Indignação e Descontentamento: a caligrafia dos sentimentos

Mulher com corpo de peixe, peixe com corpo de mulher. Bruno Pontirolli.

Os tempos nos obrigam a pensar como quem escreve sob a luz de um único toco de vela acesa. Falamos para nós mesmos, ao menos aqueles que são mais otimistas, que “tudo vai ficar bem”, e, ao mesmo tempo, sabemos, que nunca estivemos todos bem e isso sempre significou caminhar sobre o cadafalso: hoje pode ser o meu corpo a cair.

Uma amiga me envia a mensagem pedindo ajuda. Sem esperanças. Ela e eu. Respondo, tentando disfarçar a voz embargada, que devemos nos obrigar a olhar as pequenas coisas que nos fizeram chegar até aqui. O prato de sopa quente servido dentro de um prato de porcelana é definitivamente uma vantagem para poucos. Estar entre os sobreviventes por si representa privilégio, algo nos ampara e, por isso, também nos condena. A consciência desperta grita por fazer, e isso é como uma âncora, impede que o navio naufrague, torna-se impecilho real para o retomar da coragem, seguir jornada.

Decido falar para a minha amiga que muitos são os sentimentos, pontos cartesianos dessa bússola que a gente carrega por dentro. Podemos seguir o norte da indignação, fruto da consciência desperta, trabalhando juntas por um mundo mais equânime, ou, por covardia que é desamparo, ver o ponteiro girar sem parada, e nesse caso, seremos fatalmente flageladas pelo descontentamento.

A caligrafia dos sentimentos é uma ciência delicada. Por isso, decidi, há muitos anos, escrever no mural que se o amor dói, inimaginável é a dor de quem se alimenta mastigando ódio. Eu sei do amor sua falta de passividade, sei o quanto ele me revira as entranhas e me provoca vômitos. Já senti sua fúria, muitas vezes. Já olhei seu reflexo invertido no espelho. Quis domar a mim mesma pelo amor, por mais difícil que fosse e seja, pois a imagem retorcida do oposto aterroriza com fogo e sangue entre os dentes.

Muitas pessoas se perdem em brigas. Brigar é muito diferente de lutar. Para lutar devemos reconhecer princípios, afastar o desânimo e fazer escolhas, minuto a minuto, para manter elevado o espírito. Para brigar basta se deixar tomar pela vaidade sedutora de se pensar algo diverso do que somos, pequenos grãos de sal que só servem revolução multiplicados em ideias.

Agradeço a mensagem da amiga, ainda que seu desconsolo possa me abater, ela me confia sua fragilidade. E perdoo a mim mesma por não ter soluções em vista, nem para mim, nem para ela.

Retorno à escrita como uma carícia que não cura a dor, mas distrai a mente de suas fisgadas lancinantes.

É preciso simplicidade nesse raciocínio, a sinceridade de quem olha para as outras pessoas como um aconchego da própria confiança, alimentada pela ternura, gentil intimidade. Trocamos cartas, não como antigamente, hoje são mensagem luminosas que incorporam estampas, humores, “gifs” e “emojis”.

“Que os olhos

encharcados

de espanto,

transbordem

e derramem

assombro

sobre a vida,

o milagre

de cada dia.”

A cada dia vivido, a amizade vem como assombro.

A luta é infindável, mas nos alimentamos dessa sopa quente temperada com pequenas alegrias, cultivada em delicada porcelana, encantamento de quem convida a paz para ser hóspede.

Os hóspedes aproveitam tudo de melhor, riem, cultivam uma espécie de acalanto de amor naqueles dias em que recebem da casa o melhor da casa. Depois partem porque devem partir, porque é preciso seguir lutando.

Acreditar na paz é reconhecê-la como hóspede. Saber que ela nos deixará torna sua permanência sacrificante: podemos lutar para que ela queira ficar ou voltar mais e mais vezes; podemos amargar sua ausência mesmo na sua presença.

A caligrafia dos sentimentos, uma balança de precisão. Basta um grama de descontentamento para perder a indignação que move o coração do justo, salgando-o demais, apimentando-o demais, tornando venenosa a receita com a vingança que nos deprime e nos confina no labirinto do descontentamento.

– Penélope Martins

Hoje o livro Caligrafia dos Sentimentos,... - Roseana Murray E ...
O poema Assombro, citado no texto, assim como a expressão “caligrafia dos sentimentos”, em origem se encontram no livro Caligrafia dos Sentimentos, de Roseana Murray. Editora Feminas.

Leitura e juventude: porque devemos reforçar vínculos afetivos com as narrativas

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Penélope Martins em narração de história na Biblioteca Pró-Saber, 2019.

Muitos são os debates sobre a necessidade de ampliarmos o público leitor, quer pela sobrevivência de selos editoriais que funcionam como um registro do pensamento contemporâneo e da cultura de um povo, quer pela objetividade que a leitura contém em si de promover meios para o exercício da cidadania plena.

Primeiro, é preciso investigar o que se entende por cidadania plena, algo que compõe a consciência do indivíduo sobre seus direitos e deveres somado à percepção de que a defesa desses direitos se efetiva na vida comum e coletiva.

A fase etária compreendida como adolescência antecede uma condição da ação de cidadania plena capaz de contrair obrigações variadas, sem a necessidade de autorização de outra pessoa. Aliás, na própria adolescência um dos direitos primordiais de cidadania se torna possível no Brasil: eleger representantes políticos para o exercício das funções públicas legislativas e executivas. Sem contar a emancipação por maternidade e casamento na adolescência, algo infelizmente comum em diferentes cenários do país.

Explícita é a relevância da autonomia crítica do pensamento na juventude: um sujeito de direito, prestes ou já votante, que responde criminalmente por seus atos e que se estabelece a apenas um passo de exercer todos os atos da vida civil sem interferência ou outorga de qualquer outra pessoa, ou seja, tornando-se responsável por si mesmo e frente aos demais, com as consequências pertinentes ao seu poder decisório.

Mas o que a leitura, especificamente a leitura literária, pode ofertar de suporte nessa dinâmica de instrumentalização da vida política do leitor e da leitora?

Sem dúvida, os livros são portadores de conhecimentos variados e não por acaso estão intimamente ligados ao universo escolar e acadêmico. Inegável o valor da educação de ensinamentos que constituem o fundamento do raciocínio, do exercício lógico, da vida prática com a linguagem, inclusive matemática.

E qual o papel da ficção nessa dinâmica do saber? Qual o papel da instrução subjetiva, metafórica, criativa?

A partir da construção de um imaginário individual e também coletivo, signos e significados são coletados, colecionados, decodificados, interpretados e correlacionados para construir uma identidade de pensamento.

Da experiência leitora depreende-se para além de quem se é o que os demais integrantes da nossa sociedade pensam e necessitam. Essa relação íntima que se processa de uma forma silenciosa e ativa ao mesmo tempo, uma vez que lemos com a permissão do não julgamento social, enfrentando em si mesmo, entre as múltiplas questões e sentimentos que emergem da leitura, o que somos e novas formas de pensar possíveis sobre o que somos. Essa imersão aparentemente focada no próprio universo particular de cada leitor e leitora conduz para a concretização de empatia social, a identificação com outras vidas e outras geografias humanas, algo que, em essência, é o motor das ações transformadoras e da criação de novas relações sociais.

Obviamente não estamos abordando que a leitura literária por si vá conduzir a pessoa leitora a agir com mais altruísmo social porque, como já expresso, o imaginário se forma a partir da subjetividade de cada um. Porém, nesse aspecto, reforçamos outro elemento imprescindível, a presença da mediação na leitura, as vozes que dialogam com a leitura significando alimento para esse imaginário, substancialmente auxiliando a elaboração de um raciocínio investigativo capaz de revelar esse tear social em que todos nós estamos inseridos, uma vida intimamente ligada à outra por fundamentos comuns que precisam ser assegurados independentemente de condições alheias à nossa vontade.

Por intermédio da leitura literária podemos viver tantas vidas distintas das nossas quanto quisermos, e nessas jornadas de personagens percebermos similaridades para além de quaisquer aparentes diferenças. Voltamos ao ponto em que a leitura funciona como uma intersecção de conhecimentos, uma escolha pela coragem de promover o próprio esclarecimento. Acompanhando múltiplas vozes narrativas, no laboratório ficcional do pensamento, passamos a vislumbrar o que almejamos como bem estar social para nós no todo. E nesse contexto compreendemos que o direito à vida, o direito à liberdade, o direito à igualdade, não podem estar atrelados à etnia, à classe social, ao gênero, à formação e ao desenvolvimento psíquico e intelectual, são direitos comuns a todos nós e que precisam da vigília e da participação constante de cada pessoa para que se garantam.

O papel de quem acompanha a vida de crianças e jovens é justamente ler com eles os livros e o mundo, não somente para ensinar a partir de suas próprias experiências, mas, e talvez principalmente, para refletir com eles caminhos para a humanidade.


foto Patrícia Ribeiro
Fotografia de Patrícia Ribeiro

* Penélope Martins é escritora, narradora de histórias, criadora e intermediadora da revista virtual Toda Hora Tem História, um espaço para reflexões e partilhas de conteúdos literários para todas as idades. Entre seus livros, destaca-se para o público jovem Minha vida não é cor-de-rosa, publicado em 2018, pela Editora do Brasil, ganhador do primeiro lugar do Prêmio da Biblioteca Nacional, em 2019.

