Posições de Leitura

O ilustrador Jean Jullien cativou-me em 2011. Escrevi sobre ele – o pouco que dele sabia no espaço do Clube. De então para cá tenho acompanhado o seu crescimento, a sua evolução. Continuo a aplaudi-lo como no primeiro dia.

Em agosto de 2016, a exposição Flat Out trouxe sua primeira mostra a solo de escultura, em Ghent, na Bélgica. Isto é, uma mostra de algumas das suas ilustrações transpostas para três dimensões, em que os livros têm também (como sempre tiveram) um papel de relevo.

Deixo-vos algumas imagens. Há apetites que devem ser despertados.

Ana Almeida, do Blog Clube de Leitores – de Portugal para o Toda Hora Tem História  -do Brasil, na conexão É giro!
  

 

para onde vamos

 

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Desde muito pequena eu compreendi que eu e meu pai poderíamos ser grandes amigos. Ele brincava comigo e tínhamos longas conversas, algumas bem difíceis por sinal, e essa convivência não deixava escapar nada: meu pai sabia se eu estava triste ou se eu queria esconder alguma coisa para alcançar outra – o que nunca dava certo pra mim.

Mas não era só por estarmos eu e meu pai nessa rotineira amizade que se construía apesar de ser eu submetida à figura paterna durante aquele tempo de vida em que os pais tomam muitas decisões por nós. Havia outro elemento muito forte para celebrarmos uma amizade, meu pai e eu, era o meu avô.

Quando criança, meu pai ganhou uma foice de seu padrinho. Meu pai me contou isso quando eu também era bem criança, por volta dos seis anos.

Por que um menino ganha uma foice? Essa pergunta poderia me atormentar durante anos, porém meu pai falava daquilo como se fosse um pacto de amizade com o pai dele, que também precisava de uma foice para trabalhar em sua quinta (uma roça, alguns diriam).

Meu avô trabalhava duro e meu pai criança era seu parceiro fiel a cortar capim, a colher o trigo, a dar de comer para animais de criação.

As vezes meu pai tinha uns repentes de criança; ao invés de trabalhar, fugia pela janela para nadar no rio. Meu pai me contou que, numa dessas vezes, o meu avô escondeu as roupas dele – que estavam na beira do rio – e ameaçou dar um castigo com uma varinha. Mas meu avô nunca estendeu a mão para castigar meu pai, nem varinha. Meu pai também não me castigou na minha infância, e a história do menino que ele foi combinada com a minha história de menina, confirmava ao longo de nossa convivência os grandes amigos que seríamos, e somos.

Aperta meu coração saber que meu pai teve que sair obrigado de seu lugar, seguindo meu avô para um país novo e distante. A viagem dos dois, meu avô e meu pai, deixou para trás a paisagem da aldeia, as fileiras de oliveiras cultivadas durante anos, os animais de criação, o castelo de pedra que servia para acolher meninos, também o rio. O rio.

– Para onde estamos indo?

Meu pai perguntou inúmeras vezes, mas ninguém da família saberia explicar. Não havia ideia de sair da aldeia, nem desejo para fazê-lo: era uma imposição mal compreendida do tipo que nunca se poderá compreender sob pena de nos tornarmos mais frios e menos humanos.

Ao chegar no Brasil, meu pai foi ridicularizado pela forma como se vestia, pelo jeito como falava e pensava. Era uma travessia pra além da geografia dos mapas, ele era obrigado a viajar dentro de si, desapegando-se de suas referências mais caras para reaprender a viver com coragem e fé.

Esse olhar para o menino que existiu antes do adulto que é meu pai, ajudou na construção de nossa amizade – duas crianças que seguem suas memórias de afetos.

Hoje a gente se reune, meu pai e eu, e as histórias se misturam numa viagem por nossas existências. E é tão bom seguir viagem com um amigo por perto.

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Sobre grandes travessias, uma história pode desdobrar outras tantas leituras… Como a de Jairo Buitrago Para onde vamos. O livro tem ilustrações de Rafael Yockteng, tradução de Márcia Leite, está disponível pela Editora Pulo do Gato, de São Paulo. A narrativa conta os momentos de uma menina que viaja com seu pai, mas não sabemos para onde eles vão. Durante a longa caminhada, ela vai contando os animais, as nuvens e as estrelas do céu. Também conta crianças e soldados. Às vezes, eles param em algum lugar, durante uns dias, pois o pai precisa ganhar dinheiro para prosseguirem.

 

 

 

verões verdes

“De repente me lembro do verde”, e isto me leva de volta para os tacos de madeira da sala do apartamento do meu avô português. Era verão, eu sei porque usávamos poucas roupas, meu avô voltava sempre cheirando a peixe.

