Alto, baixo, num sussurro

Image result for romana romanyshyn and andriy lesiv old lyon

 

Romana Romanyshyn e Andriy Lesiv nasceram na Ucrânia, em Lviv.

Agora repita comigo essa palavra LVIV, fazendo do ‘ele’ uma ponte que liga a extremidade dos incisos superiores – seus dentes da frente, oras, os de cima, claro – até o pálato, ou céu da boca, como preferir. Diga: “LVIV”.

Juro que da primeira vez eu li um algarismo romano, mas, depois,  o som prolongado no ELLL somado ao singelo sopro VIV como se o último ‘vê’ quase não existisse, ah, como me fez sentir bem.

Um barulho bom de fazer e repetir. Uma minúscula música de letras consoantes com harmonia numa só vogal. Ihhhh.

– Você está ouvindo?

Já até me esqueci dos autores, Romana e Andriy, sim, da Ucrânia: crân, crân… – um som que vibra dentro do pescoço. Pescoço, peito, ombros. Já reparou como nosso corpo é barulhento?

“Nosso corpo toca a própria música. Ele cria sons diferentes.”

COF COF COF, parece que alguém está doente. PUM, opa, assim já é demais.

Até minha cachorrinha não escapa, quando dorme solta uns gemidinhos esquisitos. Acho que ela também ronca.

Tudo que está na natureza tem som, vibração. Até mesmo aquela coisa que não parece dizer mais nada. O que dizer do barulho de mar que escutando quando encostamos uma concha do mar no ouvido?

Rom e And, ucrânnn de LVIV, os dois autores que escreveram e ilustraram ALTO, BAIXO, NUM SUSSURRO, agora esperam compartilhar barulhos e silêncios com todos os leitores brasileiros, com a batuta da Editora do Brasil, afinal esse país tem samba, bossa, teleco-teco, borogodó, ziriguidum e mais.

O mundo dos sons é o assunto principal desse livro absolutamente imperdível. Explicando conceitos relacionados às ondas sonoras e à audição, o livro é rico em informações, oferece uma leitura direta e altamente instrutiva sobre o tema. Música, intensidade do som, silêncio, barulhos – tanto os produzidos pelos seres humanos quanto os da natureza – foram mencionados como forma de nos fazer refletir sobre o quão fantástico é o universo do som e do silêncio.

Eu já peguei meu livro, busquei um prato e uma colher, comecei a tirar sons da caixinha – ou seria casinha? ou cacholinha? – tá-tá-tá, tudo bem querer brincar de fazer som com palavras, também.

 

Foto 1 - Alto, Baixo, Num Susurro

Anúncios

Olívia tem dois papais

O título do livro já diz, Olívia tem dois papais, e isso significa falar sobre relações humanas e formação de núcleos familiares.

Curiosamente, ouvi da própria autora, Márcia Leite, que algumas vezes, pessoas comentaram, sem ler, que devia ser uma beleza de livro tratar da vida familiar de Olívia que tinha o pai e um padrasto, por conta de novo casamento da mãe.

Image result for olivia tem dois papais

Essa ‘conclusão brilhante’ fez com que eu me lembrasse de algumas outras histórias, uma delas com a minha incursão no mundo como mãe de uma criaturinha a quem tenho a chance de chamar de filho.

Cansei de responder perguntas indesejáveis de pessoas estranhas e outras nada íntimas sobre a origem dos meus filhos. O mais velho, por uma diferença nos traços e na cor da pele, foi vítima, junto comigo, de comentários alheios na feira, no mercado, na porta da escola. A aproximação sempre abismada, ‘nossa, como pode, uma mãe tão branca’, ‘o pai dele é negro, é?’, e daí pra mais, com minha vontade de aprender a sair da cena sem me igualar aos praticantes de ignorância.Image result for olivia tem dois papais

O episódio com Olívia, também me fez lembrar de uma questão trazida recentemente pelo meu filho, que cresceu e é politicamente engajado. Ele me contou que levou um problema de lógica para a sala de aula e que ninguém decifrou o mistério. Teria um menino sofrido um acidente terrível com seu pai, que morreu na hora. Levado para o hospital, os paramédicos pediram ajuda à chefia da cirurgia, mas a pessoa disse que não teria condições de operar o próprio filho.

Mais da metade da turma gritou com espanto, ‘mas o pai dele morreu’, enquanto a outra metade disse que ‘o menino só pode ser filho de um casal gay’. Ninguém sugeriu que a mãe do menino fosse a chefe da cirurgia.