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Minha vida não é cor-de-rosa

Competir ou compartilhar?, por penélope martins

Sinceramente, eu estranho como tratamos nossas crianças. Passamos os primeiros anos fazendo com que elas se socializem, dizemos para elas sorrirem e fazerem gracejos, elogiamos quando saem correndo para abraçar os amiguinhos da escola, quando partilham o lanchinho com outras crianças no parque. Depois, algo bruscamente se quebra. Começa a saga da escolaridade junto com a gama de observações dispensáveis dessas pessoas adultas que supostamente deveriam ser mais maduras para se considerarem responsáveis sobre seus filhos; ah, como são bons nisso ou naquilo, esses meninos, ah, como minhas filhas são lindas e mais altas e têm inteligência peculiar, e assim por diante.

Um descaso com o equilíbrio mental das crianças, eu diria. Uma fúria por incentivar a competição desde muito cedo. “Corra, não vê que sua amiga já chegou lá?”, frases que passam longe de motivar, ao contrário, são alavancas para um individualismo que consumirá as potências humanizadoras no futuro.

Dentro desse caldo, obviamente, é preciso identificar quais os tipos de adultos na  missão de criar crianças, e existem vários. Se mais conservador, a competição é questão de sobrevivência, enquanto para o progressista libertário, competição se justifica com auto-estima. Nem um, nem outro. Sinto muito.

Quando será que as crianças poderão ficar livres para seguir compartilhando lanches, dúvidas e sentimentos?

No modelo atual, nunca.

O tempo todo somos motivados a disputar, a desejar o que não precisamos só para manter certa arrogância social, a valorizar as conquistas efêmeras com um pretenso mérito que desconsidera a oportunidade que muitos não tiveram. O tempo todo somos consumidos pela ganância de aparecer, e em tempos de rede social, há até uma ilusão de “patente” sobre o que se é.

Recentemente eu tive que ouvir, de uma pessoa que trabalha com arte e cultura, que ela tinha sido inquirida por outra artista por se trajar de maneira semelhante a sua. Tristeza que me abateu. Falta tanta ação provocativa de arte e cultura que, mesmo fôssemos atuantes em frentes idênticas, ainda seria pouco para a grandiosa tarefa de sensibilizar o mundo. No mais, essa ideia de exclusividade é tão equivocada quanto a ganância de competir, competir, competir para ser eu mesma? Cada um é o ser particular que é, mas ainda assim somos bilhões e é bem capaz que tenham pelo menos uma centena de gêmeos espalhados por aí. Além do mais, que bom inspirarmos uns aos outros, não?

Lembro-me do poema O capitalismo, de Ana Perez Cañamares, que entre tantos versos pertinentes, diz, respondendo ao próprio inferno que é o mecanismo capitalista quando ele aponta que ela deve se sentir melhor do que as outras: “y yo callo que yo no quiero ser artista / si eso va a convertirme en diferente / porque ya me siento lo bastante sola /
y no quiero competir en más carreras”.

Quando escrevi Minha vida não é cor-de-rosa tentei resgatar meu sentimento na infância e na adolescência sobre minhas relações com outras meninas. Eu sentia tanta necessidade de ter amigas como se fossem irmãs. Eu tinha um irmão, na época. Só 13 anos depois, minha mãe ficou grávida de outra menina, e essa eu tentei proteger como não pude a mim mesma.

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Minha vida não é cor-de-rosa

Desculpe lá, isso era para dizer que estamos prontos para morrer de tanto competir. QUE TAL INVERTER? Alguém ganha um prêmio, que ótimo existirem prêmios que motivem a cena. Outro se deu bem em concurso, espero que faça bom uso da carreira. Há quem esteja absurdamente feliz nas fotos, e isso é muito melhor do que lidar com gente infeliz no mundo. O fulano arranjou emprego? Opa, que ótimo alguma movimentação positiva na economia. E aquele que levou a melhor com um projeto aprovado em lei de incentivo, hein, será que me dá umas dicas para que eu me inscreva na próxima?

A vida não é mar de rosas, já bastam as dificuldades. Mais fácil ficaria se pudessemos nos perdoar desse lixo todo. E sim, precisamos amar de fato nossas crianças.

Se hoje é Dia Nacional do Livro, espero que sirva para boas histórias. Talvez alguma que fale de cooperação, de amizade. Ou, quem sabe, alguma em que me deixe chegar atrasada, pelos menos um bocadinho, sem culpa…Nenhuma descrição de foto disponível.

 

 

 

 

 

 

 

* Penélope Martins é escritora e narradora de histórias, gosta muito de gente e, por isso, cuida com carinho do Blog Toda Hora Tem História.

A feijoada literária, ou, Quem foi mexer na minha cumbuca?, ou, Original é o ovo ou a galinha?

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Imagem colhida da internet – sem identificação de autoria. (Eita, isso aqui tá pior do que discutir adaptação? Por favor, quem souber quem botou esse ovo, não tenha pena de informar.)

Um dos temas que sempre ressurge enfatizando ânimos distintos é a adaptação de um texto literário original. Poderíamos até começar questionando o que é originalidade, mas isso daria um trabalho que, por hora, atrasaria a feitura do nosso angu: adaptar ou não adaptar, eis a questão.

Eu gostaria de falar duas coisas sobre o assunto. E mais algumas.  A primeira coisa, os direitos do autor no Brasil tem 70 anos de proteção a partir de sua morte. Ou seja, o autor vai viver usufruindo dos seus direitos,  inclusive permitindo que sua obra sofra ou não adaptações – para qualquer linguagem, e, depois de morto, o autor promoverá seus herdeiros à condição de autores, mesmo que eles não sejam, porque os direitos autorais são patrimônio e a partir de sua detenção decide-se a vida da obra. Inclui-se aqui licenciamento de personagens para uso irrestrito de comercialização de produtos. Pois bem, a segunda coisa, a partir de mais de 70 anos de vida de uma obra artística, morto autor e contando anos de sua concepção durante a vida do mesmo, tem-se o que se chama domínio público, e nesse momento, o original se aparta de todo o resto, porque poderão vir todo tipo de boas ou más adaptações, tanto da forma como do conteúdo.]

Um exemplo, quem lê James Barrie vai entender e poder imaginar a Terra do Nunca diferente das imagens que os Estúdios Disney coloriram tão bem, isso porque a interpretação do roteiro e da direção também renovaram a obra em outra obra cinematográfica. Adaptação. O cinema faz isso sempre, muitas vezes com primazia. E nem sempre corremos ler o livro que originou o filme. Por vezes nem se sabe que existiu um livro anterior. Ou, até tem filme que fica melhor do que o livro…

Portanto, se temos agora versões de uma obra que já se encontra em domínio público, isso não exclui a convicção popular de que existe uma origem e que ela foi amplamente distribuída pelo território com a força de todos os anos em que esteve no domínio autoral do próprio artista, e depois de seus herdeiros, inclusive circulando com adaptações autorizadas por eles enquanto detentores dos direitos patrimoniais de autoria, admitindo cortes e modificações moldadas ao mercado cultural, educacional ou meramente comercial.

Quando eu fiz a versão de Pinóquio, optei por trancafiar o grilo no armário. Eu não quis matar o grilo, nem achei bom ter uma consciência externa ditando regras – porque ninguém pode ditar consciência de ninguém, ao menos na minha concepção. Também escolhi trazer outro final para o menino palito que virou menino de verdade, levando aquela moralização da história para bem longe dos meus leitores. Pobre Colodi? Caiu nas teias de Penélope? Do mesmo jeito, a cada nova edição de livro, brinquedo, animação, cinema, o garoto de madeira ganha uma nova feição. Que assombro para os mais conservadores que devem achar o original, ainda que não desenhado pelo autor do texto, o único legítimo representante do nome Pinóquio.A imagem pode conter: desenho

Os leitores da minha versão sabem o que é uma versão. Aliás, a boa fé editorial sempre faz saber que uma história da tradição está sendo recontada ou que o original está adaptado naquela edição. Assim como leitores de adaptações literárias, imagéticas, audiovisuais, ou de qualquer outra natureza, saberão, de um jeito ou de outro. Ninguém lê uma adaptação de texto em quadrinhos de um conto do consagrado Machado de Assis sem saber quem foi Machado de Assis (ou pelo menos questionar sobre seu nome e existência). Todavia, é bem possível que uma pessoa leia em quadrinhos o que não lerá em conto, romance.

Aqui eu vou abrir parênteses para uma questão sobre originais. A tradução também pode ser vista como uma adaptação uma vez que a escrita de uma história parte de uma concepção de mundo de quem escreve, além de uma estrutura linguística imbuída de uma lógica construída pela história de um determinado povo. Quem lê somente o original, lê na língua em que foi escrito. Isso também se vê quando a oralidade é traduzida para a forma escrita da literatura, onde as escolhas são feitas a partir de uma ótica de quem escreve. Quem garante a veracidade da história recontada ou traduzida? Não seria a história permeada de múltiplas verdades ou interpretações?

Para apimentar a feijoada de leitura, também podemos ressaltar que a arte nas ilustrações também emana criações que renovam a originalidade primordial de uma obra, uma vez que, costumeiramente, quem escreve não o dá corpo imagético delineado que o desenho oferece para as personagens.

E se por acaso a autoria da adaptação de texto optar por dar à história uma voz mais aproximada de novos conceitos, por exemplo, contemplando discurso de igualdade étnica entre personagens, mantendo distância de um ou outro personagem que lhe pareça insignificante ou deturpador ou tóxico (como quem tranca um grilo falante)? Ainda assim os leitores saberão que se trata de uma adaptação e terão sempre à disposição o original que gozou de amplos direitos autorais durante pelo menos um século.Nenhuma descrição de foto disponível.

