Carolina, um nome, uma história, um tempo presente

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“A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.”

Carolina Maria de Jesus – Quarto de Despejo (1960)

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“Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, no interior de Minas Gerais, no dia 14 de março de 1914. Neta de escravos e filha de uma lavadeira analfabeta, Carolina cresceu em uma família com mais sete irmãos.” Biografia de Carolina Maria de Jesus

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“A autora viveu boa parte de sua vida na favela do Canindé, na zona norte de São Paulo, sustentando a si mesma e seus três filhos como catadora de papéis. Em 1958, tem seu diário publicado sob o nome Quarto de Despejo, com auxílio do jornalista Audálio Dantas. O livro fez um enorme sucesso e chegou a ser traduzido para catorze línguas.” Carolina de Jesus no Wikipedia

“Quando o ilustrador e roteirista João Pinheiro tomou contato com ‘Quarto de despejo: diário de uma favelada’, de Carolina Maria de Jesus, a cabeça dele virou. “Fiquei fascinado”, resume. Até aquele momento, João não conhecia a literatura marginal dessa mulher negra, que muito tempo passou desconhecida na academia e livrarias do país. “Eu estava assistindo aquele programa que passava na TV Cultura, o ‘Manos e Minas’, e aí uma rapper falava o nome de várias mulheres negras importantes e citava Carolina. Eu anotei o nome e fui procurar o livro depois, encontrei uma edição de bolso da década de 80 de Quarto de Despejo, comprei e li. Aí passei para Sirlene”, conta.Image result for carolina maria de jesus

(…) Sirlene Barbosa é professora do ensino público municipal, leciona em escolas da zona leste de São Paulo, onde inclusive nasceu, e exemplifica em experiências da sala de aula o que disse. “Eu comecei a observar a partir de um ato até ingênuo de uma estudante de uns 10 anos, hoje mais velha, de que faltava representatividade negra na escola. Por que eu falo negra e não indígena, LGBT, enfim, de vários outras minorias, que prefiro chamar de maioria silenciada? Vou te explicar: nesse dia eu fui ler um conto de fadas para as crianças e pensei: não vou ler Branca de Neve nem Cinderela. Isso eu já leio. Mas eu quero ler também livros cujas princesas sejam negras, latinas, indígenas, sejam meninas que se pareçam com as meninas para as quais eu dou aula. Eu escolhi uma que a princesa era negra e fechei a capa para eles não verem . Iniciei a leitura e tinha uma fala que dizia que a princesa era muito linda. Essa menina colocou a mão na boca com expressão de susto e disse: ‘você mentiu para a gente’. E eu disse: ‘mas por que?’ e ela: ‘porque você disse que ela era linda’. Eu não briguei, mas quis saber de onde ela tinha tirado essa ideia. E ela travou. O coleguinha do lado disse: ‘porque ela é negra’”, recordou Sirlene. “Eu não quero calar a voz do branco europeu. Mas eu quero inserir a voz do negro, do indígena, do latino, do africano, enfim, inserir essas vozes caladas”, afirmou.” Carolina, biografia em quadrinhos

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Tenham paciência com a leitura

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Por onde eu vou, contando histórias ou falando de leitura e mediação, acabo escutando a ladainha: “as crianças não leem” ou “eu não tenho tempo de ler”. Destaco que a palavra ladainha aqui tem um propósito correlato ao sentido religioso: essa prece cantarolada em que alguém diz “as crianças não” e outra pessoa responde “eu não tenho tempo” colocaria a leitura em prova de fé?

Certamente cantarolar uma prece não seria de todo ruim, uma vez que muitos de nós, inclusive eu, aprendeu a ler a partir do cantar as canções, do lamento das rezas, das revelações das benzedeiras… Mas a literatura não é composta de única predominância com equipamento sonoro que ecoa por fora e por dentro dos nossos corpos. A literatura propõe movimento e inércia, barulho e silêncio: estado quase fetal das ideias. O quase é por não estarmos sós na leitura de um livro, o que foi visto antes resiste e impregna o que vem depois.

