Outras formas de leitura, com a StoryMax

Você sabe o que é uma startup? Eu também não sabia muito bem o que era isso, achava a palavra até esquisita, talvez porque eu tenha nascido no tempo da enceradeira e do tocador de disco, e naquele tempo a gente não rodava com muita tecnologia…  Mas daí eu conheci a Samira e ela me contou sobre sua experiência com uma startup, uma empresa que começa no conhecimento das pessoas em desenvolverem produtos de alta tecnologia. Junto com Fernando, Samira fundou a StoryMax, uma startup de inovação editorial.

Aqui é preciso abrir parênteses para lembrar que já superamos aquela discussão sobre o livro digital acabar com o livro de papel, não é? Já vimos que as coisas convivem justamente porque ocupam participação distinta na nossa vida social.

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Pois, então… O casal começou o trabalho por causa de uma trajetória pessoal, vivenciando de perto o processo de digitalização nas editoras, e o projeto foi nascendo a partir das observações que faziam em conjunto. “Já naquela época, nos desagradou muito o modo como estavam sendo pensados os livros para as crianças – na nossa opinião, bem menos atraentes que os de papel: estáticos, sem cores, tudo muito sem graça. Por outro lado, percebemos também que os jovens  e as crianças estavam trocando a leitura por conteúdo em outras linguagens e mídias, eles já tinham aparelhos tablets e smartphones em casa, mas só usavam isso tudo pra jogar e ver vídeo. Daí que começamos a pensar em como fazer esses leitores em formação se interessarem de fato por leitura, começarem a ler no digital e continuarem como leitores por toda a vida! Mergulhamos em experimentação e foi uma delícia!”

O primeiro experimento publicado pela StoryMax foi uma versão audiovisual interativa de Frankenstein chamada “Frankie for Kids”, que não só serviu para mostrar que havia interesse por parte dos leitores, como rendeu dois reconhecimentos bacanas: o ComKids Prix Jeunesse Iberoamericano e o Hipertexto de Tecnologias em Educação. O segundo app book foi o Via Láctea de Olavo Bilac, que recebeu o Prêmio Jabuti em 2015 – e logo depois, a empresa entrou num programa de aceleração em Minas Gerais.

Como diz Samira, foi como fazer um MBA na prática, enquanto na vida acadêmica ela seguia com pós-graduação na USP, na área de Educomunicação, que estuda precisamente as interfaces de mídia, tecnologia e espaços educativos.

Image result for storymax o rei do ouroDepois de tanta experiência e dedicação, o momento era buscar parceiros que pudessem oferecer mais sustentabilidade para esta fase inicial do nosso negócio e foi com o Goethe-Institut que isso se realizou, juntos criaram o app LiteraTour, que traz quatro mini contos baseados em histórias relevantes na cultura alemã – o leitor pode conhecer as quatro histórias e ainda formar suas próprias narrativas ao misturar as diferentes partes delas: é possível ler até 64 histórias, algumas engraçadas, outras encantadas. Esse projeto foi premiado com “Prêmio Brasil-Alemanha de Inovação”, o que tornou viabilizou outras parcerias, tais como a coleção Novozymes Nova Perspectiva, uma parceria da StoryMax com a empresa que dá nome à coleção e com o Sesi Paraná, tem como tema os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, indicados pela ONU como formas de tornar o mundo melhor até 2030, como o fim da fome, da pobreza e das diferenças entre os gêneros.

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Dessa coleção, os leitores podem buscar em aplicativos para android e ios,  o primeiro app book desta coleção, Frritt-Flacc, conto homônimo do Verne que ajuda a discutir o fim da pobreza (listado pela Cátedra Unesco de Leitura entre os dez melhores livros infantojuvenis publicados no Brasil em 2016 – sendo o único livro digital a receber este “Selo Distinção”). Também o segundo app book da coleção, sobre a erradicação da fome e, para isso, apresentado com o conto do Tchékhov chamado “Ostras”.

A história da StoryMax faz a gente compreender bem o que é essa startup: gente que é capaz de ajudar a estimular outras pessoas a despertar para a autonomia do pensamento. E eles não param de fazer isso; hoje é dia de festa StoryMax com novo lançamento para a coleção:  o conto “O Rei do Rio de Ouro”, de John Ruskin, para debater a questão do acesso à água.

Os meus dedinhos estão coçando para virar as páginas com um único toque.

