Maria Mudança

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Gosto tanto quando leio um livro que provoca uma mudança instantânea em mim, um riso espontâneo, lágrimas que saltam, vontade de abraçar alguém. Ler tem dessas coisas, muitas vezes a gente se depara com uma conversa tão perto da gente que o dia dá um salto, muda tudo, algo se transforma ou se revela. A gente se sente acolhido no mundo.

Hoje eu li um livro assim. Fiquei emocionada ao confirmar que é mesmo isso, a gente pode não mudar o mundo todo num segundo, mas basta uma ação para mudar o mundo todo de uma pessoa.

Mudar faz bem. Isso sim é um consolo. Mudar, muitas vezes dói profundamente, verdade. No entanto, ao pensarmos que somos – inevitavelmente – integrantes da ordem natural, onde tudo se modifica para preservar a vida, percebemos o poder da metamorfose ambulante.

Clarinha sentiu felicidade instantânea quando faltou o professor de geografia e dobraram aulas de educação física.

Fábio virou pra esquerda e adorou a mudança de caminho que reduziu a jornada em 15 minutos, sem contar que chegou em casa e a mãe avisou: “hoje tem batatas fritas”!

Mariana estava de mal humorada, mas o filhote dela soltou uma tremenda gargalhada, sem motivo algum, e ela caiu na risada alucinante.

Ana, tristinha a pensar que não tinha feito compras para o jantar, foi atender a chamada telefônica e teve a surpresa da semana: convite para o festival do sushi, e de graça!

Monika voltava do trabalho com seu chefe ultra chato quando recebeu uma mensagem com emoticons e o coração dela quase saiu pela boca: “estou completamente apaixonado por você”.

Comecei a leitura do livro de hoje pensando que Maria era uma menina curiosa e serelelepe que gosta de experimentar coisas novas e mudar de perspectiva. Estava legal, mas… O livro mudou! Veio a contra dança, algo inusitado lá pelo meio, uma instransigência mais forte do que o ímpeto de Maria.  Ao encontrar um senhor avarento, daquele tipo que sente orgulho de não deixar nada sair de sua vida para que as coisas sigam “sendo e estando” no mesmo lugar, inclusive a bola que foi parar no seu quintal, a menina Maria aceita o desafio de não mudar.

O livro toca a gente lá no fundinho dos olhos, é certo que faz nascer uma coragem de se lançar no mundo com olhar atento ao que podemos promover de mudanças que resultem em felicidade, porém, também desperta a atenção para o tempo de escuta, de respeito, de acolhimento para que o outro veja por si mesmo o que pode ser transformado.

Antes que eu termine sem dar a dica: o livro é MARIA MUDANÇA, o narrador da história é Manuel Filho, com ilustrações ousadas e de um bom gosto indiscutível de Veridiana, projeto gráfico do Celso e edição impecável da Editora do Brasil.

Eu sou Penélope Martins, eu escrevo e conto histórias, e ler pra mim é uma possibilidade de mudar sentir felicidade instantânea. Quem não quer ser feliz com uma fórmula mágica dessas, hein?

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com quantos pingos se faz uma chuva?

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Quem será que inventou a primeira pergunta? Isso fica matutando na minha cabeça. Parece uma goteira – pin, pin, pin – que pinga até deixar a gente bêbado (embora essa pinga não seja aquela que soluça na garrafa).

Gostaria de encontrar um livro que respondesse às minhas perguntas, mas parece que quanto mais eu leio, mais eu pergunto. Isso não parece um contrasenso?

Por exemplo, eu gosto de ler e escrever poesia. Isso começou lá na minha infância, talvez por causa da horta da minha avó que tinha margaridas e a gente não come margaridas. Embora as margaridas não fossem para a salada, elas rendiam ramalhetes e desfolhamentos lindos de se ver. Entre uma visita na horta e a cozinha da avó, comecei ‘bem-me-querer’. Mas o que isso tem a ver com poesia?

Ah, a poesia… A poesia é uma prosa curta ou a prosa é uma poesia alongada? Com quantos versos de faz um poema? Se a pessoa é boa de prosa, será que isso pode dar rima?

Coleciono uma porção de perguntas desde um tempo que não me lembro e que pode recomeçar agora. Aliás, o tempo existe mesmo ou inventamos a medida só para nos distrair com essas coisas que podem fazer algum sentido?