A literatura é a arte de realinhar as palavras. Há uma provocação estética de forma que revela seu conteúdo. E há uma voz narrativa que conversa com a nossa voz narrativa. E essa conversa nem sempre é amigável. Image result for penelope martins

Talvez a leitura literária seja um rompimento com a construção formal do discurso. Ela ousa ser imagem, transbordar de orquestra, contornar frio do mármore revelando Eros. Todavia, diferentemente das artes plásticas, em que o impacto visual pode acelerar um pensamento reflexivo a partir de sentimentos despertos, ler um livro propõe outro tipo de relação para percorrer o espaço-tempo; trata-se de uma imersão em silêncio constrangedor. A leitura propõe uma quebra, uma ruptura de sociabilização; o livro transforma quem o lê em espécie distinta, algo entre pedra, areia, vento e gente.

Posso falar por mim e só isso é pouco, entretanto, por vezes acordei em praças, parques e aeroportos chorando compulsivamente, rindo descaradamente, assombrada, triste, boba, eu e aquelas personagens que caminhavam comigo até a última página – para a contracapa na surpresa, ao erguer a cabeça e notar os olhos em interjeições de espanto e dúvida, todos ao meu redor, indignados até.

Peço desculpas, senhoras e senhores, se durante a leitura eu me tornei rude ou deselegante, isso não foi intencional. Acontece que o livro acaba me subtraindo do mundo dos vivos para me conduzir por jornadas entre os além-vivos, com motivações variadas, mas isso nem importa, não agora…

A experiência com a leitura requer mais de paciência do que de vocação. Paciência de quem lê, paciência de quem lê quem lê, paciência de quem lê e deseja despertar quem não lê, paciência de quem não lê com o desejo sobre si de quem lê. Paciência com quem leu e não gostou. Paciência com que lê e diz que precisamos ler. Paciência com nossa falta de paciência.

Ou seja, leitor é gente comum que insiste passar linha pelo buraco da agulha até conseguir. Equívoco pensar que a literatura se dá para alguns “eleitos” portadores de certo tipo de dom para ler livros, uma misteriosa qualidade, uma inteligência que os torna capazes de submergir entre as páginas decifrando palavras e revelando suas histórias.

Nas rodas de conversa, leitores exibem seus títulos favoritos e as observações por vezes são extremamente desfavoráveis: “o começo é bem despretensioso”; “comecei duas ou três vezes”; “demora um pouco para começar a história”; “precisei insistir no primeiro capítulo e talvez no segundo”; “comprei pelo tema, mas a forma me desatinou o juízo”; “a estrutura é confusa e emocionante”; “depois da página 30, fui fisgado”.

Trata-se de paciência. As primeiras vezes pode ser por insistência, teimosia, que se é paciente. As demais, por convicção mesmo. O leitor passa a cultuar essa demora que antecede o mergulho profundo. É como um namorico, depois um beijo e logo são um só, leitor e livro.

A literatura se assemelha ao cultivo de bonsais, mas, ao contrário da imagem de uma tesoura precisa nos ramos verdes, o desafio da poda é ínfimo perto da tarefa contínua de amparar a semente. A leitura requer terra que se fertiliza, água na medida, luz de sol e luz de luar, e muita, muita, paciência para fazer brotar solidez dessa amizade que mescla silêncios longos e breves com conversas intermináveis por dentro da nossa própria cabeça.

Tem outra coisa bem complicada sobre a leitura: a literatura traz muitas revelações indesejadas para quem não se dispõe a desconstruir conceitos mofados, velhas verdades. Em outros momentos, muito pior, a literatura se contrapõe ao que nos identifica, fragiliza nossas memórias com transversais divergências.