Quem sabe o que é Tutu-Moringa?

Uma história de medo eu vou contar. Mas antes um segredo, um segredo pra você guardar. Todo mundo tem medo de alguma coisa; alguns medos são de coisa absurdas e outros até podem parecer engraçados. Mas o caso é o seguinte: o melhor jeito de tirar o medo que a gente tem da coisa é pensar qual é o medo da coisa…

Medo, medo… Medo de bruxa cabeluda que guarda uma rã no sovaco. Medo de pegar carrapato e ficar todo sugado, da cabeça ao pé. Medo de engasgar ou morrer só de comer manga com leite. Medo de inflação, medo de bicho-papão, medo de sogra e medo de ir embora.

Medo é um caso sério. A gente tem que enfrentar o medo, pois quem não enfrenta fica tipo molengão, tremendo bocó, basta um susto e vira pó.

E pra enfrentar medo, nada melhor do ouvir história de tutu contada pela tataravó, ela que ninguém sabia ao certo de onde vinha, ela que apostava corrida com o vento que assobiava pelos canavais, muito embora tivesse aquele andar vagaroso…

–  Tataravó, conta aquela história de bicho-papão?

A noite já era escura quando os meninos se juntavam no terreiro, debaixo dos galhos da velha mangueira, tudo para ouvir os causos da tataravó.

E lá no alto, no fascínio das palavras e na toada de sua voz, o céu se tornava um breu, um manto que se fundia com sua pele, e a tataravó dizia:

– Menino vai dormir encolhido ao pé da cama depois de ouvir história de tutu…

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Tutu-Moringa tem pescoço comprido, garras afiadas, barriga gorda, e faz um som que parece água saindo do gargalo de um garrafão: GLOP! GLOP!

Não parece bem saber que Tutu-Moringa comeu um garoto todinho numa só bocada. Também não parece pouco assustador dizer que ele aparece atrás de menino que anda sozinho pelo mundo, pode ser até atravessando o quintal.

Mas por que será que tutu faz medo? Será que o medo que ele faz é de medo que ele tem?

Tem jeito pra se livrar do Tutu-Moringa, basta saber dele um segredo… Tem coragem pra saber?

Agora, eu vou cantar baixinho, uma canção de dormir e sonhar com o bicho-de-sete-cabeças, assim, pra ganhar coragem e ler a história do Tutu-Moringa até o fim.

Sem fazer xixi nas calças, hein?

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Tutu-Moringa, texto de Elizabeth Rodrigues da Costa e Gabriela Romeu, ilustrações de Marilda Castanha, é um livro da editora Companhia das Letrinhas.

Bú!

 

 

 

 

 

doce quindim

Minha mãe viu que eu gostava de livros e assinou um clube de leitura para que eu pudesse escolher um título a cada compra. Eram tempos de vacas gordas, eu pensava, já que houve o tempo em que a eu lia na livraria ao lado da escola e a dona do estabelecimento, minha professora, deixava eu chegar ao fim da história antes de vender o livro. Mas aqui é outra história…

Eu já contei mil vezes que não sou filha de hábeis leitores. Meus pais tiveram uma vida direcionada para o trabalho, pouco estudo e muitas dificuldades financeiras para superar. No entanto,  minha família sempre apreciou boa música, roda de conversa e muitas sessões de histórias antigas trazidas lá do tempo do guaraná de rolha.

Resultou que eu pedia livro de presente, lia de graça nas graças da professora que era dona de uma pequena livraria onde eu, vez por outra, comprava os meus exemplares, tinha carteirinha da biblioteca municipal Monteiro Lobato, em São Bernardo do Campo, e, nas vacas gordas, caia nos braços da revista do Círculo do Livro para escolher um título no clube de leitura. Tudo isso me fez a leitora que sou: ainda em formação, sempre apaixonada.

Recentemente, fui convidada a conhecer o Clube Quindim de Leitura. Bom, bem, bem-bom, eu adoro quindim, é meu doce favorito (saibam), e adoro leitura: juntar quindim e livro é folia sem ressaca.

Detalhe, o quindim do Clube Quindim é maiúsculo! O nome do doce dá nome ao rinoceronte de estimação de Volnei Canônica, responsável pelo Clube ao lado da editora Renata Nakano.

