Marina nada Morena

Capa Marina _ orelhas e contra

Quando eu era pequena sempre imaginava como seria minha vida se os meus pais resolvessem se separar. É que no meu tempo de criança era muito raro alguém da turma de escola dizer que tinha os pais separados e, quando isso acontecia, choviam perguntas sobre os motivos do descasamento. Descasar me parecia algo muito trabalhoso, até hoje parece, considerando que o casamento é um negócio ultra complicado de cuidar.

Meus pais nunca se separaram. Já minha melhor amiga de infância, era filha única de um segundo casamento do pai e da mãe. O pai e a mãe dela tinham outros filhos, todos adultos, e minha amiga era única criança naquela casa, sozinha com dois adultos muito mais velhos do que a maioria dos outros pais. No entanto, era a mãe dela quem tinha disposição para costurar roupas para nossas bonecas, e deixar a gente queimar o dedo tentando fazer pipoca. Nada grave a queimadura do dedo, ao contrário, era tudo um fazer de coisas incríveis.

Nunca pensei em perguntar detalhes para minha amiga sobre as outras famílias dos pais dela. Sei lá, eu achava a família dela legal, eu era acolhida ali e me parecia muito normal as pessoas viverem vidas diferentes. No entanto, tinha gente que cobria de perguntas toda vez que algum assunto passava por  descasamento no meio, filhos de um, filhos do outro, desenhos de árvore genealógica com mais árvores…

Faz tempo que sou adulta, e hoje a coisa é muito diferente. A maioria das pessoas que eu conheço estão no segundo casamento, no mínimo. Os filhos de pais que nunca se descasaram devem se sentir uns alienígenas nas conversas de hoje em dia, ou aliviados, sei lá. Como saber?

Tudo depende, tudo depende… Ao mesmo tempo, passar pela infância e adolescência somando experiências múltiplas de relacionamentos vividos pelos pais deve ser muito desafiador.

Desculpa lá minha dificuldade, é que cresci numa família formada por um casal que nunca se descasou, e eles se davam bem e se amavam, quiseram ficar juntos independente do que a maioria achava sobre O QUE DEVE SER FEITO ou NUM DEVE SER DITO no casamento.

Tudo depende, tudo depende… Imagine que se existem muitos caminhos daqui até o Oiapoque, quantas são as formas para se viver uma vida?

No mais, fico aqui pensando que compreender o que é casar e descasar parece ser uma condição para a nossa sobrevivência afetiva.  Quem nunca se descasou de um amigo querido daquele tipo que era grudado feito chiclete? Quem nunca se despediu de uma turma dizendo ‘seguiremos sempre juntos’ e, pouco tempo depois, cada um seguia pra um lado diferente?

A ideia de se separar sempre retoma algo triste, mas tudo tudo depende da compreensão que se tem e que se cria.

Uma coisa é certa, chegar e partir, juntar e separar, fazer planos e reformular, tudo isso faz parte da vida. Por isso é tão importante conversarmos com as crianças filosofando sobre essas possibilidades…

A questão é: Como abordar um tema como separação dos pais na literatura para infância sem cair naquele discurso chato e moralizante que a família é isso e tal e coisa e tem que ser assim e assado? Literatura aborda a vida cotidiana, sim, mas o lance é não se transformar num relatório de ocorrências, numa bula de remédio ou numa lista de supermercado sem biscoitos. O desafio é compor uma história envolvente e vibrante que seja capaz de cativar o leitor a ponto que ele se sinta parte daquele universo e que, por esse motivo, consiga se situar como protagonista da trama num paralelo com sua própria experiência.

Daí vem Marina…

Marina, que de morena não tem nada – e ‘está longe de ser aquela Marina morena que se
pintou no contragosto do que alguém queria que ela fizesse’, como diz a canção de Dorival Caymmi,  imprime uma personalidade curiosa, criativa e, sobretudo altiva, numa criança que pensa suas relações afetivas buscando compreender e nomear o que sente.

A menina, que também é meio filha única,  porque seu pai já tinha casado e tem um filho de antes, atravessa a separação dos seus pais e se liga profundamente a um novo amigo recém chegado do estrangeiro, Lucas.