O livro, esse amigo que nos afeta na (in)diferença cutucando uma cultura já acomodada dentro da gente, é companhia errante, sedutora, que torna possível aprofundar intersecções preciosas entre universos aparentemente incomunicáveis. Ler um livro nos coloca em perigo. Se assim não fosse, como explicar o apaixonar-se pelo extraordinário Poe, ou a alma curumim entoando o pesadelo, Tutu-Moringa, as repetidas frases de assombramento até a chegada de um bicho que o puxa criança pelo pé? Como poderíamos desdizer do amor perfeito entre o imenso elefante envolto pelos véus da mínima odalisca, e todas as 999 vidas em constante transformação passando por Tristão e Isolda, Otelo e Desdêmona, Romeu e Julieta?

Diante disso, é plausível que muitos dispensem a leitura sob o argumento concreto (e cinza): “não tenho tempo para essas coisas”. De fato, devo admitir que a leitura, assim como a escrita, tem me roubado do tempo dos vivos para que eu me confunda entre além-vivos, isso eu já disse e não tenho pretensão de explicar. Por vezes, eu me submeti ao esquecimento da panela no fogo, o relógio que alardeava um compromisso. No mais, igualmente admito que a vida real é a primeira mentira que a literatura faz questão de atacar. Isso dói muito, e como leitora eu me surpreendo como fico contente sentindo essa dor.

A literatura é essa máquina de moer realidades que não cansa de construir mundos novos. Cada leitura sob uma ótica leitora distinta forma pequenos caquinhos de vidros que convergem em ricas mandalas caleidoscópicas. A cada diálogo sobre esses livros, pessoas repensam relacionamentos, instituições, educação, política…

Acontece que nós estamos vivendo o tempo de aceleração desmedida: impulsos, cortes, fragmentos, uma palavra, milhares de fotografias, vídeos curtíssimos, catástrofes entre memes, gifs, figurinhas, emojis, e-mail (coisa ultrapassada), aquelas mensagens gravadas que ninguém quer ouvir etc.

“Não tenho esse tempo de ler.” Isso é justificável. Sim, as pessoas são acompanhadas pelos seus celulares e os celulares parecem conter pessoas dentro… Já o livro, aquele silêncio no começo, aquela história que eu não sei bem em que ponto vai começar a me interessar…

Felizmente, não é por acaso que a poesia reagiu às redes sociais como o gênero multimídia da literatura. A poesia é orgânica, e poetas são cozinheiros de botecagem – fazem do pouco muito. A poesia vem servida do jeito que o diabo gosta, gordura, açúcar, sal, pimenta: e todos bebem.

Cresceram os números de poetas publicados. A internet é a editora mais generosa de todas. Tem para todo gosto, um temporal de links com amostras de e-books, séries infinita de vídeos, poesia falada, poesia interpretada, poesia em imagens, roda de poesia, gif de poesia etc etc etc. As mais inusitadas formas com os mais variados tipos de conteúdo.

A diversidade na leitura é o fim daquela ladainha lá da primeira linha, lembra?

A poesia se associa, daí que vem a música, e qual criança resiste explodir gritando palavra cantada? Qual adulto dirá que não ter tempo para os versos de Chico Buarque? E convenhamos, mesmo agora com estranhos que deram para acusar a prosa e a bossa de ideológica, até os mais sisudos param para ver, ouvir e dar passagem ao cantar da banda e suas coisas de amor.

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Essa canção, irmã daquela que corre nas bocas das benzedeiras, das rezadeiras do rosário, já se provou aliada dos livros. Só digo uma coisa, paciência, tenha paciência. Eu mesma comecei assim: foi ali uma letrinha brilhante, uma tipografia, depois um verso, a curiosidade da autoria e, quando eu me dei conta, tinha lido o encarte inteiro do LP. Daquilo para avançar nos livros foi paciência, mais nada. E até hoje eu já vivi mais de 999 vidas extraordinárias, desde a caverna, passando por Ítaca, Tróia e com olhos abertos para dentro da imaginação no centro da terra.

 

***

Penélope Martins é advogada, escritora e narradora de histórias, autora de obras como Pinóquio (Panda Books), Minha vida não é cor-de-rosa(Editora do Brasil) e Quintalzinho (editora Bolacha Maria). Como narradora já se apresentou em diversos lugares do Brasil e em Portugal. Mantém um blog para fomentar leitura, o Toda Hora Tem História.