O Clube Quindim é um site de assinatura para leitores em formação – assim como eu – que curtem boas histórias para todas as idades. Mas o barato é que os livros são selecionados por um grupo muito heterogêneo de especialistas em literatura e leitura: escritores, ilustradores, pesquisadores; gente como Adriana Calcanhoto, Marisa Lajolo, Roger Mello, Marina Colasanti.

O leitor recebe os livros do Clube Quindim em casa, por correio (ai, como eu gosto disso), num pacote composto com guia de leitura e diário do leitor, ilustrado por artistas do mundo todo, para que a própria experiência da leitura protagonize a brincadeira.

Bem, bom, bem-bom, é claro que assinar o clube não significa deixar de ir à livraria: de jeito nenhum! Faz parte da formação do leitor escolher títulos e inclusive se decepcionar com algumas escolhas. A autonomia do leitor é imprescindível para aguçar seus gostos e sua trasnformação pessoal no curso do processo de esclarecimento. Mas, como eu disse, podendo combinar vários quitutes na festa da vida, um clube de leitura é um bolo com cereja.

Eu gosto de bolo, de cereja, de escolher sorvete na prateleira e de pegar emprestado… Todas as experiências literárias pra mim são deliciosamente prestigiadas. E se tiver quindim, ai de mim… Não resisto.

Conheça mais sobre o Clube no link https://www.clubequindim.com.br/, sem medo de se lambuzar!

Também foi notícia na Globonews:

 

 

 

 

 

 

saudade de caqui

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“Cresci num sítio em Itaquera, na capital de São Paulo. Era uma colônia de imigrantes japoneses, as famílias muito unidas. Todos os anos ganhávamos frutas dos vizinhos, frutas que não tínhamos em casa. Em casa tínhamos caqui, abacate e jabuticaba, que não eram muito, mas o suficiente para comermos só um tipo de fruta por vários dias.  Enjoava, mas depois dava saudade. Espremíamos a criatividade para  inventar receitas com abacate e jabuticaba. O caqui comíamos assim mesmo, fruta pura.”

Cresci num bairro de periferia, numa cidade metalúrgica, mas meus avós e padrinhos moravam longe, longe, perto do lugar onde eu nasci e que haviam chácaras com criações e plantações. Todos os anos eu passava as férias dividindo dias com avós e padrinhos. Minha avó já não tinha horta, apenas o quintal que guardava brincadeiras de roda. Mas minha madrinha tinha um limoeiro grande, tomateiros, parreiras e uma trilha de morangos.

“O que aconteceu com o pé de caqui no livro foi de verdade. E o doce existiu mesmo.”

Achei pena ver caído o pé de caqui da infância. Eu também visitava o pé de caqui no quintal do tio da minha madrinha, ele criava coelhos e cordonas e eu brincava com os bichinhos achando que a criação era pra só isso. Quando eu saía do viveiro, pedia pra madrinha me dar um caqui do pé. Eles estavam sempre amarrentos, tinham ‘cica’ como explicava a madrinha, mas eu nem sabia o que era cica, nem me privava de ter os lábios colados naquilo. Minha avó brigava comigo quando eu contava que tinha comido um caqui daquele jeito. A avó achava que eu podia ter piriri.

“Eu gostava mesmo era de ver a mesa da minha avó cheia de caquis de ponta-cabeça. “Esse ainda não está bom, pega este”. E eu comia porque era bonito demais.

Tenho muita saudade de minha avó. Uma saudade que gosto de sentir porque é uma espécie de gratidão por eu ter vivido com ela. Talvez ela mesma tenha me ensinado a gostar de sentir esse tipo de saudade. A casa dela era enfeitada de lembranças do Japão e de meu avô. Acho que cresci cultivando saudade como um tesouro.”

Minha avó era metade italiana e metade portuguesa. Minha madrinha também portuguesa. A gente comprava uvas de uma família de japoneses e eles eram tão diferentes de nós, tinham paciência de sobra e fala sempre mansa. Na casa dessas mulheres a voz sempre saía mais alto, mas sem braveza. Era uma voz que parecia colher de pau mexendo doce de abóbora, sempre firme e forte. Cheirando a doce.

“Fico lembrando do sítio e para mim parece tudo tão bonito. Só meu lado racional sabe como era cansativa a vida rural. As memórias só me mostram o movimento do sol, a música do vento nas árvores, os cachorros deitados no sol. O dente de leão fofinho, a maria-sem-vergonha forrando o morro todo. Minha avó cozinhando devagar, minha mãe cantando, meu pai abrindo o portão da varanda, meus irmãos cada um do seu jeito.  A infância me parece infinita assim lembrando.”

