Indignação e Descontentamento: a caligrafia dos sentimentos

Mulher com corpo de peixe, peixe com corpo de mulher. Bruno Pontirolli.

Os tempos nos obrigam a pensar como quem escreve sob a luz de um único toco de vela acesa. Falamos para nós mesmos, ao menos aqueles que são mais otimistas, que “tudo vai ficar bem”, e, ao mesmo tempo, sabemos, que nunca estivemos todos bem e isso sempre significou caminhar sobre o cadafalso: hoje pode ser o meu corpo a cair.

Uma amiga me envia a mensagem pedindo ajuda. Sem esperanças. Ela e eu. Respondo, tentando disfarçar a voz embargada, que devemos nos obrigar a olhar as pequenas coisas que nos fizeram chegar até aqui. O prato de sopa quente servido dentro de um prato de porcelana é definitivamente uma vantagem para poucos. Estar entre os sobreviventes por si representa privilégio, algo nos ampara e, por isso, também nos condena. A consciência desperta grita por fazer, e isso é como uma âncora, impede que o navio naufrague, torna-se impecilho real para o retomar da coragem, seguir jornada.

Decido falar para a minha amiga que muitos são os sentimentos, pontos cartesianos dessa bússola que a gente carrega por dentro. Podemos seguir o norte da indignação, fruto da consciência desperta, trabalhando juntas por um mundo mais equânime, ou, por covardia que é desamparo, ver o ponteiro girar sem parada, e nesse caso, seremos fatalmente flageladas pelo descontentamento.

A caligrafia dos sentimentos é uma ciência delicada. Por isso, decidi, há muitos anos, escrever no mural que se o amor dói, inimaginável é a dor de quem se alimenta mastigando ódio. Eu sei do amor sua falta de passividade, sei o quanto ele me revira as entranhas e me provoca vômitos. Já senti sua fúria, muitas vezes. Já olhei seu reflexo invertido no espelho. Quis domar a mim mesma pelo amor, por mais difícil que fosse e seja, pois a imagem retorcida do oposto aterroriza com fogo e sangue entre os dentes.

Muitas pessoas se perdem em brigas. Brigar é muito diferente de lutar. Para lutar devemos reconhecer princípios, afastar o desânimo e fazer escolhas, minuto a minuto, para manter elevado o espírito. Para brigar basta se deixar tomar pela vaidade sedutora de se pensar algo diverso do que somos, pequenos grãos de sal que só servem revolução multiplicados em ideias.

Agradeço a mensagem da amiga, ainda que seu desconsolo possa me abater, ela me confia sua fragilidade. E perdoo a mim mesma por não ter soluções em vista, nem para mim, nem para ela.

Retorno à escrita como uma carícia que não cura a dor, mas distrai a mente de suas fisgadas lancinantes.

É preciso simplicidade nesse raciocínio, a sinceridade de quem olha para as outras pessoas como um aconchego da própria confiança, alimentada pela ternura, gentil intimidade. Trocamos cartas, não como antigamente, hoje são mensagem luminosas que incorporam estampas, humores, “gifs” e “emojis”.

“Que os olhos

encharcados

de espanto,

transbordem

e derramem

assombro

sobre a vida,

o milagre

de cada dia.”

A cada dia vivido, a amizade vem como assombro.

A luta é infindável, mas nos alimentamos dessa sopa quente temperada com pequenas alegrias, cultivada em delicada porcelana, encantamento de quem convida a paz para ser hóspede.

Os hóspedes aproveitam tudo de melhor, riem, cultivam uma espécie de acalanto de amor naqueles dias em que recebem da casa o melhor da casa. Depois partem porque devem partir, porque é preciso seguir lutando.

Acreditar na paz é reconhecê-la como hóspede. Saber que ela nos deixará torna sua permanência sacrificante: podemos lutar para que ela queira ficar ou voltar mais e mais vezes; podemos amargar sua ausência mesmo na sua presença.

A caligrafia dos sentimentos, uma balança de precisão. Basta um grama de descontentamento para perder a indignação que move o coração do justo, salgando-o demais, apimentando-o demais, tornando venenosa a receita com a vingança que nos deprime e nos confina no labirinto do descontentamento.

– Penélope Martins

Hoje o livro Caligrafia dos Sentimentos,... - Roseana Murray E ...
O poema Assombro, citado no texto, assim como a expressão “caligrafia dos sentimentos”, em origem se encontram no livro Caligrafia dos Sentimentos, de Roseana Murray. Editora Feminas.

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