 

Esse texto foi publicado também no Blog da Letrinhas, link anexo: Tenham paciência com a leitura.

Ponte aérea literária

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A escritora capixaba Isa Colli está lançando este mês três livros para infância simultaneamente no Brasil e na Bélgica, onde mora atualmente. Duas histórias são inspiradas em reis, castelos e o universo das monarquias. “O Rei está no Trono” é uma aventura do rato monarca que desaparece dentro do próprio castelo. Já em “Ulisses no Reino das Letras Douradas”, o rei é um livro antigo que tem o sonho de chamar a atenção da menina Iná.
O outro livro que chega ao mercado é “O Elefante Mágico e a Lua”, título bilíngue português – inglês, com uma versão online em árabe. A fábula se passa em um reino nos Emirados Árabes. No enredo, o elefante mágico Aman resolve atender aos desejos do amigo Radi. Em retribuição, Radi ajuda o elefante a aproximar-se de seu grande amor, a Lua.
No fim do ano passado, a escritora abriu sua própria editora, a Colli Books. Além de escritora, Isa é também jornalista. Aos 50 anos, a autora vem conquistando espaço no mercado literário nacional e internacional com participações nas principais feiras do mundo, como as bienais de São Paulo e do Rio de Janeiro e as feiras internacionais do livro de Bruxelas, Bolonha, Lisboa e Frankfurt.
O talento literário surgiu na infância, mas a profissionalização chegou há poucos anos. Isa nasceu no Espírito Santo e adotou o Rio de Janeiro para começar sua carreira na área da comunicação. Trabalhou por mais de 20 anos em emissoras de TV. Após descobrir uma doença degenerativa, decidiu lutar pela vida e se reinventou. Inspirada nas histórias que ouvia da mãe quando criança e da experiência que acumulou na TV, decidiu mergulhar no mundo da literatura.
Desde o lançamento do primeiro livro, em 2011, Isa já publicou 14 títulos infantis, um romance e um livro de poesias. Seus livros abordam temas como sustentabilidade, respeito pelo próximo, tolerância às diferenças e valorização do consumo de alimentos saudáveis.

o medo de ter medo

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Eu sempre gostei de histórias de suspense e de terror.

Pera… Antes de falar de histórias há uma informação preciosa sobre minha infância. Eu tinha uma boneca descabelada por mim mesma que me metia medo, além de um poster, que minha mãe mandou fazer com uma fotografia minha, vestida de caipirinha, na frente de uma cortina cor vermelho sangue, que eu juro, por todos os seres sagrados e profanos, piscava e mexia o pescoço todas as noites.

Voltando, eu sempre gostei de histórias de suspense e de terror. Escolhi na prateleira da escola, O gênio do crime, de João Carlos Marinho, Eu, detetive, da Stella Carr, como companheiros de primeiras leituras. Junto com eles, claro que veio Drácula, de Bram Stocker, e Frankenstein, de Mary Shelley. Desde as primeiras seleções livreiras, eu tive a sorte de juntar a escrita de homens e das mulheres, autoria nacional e estrangeira, e isso certamente me formou como leitora que eu sou, aberta às variadas formas narrativas e com imenso interesse em expandir os horizontes sobre a linguagem.

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Mas não é só sobre isso que eu gostaria de falar aqui, ou é, também.

O medo me fascinava enquanto sentimento paralisante e desafiador, quando eu era criança. Lembro o dia de uma prova de olimpíada de matemática que eu, essa pessoa hoje das letras, estava selecionada para competir. Uma dor de barriga me petrificou na frente da escola e quase me matava. Falei pra minha mãe que eu não conseguia respirar. Tive que me investigar a sério naquele momento, com a ajuda da pedagogia de minha mãe, que não era das mais afáveis. O medo era de errar, o medo era de ser desclassificada na frente dos meus amigos. A final das olimpíadas era com dois garotos com os quais competi mais duas finais nos anos posteriores, um deles, um menino japonês com a fama ou o estigma de ser superior na arte exata de calcular. O outro era o Zé, que virou comediante, outra história. Morri na frente da minha mãe e ressuscitei, porque ela me empurrou pra fora do carro e me botou na vida sem dó. Minha mãe tinha várias facetas de bruxa má, outras de bruxa boa.