Entre uma e outra eu lembro da minha mãe. Eu reclamava de dor de cabeça e ela dizia que era um bom sinal. Se a dor dói como pode ser bom sinal? ‘Sinal que você tem cabeça’. ‘No entanto’, a mãe seguia, alho também tem cabeça e a dele não dói.

Brincar com as palavras e re-significar o mundo pode ser um bom caminho para assumirmos que vamos viver a vida inteirinha sem um suficiente número de respostas que se oponha ao imenso número de perguntas.

Nessa onda de perguntar sem fim, Maria Amália Camargo e Ionit Zilberman convidam para a leitura de Com quantos pingos se faz uma chuva? (Editora Ozé, de São Paulo), um livro que dá gosto de quero mais – embora a gente saiba que haverá a última página e o baú de perguntas não tenha fundo.

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mamãe tem medo

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Quando eu era pequena, com longos cabelos pescoço bem fino, tinha muito medo, mesmo muito medo de vampiro. Na hora de dormir eu pedia para meu anjo de guarda ficar atento ao pé da minha cama. Minha mãe não era religiosa e, por isso, não existia nenhuma cruz na minha cabeceira – o que era um mal sinal pra mim… e bom para o vampiro. Lembro como eu enrolava os cabelos ao redor do pescoço. E pensava:  “ele pode até morder, mas vai comer cabelo antes de acertar a carne do meu pescoço”.

Minha mãe nunca me proibiu de ler histórias de terror ou de asssitir coisas horripilantes na tevê. Ela sabia, no entanto, que eu tinha um medo danado, mas muito medo danado  de vampiro.

– Vampiros não existem. – Alguém diria nessa hora, ou em qualquer outra hora que outro alguém revelasse que sente pavor causado por coisa que não existe.

–  Mas se o medo não é coisa de comer, nem coisa de vestir, o medo também não existe. E quem é que não tem medo de alguma coisa?

O fato é que cresci, fiquei alta e meu pescoço não é tão fino. Cortei os cabelos, quase nem penso em vampiro. Hoje, sou mãe de dois filhos e não me aborreço quando eles querem ler histórias tenebrosas ou assistir  filmes de monstros, zumbis, serras elétricas, serpentes devoradoras, sangue, gosma… Eu gosto de olhar de perto pro medo que essas histórias trazem. Eu gosto de fazer nascer coragem e de ter humor para rir do medo. Tem tanto medo que, no final das contas, num se aproxima em nada da realidade, não é?

Meus medos de hoje eu tento sarar com conversa. Principalmente medos de mãe, que são de uma espécie ruim – uma mãe nunca terá olhos suficientes, nem braços e nem pernas, para afastar os perigos que podem (ou que nunca poderão) atingir seus filhos.

O primeiro medo que tive com meu primeiro filho foi que ele não gostasse de mim. Que medo absurdo. Eu ficava olhando para aquela cara de bebê  e pensava que seria terrível se ele simplesmente não gostasse de mim. Mas e se ele não gostasse de mim?

– Você parecia uma velha toda enrugada e vermelha, um filhote de coruja amassado. Sorte ter olhinhos azuis, uma criaturinha tão feia… – Minha mãe me dizia isso sem nenhum constrangimento. Era uma piada? Para cada um dos meus irmãos ela tinha uma história desse tipo. Era uma piada.

Quando eu virei mãe, quis que meus filhos se sentissem bonitos. Mas não muito. O suficiente para se amarem. Sem exageros. Um tanto de esquisitice nos singulariza e nos recorda que a qualquer momento podemos ficar exageradamente feios. É preciso cuidar para não nos transformarmos em monstros, zumbis, ou até gostar de vampirizar outros pescoços.

Tenho tentado cuidar dos meus filhos. Minha mãe foi excelente nisso, embora eu tenha passado por algumas coisas ruins e sobrevivido. Também por causa disso administro meu medo de mãe – sentimento que diminui à medida que meus filhos crescem. O tempo na função de mãe me ensina que não tenho olhos suficientes, nem braços e nem pernas, para afastar os perigos que podem (ou que nunca poderão) atingir meus filhos.