Mundo, mundo, vasto mundo…

Olívia tem dois papais, e não tem mamãe. É isso mesmo. Olívia é uma menina que integra uma família formada por adoção onde dois homens assumem juntos a paternidade. Existem famílias com duas mamães, eu mesma sou madrinha de uma linda que foi adotada recentemente.

Qual o problema disso? Pra mim e para muitos, óbvio que nenhum problema – aliás, óbvio é uma palavra que Olívia gosta de usar (o vocabulário dela é excepcional) – mas pra muita gente, essas crianças são vítimas de um equívoco, de um absurdo de decisão judicial que concede a adoção para casais homoafetivos.

Para não rolar nenhum tipo de ciúmes, deixo claro, também tenho uma filha. Ela tem excelente vocabulário e a mesmíssima dose de opinião de Olívia, sabe meter a colher em qualquer cumbuca. Quando a pequena chegou em casa, imensa com seus 40 e poucos centímetros em dois quilos de perninhas e bracinhos que sambavam dentro dos macacões, muita gente lançou olhares de discriminação: ‘como pode alguém abandonar uma filha?’

Eu não abandonei ninguém, e a filha era minha. Tentava deixar isso claro. Quando não era possível, eu simplesmente repetia a história que aprendi e que me disseram ser um velho ditado indígena norte americano: “uma pessoa só pode te julgar, depois de andar as mesmas léguas trilhadas com os teus sapatos”.

Curiosamente – olha essa palavra aqui, de novo -, ninguém comenta que os pais abandonam mulheres grávidas que muitas vezes não desejam seguir a gravidez, sem terem opção legal que garanta esse direito sobre o próprio corpo, ou que não possuem estrutura alguma para criar uma criança. Ao final, as mulheres são ‘culpadas’ pelo abandono. Lastimável…

Minha filha também teve que enfrentar muito preconceito no colégio quando mostrou fotos de seu tempo de bebê. Ela foi chamada de coisas terríveis e a escola não agiu até que eu me manifestasse. Pena que custei a saber… Minha filha, antes de me contar, resolveu agir sozinha e foi advertida por isso.

Olívia é uma narrativa que pode nos ajudar a pensar a agressão do preconceito junto de nossas crianças. A história re-significa os cotidianos familiares, mostra que somos capazes de nos adaptar e de criar relações a partir do afeto, além de manter uma postura fortalecedora para que a criança tenha autoconfiança e amorosidade.

Muita boa conversa pode sair dessa leitura… Basta ter coragem para falar sobre núcleo familiar sem afastar as possibilidades múltiplas, como as relações monoparentais, homoafetivas, a filiação por adoção, a formação de irmandade por filiação de núcleos diferentes, e tantas outras possibilidades de amar nesse mundo.

Image result for olivia tem dois papais
– Olívia tem dois papais, Márcia Leite, ilustrações de Taline Schubach, Companhia das Letrinhas – –

 

 

 

 

 

O médico das palavras

Nenhum texto alternativo automático disponível.

“Para começar, vai ser preciso recuar no tempo. Coisa que não é tão difícil quanto possa parecer: basta seguir pelas linhas e descer pelas páginas com elas. Pouco a pouco, vão nos levar para trás, cada vez mais para trás, ao encontro de uma criança pequena… até voltar aos primeiros anos de um certo menino.

Um menino que nem sonhava que seria Médico um dia, muito menos das Palavras.”

Meu pai me ensinou que a verdade pode ser como um bisturi, se usada por alguém que saiba conduzir sua ação, pode salvar uma vida, mas se usada por quem desconhece seu poder, pode ferir gravemente. A verdade é uma palavra que tem muitas faces. E com palavra a gente não brinca… ou melhor, a gente tem que aprender a brincar.

Na próxima quarta-feira, a Livraria NoveSete convida a todos para o lançamento do livro O médico das palavras, de Fábio Malavoglia, com selo da Editora Laranja Original.

É um livro para jovens, é uma aventura. Também é uma trama a ser decifrada. É para todos que gostam das fábulas. A história é curiosa: um menino vindo “do outro lado de um escuro oceano” não entende nem lê as palavras que todos usam. Com esforço e  teimosia começa a decifrar o novo idioma, frequentando livros e revistas. Torna-se amigo das palavras, mas descobre, à medida que cresce, que nem todas são boas: existem as dúbias, as venenosas, as violentas. São as palavras doentes. Intrigado por esse duplo caráter, já que palavras tanto podem levar à poesia e à beleza, quanto ao temor e às trevas, começa a pensar se seria possível curar as doentes. Até que um dia, por acaso, encontra um Livro, que é o portal para um Bosque de Palavras Perdidas onde, magicamente, penetra. O que sucede nessa escura caminhada e o resultado da busca compõem a trama do livro O Médico das Palavras, a fábula de um jovem, mas também um relato simbólico, da editora Laranja Original.