Senti medo. Eu sinto medo. Tive medo quando meu médico me falou, aos 13 anos, que eu teria que retirar um tumor do tamanho de uma laranja que crescia dentro da minha barriga. Ficou tudo bem no final, a palavra era substantivo feminino, benigna, mas o corte foi profundo, a recuperação foi dolorosa e vieram consequências. Passei pelo esfaqueamento, corri de mim zumbi, e aqui estou, quase com 46 anos.

Durante a recuperação daquela primeira cirurgia – olha só o que eu me lembrei agora – li um livro pesado, Christiane F. Sim, aos 13 anos. Meu argumento com a mãe foi dizer que se a história se passava com uma menina com a mesma idade, eu aguentaria. Minha mãe deixou numa faceta de bruxa boa, mas talvez com risada de bruxa má… Antes ela leu o livro, pra conversar comigo sobre a história. Foi dos livros mais importantes da minha vida. Passei a respeitar a dependência química, olhar os monstros internos com atenção, e ver o ser humano como um bicho frágil e, ao mesmo, imensamente corajoso. Fiquei impressionada como aquela menina do livro vencia o medo. E eu sentia medo por ela; queria que ela se livrasse daquele emaranhado de horror.

Adulta, descobri algo sobre esterilidade. Tive que ouvir coisas terríveis de mulheres que me consolavam sobre o ‘defeito’ em não poder ser mãe. Uma delas chegou a dizer que era esquisito alguém tão bonita por fora, como eu, ser defeituosa por dentro. Tive medo de ser uma mulher como aquela que me retalhava com palavras, e voltei a ser um Frankenstein, naqueles dias, tratado pela faca, ressurgido de um tumor, costurado às suas penas. Foi triste, confesso. Triste perceber que ser mulher, para algumas pessoas, era uma condição de parir.

Anos depois, eu aqui, com dois filhos, ainda consolo mulheres que me dizem não poder ser mãe. Todo mundo pode, meu bem, tem que ver se é o que se quer. Porque também tem o medo de não querer, e de ser julgada por isso. No mais, quero dizer que os filhos são anjos e bestas. Eles tiram o melhor e o pior da gente. Quebra-se o mito da perfeição, do amor incondicional, da lisura materna. É essa a grande bruxaria da vida.

Por conta disso tudo, e mais um monte de histórias, sigo apreciadora das narrativas de pânico, terror, sombras, desilusão, desamparo, medo. Meus filhos comigo assistem filmes, leem livros, contam histórias, e, juntos, rimos dessa condição abismal da nossa espécie, ser bicho frágil e potencialmente de pura coragem.

Recentemente, uma polêmica sobre ler ou não histórias de bruxas e outros seres assombrosos para crianças me fez pensar em compartilhar minha experiência levando em consideração a nossa cultura, nosso jeito de pensar… Bom, só há um jeito de viver: sendo pego de surpresa pela dor, ou se preparando para enfrentá-la. Eu escolho a segunda. Por isso, escolho ler quem pensa o medo na minha cultura, com a diversidade de simbologia que forma o meu país; isso tudo está no meu imaginário e conversa comigo e me identifica enquanto sujeitinha pensante. De que me adianta ler somente os russos ou os ingleses se eles não carregam intimidade com o barulho do samba, nem tem em mente a beleza do golpe de capoeira, tão pouco eles compreenderiam esse amor que temos pela língua que massacrou, ao se instalar oficial, liquidando tantas outras línguas e culturas… As bruxas, é nossas são tipicamente sulamericanas e com elas que devemos nos entender.