Nesse caldo, uma discussão muito pertinente revira as mentes leitoras no Brasil. Ler Lobato ou não ler? Adaptar para uma linguagem sem repetição contínua de preconceitos ou manter o texto original com notas?

Outro ponto para abrir parênteses. Vale dizer, crianças de 6, 7, 8, 9 anos ou mais, não leem notas explicativas, e todas podem se identificar demais com personagens das histórias assumindo, inclusive, novos comportamentos por admiração. Não é raro ver uma menina vestida de Emília em festividades escolares, ou mesmo uma professora que assume seus trejeitos para contar histórias.

Embora eu tenha gostado de Emília, aquela guriazinha sem papas na língua, sinceramente, eu não me fiz fã da literatura de Lobato. Talvez porque a minha casa era negra e branca desde que me conheço por leitora. Eu não poderia gostar de um menino chamando Anastácia de macaca. Numa família de trabalhadores braçais, que não tinha fazenda e nem entendia o contexto emocional de aceitar uma sinhá servida por escravos, certas histórias só repetiam dor. Talvez, por isso, eu, enquanto autora, não tenha entrado em tantas outras discussões sobre Lobato.

Mas, tomando de partida que o Sítio do Pica-pau amarelo é um dos grandes ícone da literatura para infância no Brasil, talvez o topo de lista nas escolas, e que o país tem uma cultura racista, machista, misógina e altamente colonizadora, adaptar talvez represente salvaguardar novas gerações no repetir de padrões doentios. Depois, quem quiser ler o original e as notas de rodapé, numa fase de vida mais crítica e autônoma, poderá fazê-lo. Ou não. Ninguém morrerá por não ler Lobato, assim como não morrerá se passar a vida sem os escritos do grande mestre da nossa literatura Machado de Assis.

Narizinho, adaptação da obra de Lobato, por Pedro Bandeira, selo Editora Moderna

Por enquanto, acho que autores como Pedro Bandeira são corajosos em promover a adaptação de Lobato, dialogando temas contemporâneos e uma nova visão de mundo em nova edição. No mais, vale lembrar, que o próprio Lobato foi adaptador de textos estrangeiros e que ele mesmo fez da oralidade um arcabouço de saberes de sua própria autoria incluindo os mitos e os contos de fadas em suas obras sem o menor constrangimento de lhes adaptar significados nas bocas de suas personagens. Para além, Lobato autorizou transformar sua literatura em outras linguagens, incluindo a inauguração do sítio na televisão – com adaptação de outra escritora memorável, Tatiana Belinky – permeando episódios da saga da turma de Emília com publicidade dirigida diretamente para crianças, coisa que se tinha direito naquela época e que hoje aprendemos ser um verdadeiro absurdo.

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Por fim, gostaria de meter a mão na cumbuca e incluir uma adaptação também de uma frase desse autor que tem até um dia para lhe comemorar a existência no calendário nacional, o dia 18 de abril, Lei nº 10.402, de 8 de janeiro 2002, dia de Monteiro Lobato, não senhor Lobato, um país não se faz com homens e livros, um país se faz com seres humanos livres tratados assim por sua dignidade e seu poder de expressão.

 

– Penélope Martins, escritora e narradora de histórias.

 

Vozes da Tradição

 

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Para conhecer melhor o livro, o ideal é ler a breve apresentação, escrita por Marco Haurélio, reproduzida abaixo:

Quando os irmãos Jakob e Wilhelm Grimm registraram, em 1812, a literatura oral de seu país, a Alemanha, não faziam ideia do sucesso de sua iniciativa, em especial no tangente aos contos populares, a parte mais significativa de sua recolha. O fato é que, com o êxito alcançado pelos Contos da criança e do lar, outros pesquisadores europeus, impregnados do mesmo espírito romântico que moveu os alemães, foram a campo em busca de lendas, baladas, romances e das velhas histórias narradas ao pé do fogo, sementes espargidas e cultivadas no fértil solo da imaginação humana. Quando o termo folclore foi consignado em 1848, pelo inglês William John Thoms, sob o pseudônimo de Ambrose Merton, em artigo publicado na revista The Atheneum, o conto tradicional, irmão da lenda e filho do mito, já havia alcançado, em vários países, a merecida atenção de escritores e estudiosos.

Antes, a novelística popular mereceu registros em recriações literárias, algumas em versos, como Os contos de Canterbury (1387), de Geoffrey Chaucer, e os lais de Maria de França, ainda no século XII. Em prosa, destacam-se as jornadas do Decameron (1348-53), de Giovanni Boccaccio, o livro do Conde Lucanor (1335), de D. Juan Manuel, Os contos e histórias de proveito e exemplo (1575), de Gonçalo Fernandes Trancoso, além do impressionante Pentamerone (1634-36), de Giambattista Basile, obra-prima do barroco italiano. Inspirado neste último, sem a mesma espontaneidade, Contos do tempo passado ou Contos da Mamãe Gansa (1697), de Charles Perrault, coletânea moralista celebrizada pelo tempo e contemplada com muitas reedições, levou à corte francesa as histórias da gente humilde, devidamente polidas e adaptadas ao gosto do (nobre) freguês.

Isso sem falar no conjunto de histórias prevalentemente maravilhosas provenientes do mundo árabe, o monumental livro das Mil e uma noites, traduzido e apresentado ao Ocidente pelo orientalista francês Antoine Galland, cujo primeiro volume foi publicado em 1704.

Coube a Adolfo Coelho a empresa de ser o desbravador desta seara em Portugal, com Contos populares portugueses, publicado em 1879. Foi seguido por Consiglieri Pedroso, autor de Portuguese folktales (1882), em edição inglesa, e por Teófilo Braga, com Contos tradicionais do povo português (1883). Igualmente relevante, a antologia de Contos tradicionais do Algarve, de Ataíde Oliveira, reuniu 400 contos do sul de Portugal, ampliando a área geográfica e as possibilidades de comparação e confronto.

No Brasil, a iniciativa pioneira coube a Silvio Romero, autor de Contos populares do Brasil (1885), publicado originalmente em Portugal, com organização e notas de Teófilo Braga. Antes, o estudo do geólogo canadense Charles Frederik Hartt, Os mitos amazônicos da tartaruga (1875), com o Jabuti, grande trickster dos contos indígenas, e a coletânea O selvagem (1876), do General Couto de Magalhães, apresentaram contos de origem indígena ou tradicionalizados entre os povos nativos da Amazônia. A coletânea de Sílvio Romero, no entanto, teve o mérito de ser abrangente, enfocando, além dos supostos contos indígenas, contos de origem africana e europeia. Há que se levar em conta o esforço do coletor, que se dispensou de um trabalho comparativo, privilegiando critérios antropológicos e raciais, em voga na época. E, por isso mesmo, incorreu em equívocos, como o de arrolar entre os contos africanos Doutor Botelho, história na qual um macaco aparece como auxiliar do herói de origem humilde, que, graças aos seus préstimos, acaba casando com uma princesa. Apenas esta breve descrição nos mostra ser esta, em linhas gerais, a hoje conhecidíssima história do Gato de botas, divulgada por Charles Perrault, na versão literária do século XVIII. A coletânea se reveste de grande importância, também, por abrir uma picada, inspirando, em diferentes épocas, outros pesquisadores das tradições populares.

Imprescindíveis são as obras de Lindolfo Gomes (Contos populares brasileiros, 1915), João da Silva Campos (Contos e fábulas populares da Bahia, 1928), Aluísio de Almeida (142 histórias brasileiras, 1951) e Luís da Câmara Cascudo (Contos tradicionais do Brasil, 1946). Mais recentemente, sobressaíram-se Ruth Guimarães, Waldemar Iglésias Fernandez, Oswaldo Elias Xidieh, Doralice Alcoforado, Bráulio do Nascimento, Altimar Pimentel e Edil Costa.

Ainda assim, são, lamentavelmente, raras as coletâneas de contos tradicionais brasileiros provenientes da fonte da memória. Raras diante das possibilidades oferecidas por um país de dimensões continentais, diverso na cultura e nas variantes linguísticas, nascidas das profundas desigualdades, reveladoras de nossas mazelas, mas também da resistência de povos de diferentes matrizes e matizes. O trabalho que empreendi, com a companheira Lucélia, supre em parte esta lacuna, preservando, sempre que possível, as marcas da oralidade, o estilo e a verve dos contadores, embora seja impossível reproduzir o gestual, as pantomimas e o momento em que os contos foram registrados.

Um exemplo: a excelente contadora Enedina Rodrigues de Sousa forneceu-nos as histórias de que se tornou guardiã numa noite de muito frio, fato raro na região onde mora, no quintal de sua casa, povoado de Palma, município de Serra do Ramalho, Bahia. O São Francisco, o rio de sua aldeia, era o cenário de fundo. Entre uma história e outra, ela cantou chulas e relembrou as debulhas de feijão do seu tempo de menina, ocasião em que as histórias eram contadas em jornadas que vincaram sua memória afetiva.

Apesar das dificuldades demandadas por uma iniciativa como esta, a recolha de contos de “primeiro grau” será sempre bem-vinda, especialmente por mostrar que, em pleno século XXI, as árvores do Jardim da Tradição ainda dão saborosos frutos. Este trabalho, como outros de minha lavra (Contos folclóricos Brasileiros Contos e fábulas do Brasil), encontra-se classificado de acordo com o Catálogo Internacional do Conto Popular, o Sistema ATU. As principais referências vêm do monumental Catálogo dos contos tradicionais portugueses (com as versões análogas dos países lusófonos), de Isabel David Cardigos e Paulo Jorge Correia, com o qual, orgulhosamente, colaborei. O professor Paulo é responsável, ainda, pela classificação de boa parte dos contos deste volume.