A imagem pode conter: desenhoAs qualidades poéticas do texto de O Médico das Palavras chamaram a atenção de Filipe Moreau, fundador e publisher da Laranja Original: “É fascinante notar que, à medida em que a história corre e o protagonista passa da infância à juventude, a linguagem do texto também muda e amadurece, até culminar num poema”.

A infância do autor, Fabio Malavoglia, tem pontos de contato com a história: “Eu gostei de fábulas desde menino e, mais ou menos como no livro, aportei à língua portuguesa como a uma terra nova, onde plantei lenda e poesia”. E a vida foi colhida como jornalista, locutor, roteirista, contador-de-histórias, tradutor e intérprete de versos. Hoje ele comanda o programa Radiometrópolis, da Cultura FM de São Paulo. O Médico das Palavras é seu terceiro livro.

Nenhum texto alternativo automático disponível.

No texto foi embutido também um jogo para conhecedores de literatura: uma trama de citações que são pistas das referências do autor. Já a capa e a série de desenhos da história são assinadas por Libero, ilustrador conhecido, afeito ao nanquim e às fábulas e, para mais entrosamento entre texto e imagens, irmão do autor. É a primeira vez, em anos, que os irmãos trabalham juntos. O design é do Gatoazul Estúdio Gráfico por sua titular, Thereza Almeida.

 

Maria Mudança

Image result for maria mudança editora do brasil

 

Gosto tanto quando leio um livro que provoca uma mudança instantânea em mim, um riso espontâneo, lágrimas que saltam, vontade de abraçar alguém. Ler tem dessas coisas, muitas vezes a gente se depara com uma conversa tão perto da gente que o dia dá um salto, muda tudo, algo se transforma ou se revela. A gente se sente acolhido no mundo.

Hoje eu li um livro assim. Fiquei emocionada ao confirmar que é mesmo isso, a gente pode não mudar o mundo todo num segundo, mas basta uma ação para mudar o mundo todo de uma pessoa.

Mudar faz bem. Isso sim é um consolo. Mudar, muitas vezes dói profundamente, verdade. No entanto, ao pensarmos que somos – inevitavelmente – integrantes da ordem natural, onde tudo se modifica para preservar a vida, percebemos o poder da metamorfose ambulante.

Clarinha sentiu felicidade instantânea quando faltou o professor de geografia e dobraram aulas de educação física.

Fábio virou pra esquerda e adorou a mudança de caminho que reduziu a jornada em 15 minutos, sem contar que chegou em casa e a mãe avisou: “hoje tem batatas fritas”!

Mariana estava de mal humorada, mas o filhote dela soltou uma tremenda gargalhada, sem motivo algum, e ela caiu na risada alucinante.

Ana, tristinha a pensar que não tinha feito compras para o jantar, foi atender a chamada telefônica e teve a surpresa da semana: convite para o festival do sushi, e de graça!

Monika voltava do trabalho com seu chefe ultra chato quando recebeu uma mensagem com emoticons e o coração dela quase saiu pela boca: “estou completamente apaixonado por você”.

Comecei a leitura do livro de hoje pensando que Maria era uma menina curiosa e serelelepe que gosta de experimentar coisas novas e mudar de perspectiva. Estava legal, mas… O livro mudou! Veio a contra dança, algo inusitado lá pelo meio, uma instransigência mais forte do que o ímpeto de Maria.  Ao encontrar um senhor avarento, daquele tipo que sente orgulho de não deixar nada sair de sua vida para que as coisas sigam “sendo e estando” no mesmo lugar, inclusive a bola que foi parar no seu quintal, a menina Maria aceita o desafio de não mudar.

O livro toca a gente lá no fundinho dos olhos, é certo que faz nascer uma coragem de se lançar no mundo com olhar atento ao que podemos promover de mudanças que resultem em felicidade, porém, também desperta a atenção para o tempo de escuta, de respeito, de acolhimento para que o outro veja por si mesmo o que pode ser transformado.