Com um imaginário coalhado de estrelas, Marina nada Morena, na narrativa da autora Vanessa Balula, consegue se conectar à infância atemporal, ajudando a reelaborar uma série de partidas e chegadas que vamos colecionando no álbum da vida.

Seria muito dizer que o livro é hiper-mega-blaster-super supimpa? Bom, eu não poderia deixar de dizer superlativos para Marina que, além de tudo,  sabe divertir o leitor com uma linguagem exageradamente comprometida com a ALEGRIA, o que pra mim é extremamente máximo plus – chega, tá bom – revolucionário. Aliás, só uma história linda assim começa com trilha sonora e tudo mais (quem assina a música tema da personagem é Júlia Viegas e você pode baixar no link: http://l.ead.me/bawjx5).

Então, corram ler e leiam com suas crianças, sigam os passinhos encantadores da Marina nada Morena que, como diz a própria autora, embora “nada disso seja fácil,  ela (a Marina) vai criando e nos apresentando recursos emocionais para lidar e conviver de uma forma bacana com tudo que aparece pelo caminho”. E o fim da história, vocês sabem, é que nunca saberemos como a história da gente termina…

Marina_Lucas_cena_final web_Marina nada morena _ Bolacha Maria Editora _ Copyright Taline Schubach_

* Marina nada Morena, texto de Vanessa Balula, ilustrações de Taline Schubach, Editora Bolacha Maria.

Em tempo, para quem está no Rio de Janeiro: LANÇAMENTO – dia 30 de setembro, domingo às 11 horas, na  Livraria Argumento – Rua Dias Ferreira, 147 – Leblon, com a presença da narradora Ana Luisa Lacombe. As autoras, Vanessa Balula e Taline Schubach, estarão presentes para autógrafos.

Tem mais: O livro recém chegado já está em cartaz com peça teatral. Teatro das Artes, Shopping Gávea.

Tem mais-mais: O livro pode ser adquirido nas Livrarias Argumento e Travessa, além da página da Editora Bolacha Maria .

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a língua que a gente fala

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Parte de nós é curiosidade de experimentar. Outra parte, lembrança do que já vivemos, e do que outras pessoas antes de nós e também outras antes delas viveram… nessa trama de feitios, ao longo de tantos anos, décadas, séculos, somos cultura.

A cultura é o patrimônio do ser. Em diversas linguagens se registra nas palavras dos livros, desenhos, pinturas, esculturas, gravuras, arquiteturas, instrumentos, artefatos e artesanias, culinária, vestimentas e tanto mais.

Ao longo da história da humanidade muitos registros de cultura são destruídos, restando apenas a memória de quem pode contar o que precisamos saber para dizer quem somos.

Por isso é tão precioso aprender a dizer as coisas, nomear sentimentos, buscar significados, sentidos, contar histórias.

A partir da nossa língua falada, nossas crianças aprendem a perceber sua possibilidade de expressar o mundo interior para o exterior. A partir da língua que a gente fala, nossa cultura pode ser levada para muitos lugares.

Esse é o nosso museu portátil.

 

Quer comprar o livro da Socorro Lira com participação de Penélope Martins, Thábata Rayca e Coro Infantil do Espaço Mata Branca? Clique aqui!

muito esquisito

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De manhã, sou muito esquisita. Dorminhoca, bicho descansado que não resiste ao cochilo dobrado. Devo ser feito a preguiça quando desperta, ainda com sono, ainda lenta…

Lembro o tempo de escola, que tortura sem fim: acordar antes das seis, ter que mastigar uma fatia de pão dormido, recém-amanhecido. Sem contar as aulas de matemática, coisa mais esquisita: já pensaram naquilo de negativos se transformarem em positivos? E o infindável pi, que coisa esquisita, parecia uma cobra tão comprida, uma tripa aritmética depois da vírgula esquelética…

De manhã eu sou coisa nenhuma, digo nada com nada, não tenho ritmo, nem estação, não me importa o inverno, faço pouco do verão. Pareço um ser abissal, um kryptophlanarion, nada tenho da perspicácia da sinapsicobélida: sou o ‘monstro que mora atrás do quadro’, mais não consigo.

Não dura essa sina, todavia, o relógio aponta, avança, mexe com a nossa biologia.