Já tive oportunidade de ver uma criança pedir para eu parar a narração de histórias quando o lobo apareceu para pegar sua vítima. A mãe, numa atitude de bruxa boa, fechou os ouvidos do menino. Eu parei, fiz a bruxa má, disse: – Menino, esse lobo é de mentira, só existiu nessa história e você tá aqui vivo e forte. Ele secou as lágrimas e ouviu até o final. Ficamos todos bem. Vivos, e mais experientes.

Então, se é que eu posso dar um conselho sobre a leitura na vida, digo: enriqueça suas viagens em narrativas lúdicas de humor, de amor, de terror, de desamparo, de solidão, de recomeço. Misture na escolha a autoria de autores com origens e gêneros diversos, porque cada qual vê o mundo e permeia relações sociais a partir do que é, e a empatia nasce de admiração dessas variadas pessoas e de nossa identificação com elas.

No mais, saibam que o carnaval é uma festa pagã que foi batizada pelo cristianismo como tempo do diabo solto; e o diabo, minha gente, é a ignorância.

Ilumine-mo-nos, pois, com glitter e histórias.

*

Agora, com um olho na mão e outro no meio da testa, faço a lista dos primeiros 13 que lembrei, esse número de sorte, e minha gata, Nina Simone, que está dormindo debaixo da escada enquanto eu mando essas dicas, mia pro além como se visse espírito. Ela vê. E, pensando num carnaval que passei em Paranapiacaba, relembro A menina que perdeu o trem, de Manuel Filho (Besouro Box), frio na espinha. Recomendo que apaguem a luz do abajour e deixem entrar a neblina… Pra já, esperta,

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de 13 na lista, eu saltei para o infinito… Toma que vai ser de arrepiar:Related image

  1. A Lenda do Batatão, de Marco Haurélio com ilustras de Jô de Oliveira, Editora Sesi;
  2. Sete histórias de gelar o sangue, de Antônio Schimeneck, Besouro Box;
  3. Contos de fadas sangrentos, de Rosana Rios com ilustras de Jean-claude Alphen, Farol Editorial;
  4. Medo? Eu, heim?, de Moreira de Acopiara, Editora Duna Dueto;
  5. Encontros folclóricos de Benito Folgaça, de Alexandre de Castro Gomes, Editora do Brasil;Image result for alex gomes de castro livro cemiterio
  6. Um esqueleto em quadrinhos, texto de Machado de Assis no desenho de Diego Molina e Márcio Koprowski, Editora Pulo do Gato;
  7. Histórias mal assombradas de Portugal e Espanha, e os demais livros que acompanham a coleção, de Adriano Messias, Editora Biruta;
  8. Fábulas ao anoitecer, de Georgette Silen, Giz Editorial;
  9. Sete histórias para sacudir o esqueleto, de Angela Lago, Cia das Letrinhas;
  10. Se eu abrir esta porta agora…, de Alexandre Rampazzo, Editora Sesi;
  11. Histórias do velho Nestor contando seus contos de horror, de Janine Rodrigues com ilustras de Fernanda Castanho, Editora Piraporiando;
  12. A caveira rolante, a mulher lesma, e outras histórias indígenas de assustar, de Daniel Munduruku com ilustras de Maurício Negro;
  13. Cidade dos deitados, de Heloisa Prieto, Coleção Ópera Urbana…Related image

se eu fosse um grande gigante

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Eu me lembro de muitos formigueiros na minha infância. Uma vez, na praia, catei uma pedaço de cano para brincar. Achei tão divertido aquele objeto furado que deixava escorrer a areia de dentro que nem me dei conta da colônia de formiguinhas vermelhas subindo pelo meu braço. Fiquei uns dias me coçando. Pele ardida, vermelha que nem formiga. Agora me dei conta, difícil achar daquelas formiguinhas vermelhas. Nunca mais vi.

Outra vez, era eu regando as plantas do jardim de casa quando descobri uma montanha entre bromélias. O formigueiro era tão grande, mas tão grande, que eu supus ter uma rainha do tamanho de uma centopeia. Foi só por isso que eu espichei a água da mangueira dentro do formigueiro até desmanchar tudo. Pura curiosidade. Inocência. Procurando a rainha, esqueci que o exército caminhava entre os meus dedos dos pés.

