa de salto pra ficar

Pode pegar!

mais alto? Batom serve pra desenhar? E esse chapéu, é de quem? Trocar de roupa é divertido! E agora, como faz pra saber quem é menina e quem é menino? Bom… Mas isso importa mesmo?

* Janaína Tokitaka, Editora Boi Tatá