No canto da sala, uma vitrola que não era verde, mas vermelha, tocava um disco de Caetano Veloso e o nome dele sempre retumbava pergunta na minha cabeça:

– Veloz, Veloso?

Palavra é um bicho esquisito que anda na gente de dentro pra fora e de fora pra mexer com o que tem dentro.

Conheci no encarte do disco o poeta verde, Paulo Leminski, e pensei que ele talvez fosse alguém muito parecido com o meu avô – não no cheiro a peixe, mas por plantar pimentões verdes, rúcula, couve, agrião. Mais tarde eu soube que estava enganada; o verde poderia ser tantas outras coisas.

Mas, de volta, na minha infância, verões verdes com vitrola vermelha às voltas com a Verdura na voz de Veloso.

Pimentões verdes para um avô português que gosta de peixe. Não há peixe verde, há?

Lembrei agora, juro, de uma moça vestida de verde numa festa de casamento. Um verde vistoso que mais parecia uma viva verdura vinda da venda. Lembrei junto de uma outra canção chamada Verde, que diz ‘ver de novo um lugar, ver adiante’, o que faço agora enquanto olho para os verões verdes que ficaram na sala com tacos de madeira onde tocava uma vitrola vermelha. Estranhamente,  da canção eu penso no livro – porque, afinal de contas, não eram versos na voz que voava pela vitrola?

Essa é a minha viagem ao ler um livro: ver de novo, ver tudo de novo.

Junto comigo outros, assim vai Dipacho, em Verões Verdes, recém lançado pela Editora do Brasil, com frescor de verdura na vida das palavras verdes.

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quero ler meu livro

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“PSSSIU! Silêncio.”

Eu sei que ela gosta de correr pela casa e ficar me perguntando uma coisa – e outra coisa – e bater a bolinha no chão para brincar com a cachorrinha e aumentar o som da música e, e, e… Enquanto eu, eu só preciso de um pouco de silêncio.

Note bem você, pessoa distinta que me lê neste humilde desabafo, eu peço pouco, um pouco de silêncio, embora eu tenho certeza de que não me faria mal uma parcela inteira do dia, ou da noite.

O pior dos meus avessos é a bolinha – TUM, TUM, TUM – como um bumbo ressoando pela casa. Então, meu pensamento se enche de devaneios, ‘ah, que saudade do tempo em que não existiam bolinhas ou que elas eram feitas de silêncio’.

– Pssiu! Você não está vendo que eu estou lendo? Eu estou lendo um livro.

Isso também não adianta. Logo é um rosnado pela casa atrás da bolinha, um mar de risadas, uma correria.

– Ai, minha santa paciência que não é pouca!

Depois, a menina canta. Depois, a menina dança. Depois, a menina descarrega uma caixa de brinquedos. Depois, a menina arranja mais alguma coisa que faça barulho.

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– Psiu! Por favor, por favorzinho, você não vê que eu estou… Hei, você quer ler comigo?

De repente, um silêncio que só se interrompe quando a menina diz pertinho do meu ouvido:

– Podemos ler mais um?

 

* Essa história se repetiu na casa do meu vizinho. Ele lia. Ele lia um livro. Mas a criança que mora no apartamento ao lado do meu vizinho, não ajudava em nada na leitura dele: aquilo não cedia em ruído, uns estrondos incabíveis para um alguém que lê (ou tenta) um livro. Felizmente, meu vizinho teve uma ideia… O pulo do gato! Quer saber qual foi? É fácil, leio – leia – lemos, QUERO LER MEU LIVRO (de Koen Van Biesen, com tradução de Cristiano Zwiesele do Amaral, selo da Editora Pulo do Gato).

 

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os cinco esquisitos

 

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– Sim, de perto ninguém é normal.

– Como?

– Come!

– Você é mesmo uma pessoa esquisita, uma coisa esquisita, sei lá, muita esquisitice.

– Olha aí quem tá falando, justo você que nem sabe se a pessoa é ou se é só uma coisa que dá e que escapa da vontade da pessoa.

– Mas que papo furado!

– Melhor papo furado do que papo quadrado, né não?

– Quadrado é uma coisa que parece pontuda, pode furar o papo.

– Rá Rá Rá, tá vendo como você não é nada normal com esse papo?

– É que me desdobrei na sua doidice, e é claro que guardo muitas lembranças absurdas, surreais, pouco sensatas, também, dentro da minha cabeça…

– Isso me deixa mole.

– Tédio?

– Não, ao contrário, uma moleza aconchegante com vontade de dormir nas nossas vozes.

– Porque a gente tá vendo tudo de ponta cabeça, né?

– E isso dá tontura.

– Rá Rá Rá Rá Rá! Como somos cheios de esquisitices.

– Somos um erro da cabeça ao cotovelo!