Aprendi na vidinha prática de criança que as formigas sabem lutar de maneira silenciosa. Atacam seus inimigos sem que eles percebam. Quando o agressor dá conta, tá todo picado. Foi assim comigo, várias vezes.

Quando eu era pequena tinha verdadeiro fascínio por formigas e formigueiros. Ficava pensando o que elas comiam, se tinha um quarto pra dormirem, se haviam escadas para andar de um lugar para outro, como funcionava aquele condomínio de milhares de seres inquietos, tudo sem desmoronar.

Detalhe, depois de aguar o formigueiro, acordei o dia seguinte com um formigueiro novinho em folha. Elas, as incansáveis. Nenhuma desistiu. Todas juntas. Ninguém soltou a mão de ninguém.

A sorte de observar essas coisas quando se é pequeno, criança inocente e fatalmente alvo de picadas em resposta da abusada curiosidade, é que a gente cresce consciente que somos mínimos na imensidão que é o mundo.

Se eu era, para aquelas formigas do passado, uma grande gigante, aos meus 5, 6, 7 anos, hoje, por contemplá-las de tão perto, tenho convicção que a natureza é absolutamente maior e mais inteligente. Já reparou samambaia brotando no meio do asfalto? Como consegue sobreviver a semente fincada sem terra, sem água, sem uma sombra…

É, feliz a pessoa que segue a vida plena de sua ‘pequenitude’. Uma formiguinha que abraça as outras pessoas, que não abre mão de ninguém por menor que pareça, e assim se faz imenso gigante…

* Uma dica sobre formigas, gigantes, gente pequena e dose generosa de carinho, Se eu fosse um grande gigante,  de Guridi, com selo da Editora Pulo do Gato.

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Marina nada Morena

Capa Marina _ orelhas e contra

Quando eu era pequena sempre imaginava como seria minha vida se os meus pais resolvessem se separar. É que no meu tempo de criança era muito raro alguém da turma de escola dizer que tinha os pais separados e, quando isso acontecia, choviam perguntas sobre os motivos do descasamento. Descasar me parecia algo muito trabalhoso, até hoje parece, considerando que o casamento é um negócio ultra complicado de cuidar.

Meus pais nunca se separaram. Já minha melhor amiga de infância, era filha única de um segundo casamento do pai e da mãe. O pai e a mãe dela tinham outros filhos, todos adultos, e minha amiga era única criança naquela casa, sozinha com dois adultos muito mais velhos do que a maioria dos outros pais. No entanto, era a mãe dela quem tinha disposição para costurar roupas para nossas bonecas, e deixar a gente queimar o dedo tentando fazer pipoca. Nada grave a queimadura do dedo, ao contrário, era tudo um fazer de coisas incríveis.

Nunca pensei em perguntar detalhes para minha amiga sobre as outras famílias dos pais dela. Sei lá, eu achava a família dela legal, eu era acolhida ali e me parecia muito normal as pessoas viverem vidas diferentes. No entanto, tinha gente que cobria de perguntas toda vez que algum assunto passava por  descasamento no meio, filhos de um, filhos do outro, desenhos de árvore genealógica com mais árvores…

Faz tempo que sou adulta, e hoje a coisa é muito diferente. A maioria das pessoas que eu conheço estão no segundo casamento, no mínimo. Os filhos de pais que nunca se descasaram devem se sentir uns alienígenas nas conversas de hoje em dia, ou aliviados, sei lá. Como saber?

Tudo depende, tudo depende… Ao mesmo tempo, passar pela infância e adolescência somando experiências múltiplas de relacionamentos vividos pelos pais deve ser muito desafiador.

Desculpa lá minha dificuldade, é que cresci numa família formada por um casal que nunca se descasou, e eles se davam bem e se amavam, quiseram ficar juntos independente do que a maioria achava sobre O QUE DEVE SER FEITO ou NUM DEVE SER DITO no casamento.

