A feijoada literária, ou, Quem foi mexer na minha cumbuca?, ou, Original é o ovo ou a galinha?

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Imagem colhida da internet – sem identificação de autoria. (Eita, isso aqui tá pior do que discutir adaptação? Por favor, quem souber quem botou esse ovo, não tenha pena de informar.)

Um dos temas que sempre ressurge enfatizando ânimos distintos é a adaptação de um texto literário original. Poderíamos até começar questionando o que é originalidade, mas isso daria um trabalho que, por hora, atrasaria a feitura do nosso angu: adaptar ou não adaptar, eis a questão.

Eu gostaria de falar duas coisas sobre o assunto. E mais algumas.  A primeira coisa, os direitos do autor no Brasil tem 70 anos de proteção a partir de sua morte. Ou seja, o autor vai viver usufruindo dos seus direitos,  inclusive permitindo que sua obra sofra ou não adaptações – para qualquer linguagem, e, depois de morto, o autor promoverá seus herdeiros à condição de autores, mesmo que eles não sejam, porque os direitos autorais são patrimônio e a partir de sua detenção decide-se a vida da obra. Inclui-se aqui licenciamento de personagens para uso irrestrito de comercialização de produtos. Pois bem, a segunda coisa, a partir de mais de 70 anos de vida de uma obra artística, morto autor e contando anos de sua concepção durante a vida do mesmo, tem-se o que se chama domínio público, e nesse momento, o original se aparta de todo o resto, porque poderão vir todo tipo de boas ou más adaptações, tanto da forma como do conteúdo.]

Um exemplo, quem lê James Barrie vai entender e poder imaginar a Terra do Nunca diferente das imagens que os Estúdios Disney coloriram tão bem, isso porque a interpretação do roteiro e da direção também renovaram a obra em outra obra cinematográfica. Adaptação. O cinema faz isso sempre, muitas vezes com primazia. E nem sempre corremos ler o livro que originou o filme. Por vezes nem se sabe que existiu um livro anterior. Ou, até tem filme que fica melhor do que o livro…

Portanto, se temos agora versões de uma obra que já se encontra em domínio público, isso não exclui a convicção popular de que existe uma origem e que ela foi amplamente distribuída pelo território com a força de todos os anos em que esteve no domínio autoral do próprio artista, e depois de seus herdeiros, inclusive circulando com adaptações autorizadas por eles enquanto detentores dos direitos patrimoniais de autoria, admitindo cortes e modificações moldadas ao mercado cultural, educacional ou meramente comercial.

Quando eu fiz a versão de Pinóquio, optei por trancafiar o grilo no armário. Eu não quis matar o grilo, nem achei bom ter uma consciência externa ditando regras – porque ninguém pode ditar consciência de ninguém, ao menos na minha concepção. Também escolhi trazer outro final para o menino palito que virou menino de verdade, levando aquela moralização da história para bem longe dos meus leitores. Pobre Colodi? Caiu nas teias de Penélope? Do mesmo jeito, a cada nova edição de livro, brinquedo, animação, cinema, o garoto de madeira ganha uma nova feição. Que assombro para os mais conservadores que devem achar o original, ainda que não desenhado pelo autor do texto, o único legítimo representante do nome Pinóquio.A imagem pode conter: desenho

Os leitores da minha versão sabem o que é uma versão. Aliás, a boa fé editorial sempre faz saber que uma história da tradição está sendo recontada ou que o original está adaptado naquela edição. Assim como leitores de adaptações literárias, imagéticas, audiovisuais, ou de qualquer outra natureza, saberão, de um jeito ou de outro. Ninguém lê uma adaptação de texto em quadrinhos de um conto do consagrado Machado de Assis sem saber quem foi Machado de Assis (ou pelo menos questionar sobre seu nome e existência). Todavia, é bem possível que uma pessoa leia em quadrinhos o que não lerá em conto, romance.

Aqui eu vou abrir parênteses para uma questão sobre originais. A tradução também pode ser vista como uma adaptação uma vez que a escrita de uma história parte de uma concepção de mundo de quem escreve, além de uma estrutura linguística imbuída de uma lógica construída pela história de um determinado povo. Quem lê somente o original, lê na língua em que foi escrito. Isso também se vê quando a oralidade é traduzida para a forma escrita da literatura, onde as escolhas são feitas a partir de uma ótica de quem escreve. Quem garante a veracidade da história recontada ou traduzida? Não seria a história permeada de múltiplas verdades ou interpretações?