– Pra que querer ser normal e perfeito e tal, se é no desdobrado papo furado que a gente se amolece e se reconhece tão mais perto do coração, né?

– Ah… S2

– ESSE DOIS?

– rÁ rÁ RÁ RÁ!! Agora tem emoticon desenhado na palavra que você fala.

– Desatinada palavra.

– Uma catástrofe.

– Completamente.

 

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Ps. Fui à Livraria e voltei com um livro muito esquisito. ‘Os cinco esquisito’, que eram seis, ou mais, porque eu pensei em mim e em você (que é um absurdo). O livro foi escrito e desenhado por Beatrice Alemagna, que é italiana apesar do nome que me confundiu. Não sei se Beatrice é esquisita, mas me parece que sim, desde o princípio.

Ps2. O livro está publicado no Brasil com selo da wmf martins fontes.

 

 

 

por mais escuta pra leitura

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Muitas pessoas parecem preocupadas em incentivar e formar leitores. Ficam repetindo palavras de ordem, “LEIAM”, “LEIAM MAIS”, “LER É BOM”, e eu, que sou uma leitora em processo, fico sempre me perguntando de que tipo de leitura estamos falando.

No começo do ano, estive num colégio para falar com educadores do ensino fundamental, primeiro ao nono ano, e minha proposta era discutir o plano de leitura em sala de aula a partir das considerações iniciais de cada professor, discutindo títulos selecionados e a forma que se processa a leitura desde sua escolha. Em um segundo momento, a conversa seguiria pelas dialógicas com o conteúdo dos livros lidos.

Assim que entrei na sala para a exposição de ideias, senti a disposição do espaço como um problema aparente. Tradição na disciplina corretiva, linear, arrochada, enfileirada. Mesa maior para o professor, uma distância entre os corpos.

A proposta de reconfiguração foi recusada… Era mais prático assim.

Segui querendo saber quem gostava de ler, quem lia em casa costumeiramente. Perguntei qual o livro que indicavam para as crianças com mais entusiasmo.

De cara eu me deparei com “LEIO muito para a faculdade, para a pós, para o trabalho…”, sem contar que o livro imediato da lembrança era o pequeno garoto no planetinha com a rosa e o “TU te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

Fiz menção à alguns selos editoriais paulistas (para não ir muito longe) que mantêm um ativo catálogo apto ao debate. Nadinha.

Comecei, então, a flutuar pelas histórias da imaginação, pelas brincadeiras da infância, pela memória no cheiro a bolo assando na casa das avós, por tantos joelhos ralados em tombos de bicicleta, caça às pipas. Veio história, veio lágrima, veio riso.

Passamos a inventariar tudo isso como material imprescindível para lermo-nos e, a partir disso, temos material para afetar outros leitores.

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Tínhamos, enfim, salvação para nossas leituras, nossas percepções sobre a relevância de provocar reflexões através dos livros que são, sobretudo, instrumentos para futuras conversas (interiores e exteriores).

A sequência da minha intervenção foi para discutir a busca da re-significação da narrativa presente na oralidade, o indivíduo nas relações que permeiam a sua existência e o envolvimento na leitura – com a presença do livro – como brinquedo do sentir.

Parecia que tudo ia muitíssimo bem até que a coordenadora veio ter comigo uma conversa estranha cobrando um plano de trabalho de práticas mais efetivas para a sala de aula, o que fazer para cada criança gostar de ler e sair devorando com apetite inquestionável os títulos que lhe são indicados – uns com mais de 30 anos de história na escola, sem a menor conexão com sua infância…

Tive que repassar tudo o que fiz, ali de pé no corredor. E ficam reverberando para sempre as perguntas: como encantar uma criança a se tornar leitora sem escutá-la, sem saber de sua história, sem brincar com ela conduzindo as narrativas desse brincar? Como pode ser bom subjugar a capacidade de escolha do outro e empurrar atividades goela abaixo para que ele se exprema dentro de si e dê somente o que a gente quer?

Eu me aproximei da leitura pelas rodas de ciranda que brincava com minha avó, mãe e primos. Aqueles cantares ainda são lidos por mim. Minha formação como leitora passa pelos almoços que levavam violão de sobremesa, por canções da música popular, por canções da tradição oral. Meu afeto com a leitura nasceu lá no ponto do tricô escutando atenta a voz da avó falando sobre pereiras, roupas no tanque, casamento, batom vermelho, massa de pão, surra, travessias longas. Só me faz sentido a leitura porque viajei na memória de meu avô muitas e muitas vezes, de terras distantes à uma época que só posso viver na imaginação.

Ler é antes de tudo saber escutar e penetrar na escuta como quem sabe o bulbo ao ver a folha.

Aos educadores eu desejo toda coragem e fé para resgate das crianças que eles foram.

 

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*imagens de ciranda colhidas da internet