No mais, muitas vezes nossas crianças sabem ser mais chatas do que pastel de camarão estragado. Dá nó na tripa de  nervoso (que vontade de comer esses cabritinhos com purê de maçã) (conte até três, se não resultar, conte outra vez).

É o que sempre digo, ser mãe é não ter medo de admitir que os filhos despertam o melhor da gente e  uma dose do pior, também.

 

* Se você quer mais história de medo de mãe e medo de filho, procure Mamãe tem medo, de Beatrice Masini e Alizera Goldouzian, com tradução de Márcia Leite, e selo da Editora Pulo do Gato.

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a mendiga

“Contam os mais velhos que, há muito tempo, numa fazenda, vivia um homem muito avarento, que não dava esmola para ninguém. Certo dia, escutando batidas na porta da frente, ele foi atender e encontrou uma mendiga quase morta de fome, implorando por um prato de comida. O bruto não só lhe negou a comida como também a expulsou da fazenda com xingamentos e ameaças. A pobrezinha, não tendo outro jeito rompeu; mas estava tão fraca que não conseguiu andar muito e, um pouco adiante, acabou caindo para não mais se levantar.

Pouco depois de ela ter saído, o fazendeiro foi tocado pelo remorso e resolveu procurá-la. Adiante a encontrou morta. Arrependido, providenciou mortalha e caixão e a pedinte foi enterrada no mesmo local em que morrera.

No outro dia, cedinho, o fazendeiro ouviu algo semelhante a batidas na porta. Ao sair, ele deparou com um quadro assustador: estavam na sua frente a mortalha e o caixão com que a morta havia sido sepultada. Entendeu, mesmo tarde, que ela o que ela precisava mesmo era um prato de comida e tudo o mais lhe era inútil.

E ainda há hoje gente que nega o valor da caridade!”

 

Marco Haurélio nos reconta essa história da tradição oral, como lhe contou  Joana Batista Rocha RamosIgaporã, Bahia.

In: Contos e Fábulas do Brasil, Nova Alexandria, 2011.

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*  Marco Haurélio, poeta e pesquisador da literatura e das histórias da tradição oral,  nasceu em Ponta da Serra, Bahia. Conviveu, desde cedo, com as manifestações da cultura popular, como reisados, procissões, festas de padroeiros. Na própria família, Marco se aproximou do contar de histórias e muito de seu trabalho retoma essas conversas com os seus familiares. Entre seus livros, estão: Contos folclóricos brasileiros(Paulus), Contos e fábulas do Brasil (Nova Alexandria), Os três conselhos sagradosPresepadas de Chicó e astúcias de João GriloBelisfronte, o filho do pescador (Luzeiro), Galopando o cavalo (Pensamento), As três folhas da serpente (Tupynanquim), A lenda do Saci-Pererê em cordel e Traquinagens de João Grilo (Paulus).

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Casa do Cuco

 

A imagem pode conter: atividades ao ar livre e natureza

Eu era pequena quando visitei aquela casa na Cidade de Piedade. Nunca mais voltei pr’aqueles lados. Nem sei direito onde fica. Talvez eu pudesse colocar na internet para ver o mapa. Resolvi não descobrir porque o que conto tem mais magia do que realidade. Então…

Eu era pequena quando visitei aquela casa, em Piedade. A palavra piedade me cutucava. Quem teria pedido, por quem teriam clamado?

Visitamos uma plantação de alcachofras. Aparência de planta carnívora. Corremos entre as fileiras de mordidas e saímos intactas.

No final do percurso, uma cerca convidava à transgressão. Pulamos. Exploramos. Deixamos de ser gente pra ser bicho. Mato alto. Adultos muito longe para dizer que não podia, que era perigoso. Quase não dava pra ver o que tinha adiante.

Foi quando vieram os chifres na nossa direção. Minha amiga era ágil, pensou subir numa árvore, mas deu umas pernadas e pulou a cerca de volta. Eu fui pro outro lado. Mato alto. Quase não dava pra ver adiante.

Os chifres e aquela bufada de diabo procurando por mim.

Sempre fui péssima em pular cercas. Sempre fui péssima em correr rápido. Sou um bicho fácil de apanhar.

Minha amiga gritou ‘por aqui, por aqui’, e eu fui. Salvei o couro antes que os chifres me furassem.