Na presente coletânea, todos os informantes e os locais da recolha são identificados. A maior parte dos contos pertence ao gênero maravilhoso, menos encontradiço hoje, devido a uma estrutura mais complexa, resultante de sua assombrosa ancianidade. É o caso de Guimar e Guimarim, que pertence ao ciclo de histórias que têm origem no mito de Jasão e Medeia, no qual o herói, numa terra estrangeira, conta com o auxílio da filha do rei para realizar tarefas impossíveis.

Se a literatura dos antigos salvou do esquecimento os deuses e heróis, os contos de tradição oral, por outro lado, preservam episódios e estruturas arcaicas, informações sobre ritos e mitos, nos conectando a um tempo que, talvez, somente nos sonhos e nos domínios do inconsciente ousássemos perscrutar.image.png

O direito às múltiplas narrativas de mundo, por Penélope Martins

Quando a dúvida aflige a ponto de me afastar da esperança, reflito se já aprendi a resistir como o camelo atravessando impiedoso deserto carregado de si mesmo e do mundo até me insurgir contra a voz que diz “faça” para proclamar “não quero”. Isso porque se primeiro o espírito deve se transformar em camelo, depois há de se transformar em leão, e ainda aguardar com coragem para uma terceira e final transformação na ternura da infância.[i]

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imagem selecionada na internet – autoria desconhecida

Não tenho leitura suficiente para conversar com as pessoas letradas, fui criada por gente simples, todos amadrinhados na função da enxada. Mas havia na família um cantarolar insistente, e as palavras me entravam pelos sete buracos da cabeça, endoidando a máquina de perguntas do pensamento.

Por sorte distinta dos que me criaram, tive chance para livro, papel e caneta. Fui cursar faculdade de Direito, até quis parar no meio e seguir em Letras. No entanto, mais tarde, eu me vi advogada numa pós-graduação em Direito Constitucional que, como diziam outros colegas de profissão, não me serviria para ganhar dinheiro. Porém, naquelas aulas, por culpa de um professor com habilidades de louva-deus, fui obrigada a aceitar a tarefa de apresentar um tipo de seminário sobre um texto de um tal Immanuel Kant, que foi recusado de pronto por toda a turma e que minha ignorância, santa protetora, fez com que eu dissesse em voz alta: “Eu fico com ele”.

E pronto. Bastou as primeiras páginas, eu me senti recompensada pelo curso. E junto de Kant, eu com a lembrança da voz do meu pai contando como a vida dele mudou depois de ler certa frase num para-choque de caminhão. Para terminar, a retomada de um verso da escritora Anaïs Nin, “a vida se expande e se retrai à medida de nossa coragem”.

Pode parecer absurda a mistura, macarrão com feijão, farofa e ovo, ou Kant no para-choque com versos de Anaïs Nin, mas isso é perfeitamente compreensível para quem, assim como eu, entende que a leitura é fome e longa espera por comida, busca em sofreguidão que cava dentro da gente um punhado de significados.

E se eu me fiz advogada para depois ter a coragem de largar carreira, emprego e a comodidade do que foi conquistado para viver de dizer poesia, foi justamente para acolher o espanto da humanidade com palavras. O palavreado que anda na rua, na feira, na rede estendida na varanda e no menino de pés descalços, o palavreado que pensa o justo e reclama seus direitos, indicando mesma possibilidade para os demais no coletivo, uma natural valorização do que se é, enquanto ser humano, tomando direção à concepção de cidadania. (Vale abrir parênteses, afinal, a palavra cidadania tem sido aliada a uma ideia equivocada de patriotismo com viés extremamente excludente quando, em verdade, contempla na diversidade uma possibilidade de harmonia social.)

O direito está na simplicidade rotineira que nos legitima a dizer que uma pessoa qualquer é legal. Essa frase tem propriedades suficientes para pensarmos a relevância de aprender a ler, desde a infância, iluminando o peso das palavras para retirar delas todos os  significados. Muito bem, todo ser humano é legal. É legal, está dentro da lei e não deve ser tratado à margem dela. No entanto, embora todo ser humano seja legal, a distância entre o papel e o fato é um deserto que testa os limites de resistência da imensa maioria de pessoas que vive atravessando desertos sobrecarregados de si e de mundo.

Por conta disso, relembro Mia Couto[ii] e uma de suas personagens que clama por uma chuvinha dentro da prisão, a mesma prisão que já foi boa o letrinhando, dando a ele mais do que a vida além das grades deu. Se pensarmos no número assombroso de gente que é trancafiada no calabouço sem nunca ter tido o direito efetivo de frequentar a escola com regularidade, alimentando-se, vestindo-se e recebendo toda proteção contra violências, faz entender o quanto é importante afirmar que todo ser humano é legal.

As leis devem ter como objetivo principal regulamentar as relações sociais e proteger a vida humana, tornando possível a coexistência e legitimando as particularidades de cada um, garantindo que todos e todas tenham acesso à vida plena e livre. Obviamente, afirmar para toda gente é garantir que não se sobressaia o desequilíbrio da balança, um julgar de acordo com a conveniência. Por isso, é essencial uma ideia de justiça capaz de ocupar o imaginário coletivo alimentando uma utopia de bem comum. Porque lei e justiça não são sinônimos, a primeira é somente uma intenção de alcançar uma concepção da segunda, e a segunda é uma virtude sinônimo de perfeição.

O justo pode ser visto como uma repetição de atos que desejam alcançar a virtude da justiça, a realização da dignidade de toda pessoa humana. E talvez seja essa a mola propulsora para que a ficção invente histórias capazes de reviver convívios para que possam ser vistos e transvistos, proporcionando uma reflexão subjetiva, íntima e reveladora. Ao final, ao falar de virtude, recomeçamos a trilha para entender porque nos juntamos em tribos, clãs, aldeias, vilas, cidades, metrópoles. E somos capazes de chegar à conclusão de que nascemos com fome e com frio e vamos deixar a vida na mesma condição.

Mas como podemos nos “esclarecer” para deixarmos de nos apegar ao que é de si para pensar no todo? O que podemos contar para ajudar a convencer nossos ouvintes que para ser justo é preciso ter generosidade na leitura das múltiplas histórias que compõem nosso mundo?

Em suas fraseações, o poeta Manoel de Barros versou que “o olho vê, a lembrança revê e a imaginação transvê; é preciso transver o mundo”. E transver requer elaborar narrativas apropriadas para criar em nós uma gama de vivências empáticas suficientemente fortalecidas para que se busque a virtude da justiça. A harmonia com nossos semelhantes considera acolher que todos são tão diferentes entre si quanto de nós mesmos e que na pluralidade conseguimos obter uma gama imensa de possibilidades para avançarmos como grupo. Desse pensamento emerge o que conhecemos como direitos humanos, garantias que se estendem por todos os territórios, nacionalidades e culturas, para mantença de vida plena e livre.

A Declaração Universal dos Direitos, que acaba de completar 70 anos de existência, tem servido para afastar violências perpetuadas contra pessoas e grupos, sendo potente instrução inclusive para a formação das leis de todos os países, signatários ou não. Um exemplo: em 2015, depois de denúncias de mulheres ativistas, a Nigéria aprovou uma lei que proibiu a mutilação da genitália feminina.

No Brasil, a Constituição Federal Brasileira, assinada em outubro de 1988, incorporou como preâmbulo, espírito estimulado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, afirmando Estado laico, exercício dos direitos sociais e individuais, liberdade, igualdade e justiça para uma “sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias”.

Essa arquitetura do Direito pode ser considerada romântica, mas imagine o que é ter uma vela acesa para conseguir ler num quarto escuro, ou reconhecer com a vela um caminho até o interruptor para acender uma lâmpada. A existência da lei, embora não seja suficiente para clarear as relações dissolvendo todos os conflitos, funciona como um ponto luminoso que orienta, revela a existência das coisas e questiona seus significados. Se a lei encontra um receptor, alguém que compreenda minimamente como é possível utilizá-la, temos o caminho para o interruptor e depois a chance de se acender a lâmpada…

Conhecer os próprios direitos é tão ou mais importante quanto ter uma lei que nos defenda. A cidadania não é uma condição passiva, ao contrário, é um chamado para que continuemos buscando o ideal de justiça, a melhor forma para ser dita e a garantia de sua execução. E essas noções sobre a justiça são apreendidas também na linguagem cotidiana que reúne saberes e ditados populares, nas histórias que nos são contadas pelos avós, pais e mães, reforçadas na vivência de personagens que passam a integrar nosso imaginário por nos causarem simpatia ou indignação.

O pobre Capitão Gancho teve sua mão mastigada pelo crocodilo Tic-Tac na Terra do Nunca. Todavia é unanimidade que a maldade do Gancho não fez escapar suas vítimas da prancha para o mar, assim como, mesmo incompreendida, é sabido que nenhum senso de justiça tem Rainha de Copas perseguindo Alice no País das Maravilhas. Obviamente, nenhuma criança quer ser comparada ao sem coração Capitão Gancho ou à malvada Rainha de Copas, pois esses personagens geram repúdio àquilo que faz sofrer, que tortura, que é cruel e injusto.