Quando vem a hora do almoço sou mais forte e feroz, tenho dentes pontiagudos, você não sabe do que sou capaz!

Outro dia foi um prato com arroz, feijão, salada, tudo dentro, e de sobremesa um pastel recheado com carne e coentro.

Nessa hora, minha amiga, que também é esquisita – parece até bicho ilustrado, disse com ar espantado: “Nossa, que bicho doido você traz nessa pança, será que não acaba essa comilança?”; e eu nem liguei, assanhada por uma sobra de bolo de milho, “se cru é bom, imagina cozido?”.

Bicho esquisito eu sou, mas quem não é afinal? Não venha me dizer que você aí, lendo minhas palavras não lembrou de ter feito coisa parecida e ter sido chamado de estranho, mistura de lacraia com elefante, cabeça de bagre em formiga, seja menino ou menina?

De perto, normal é ser diferente. Isso é a regra para todo bicho gente.

E se quiser mais, poesia de ler e ver, procure Muito Esquisito, livro de Alexandre Brito com Gustavo Piqueira, da Editora Pulo do Gato.

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O vaqueiro e a caveira

Image result for caveira fincada num pauConta o povo que existiu um vaqueiro que não deixava passar nada: tudo que via ou ouvia ele tinha que passar adiante. Ficou com má fama por causa disto. Um dia, viu uma coisa que era melhor não ter visto ou ter ficado quieto. Quando ele tocava o gado do patrão, avistou uma caveira, fincada num pau. Nisso a caveira falou:

— O que mata o corpo é a língua.

O vaqueiro correu, apavorado, para contar ao patrão o que tinha visto e ouvido. O fazendeiro resolveu acompanhar o vaqueiro até onde estava a caveira para saber o que ela havia dito. Não houve resposta, perguntou de novo e nada. Pensando que havia sido enganado, o fazendeiro, cego de raiva, matou o vaqueiro. Depois disto ouviu a caveira falar:

— Eu não disse que quem mata o corpo é a língua?!

Contos folclóricos brasileiros, Marco Haurélio, Editora Paulus.

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* Gostou e quer ler outras histórias da tradição brasileira. pois vá visitar o blog do escritor e pesquisador, Marco Haurélio, foi ele quem nos cedeu esse conto de muitas outras histórias que ele sabe contar… Corra no link : http://contos-fabulas.blogspot.com.br/2017/10/o-vaqueiro-e-caveira.html

 

7 livros para conversar sobre a representatividade

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Fotografia de Samuel Macedo, Terra de cabinha, Editora Peirópolis

I. Histórias de ninar para garotas rebeldes 1 e 2Resultado de imagem para historias de ninar para rebeldes 2

Cem histórias que provam a força de um coração confiante: o poder de mudar o mundo.

Histórias de ninar para garotas rebeldes é um livro com 100 histórias sobre a vida de 100 mulheres extraordinárias do passado e do presente, ilustradas por 60 artistas mulheres do mundo inteiro.

Com textos que remetem ao estilo de conto de fadas, muitas das histórias começam com o clássico “Era uma vez”, pois, segundo a própria autora – Favalli –, a ideia é dar a sensação de um conto de fadas moderno, para embalar o sono das pequenas antes de dormir.

* Elena Favilli e Francesca Cavallo, Editora V&R

 

II. Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis

Desde 2012, a autora Jarid Arraes tem se dedicado a desvendar a história das mulheres negras que fizeram a História do Brasil. E não bastava conhecer essas histórias, era preciso torná-las acessíveis e fazer com que suas vozes fossem ouvidas.

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Para isso, Jarid usou a linguagem poética tipicamente brasileira da literatura de cordel. E vendeu milhares de seus cordéis pelo Brasil, alertando para a importância da multiplicidade de vozes e oferecendo exemplos de diversidade para as mulheres atuais. Neste livro, reunimos 15 dessas histórias, que ganharam uma nova versão da autora e a beleza das ilustrações de Gabriela Pires.