Voltamos pra casa disfarçando o ocorrido. Ninguém poderia saber que invadimos o terreno do vizinho. Quer dizer, alguém já sabia. Esse alguém bufafa, tinha chifres e era o diabo nos cascos atrás de nós.

Voltamos para a casa pra tomar o lanche da tarde. A casa ardia o sol do dia inteiro. Quase cinco horas. Chá em xícaras de porcelana decoradas com raminhos verdes de bambu.

– Bambu me lembra Saci. – eu disse pra minha amiga.

– Não seja boba, Saci não existe. – ela respondeu.

Foi nessa hora que a casinha de madeira, pendurada na parede da sala, estalou. A porta se abriu. Um pássaro com olhos vidrados apareceu gritando:

– CUCO, CUCO, CUCO!

Soltamos um berro. A tia veio da cozinha rindo.

– Calma, crianças, é só o Cuco.

Depois a tia contou uma história.

Cuco tinha sido aprisionado por uma velha bruxa que vivia naquelas matas. Cuco era um protetor dos outros animais. Quando a bruxa tentava aprisionar um deles, Cuco gritava:

– CUCO, CUCO, CUCO!

A bruxa foi pegando raiva do pássaro… Queria ele pra sempre calado.

– E como era a bruxa? – eu perguntei, interrompendo a história.

– Ah… Dizem que ela tinha cascos nos pés. Dizem que bufafa. Dizem até que tinha chifres como o diabo.

Minha amiga e eu, paralisadas.

E mais história, por aqui não conto. Deixo que saibam sobre a ‘Casa do Cuco‘, de Alexandre Camanho, da editora Pulo do Gato. Pode ser que vocês descubram o caminho pra alcançar piedade…

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O tempo de ouvir, o tempo de ler, o tempo de contar nossas histórias

A convite do Clube de Leitura Quindim, Penélope Martins conta…

 

 

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Fernand Leger  (1881 – 1955)

 

Quando eu era pequena, minha avó, mãe de minha mãe, sentava ao meu lado para ensinar o tricô. Minha avó contava os pontos. Laçadas. Tranças. Dizia: “é matemática pura!”. Contava que ela mesma tinha feito casaquinho e manta para me vestir bebê. Eu enchia os ouvidos dela com as minhas perguntas. Ela não perdia o ritmo, alfinete, linha, agulha, tec tec tec, entre as histórias também vinha uma canção da casinha com varanda na beira da praia: só vendo que beleza. Minha avó se chamava Laura, como as folhas de louro. O nome dela era um presente para desejar boa sorte.

Cresci perto de meu avô. Ele veio para o Brasil por causa de uma ditadura. Saiu de lá com seis filhos e ainda teve uma última aqui, brasileirinha. Meu avô era um homem de aldeia, arado, enxada, semente. Tinha jeito com as plantas. Um dia  eu perguntei: “avô, porque não plantamos flores nos canteiros?”; ele só repetia “flores não se comem, flores não se comem”. Depois ele virou pescador. Suas mãos eram magras e fortes, sua disposição para fazer e fazer e fazer. Além do mais, o avô tinha força na palavra, e o mesmo sotaque que eu escutava timidamente cantar na boca do meu pai. O nome de meu avô era Valentim, uma dádiva de bravura.

Minha mãe era brasileira, meu pai é português. Fui batizada com nome de rainha, Penélope, história de espera antiga, lá de antes da Grécia. Meu pai não queria esse nome, mas achou bonito porque foi minha mãe quem tinha escolhido. Cresci ouvindo as histórias daquela Penélope distante de mim e perdida numa história de mil fios. Os fios que minha avó tricotava enquanto meu avô, este mineiro, aumentava o volume do rádio para escutar a tristeza do Jeca.

Não tínhamos muitos livros para crianças quando eu era pequena. Minha família não lia livros. Eram todos trabalhadores braçais, feirantes, tricoteiras, caminhoneiros, agricultores… No entanto, todos eles me contavam histórias e ouviam com muita atenção o que eu tinha a dizer.

Hoje eu não tenho mais meus avós, faz imensa falta o cheiro do feijão na panela de minha avó, eu poderia comer sardinhas fritas na manhã de domingo, e nem minha mãe pode mais me telefonar para dizer que me ama. Todos eles me enchem de saudades. Acho injusto, inclusive, porque eu continuo tendo um monte de perguntas para fazer sobre as nossas histórias. O tempo passa depressa.