Para apimentar a feijoada de leitura, também podemos ressaltar que a arte nas ilustrações também emana criações que renovam a originalidade primordial de uma obra, uma vez que, costumeiramente, quem escreve não o dá corpo imagético delineado que o desenho oferece para as personagens.

E se por acaso a autoria da adaptação de texto optar por dar à história uma voz mais aproximada de novos conceitos, por exemplo, contemplando discurso de igualdade étnica entre personagens, mantendo distância de um ou outro personagem que lhe pareça insignificante ou deturpador ou tóxico (como quem tranca um grilo falante)? Ainda assim os leitores saberão que se trata de uma adaptação e terão sempre à disposição o original que gozou de amplos direitos autorais durante pelo menos um século.Nenhuma descrição de foto disponível.

Nesse caldo, uma discussão muito pertinente revira as mentes leitoras no Brasil. Ler Lobato ou não ler? Adaptar para uma linguagem sem repetição contínua de preconceitos ou manter o texto original com notas?

Outro ponto para abrir parênteses. Vale dizer, crianças de 6, 7, 8, 9 anos ou mais, não leem notas explicativas, e todas podem se identificar demais com personagens das histórias assumindo, inclusive, novos comportamentos por admiração. Não é raro ver uma menina vestida de Emília em festividades escolares, ou mesmo uma professora que assume seus trejeitos para contar histórias.

Embora eu tenha gostado de Emília, aquela guriazinha sem papas na língua, sinceramente, eu não me fiz fã da literatura de Lobato. Talvez porque a minha casa era negra e branca desde que me conheço por leitora. Eu não poderia gostar de um menino chamando Anastácia de macaca. Numa família de trabalhadores braçais, que não tinha fazenda e nem entendia o contexto emocional de aceitar uma sinhá servida por escravos, certas histórias só repetiam dor. Talvez, por isso, eu, enquanto autora, não tenha entrado em tantas outras discussões sobre Lobato.

Mas, tomando de partida que o Sítio do Pica-pau amarelo é um dos grandes ícone da literatura para infância no Brasil, talvez o topo de lista nas escolas, e que o país tem uma cultura racista, machista, misógina e altamente colonizadora, adaptar talvez represente salvaguardar novas gerações no repetir de padrões doentios. Depois, quem quiser ler o original e as notas de rodapé, numa fase de vida mais crítica e autônoma, poderá fazê-lo. Ou não. Ninguém morrerá por não ler Lobato, assim como não morrerá se passar a vida sem os escritos do grande mestre da nossa literatura Machado de Assis.

Narizinho, adaptação da obra de Lobato, por Pedro Bandeira, selo Editora Moderna

Por enquanto, acho que autores como Pedro Bandeira são corajosos em promover a adaptação de Lobato, dialogando temas contemporâneos e uma nova visão de mundo em nova edição. No mais, vale lembrar, que o próprio Lobato foi adaptador de textos estrangeiros e que ele mesmo fez da oralidade um arcabouço de saberes de sua própria autoria incluindo os mitos e os contos de fadas em suas obras sem o menor constrangimento de lhes adaptar significados nas bocas de suas personagens. Para além, Lobato autorizou transformar sua literatura em outras linguagens, incluindo a inauguração do sítio na televisão – com adaptação de outra escritora memorável, Tatiana Belinky – permeando episódios da saga da turma de Emília com publicidade dirigida diretamente para crianças, coisa que se tinha direito naquela época e que hoje aprendemos ser um verdadeiro absurdo.

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Por fim, gostaria de meter a mão na cumbuca e incluir uma adaptação também de uma frase desse autor que tem até um dia para lhe comemorar a existência no calendário nacional, o dia 18 de abril, Lei nº 10.402, de 8 de janeiro 2002, dia de Monteiro Lobato, não senhor Lobato, um país não se faz com homens e livros, um país se faz com seres humanos livres tratados assim por sua dignidade e seu poder de expressão.

 

– Penélope Martins, escritora e narradora de histórias.

 

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