Fico lembrando do dia em que eu descobri que os coelhos e as codornas eram pra venda porque haviam pessoas que comiam coelhos e codornas. Eu nunca comi coelhos e codornas, por respeito aos meus amigos de infância. Tão pouco aprendi a comer caqui, porque eu nunca gostei de caquis, só gostava mesmo era de brincar com a cica na boca amarrando toda palavra que queria sair…

“E fico curiosa: que lembranças meus filhos terão de suas infâncias?”

Tô sempre curiosa com as infâncias das nossas crianças, principalmente quando a gente se senta ao pé um do outro para contar histórias como essas, de caquis, coelhos, avós e saudades.

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* Márcia Misawa traz seu novo livro para nós. Saudade de Caqui. É um livro lindo que mistura palavra com imagem numa travessia poética das memórias de infância. O selo é da editora Baba Yaga, de São Paulo. Eu mal posso esperar pelo próximo fruto doce que Márcia nos trará.

 

Lia e o feitiço das palavras

 

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– fotografia Carla Bea, na Livraria NoveSete –

” Sou atriz e já escrevi algumas peças teatrais para crianças. Fiz muita contação de histórias, a maioria com textos meus. Um dia me peguei contando para crianças de cinco seis anos uma história muito triste e decidi mudar o rumo da narrativa, mas junto com isso mudei o meu rumo também.”

 

Nos primeiros segundos de prosa, descubro que Marília Moreira tem vocação pra brincadeira – ih, rimou. Eu soube de Marília depois da leitura de seu livro “Lia e o feitiço das palavras”, um conjunto de pequenas histórias e poemas que são servidos por uma feiticeira para uma princesa tristíssima.

– Mas de onde vem uma princesa tristíssima pra começar essa história?

“Mora ainda em meu peito

na ala nobre da memória,

a doce menina Lia.

Conto, a você, sua história.”

“Depois daquele dia em que mudei o rumo da história por conta da angústia que trazia, fui dar aula de inglês e tive uma aluna que era incrível, espivitada, um furacão, não parava quieta, e eu adorava ela!!! Um dia eu a encontrei jororô, não pulou no meu pescoço como de costume, mas me recebeu sentadinha na beira da cama com o rostinho enterrado nos joelhos. Daí escrevi para ela ‘A Lágrima e o sorriso’. Este foi o primeiro dos poemas que compõem a história de Lia.”
“Eu já tinha a ideia da história para conduzir o aparecimento dos poemas, já tinha usado recurso parecido no teatro alinhavando poemas de Cecília Meireles, Cora Coralina, Patativa do Assaré e outros. Depois desse começo com o poema “A lágrima e o sorriso”,  comecei a fazer meus próprios poemas para rechear a história da Lia.”
Marília brinca com métricas variadas, explora as possibilidades de ritmo das rimas, conta a história sem deixar o leitor desgrudar do virar de página até ele construa a sua própria travessia junto com os sentimentos despertados pela Feiticeira em Lia. Aliás, o preâmbulo do livro já anuncia o propósito da história quando pergunta ‘Onde começa o começo?’, numa oferta generosa de diálogo entre a escritora e seus leitores.
Pela força da conversa presente no livro, Marília seduz, lança um feitiço, e conquista. Pergunto pra ela se é isso mesmo, se a narrativa é pra acalentar as crianças num papo sobre o medo de enfrentar a vida e seus desafios. Sinto que ela dá uma risada de bruxa, hehehehe, e eu rio junto: “É isso mesmo, um diálogo constante entre a feiticeira e a criança que habitam em mim ( em todos).”
Claro que dessa prosa poética não podemos deixar de saudar o trabalho de Maria de Betania Galas que trouxe pra narrativa o mistério do teatro de sombras e a minuciosa revelação da relação que vai se desenvolvendo entre a feiticeira e a menina.
Por fim, ou desde o começo, tem Zeco Montes na edição, bordando gente que antes não se conhecia para fazer uma história num pequeno formato de grande delizadeza.
Eu fui pega pela poção mágica e por isso espalho as palavras mágicas, Lia e o feitiço da palavra, de Marília Moreira e Maria da Betania Galas, com selo da Ozé Editora (São Paulo), vem pra morar entre os livros prediletos.
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Anuário AEILIJ

A Associação dos Escritores e Ilustradores de Literatura para Infância e Juventude – AEILIJ, preparou um Anuário com as publicações do ano de 2016.