Antes que eu termine sem dar a dica: o livro é MARIA MUDANÇA, o narrador da história é Manuel Filho, com ilustrações ousadas e de um bom gosto indiscutível de Veridiana, projeto gráfico do Celso e edição impecável da Editora do Brasil.

Eu sou Penélope Martins, eu escrevo e conto histórias, e ler pra mim é uma possibilidade de mudar sentir felicidade instantânea. Quem não quer ser feliz com uma fórmula mágica dessas, hein?

Image result for veridiana maria mudança ilustrações

 

com quantos pingos se faz uma chuva?

Image result for chuva e criança correndo

 

Quem será que inventou a primeira pergunta? Isso fica matutando na minha cabeça. Parece uma goteira – pin, pin, pin – que pinga até deixar a gente bêbado (embora essa pinga não seja aquela que soluça na garrafa).

Gostaria de encontrar um livro que respondesse às minhas perguntas, mas parece que quanto mais eu leio, mais eu pergunto. Isso não parece um contrasenso?

Por exemplo, eu gosto de ler e escrever poesia. Isso começou lá na minha infância, talvez por causa da horta da minha avó que tinha margaridas e a gente não come margaridas. Embora as margaridas não fossem para a salada, elas rendiam ramalhetes e desfolhamentos lindos de se ver. Entre uma visita na horta e a cozinha da avó, comecei ‘bem-me-querer’. Mas o que isso tem a ver com poesia?

Ah, a poesia… A poesia é uma prosa curta ou a prosa é uma poesia alongada? Com quantos versos de faz um poema? Se a pessoa é boa de prosa, será que isso pode dar rima?

Coleciono uma porção de perguntas desde um tempo que não me lembro e que pode recomeçar agora. Aliás, o tempo existe mesmo ou inventamos a medida só para nos distrair com essas coisas que podem fazer algum sentido?

Entre uma e outra eu lembro da minha mãe. Eu reclamava de dor de cabeça e ela dizia que era um bom sinal. Se a dor dói como pode ser bom sinal? ‘Sinal que você tem cabeça’. ‘No entanto’, a mãe seguia, alho também tem cabeça e a dele não dói.

Brincar com as palavras e re-significar o mundo pode ser um bom caminho para assumirmos que vamos viver a vida inteirinha sem um suficiente número de respostas que se oponha ao imenso número de perguntas.

Nessa onda de perguntar sem fim, Maria Amália Camargo e Ionit Zilberman convidam para a leitura de Com quantos pingos se faz uma chuva? (Editora Ozé, de São Paulo), um livro que dá gosto de quero mais – embora a gente saiba que haverá a última página e o baú de perguntas não tenha fundo.

Image result for com quantos pingos se faz uma chuva

mamãe tem medo

Image result for mamma alireza goldouzian

Quando eu era pequena, com longos cabelos pescoço bem fino, tinha muito medo, mesmo muito medo de vampiro. Na hora de dormir eu pedia para meu anjo de guarda ficar atento ao pé da minha cama. Minha mãe não era religiosa e, por isso, não existia nenhuma cruz na minha cabeceira – o que era um mal sinal pra mim… e bom para o vampiro. Lembro como eu enrolava os cabelos ao redor do pescoço. E pensava:  “ele pode até morder, mas vai comer cabelo antes de acertar a carne do meu pescoço”.

Minha mãe nunca me proibiu de ler histórias de terror ou de asssitir coisas horripilantes na tevê. Ela sabia, no entanto, que eu tinha um medo danado, mas muito medo danado  de vampiro.

– Vampiros não existem. – Alguém diria nessa hora, ou em qualquer outra hora que outro alguém revelasse que sente pavor causado por coisa que não existe.

–  Mas se o medo não é coisa de comer, nem coisa de vestir, o medo também não existe. E quem é que não tem medo de alguma coisa?

O fato é que cresci, fiquei alta e meu pescoço não é tão fino. Cortei os cabelos, quase nem penso em vampiro. Hoje, sou mãe de dois filhos e não me aborreço quando eles querem ler histórias tenebrosas ou assistir  filmes de monstros, zumbis, serras elétricas, serpentes devoradoras, sangue, gosma… Eu gosto de olhar de perto pro medo que essas histórias trazem. Eu gosto de fazer nascer coragem e de ter humor para rir do medo. Tem tanto medo que, no final das contas, num se aproxima em nada da realidade, não é?