Preste atenção como as crianças pequenas conseguem resolver seus conflitos sem a interferência do julgamento dos adultos. Juntas, elas dividem brinquedos, correm, fazem novas amizades, repartem lanches e brigam, depois logo fazem as pazes, evitando o isolamento, o estar só, o desamparo. Há um desejo comum na infância sobre receber tratamento com respeito, amor, carinho e cuidado. A criança se afirma e permite que a outra criança o faça, porque ela conhece a liberdade. Já o adulto, esse se afasta da criança e da liberdade, condenando a si mesmo e aos outros…

Talvez seja esse o papel da leitura: tornar os leitores aptos a afirmar suas histórias, para o sim e para o não, impedindo o injusto através de uma lente permeável que se constrói com muitas histórias e que segue enriquecida na relação entre o eu e o outro, incorporando processos anteriores e posteriores ao próprio livro, construindo trilhas nas experiências de cada um, mas também se diluindo e se restaurando à medida em que explora caminhos nunca antes percorridos, novas intersecções para o pensamento, a reflexão, o diálogo. Talvez a leitura seja a amálgama capaz de nos integrar em gigante caleidoscópio, cada um como pequeno caquinho de vidro que significa junto dos demais uma forma deslumbrante de cores diversas que “transvê” a beleza do mundo.


[i] Assim falou Zaratustra; Friedrich Nietzsche traduzido por Paulo César de Souza. Cia de Bolso.

[ii] A última chuva do prisioneiro, em Contos do nascer da Terra; Mia Couto. Cia das Letras.

 

***

Penélope Martins é advogada, escritora e narradora de histórias, autora de obras como Pinóquio (Panda Books), Minha vida não é cor-de-rosa (Editora do Brasil) e Quintalzinho (editora Bolacha Maria). Como narradora já se apresentou em diversos lugares do Brasil e em Portugal. Mantém um blog para fomentar leitura, o Toda Hora Tem História.

O texto aqui apresentado foi publicado primeiramente no Blog da Letrinhas: http://www.blogdaletrinhas.com.br/conteudos/visualizar/O-direito-as-multiplas-narrativas-de-mundo

Desenvolvendo competências leitoras…

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Às vezes, investir recursos, tempo e dedicação para a formação de leitores parece ser um desafio incomensurável. Mas esta é uma causa que vale a pena, pois investir no leitor é mais do que garantir o desenvolvimento individual de cada criança e jovem. Significa contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, regida por indivíduos capazes de compreender melhor o mundo em que vivem e valorizar sua responsabilidade no desenvolvimento de relações interpessoais.

Isso não acontece como mágica. É preciso perseverança, persistência e leitores intimamente comprometidos em mediar conversas sobre as experiências vivenciadas com a leitura literária.

Parte da dificuldade acontece quando destacamos o livro do contexto escolar. Geralmente usado como ferramenta portadora de conhecimento e conteúdo, não é fácil transpor essa barreira da obrigatoriedade para tratar da leitura como prazer, considerando a escolha e autonomia leitora de cada indivíduo. Soma-se a este panorama a necessidade de trazer a família para essa roda de conversa e leitura.

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Ampliar essa visão sobre o livro para além de sua capacidade inequívoca de ferramenta escolar, amplifica as competências de nossas crianças e jovens na criticidade e na autonomia interpretativa, além de servir como impulso para que cada pessoa, cada núcleo familiar, cada grupo, cada instituição possa reconhecer sua cidadania e exercer o direito de ler e de escrever.Image result for que amores de sons

O leitor não é um sujeito passivo da leitura. Cada leitor é protagonista, infundindo no livro sua visão de mundo e suas próprias experiências. Chamamos isso de protagonismo criativo. Ou seja, a narrativa só é embutida de sentido quando as palavras passam pelo filtro dos olhos e dos pensamentos do leitor.

Por isso, o desenvolvimento da leitura na escola deve considerar que cada leitor é único. Ao invés de tratar as crianças e jovens como agentes passivos da leitura, devemos incentivá-los a assumir seu papel ativo e oferecer a eles novos instrumentos para que possam ampliar seus repertórios de acordo com as capacidades e os interesses de cada um. Só assim poderemos compor um debate múltiplo e rico em interpretações dentro e fora da escola.Image result for artur e ana na grecia

A objetivo do intermediador de leitura na escola é semelhante à de um maestro junto a sua orquestra, que une cada instrumento individual para criar uma bela sinfonia. O intermediador estabelece um diálogo de impressões individuais que, unidas, possam promover transformações profundas nos sentimentos e comportamentos de cada um. Sem dúvida, trata-se de trabalho árduo, mas gratificante.

Essa jornada de autoconhecimento e de reconhecimento do coletivo é apenas uma das possibilidades concretas oferecidas pela leitura.

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O desenvolvimento amplo das competências leitoras requer um projeto desafiador de leitura, capaz de incentivar uma educação questionadora e de oferecer os instrumentos necessários para a formação de um repertório amplo e robusto. O real desafio é, como escolher?

Os livros certamente são pontes para atravessarmos e penetrarmos diversas áreas do conhecimento humano. No caso da literatura, a subjetividade poética cria um ambiente propício para que diversas áreas do saber conversem entre si, contemplando múltiplos interesses dos leitores ao mesmo tempo e impulsionando um raciocínio crítico, autônomo, criativo.Image result for layla a menina siria

Não importa se estamos falando de um romance, um conto, uma crônica, um poema, uma parlenda, uma cantiga ou uma narrativa visual; a relevância da leitura está em reconhecer que o protagonismo leitor é essencial na construção do saber. Ou seja, quanto melhor preparado o leitor, mais ele usufruirá de suas leituras.

Mas não devemos descartar o poder do livro que, assim como seus leitores, traz um universo de diversidades e possibilidades. Como um mosaico composto por inúmeros cacos de vidro colorido, a conversa entre os leitores e os livros formam juntos uma sublime imagem caleidoscópica que surpreendem pela composição.

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* Os livros que ilustram esse texto podem ser encontrados no Site da Editora do Brasil: https://www.editoradobrasil.com.br/

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Carolina, um nome, uma história, um tempo presente

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“A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.”

Carolina Maria de Jesus – Quarto de Despejo (1960)

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“Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, no interior de Minas Gerais, no dia 14 de março de 1914. Neta de escravos e filha de uma lavadeira analfabeta, Carolina cresceu em uma família com mais sete irmãos.” Biografia de Carolina Maria de Jesus

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“A autora viveu boa parte de sua vida na favela do Canindé, na zona norte de São Paulo, sustentando a si mesma e seus três filhos como catadora de papéis. Em 1958, tem seu diário publicado sob o nome Quarto de Despejo, com auxílio do jornalista Audálio Dantas. O livro fez um enorme sucesso e chegou a ser traduzido para catorze línguas.” Carolina de Jesus no Wikipedia

“Quando o ilustrador e roteirista João Pinheiro tomou contato com ‘Quarto de despejo: diário de uma favelada’, de Carolina Maria de Jesus, a cabeça dele virou. “Fiquei fascinado”, resume. Até aquele momento, João não conhecia a literatura marginal dessa mulher negra, que muito tempo passou desconhecida na academia e livrarias do país. “Eu estava assistindo aquele programa que passava na TV Cultura, o ‘Manos e Minas’, e aí uma rapper falava o nome de várias mulheres negras importantes e citava Carolina. Eu anotei o nome e fui procurar o livro depois, encontrei uma edição de bolso da década de 80 de Quarto de Despejo, comprei e li. Aí passei para Sirlene”, conta.Image result for carolina maria de jesus

(…) Sirlene Barbosa é professora do ensino público municipal, leciona em escolas da zona leste de São Paulo, onde inclusive nasceu, e exemplifica em experiências da sala de aula o que disse. “Eu comecei a observar a partir de um ato até ingênuo de uma estudante de uns 10 anos, hoje mais velha, de que faltava representatividade negra na escola. Por que eu falo negra e não indígena, LGBT, enfim, de vários outras minorias, que prefiro chamar de maioria silenciada? Vou te explicar: nesse dia eu fui ler um conto de fadas para as crianças e pensei: não vou ler Branca de Neve nem Cinderela. Isso eu já leio. Mas eu quero ler também livros cujas princesas sejam negras, latinas, indígenas, sejam meninas que se pareçam com as meninas para as quais eu dou aula. Eu escolhi uma que a princesa era negra e fechei a capa para eles não verem . Iniciei a leitura e tinha uma fala que dizia que a princesa era muito linda. Essa menina colocou a mão na boca com expressão de susto e disse: ‘você mentiu para a gente’. E eu disse: ‘mas por que?’ e ela: ‘porque você disse que ela era linda’. Eu não briguei, mas quis saber de onde ela tinha tirado essa ideia. E ela travou. O coleguinha do lado disse: ‘porque ela é negra’”, recordou Sirlene. “Eu não quero calar a voz do branco europeu. Mas eu quero inserir a voz do negro, do indígena, do latino, do africano, enfim, inserir essas vozes caladas”, afirmou.” Carolina, biografia em quadrinhos

Tenham paciência com a leitura

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Por onde eu vou, contando histórias ou falando de leitura e mediação, acabo escutando a ladainha: “as crianças não leem” ou “eu não tenho tempo de ler”. Destaco que a palavra ladainha aqui tem um propósito correlato ao sentido religioso: essa prece cantarolada em que alguém diz “as crianças não” e outra pessoa responde “eu não tenho tempo” colocaria a leitura em prova de fé?

Certamente cantarolar uma prece não seria de todo ruim, uma vez que muitos de nós, inclusive eu, aprendeu a ler a partir do cantar as canções, do lamento das rezas, das revelações das benzedeiras… Mas a literatura não é composta de única predominância com equipamento sonoro que ecoa por fora e por dentro dos nossos corpos. A literatura propõe movimento e inércia, barulho e silêncio: estado quase fetal das ideias. O quase é por não estarmos sós na leitura de um livro, o que foi visto antes resiste e impregna o que vem depois.