* Jarid Arraes e Gabriela Pires, Editora Pólen

 

 

III. Olhe para mim

Olhe para mim

Kitoko foi adotado. Sua nova mãe está grávida e ele se pergunta se continuará a ser amado depois que sua irmãzinha nascer. Enquanto espera pela mãe, Kitoko adormece e sonha com a África, continente onde nasceu. Em sonhos, reencontra a irmã biológica,

relembra tudo o que aconteceu com sua primeira família… agora o futuro o espera, terá uma nova irmã a quem irá amar e construir uma nova história.

* Ed Franck e Kris Nauwelaerts, Editora Pulo do Gato

 

IV. O presente de Jaxy Jaterê

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Kerexu tinha ouvido dos mais velhos várias histórias de Jaxy Jaterê, o protetor da floresta. Por ser poderoso, as pessoas podem fazer pedidos a ele, mas a índia não sabia como chama-lo. Porém, sua prima conhecia o segredo e o ensinou a Kerexu. Certa noite, a índia adentrou na floresta, realizou o ritual e fez um pedido. Será que Jaxy Jaterê irá atendê-lá?

 

 

Abra as páginas deste livro e descubra o desejo de Kerexu e como termina esta lenda do povo guarani.

* Olívio Jekupe, Fran Junqueira e Werá Jeguaka Mirim, Editora Panda Books

 

V. Vento forte, de sul e norte

Desde criança, em alguns momentos da vida, Luísa teve de enfrentar três situações de preconceito: o fato de ser negra, adotada e ter pais gays. Quando chamou Henrique para sua casa a fim de ajudá-lo com as aulas de matemática, jamais pensou que ele agiria como tantas outras pessoas.

Mas e aquela repentina aproximação de Gabriel? Será que ele realmente era um idiota como seu amigo Henrique? Uma história envolvente que lida com assuntos como homofobia, racismo e preconceito, mas na qual a amizade e o amor farão Luísa, protagonista deste sensível texto, se tornar forte para aguentar os ventos do sul e do norte.

* Manuel filho e Paola Saliby, Editora Editora do Brasil

 

VI. Terra de cabinha: pequeno inventário da vida de meninos e meninas do sertão

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Este livro traz histórias, causos, brincadeiras, receitas, versos e adivinhas. Aqui você ouve a voz do cabinha, dos mestres e contadores de histórias, e também da pesquisadora visitante, que registrou num caderninho as coisas mais interessantes a respeito de como vivem aqueles meninos e meninas para quem o mundo é feito de castelos, árvore é brinquedo e assombração existe, sim, senhor.

 

* Gabriela Romeu, Sandra Javerá e Samuel Macedo, Editora Peirópolis

 

VII. Pode pegar

Um coelhinho de saia, batom e sapatinho de salto. Outro coelhinho de botas, calça e gravata. Assim fica fácil saber quem é menina e quem é menino! Mas e quando a menina quer usar botas pra atravessar o riacho? E quando o menino precisa de salto pra ficar

Pode pegar!

mais alto? Batom serve pra desenhar? E esse chapéu, é de quem? Trocar de roupa é divertido! E agora, como faz pra saber quem é menina e quem é menino? Bom… Mas isso importa mesmo?

* Janaína Tokitaka, Editora Boi Tatá

a arca de noé

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Minha filha, certo dia, perguntou-me sobre os planos divinos, se eles eram de todo bons ou se alguma ideia era falível.

Eu disse que eu não sabia o que a Criação pretendia, tamanha a complexidade que fez gerar campo e cidade.

Mas a menina, não contente, com minha explicação evasiva, disse-me que Deus, por seus erros, devia a nós uma missiva.

Com espanto eu ouvia a criatura expondo na grande arquitetura múltiplas falhas, projetos inúteis, criações horrendas e coisas fúteis.

Mas de toda explicação, o que mais chamou minha atenção, foi a análise da menina sobre o dia em que a Terra encheu, e ao homem, Noé, a missão se estendeu.

Pois se Deus tinha errado ao inventar barata, rato, pomba, aranha e mosquito, Noé poderia salvar nosso Planeta desse conflito.

E eu, mãe dessa pequena de pensar raro, concordei com o benefício do reparo, corri tirar da imensa arca: rã, serpente e bolsonaro.

Agora é com você, leitor e leitora dessa história, se ainda não conhece de lá da Arca o bafafá, corra buscar melhor rima e boa métrica no livro de Marco Haurélio sabido cantador poeta.