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Revisito minhas memórias para contar… A história da história é o encontro, uma trama que se tece aproximando nossa ancestralidade com os dias de hoje, numa composição múltipla que traduz nossas vidas. Cada palavra é um pequeno fio de linha, um botão, um elemento preciso. Quem ama sua história reconhece o peso de cada palavra dita, ouvida, guardada.

Crescer numa família que conta histórias não nos torna leitores de livros, mas faz com que possamos ler o mundo e suas gentes, vozes, formas, cores, movimentos. As histórias podem desenvolver em nós a sensibilidade para enxergar a narrativa de todo ser vivo e sua composição com o todo do qual também fazemos parte.

Mas é essencial não esquecer: o tempo é ágil e as histórias são muitas. Precisamos aproveitar cada segundo cultuando a experiência de trocar boa palavra por palavra de bem querer.

 

 


A imagem pode conter: uma ou mais pessoasPenélope Martins, escritora e narradora de histórias, pensa a história com desdobramentos para melhorar a vida cotidiana, transcendendo a obra para um fazer coletivo de leitores, uma possibilidade de reunirmo-nos com nossas memórias e características culturais para prática de empatia. Entre seus livros publicados estão A incrível história do menino que não queria cortar o cabelo, pela Editora Folia das Letras; Poemas do jardim, pela Editora Cortez, Quintalzinho, pela Editora Bolacha Maria; Princesa de Coiatimbora, pela Editora Dimensão; e Que amores de sons, pela Editora do Brasil.

O mar de Cecília

A canção se fez presente,

 

“No desequilíbrio dos mares,

as proas giraram sozinhas…

Numa das naves que afundaram

é que tu certamente vinhas.”

 

E o corpo se estendeu no mar,

 

“Água densa do sonho, quem navega?”

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A poesia de Cecília Meireles inquieta. Traz um movimento de mar, ora aconchega, ora se espalha, ora ergue, gota a gota, nossas barcas vazias.  Dói uma dor de alma ferida, faz parar diante da paisagem à procura de uma imagem que revele um sonho. É uma poesia que conhece a morte. Não. É uma poesia que tem intimidade com a morte, e por isso não se apavora. Ao contrário, mais límpida, a poesia de Cecília é um murmúrio sem dó, infinitos desamparos onde nada é em vão.

Estendi os olhos sobre o labirinto do mar de Cecília. Quis mapear os caminhos para redescobrir os versos que já foram lidos. Desejei conhecer o novo mundo só para poder esquecer e ter o prazer futuro de redescobrir.

Diante do ovo, medita-se. Ovo é um perfeito labirinto para pensarmos a ação humana na vida. O que é de primeiro, originário, único; o que se pode conceber como criação de algo novo?

Re-existindo, Rosinha mergulha na a arte de Cecília Meireles , e cria um mapa labiríntico para que os leitores dialoguem perdidos na poesia. O livro se chama O mar de Cecília, e começa com a menção às paredes de um imenso labirinto, o que sugere uma busca por um caminho de saída…

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A cada dupla, Rosinha cria quatro imagens em movimentos de aproximação e distanciamento de seus detalhes, reproduzindo, com isso, as ondas do mar, ou um voo sobre o mar que suspende e mergulha. Acompanhando as imagens, quatro versos, e uma pista que provoca a leitura da próxima dupla de páginas…

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A cada imagem, Rosinha oferece um poema visual que fala por si. Todavia, há uma simbiose entre as imagens e o propósito do livro: quais poemas de Cecília Meireles inspiram as cenas?

Corri buscar na minha biblioteca os livros de Cecília e comecei: ler, reler, procurar. Mandei mensagem cifrada para Rosinha. S.O.S., seu mar já está invadido os meus pulmões e eu, e agora?, o que me restará a não ser viver rolando pelo mundo sob um sol contente até os ermos domínios de vocês duas? Ah, as poetas, Rosinha e Cecília.

A sensação que se tem é de uma leitura interminável, O mar de Cecília é um salto ornamental com olhos bem abertos, convida a mente a mudar de perspectiva sem perder os mínimos detalhes.

E eu não poderia deixar de compartilhar uma leitura tão deslumbrante…

 

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