A literatura é a arte de realinhar as palavras. Há uma provocação estética de forma que revela seu conteúdo. E há uma voz narrativa que conversa com a nossa voz narrativa. E essa conversa nem sempre é amigável. Image result for penelope martins

Talvez a leitura literária seja um rompimento com a construção formal do discurso. Ela ousa ser imagem, transbordar de orquestra, contornar frio do mármore revelando Eros. Todavia, diferentemente das artes plásticas, em que o impacto visual pode acelerar um pensamento reflexivo a partir de sentimentos despertos, ler um livro propõe outro tipo de relação para percorrer o espaço-tempo; trata-se de uma imersão em silêncio constrangedor. A leitura propõe uma quebra, uma ruptura de sociabilização; o livro transforma quem o lê em espécie distinta, algo entre pedra, areia, vento e gente.

Posso falar por mim e só isso é pouco, entretanto, por vezes acordei em praças, parques e aeroportos chorando compulsivamente, rindo descaradamente, assombrada, triste, boba, eu e aquelas personagens que caminhavam comigo até a última página – para a contracapa na surpresa, ao erguer a cabeça e notar os olhos em interjeições de espanto e dúvida, todos ao meu redor, indignados até.

Peço desculpas, senhoras e senhores, se durante a leitura eu me tornei rude ou deselegante, isso não foi intencional. Acontece que o livro acaba me subtraindo do mundo dos vivos para me conduzir por jornadas entre os além-vivos, com motivações variadas, mas isso nem importa, não agora…

A experiência com a leitura requer mais de paciência do que de vocação. Paciência de quem lê, paciência de quem lê quem lê, paciência de quem lê e deseja despertar quem não lê, paciência de quem não lê com o desejo sobre si de quem lê. Paciência com quem leu e não gostou. Paciência com que lê e diz que precisamos ler. Paciência com nossa falta de paciência.

Ou seja, leitor é gente comum que insiste passar linha pelo buraco da agulha até conseguir. Equívoco pensar que a literatura se dá para alguns “eleitos” portadores de certo tipo de dom para ler livros, uma misteriosa qualidade, uma inteligência que os torna capazes de submergir entre as páginas decifrando palavras e revelando suas histórias.

Nas rodas de conversa, leitores exibem seus títulos favoritos e as observações por vezes são extremamente desfavoráveis: “o começo é bem despretensioso”; “comecei duas ou três vezes”; “demora um pouco para começar a história”; “precisei insistir no primeiro capítulo e talvez no segundo”; “comprei pelo tema, mas a forma me desatinou o juízo”; “a estrutura é confusa e emocionante”; “depois da página 30, fui fisgado”.

Trata-se de paciência. As primeiras vezes pode ser por insistência, teimosia, que se é paciente. As demais, por convicção mesmo. O leitor passa a cultuar essa demora que antecede o mergulho profundo. É como um namorico, depois um beijo e logo são um só, leitor e livro.

A literatura se assemelha ao cultivo de bonsais, mas, ao contrário da imagem de uma tesoura precisa nos ramos verdes, o desafio da poda é ínfimo perto da tarefa contínua de amparar a semente. A leitura requer terra que se fertiliza, água na medida, luz de sol e luz de luar, e muita, muita, paciência para fazer brotar solidez dessa amizade que mescla silêncios longos e breves com conversas intermináveis por dentro da nossa própria cabeça.

Tem outra coisa bem complicada sobre a leitura: a literatura traz muitas revelações indesejadas para quem não se dispõe a desconstruir conceitos mofados, velhas verdades. Em outros momentos, muito pior, a literatura se contrapõe ao que nos identifica, fragiliza nossas memórias com transversais divergências.

O livro, esse amigo que nos afeta na (in)diferença cutucando uma cultura já acomodada dentro da gente, é companhia errante, sedutora, que torna possível aprofundar intersecções preciosas entre universos aparentemente incomunicáveis. Ler um livro nos coloca em perigo. Se assim não fosse, como explicar o apaixonar-se pelo extraordinário Poe, ou a alma curumim entoando o pesadelo, Tutu-Moringa, as repetidas frases de assombramento até a chegada de um bicho que o puxa criança pelo pé? Como poderíamos desdizer do amor perfeito entre o imenso elefante envolto pelos véus da mínima odalisca, e todas as 999 vidas em constante transformação passando por Tristão e Isolda, Otelo e Desdêmona, Romeu e Julieta?

Diante disso, é plausível que muitos dispensem a leitura sob o argumento concreto (e cinza): “não tenho tempo para essas coisas”. De fato, devo admitir que a leitura, assim como a escrita, tem me roubado do tempo dos vivos para que eu me confunda entre além-vivos, isso eu já disse e não tenho pretensão de explicar. Por vezes, eu me submeti ao esquecimento da panela no fogo, o relógio que alardeava um compromisso. No mais, igualmente admito que a vida real é a primeira mentira que a literatura faz questão de atacar. Isso dói muito, e como leitora eu me surpreendo como fico contente sentindo essa dor.

A literatura é essa máquina de moer realidades que não cansa de construir mundos novos. Cada leitura sob uma ótica leitora distinta forma pequenos caquinhos de vidros que convergem em ricas mandalas caleidoscópicas. A cada diálogo sobre esses livros, pessoas repensam relacionamentos, instituições, educação, política…

Acontece que nós estamos vivendo o tempo de aceleração desmedida: impulsos, cortes, fragmentos, uma palavra, milhares de fotografias, vídeos curtíssimos, catástrofes entre memes, gifs, figurinhas, emojis, e-mail (coisa ultrapassada), aquelas mensagens gravadas que ninguém quer ouvir etc.

“Não tenho esse tempo de ler.” Isso é justificável. Sim, as pessoas são acompanhadas pelos seus celulares e os celulares parecem conter pessoas dentro… Já o livro, aquele silêncio no começo, aquela história que eu não sei bem em que ponto vai começar a me interessar…

Felizmente, não é por acaso que a poesia reagiu às redes sociais como o gênero multimídia da literatura. A poesia é orgânica, e poetas são cozinheiros de botecagem – fazem do pouco muito. A poesia vem servida do jeito que o diabo gosta, gordura, açúcar, sal, pimenta: e todos bebem.

Cresceram os números de poetas publicados. A internet é a editora mais generosa de todas. Tem para todo gosto, um temporal de links com amostras de e-books, séries infinita de vídeos, poesia falada, poesia interpretada, poesia em imagens, roda de poesia, gif de poesia etc etc etc. As mais inusitadas formas com os mais variados tipos de conteúdo.

A diversidade na leitura é o fim daquela ladainha lá da primeira linha, lembra?

A poesia se associa, daí que vem a música, e qual criança resiste explodir gritando palavra cantada? Qual adulto dirá que não ter tempo para os versos de Chico Buarque? E convenhamos, mesmo agora com estranhos que deram para acusar a prosa e a bossa de ideológica, até os mais sisudos param para ver, ouvir e dar passagem ao cantar da banda e suas coisas de amor.

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Essa canção, irmã daquela que corre nas bocas das benzedeiras, das rezadeiras do rosário, já se provou aliada dos livros. Só digo uma coisa, paciência, tenha paciência. Eu mesma comecei assim: foi ali uma letrinha brilhante, uma tipografia, depois um verso, a curiosidade da autoria e, quando eu me dei conta, tinha lido o encarte inteiro do LP. Daquilo para avançar nos livros foi paciência, mais nada. E até hoje eu já vivi mais de 999 vidas extraordinárias, desde a caverna, passando por Ítaca, Tróia e com olhos abertos para dentro da imaginação no centro da terra.

 

***

Penélope Martins é advogada, escritora e narradora de histórias, autora de obras como Pinóquio (Panda Books), Minha vida não é cor-de-rosa(Editora do Brasil) e Quintalzinho (editora Bolacha Maria). Como narradora já se apresentou em diversos lugares do Brasil e em Portugal. Mantém um blog para fomentar leitura, o Toda Hora Tem História.

 

Esse texto foi publicado também no Blog da Letrinhas, link anexo: Tenham paciência com a leitura.

Ponte aérea literária

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A escritora capixaba Isa Colli está lançando este mês três livros para infância simultaneamente no Brasil e na Bélgica, onde mora atualmente. Duas histórias são inspiradas em reis, castelos e o universo das monarquias. “O Rei está no Trono” é uma aventura do rato monarca que desaparece dentro do próprio castelo. Já em “Ulisses no Reino das Letras Douradas”, o rei é um livro antigo que tem o sonho de chamar a atenção da menina Iná.
O outro livro que chega ao mercado é “O Elefante Mágico e a Lua”, título bilíngue português – inglês, com uma versão online em árabe. A fábula se passa em um reino nos Emirados Árabes. No enredo, o elefante mágico Aman resolve atender aos desejos do amigo Radi. Em retribuição, Radi ajuda o elefante a aproximar-se de seu grande amor, a Lua.
No fim do ano passado, a escritora abriu sua própria editora, a Colli Books. Além de escritora, Isa é também jornalista. Aos 50 anos, a autora vem conquistando espaço no mercado literário nacional e internacional com participações nas principais feiras do mundo, como as bienais de São Paulo e do Rio de Janeiro e as feiras internacionais do livro de Bruxelas, Bolonha, Lisboa e Frankfurt.
O talento literário surgiu na infância, mas a profissionalização chegou há poucos anos. Isa nasceu no Espírito Santo e adotou o Rio de Janeiro para começar sua carreira na área da comunicação. Trabalhou por mais de 20 anos em emissoras de TV. Após descobrir uma doença degenerativa, decidiu lutar pela vida e se reinventou. Inspirada nas histórias que ouvia da mãe quando criança e da experiência que acumulou na TV, decidiu mergulhar no mundo da literatura.
Desde o lançamento do primeiro livro, em 2011, Isa já publicou 14 títulos infantis, um romance e um livro de poesias. Seus livros abordam temas como sustentabilidade, respeito pelo próximo, tolerância às diferenças e valorização do consumo de alimentos saudáveis.

o medo de ter medo

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Eu sempre gostei de histórias de suspense e de terror.