 

 

*

Bafafá na Arca de Noé, texto de Marco Haurélio e ilustrações de Anabella Lopez, selo da Editora DCL.

Sinopse:  Então uma chuva enorme estava para cair e Noé construiu uma arca bem grande para abrigar sua família e também um casal de cada espécie de animal. Mas não é que, entre os bichinhos, apareceu um muito estranho que ninguém sabia dizer o que era?! Pois é assim que começa este Bafafá na Arca de Noé!

Uma fábula contada em versos, com muito humor, que mostra como as diferenças fazem parte da vida dos bichos e dos homens.

O livro pode ser encontrado aqui!

 

 

 

 

 

uma mulher negra

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O que pretende essa autora que reúne quinze histórias de mulheres negras, todas destinadas ao esquecimento por força de um flagrante racismo que dilacera nossa cultura?

O que pretende essa autora ao contar as histórias em versos, como se para nós cantasse a ancestralidade,  e encerrar cada uma delas com uma breve e precisa biografia que corporifica a experiência de leitura?

O que pretende essa autora que, ao final do livro, convida sua leitora e seu leitor a escrever nas linhas vazias uma história de uma heroína negra que tenha marcado sua  vida?

Jarid Arraes é essa autora. Uma escritora que pensa o seu tempo à luz da história e que não deixa esvaziar as palavras capazes de registrar os signos e os significados de cada episódio.

Heroínas Negras Brasileiras é meu primeiro encontro com Jarid. Primeiro eu tomei o livro num único gole, sedenta de saber quem, onde e os inúmeros porquês. Um sentimento de orgulho me envolve. Nem eu mesma sei a razão disso. Jarid é uma mulher, eu também sou uma mulher, e isso me comove com uma simplicidade pueril de quem reconhece na outra algo de si. Depois afasto o livro, sem esquecer dele. Deixo por perto,  vou lá de vez em quando e leio uma história, leio as biografias. Fecho o livro e um golpe me acerta o meio do peito. Já não vejo Jarid. São dezesseis mulheres me olhando pelas páginas do livro. Na verdade, o dia de hoje, são dezessete mulheres, porque também vejo escrito em vermelho o nome de Marielle.

Ontem, hoje. Voltei ao livro de Jarid não por acaso.  Li, disse em voz alta, escutei as vozes, como descreveu Cecília Bajour em seu livro Ouvir nas Entrelinhas*, deixei vir lágrimas, sorri de satisfação, refleti profundamente sobre quem, onde e inúmeros porquês.

Ao final do livro, a maturidade da escritora Jarid Arraes nos atravessa. Um convite ao reconto – linhas vazias para que completemos ali com uma história de uma mulher negra que tenha marcado a nossa vida.

Sim, talvez eu não tenha mencionado até agora, Jarid é uma mulher negra. Uma escritora mulher e negra. E foi a escritora que é essa mulher negra que me fez encolher os ombros na poltrona e voltar ao lugar originário de mim mesma, lá no colo de Zinha, ou nas broncas que eu ouvia de Zezé.

O que Jarid pretende com esse livro talvez somente ela possa responder. Para mim, mulher branca, mãe de um garoto negro mas ainda mulher branca, que ontem foi menina criada pelas mãos de duas mulheres negras, mas que ainda assim era uma menina branca – e agora, mulher branca cada vez mais consciente do que essa condição representa, Jarid quis recontar a história ressignificando as nossas trajetórias.

Fica sempre a pergunta pairando no ar, quem são nossas heroínas, nossos heróis…

E eu não vou falar da importância desse livro para meninas porque é explícita. E eu não posso falar da relevância dessa voz para as meninas negras porque eu, embora tenha empatia, não vivencio o lugar dessas meninas. Mas fica aqui, até a última letra do meu texto, a generosa partilha que vem da voz narrativa dessa escritora, Jarid Arraes, a convicção de que essas histórias não serão esquecidas.

 

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Serviço:

Para comprar Heroínas Negras, de Jarid Arraes, visite: https://polenlivros.lojavirtualnuvem.com.br/

* Ouvir nas Entrelinhas, de Cecília Bajour, está disponível com selo da Editora Pulo do Gato: https://editorapulodogato.lojaintegrada.com.br/