Tudo depende, tudo depende… Imagine que se existem muitos caminhos daqui até o Oiapoque, quantas são as formas para se viver uma vida?

No mais, fico aqui pensando que compreender o que é casar e descasar parece ser uma condição para a nossa sobrevivência afetiva.  Quem nunca se descasou de um amigo querido daquele tipo que era grudado feito chiclete? Quem nunca se despediu de uma turma dizendo ‘seguiremos sempre juntos’ e, pouco tempo depois, cada um seguia pra um lado diferente?

A ideia de se separar sempre retoma algo triste, mas tudo tudo depende da compreensão que se tem e que se cria.

Uma coisa é certa, chegar e partir, juntar e separar, fazer planos e reformular, tudo isso faz parte da vida. Por isso é tão importante conversarmos com as crianças filosofando sobre essas possibilidades…

A questão é: Como abordar um tema como separação dos pais na literatura para infância sem cair naquele discurso chato e moralizante que a família é isso e tal e coisa e tem que ser assim e assado? Literatura aborda a vida cotidiana, sim, mas o lance é não se transformar num relatório de ocorrências, numa bula de remédio ou numa lista de supermercado sem biscoitos. O desafio é compor uma história envolvente e vibrante que seja capaz de cativar o leitor a ponto que ele se sinta parte daquele universo e que, por esse motivo, consiga se situar como protagonista da trama num paralelo com sua própria experiência.

Daí vem Marina…

Marina, que de morena não tem nada – e ‘está longe de ser aquela Marina morena que se
pintou no contragosto do que alguém queria que ela fizesse’, como diz a canção de Dorival Caymmi,  imprime uma personalidade curiosa, criativa e, sobretudo altiva, numa criança que pensa suas relações afetivas buscando compreender e nomear o que sente.

A menina, que também é meio filha única,  porque seu pai já tinha casado e tem um filho de antes, atravessa a separação dos seus pais e se liga profundamente a um novo amigo recém chegado do estrangeiro, Lucas.

Com um imaginário coalhado de estrelas, Marina nada Morena, na narrativa da autora Vanessa Balula, consegue se conectar à infância atemporal, ajudando a reelaborar uma série de partidas e chegadas que vamos colecionando no álbum da vida.

Seria muito dizer que o livro é hiper-mega-blaster-super supimpa? Bom, eu não poderia deixar de dizer superlativos para Marina que, além de tudo,  sabe divertir o leitor com uma linguagem exageradamente comprometida com a ALEGRIA, o que pra mim é extremamente máximo plus – chega, tá bom – revolucionário. Aliás, só uma história linda assim começa com trilha sonora e tudo mais (quem assina a música tema da personagem é Júlia Viegas e você pode baixar no link: http://l.ead.me/bawjx5).

Então, corram ler e leiam com suas crianças, sigam os passinhos encantadores da Marina nada Morena que, como diz a própria autora, embora “nada disso seja fácil,  ela (a Marina) vai criando e nos apresentando recursos emocionais para lidar e conviver de uma forma bacana com tudo que aparece pelo caminho”. E o fim da história, vocês sabem, é que nunca saberemos como a história da gente termina…

Marina_Lucas_cena_final web_Marina nada morena _ Bolacha Maria Editora _ Copyright Taline Schubach_

* Marina nada Morena, texto de Vanessa Balula, ilustrações de Taline Schubach, Editora Bolacha Maria.

Em tempo, para quem está no Rio de Janeiro: LANÇAMENTO – dia 30 de setembro, domingo às 11 horas, na  Livraria Argumento – Rua Dias Ferreira, 147 – Leblon, com a presença da narradora Ana Luisa Lacombe. As autoras, Vanessa Balula e Taline Schubach, estarão presentes para autógrafos.

Tem mais: O livro recém chegado já está em cartaz com peça teatral. Teatro das Artes, Shopping Gávea.

Tem mais-mais: O livro pode ser adquirido nas Livrarias Argumento e Travessa, além da página da Editora Bolacha Maria .