Pera… Antes de falar de histórias há uma informação preciosa sobre minha infância. Eu tinha uma boneca descabelada por mim mesma que me metia medo, além de um poster, que minha mãe mandou fazer com uma fotografia minha, vestida de caipirinha, na frente de uma cortina cor vermelho sangue, que eu juro, por todos os seres sagrados e profanos, piscava e mexia o pescoço todas as noites.

Voltando, eu sempre gostei de histórias de suspense e de terror. Escolhi na prateleira da escola, O gênio do crime, de João Carlos Marinho, Eu, detetive, da Stella Carr, como companheiros de primeiras leituras. Junto com eles, claro que veio Drácula, de Bram Stocker, e Frankenstein, de Mary Shelley. Desde as primeiras seleções livreiras, eu tive a sorte de juntar a escrita de homens e das mulheres, autoria nacional e estrangeira, e isso certamente me formou como leitora que eu sou, aberta às variadas formas narrativas e com imenso interesse em expandir os horizontes sobre a linguagem.

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Mas não é só sobre isso que eu gostaria de falar aqui, ou é, também.

O medo me fascinava enquanto sentimento paralisante e desafiador, quando eu era criança. Lembro o dia de uma prova de olimpíada de matemática que eu, essa pessoa hoje das letras, estava selecionada para competir. Uma dor de barriga me petrificou na frente da escola e quase me matava. Falei pra minha mãe que eu não conseguia respirar. Tive que me investigar a sério naquele momento, com a ajuda da pedagogia de minha mãe, que não era das mais afáveis. O medo era de errar, o medo era de ser desclassificada na frente dos meus amigos. A final das olimpíadas era com dois garotos com os quais competi mais duas finais nos anos posteriores, um deles, um menino japonês com a fama ou o estigma de ser superior na arte exata de calcular. O outro era o Zé, que virou comediante, outra história. Morri na frente da minha mãe e ressuscitei, porque ela me empurrou pra fora do carro e me botou na vida sem dó. Minha mãe tinha várias facetas de bruxa má, outras de bruxa boa.

Senti medo. Eu sinto medo. Tive medo quando meu médico me falou, aos 13 anos, que eu teria que retirar um tumor do tamanho de uma laranja que crescia dentro da minha barriga. Ficou tudo bem no final, a palavra era substantivo feminino, benigna, mas o corte foi profundo, a recuperação foi dolorosa e vieram consequências. Passei pelo esfaqueamento, corri de mim zumbi, e aqui estou, quase com 46 anos.

Durante a recuperação daquela primeira cirurgia – olha só o que eu me lembrei agora – li um livro pesado, Christiane F. Sim, aos 13 anos. Meu argumento com a mãe foi dizer que se a história se passava com uma menina com a mesma idade, eu aguentaria. Minha mãe deixou numa faceta de bruxa boa, mas talvez com risada de bruxa má… Antes ela leu o livro, pra conversar comigo sobre a história. Foi dos livros mais importantes da minha vida. Passei a respeitar a dependência química, olhar os monstros internos com atenção, e ver o ser humano como um bicho frágil e, ao mesmo, imensamente corajoso. Fiquei impressionada como aquela menina do livro vencia o medo. E eu sentia medo por ela; queria que ela se livrasse daquele emaranhado de horror.

Adulta, descobri algo sobre esterilidade. Tive que ouvir coisas terríveis de mulheres que me consolavam sobre o ‘defeito’ em não poder ser mãe. Uma delas chegou a dizer que era esquisito alguém tão bonita por fora, como eu, ser defeituosa por dentro. Tive medo de ser uma mulher como aquela que me retalhava com palavras, e voltei a ser um Frankenstein, naqueles dias, tratado pela faca, ressurgido de um tumor, costurado às suas penas. Foi triste, confesso. Triste perceber que ser mulher, para algumas pessoas, era uma condição de parir.

Anos depois, eu aqui, com dois filhos, ainda consolo mulheres que me dizem não poder ser mãe. Todo mundo pode, meu bem, tem que ver se é o que se quer. Porque também tem o medo de não querer, e de ser julgada por isso. No mais, quero dizer que os filhos são anjos e bestas. Eles tiram o melhor e o pior da gente. Quebra-se o mito da perfeição, do amor incondicional, da lisura materna. É essa a grande bruxaria da vida.

Por conta disso tudo, e mais um monte de histórias, sigo apreciadora das narrativas de pânico, terror, sombras, desilusão, desamparo, medo. Meus filhos comigo assistem filmes, leem livros, contam histórias, e, juntos, rimos dessa condição abismal da nossa espécie, ser bicho frágil e potencialmente de pura coragem.

Recentemente, uma polêmica sobre ler ou não histórias de bruxas e outros seres assombrosos para crianças me fez pensar em compartilhar minha experiência levando em consideração a nossa cultura, nosso jeito de pensar… Bom, só há um jeito de viver: sendo pego de surpresa pela dor, ou se preparando para enfrentá-la. Eu escolho a segunda. Por isso, escolho ler quem pensa o medo na minha cultura, com a diversidade de simbologia que forma o meu país; isso tudo está no meu imaginário e conversa comigo e me identifica enquanto sujeitinha pensante. De que me adianta ler somente os russos ou os ingleses se eles não carregam intimidade com o barulho do samba, nem tem em mente a beleza do golpe de capoeira, tão pouco eles compreenderiam esse amor que temos pela língua que massacrou, ao se instalar oficial, liquidando tantas outras línguas e culturas… As bruxas, é nossas são tipicamente sulamericanas e com elas que devemos nos entender.

Já tive oportunidade de ver uma criança pedir para eu parar a narração de histórias quando o lobo apareceu para pegar sua vítima. A mãe, numa atitude de bruxa boa, fechou os ouvidos do menino. Eu parei, fiz a bruxa má, disse: – Menino, esse lobo é de mentira, só existiu nessa história e você tá aqui vivo e forte. Ele secou as lágrimas e ouviu até o final. Ficamos todos bem. Vivos, e mais experientes.

Então, se é que eu posso dar um conselho sobre a leitura na vida, digo: enriqueça suas viagens em narrativas lúdicas de humor, de amor, de terror, de desamparo, de solidão, de recomeço. Misture na escolha a autoria de autores com origens e gêneros diversos, porque cada qual vê o mundo e permeia relações sociais a partir do que é, e a empatia nasce de admiração dessas variadas pessoas e de nossa identificação com elas.

No mais, saibam que o carnaval é uma festa pagã que foi batizada pelo cristianismo como tempo do diabo solto; e o diabo, minha gente, é a ignorância.

Ilumine-mo-nos, pois, com glitter e histórias.

*

Agora, com um olho na mão e outro no meio da testa, faço a lista dos primeiros 13 que lembrei, esse número de sorte, e minha gata, Nina Simone, que está dormindo debaixo da escada enquanto eu mando essas dicas, mia pro além como se visse espírito. Ela vê. E, pensando num carnaval que passei em Paranapiacaba, relembro A menina que perdeu o trem, de Manuel Filho (Besouro Box), frio na espinha. Recomendo que apaguem a luz do abajour e deixem entrar a neblina… Pra já, esperta,

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de 13 na lista, eu saltei para o infinito… Toma que vai ser de arrepiar:Related image

  1. A Lenda do Batatão, de Marco Haurélio com ilustras de Jô de Oliveira, Editora Sesi;
  2. Sete histórias de gelar o sangue, de Antônio Schimeneck, Besouro Box;
  3. Contos de fadas sangrentos, de Rosana Rios com ilustras de Jean-claude Alphen, Farol Editorial;
  4. Medo? Eu, heim?, de Moreira de Acopiara, Editora Duna Dueto;
  5. Encontros folclóricos de Benito Folgaça, de Alexandre de Castro Gomes, Editora do Brasil;Image result for alex gomes de castro livro cemiterio
  6. Um esqueleto em quadrinhos, texto de Machado de Assis no desenho de Diego Molina e Márcio Koprowski, Editora Pulo do Gato;
  7. Histórias mal assombradas de Portugal e Espanha, e os demais livros que acompanham a coleção, de Adriano Messias, Editora Biruta;
  8. Fábulas ao anoitecer, de Georgette Silen, Giz Editorial;
  9. Sete histórias para sacudir o esqueleto, de Angela Lago, Cia das Letrinhas;
  10. Se eu abrir esta porta agora…, de Alexandre Rampazzo, Editora Sesi;
  11. Histórias do velho Nestor contando seus contos de horror, de Janine Rodrigues com ilustras de Fernanda Castanho, Editora Piraporiando;
  12. A caveira rolante, a mulher lesma, e outras histórias indígenas de assustar, de Daniel Munduruku com ilustras de Maurício Negro;
  13. Cidade dos deitados, de Heloisa Prieto, Coleção Ópera Urbana…Related image

se eu fosse um grande gigante

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Eu me lembro de muitos formigueiros na minha infância. Uma vez, na praia, catei uma pedaço de cano para brincar. Achei tão divertido aquele objeto furado que deixava escorrer a areia de dentro que nem me dei conta da colônia de formiguinhas vermelhas subindo pelo meu braço. Fiquei uns dias me coçando. Pele ardida, vermelha que nem formiga. Agora me dei conta, difícil achar daquelas formiguinhas vermelhas. Nunca mais vi.