Meus medos de hoje eu tento sarar com conversa. Principalmente medos de mãe, que são de uma espécie ruim – uma mãe nunca terá olhos suficientes, nem braços e nem pernas, para afastar os perigos que podem (ou que nunca poderão) atingir seus filhos.

O primeiro medo que tive com meu primeiro filho foi que ele não gostasse de mim. Que medo absurdo. Eu ficava olhando para aquela cara de bebê  e pensava que seria terrível se ele simplesmente não gostasse de mim. Mas e se ele não gostasse de mim?

– Você parecia uma velha toda enrugada e vermelha, um filhote de coruja amassado. Sorte ter olhinhos azuis, uma criaturinha tão feia… – Minha mãe me dizia isso sem nenhum constrangimento. Era uma piada? Para cada um dos meus irmãos ela tinha uma história desse tipo. Era uma piada.

Quando eu virei mãe, quis que meus filhos se sentissem bonitos. Mas não muito. O suficiente para se amarem. Sem exageros. Um tanto de esquisitice nos singulariza e nos recorda que a qualquer momento podemos ficar exageradamente feios. É preciso cuidar para não nos transformarmos em monstros, zumbis, ou até gostar de vampirizar outros pescoços.

Tenho tentado cuidar dos meus filhos. Minha mãe foi excelente nisso, embora eu tenha passado por algumas coisas ruins e sobrevivido. Também por causa disso administro meu medo de mãe – sentimento que diminui à medida que meus filhos crescem. O tempo na função de mãe me ensina que não tenho olhos suficientes, nem braços e nem pernas, para afastar os perigos que podem (ou que nunca poderão) atingir meus filhos.

No mais, muitas vezes nossas crianças sabem ser mais chatas do que pastel de camarão estragado. Dá nó na tripa de  nervoso (que vontade de comer esses cabritinhos com purê de maçã) (conte até três, se não resultar, conte outra vez).

É o que sempre digo, ser mãe é não ter medo de admitir que os filhos despertam o melhor da gente e  uma dose do pior, também.

 

* Se você quer mais história de medo de mãe e medo de filho, procure Mamãe tem medo, de Beatrice Masini e Alizera Goldouzian, com tradução de Márcia Leite, e selo da Editora Pulo do Gato.

Image result for mamae tem medo meatrice mansini

 

a mendiga

“Contam os mais velhos que, há muito tempo, numa fazenda, vivia um homem muito avarento, que não dava esmola para ninguém. Certo dia, escutando batidas na porta da frente, ele foi atender e encontrou uma mendiga quase morta de fome, implorando por um prato de comida. O bruto não só lhe negou a comida como também a expulsou da fazenda com xingamentos e ameaças. A pobrezinha, não tendo outro jeito rompeu; mas estava tão fraca que não conseguiu andar muito e, um pouco adiante, acabou caindo para não mais se levantar.

Pouco depois de ela ter saído, o fazendeiro foi tocado pelo remorso e resolveu procurá-la. Adiante a encontrou morta. Arrependido, providenciou mortalha e caixão e a pedinte foi enterrada no mesmo local em que morrera.

No outro dia, cedinho, o fazendeiro ouviu algo semelhante a batidas na porta. Ao sair, ele deparou com um quadro assustador: estavam na sua frente a mortalha e o caixão com que a morta havia sido sepultada. Entendeu, mesmo tarde, que ela o que ela precisava mesmo era um prato de comida e tudo o mais lhe era inútil.

E ainda há hoje gente que nega o valor da caridade!”

 

Marco Haurélio nos reconta essa história da tradição oral, como lhe contou  Joana Batista Rocha RamosIgaporã, Bahia.

In: Contos e Fábulas do Brasil, Nova Alexandria, 2011.

Related image

*  Marco Haurélio, poeta e pesquisador da literatura e das histórias da tradição oral,  nasceu em Ponta da Serra, Bahia. Conviveu, desde cedo, com as manifestações da cultura popular, como reisados, procissões, festas de padroeiros. Na própria família, Marco se aproximou do contar de histórias e muito de seu trabalho retoma essas conversas com os seus familiares. Entre seus livros, estão: Contos folclóricos brasileiros(Paulus), Contos e fábulas do Brasil (Nova Alexandria), Os três conselhos sagradosPresepadas de Chicó e astúcias de João GriloBelisfronte, o filho do pescador (Luzeiro), Galopando o cavalo (Pensamento), As três folhas da serpente (Tupynanquim), A lenda do Saci-Pererê em cordel e Traquinagens de João Grilo (Paulus).

Este slideshow necessita de JavaScript.