Outra vez, era eu regando as plantas do jardim de casa quando descobri uma montanha entre bromélias. O formigueiro era tão grande, mas tão grande, que eu supus ter uma rainha do tamanho de uma centopeia. Foi só por isso que eu espichei a água da mangueira dentro do formigueiro até desmanchar tudo. Pura curiosidade. Inocência. Procurando a rainha, esqueci que o exército caminhava entre os meus dedos dos pés.

Aprendi na vidinha prática de criança que as formigas sabem lutar de maneira silenciosa. Atacam seus inimigos sem que eles percebam. Quando o agressor dá conta, tá todo picado. Foi assim comigo, várias vezes.

Quando eu era pequena tinha verdadeiro fascínio por formigas e formigueiros. Ficava pensando o que elas comiam, se tinha um quarto pra dormirem, se haviam escadas para andar de um lugar para outro, como funcionava aquele condomínio de milhares de seres inquietos, tudo sem desmoronar.

Detalhe, depois de aguar o formigueiro, acordei o dia seguinte com um formigueiro novinho em folha. Elas, as incansáveis. Nenhuma desistiu. Todas juntas. Ninguém soltou a mão de ninguém.

A sorte de observar essas coisas quando se é pequeno, criança inocente e fatalmente alvo de picadas em resposta da abusada curiosidade, é que a gente cresce consciente que somos mínimos na imensidão que é o mundo.

Se eu era, para aquelas formigas do passado, uma grande gigante, aos meus 5, 6, 7 anos, hoje, por contemplá-las de tão perto, tenho convicção que a natureza é absolutamente maior e mais inteligente. Já reparou samambaia brotando no meio do asfalto? Como consegue sobreviver a semente fincada sem terra, sem água, sem uma sombra…

É, feliz a pessoa que segue a vida plena de sua ‘pequenitude’. Uma formiguinha que abraça as outras pessoas, que não abre mão de ninguém por menor que pareça, e assim se faz imenso gigante…

* Uma dica sobre formigas, gigantes, gente pequena e dose generosa de carinho, Se eu fosse um grande gigante,  de Guridi, com selo da Editora Pulo do Gato.

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Marina nada Morena

Capa Marina _ orelhas e contra

Quando eu era pequena sempre imaginava como seria minha vida se os meus pais resolvessem se separar. É que no meu tempo de criança era muito raro alguém da turma de escola dizer que tinha os pais separados e, quando isso acontecia, choviam perguntas sobre os motivos do descasamento. Descasar me parecia algo muito trabalhoso, até hoje parece, considerando que o casamento é um negócio ultra complicado de cuidar.

Meus pais nunca se separaram. Já minha melhor amiga de infância, era filha única de um segundo casamento do pai e da mãe. O pai e a mãe dela tinham outros filhos, todos adultos, e minha amiga era única criança naquela casa, sozinha com dois adultos muito mais velhos do que a maioria dos outros pais. No entanto, era a mãe dela quem tinha disposição para costurar roupas para nossas bonecas, e deixar a gente queimar o dedo tentando fazer pipoca. Nada grave a queimadura do dedo, ao contrário, era tudo um fazer de coisas incríveis.

Nunca pensei em perguntar detalhes para minha amiga sobre as outras famílias dos pais dela. Sei lá, eu achava a família dela legal, eu era acolhida ali e me parecia muito normal as pessoas viverem vidas diferentes. No entanto, tinha gente que cobria de perguntas toda vez que algum assunto passava por  descasamento no meio, filhos de um, filhos do outro, desenhos de árvore genealógica com mais árvores…

Faz tempo que sou adulta, e hoje a coisa é muito diferente. A maioria das pessoas que eu conheço estão no segundo casamento, no mínimo. Os filhos de pais que nunca se descasaram devem se sentir uns alienígenas nas conversas de hoje em dia, ou aliviados, sei lá. Como saber?

Tudo depende, tudo depende… Ao mesmo tempo, passar pela infância e adolescência somando experiências múltiplas de relacionamentos vividos pelos pais deve ser muito desafiador.

Desculpa lá minha dificuldade, é que cresci numa família formada por um casal que nunca se descasou, e eles se davam bem e se amavam, quiseram ficar juntos independente do que a maioria achava sobre O QUE DEVE SER FEITO ou NUM DEVE SER DITO no casamento.

Tudo depende, tudo depende… Imagine que se existem muitos caminhos daqui até o Oiapoque, quantas são as formas para se viver uma vida?

No mais, fico aqui pensando que compreender o que é casar e descasar parece ser uma condição para a nossa sobrevivência afetiva.  Quem nunca se descasou de um amigo querido daquele tipo que era grudado feito chiclete? Quem nunca se despediu de uma turma dizendo ‘seguiremos sempre juntos’ e, pouco tempo depois, cada um seguia pra um lado diferente?

A ideia de se separar sempre retoma algo triste, mas tudo tudo depende da compreensão que se tem e que se cria.

Uma coisa é certa, chegar e partir, juntar e separar, fazer planos e reformular, tudo isso faz parte da vida. Por isso é tão importante conversarmos com as crianças filosofando sobre essas possibilidades…

A questão é: Como abordar um tema como separação dos pais na literatura para infância sem cair naquele discurso chato e moralizante que a família é isso e tal e coisa e tem que ser assim e assado? Literatura aborda a vida cotidiana, sim, mas o lance é não se transformar num relatório de ocorrências, numa bula de remédio ou numa lista de supermercado sem biscoitos. O desafio é compor uma história envolvente e vibrante que seja capaz de cativar o leitor a ponto que ele se sinta parte daquele universo e que, por esse motivo, consiga se situar como protagonista da trama num paralelo com sua própria experiência.

Daí vem Marina…

Marina, que de morena não tem nada – e ‘está longe de ser aquela Marina morena que se
pintou no contragosto do que alguém queria que ela fizesse’, como diz a canção de Dorival Caymmi,  imprime uma personalidade curiosa, criativa e, sobretudo altiva, numa criança que pensa suas relações afetivas buscando compreender e nomear o que sente.

A menina, que também é meio filha única,  porque seu pai já tinha casado e tem um filho de antes, atravessa a separação dos seus pais e se liga profundamente a um novo amigo recém chegado do estrangeiro, Lucas.

Com um imaginário coalhado de estrelas, Marina nada Morena, na narrativa da autora Vanessa Balula, consegue se conectar à infância atemporal, ajudando a reelaborar uma série de partidas e chegadas que vamos colecionando no álbum da vida.

Seria muito dizer que o livro é hiper-mega-blaster-super supimpa? Bom, eu não poderia deixar de dizer superlativos para Marina que, além de tudo,  sabe divertir o leitor com uma linguagem exageradamente comprometida com a ALEGRIA, o que pra mim é extremamente máximo plus – chega, tá bom – revolucionário. Aliás, só uma história linda assim começa com trilha sonora e tudo mais (quem assina a música tema da personagem é Júlia Viegas e você pode baixar no link: http://l.ead.me/bawjx5).

Então, corram ler e leiam com suas crianças, sigam os passinhos encantadores da Marina nada Morena que, como diz a própria autora, embora “nada disso seja fácil,  ela (a Marina) vai criando e nos apresentando recursos emocionais para lidar e conviver de uma forma bacana com tudo que aparece pelo caminho”. E o fim da história, vocês sabem, é que nunca saberemos como a história da gente termina…

Marina_Lucas_cena_final web_Marina nada morena _ Bolacha Maria Editora _ Copyright Taline Schubach_

* Marina nada Morena, texto de Vanessa Balula, ilustrações de Taline Schubach, Editora Bolacha Maria.

Em tempo, para quem está no Rio de Janeiro: LANÇAMENTO – dia 30 de setembro, domingo às 11 horas, na  Livraria Argumento – Rua Dias Ferreira, 147 – Leblon, com a presença da narradora Ana Luisa Lacombe. As autoras, Vanessa Balula e Taline Schubach, estarão presentes para autógrafos.

Tem mais: O livro recém chegado já está em cartaz com peça teatral. Teatro das Artes, Shopping Gávea.

Tem mais-mais: O livro pode ser adquirido nas Livrarias Argumento e Travessa, além da página da Editora Bolacha Maria .

a língua que a gente fala

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Parte de nós é curiosidade de experimentar. Outra parte, lembrança do que já vivemos, e do que outras pessoas antes de nós e também outras antes delas viveram… nessa trama de feitios, ao longo de tantos anos, décadas, séculos, somos cultura.

A cultura é o patrimônio do ser. Em diversas linguagens se registra nas palavras dos livros, desenhos, pinturas, esculturas, gravuras, arquiteturas, instrumentos, artefatos e artesanias, culinária, vestimentas e tanto mais.

Ao longo da história da humanidade muitos registros de cultura são destruídos, restando apenas a memória de quem pode contar o que precisamos saber para dizer quem somos.

Por isso é tão precioso aprender a dizer as coisas, nomear sentimentos, buscar significados, sentidos, contar histórias.

A partir da nossa língua falada, nossas crianças aprendem a perceber sua possibilidade de expressar o mundo interior para o exterior. A partir da língua que a gente fala, nossa cultura pode ser levada para muitos lugares.

Esse é o nosso museu portátil.

 

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