O Anuário já é considerado um catálogo de referência para escolha de títulos para adoção em escolas, compras de bibliotecas e, principalmente, formação de novos leitores.

Podemos ler nesta edição uma entrevista com Ninfa Parreiras falando sobre sua trajetória como escritora e formadora de leitores, além de discutir outros pontos sensíveis do universo literário como as plataformas digitais.

Também é possível relembrar, com fotografias, um breve percurso das ações promovidas por autores associados, em 2016.

Divirtam-se com o Anuário e compartilhem por aí essa ideia iluminada que é a LEITURA!

 

 

 

 

Tino Freitas nos oferece UM abraço PASSO a PASSO

 

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“Dia desses recebi o convite da Penélope Martins para escrever sobre meu livro mais recente, UM ABRAÇO PASSO A PASSO (ilustrações de Jana Glatt, Panda Books).

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Eu poderia dizer que ele nasceu em 2016, quando chegou às livrarias. Mas seria injusto não afirmar que esse filhote foi fruto de muitos outros abraços antes de chegar às estantes.

O primeiro aconteceu em Pirenópolis, durante a 6ª FLIPIRI, em maio de 2014. Um dos convidados da Festa Literária daquela cidade-paraíso no meio do Goiás foi Todd Parr, norte-americano, autor publicado no Brasil pela Panda Book (livros como o clássico Tudo Bem Ser Diferente). Na sua companhia, a Patrícia Metzler, representante da editora. Naqueles dias, entre oficinas, palestras, sucos de jabuticaba, cuidados com os cães de rua, banhos de cachoeira e outras conversas, nos aproximamos. E trocamos o primeiro e tantos outros abraços.

Findo o evento, voltei a Brasília, Patrícia retornou a Sampa e Todd seguiu para a Califórnia. Depois desse flerte literário, seguimos trocando mensagens acerca dos mais variados temas. A gente nem sabia, mas o ABRAÇO-LIVRO já era embrionário.

O terceiro abraço veio em novembro daquele ano. Eu estava em Sampa acompanhando meu pai e meu filho Pedro numa viagem que incluiu o show do Paul McCartney, entre outros sonhos que realizamos ali, juntos. Patrícia havia me convidado a conhecer Tatiana, editora da Panda. Fui lá e conversamos. O abraço burocrático na chegada foi substituído por um repleto de bem querer logo após uma hora de conversa. Faríamos um livro juntos.

Saí de lá abraçado a essa certeza. Mas ainda sem história alguma. Na volta da viagem, Pedro e Papai embarcaram para Fortaleza e eu retornei num voo da Avianca para Brasília. Na cabeça, as lembranças daqueles dias incríveis com a família e o desejo agudo de oferecer uma história que emocionasse Tatiana e Patrícia.

No meio dessa confusão de pensamentos, veio a ideia – bem na hora que serviam o lanche. Catei o guardanapo, pedi apenas uma água – e outro guardanapo – e puxei a caneta do bolso. Me abracei as lembranças do meu filho pequenino, dos sonhos que eu tinha para ele (que agora segue os seus próprios sonhos, passo a passo – e que bom), dos meus tantos passos errados e outros certos nesse caminho inexplicável que a gente segue ao ser pai. Lembrei que eu tinha um urso laranja que me acompanhou boa parte da infância. E se um “banana de pijama” que Pedro adorava! Abraços, passos, família, presentes… a história estava ali, agora, no guardanapo da empresa aérea.

Cheguei em casa e aos poucos fui afinando as ideias até que achei que estava pronto para enviar à Tatiana e ver o que ela achava daquela história tão singular para mim, mas possível de emocionar e abraçar o imaginário de outros leitores. No início de janeiro enviei a história e uma semana depois eu estava em Sampa dessa vez para assinar o contrato e trocarmos um abraço ainda mais querido.

E, depois de pensarmos no projeto gráfico (formato, papel, se seria ou não capa-dura, etc) o livro foi para a gráfica e em 2016 chegou às livrarias e está espalhando abraços por esse Brasil tão querido.

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Ah, deixei para o final – antes que vocês pensem que sou maluco – a história do segundo abraço. Era junho de 2014. Eu estava nos corredores do 14º Salão do Livro Infantil e Juvenil da FNLIJ, no Rio de Janeiro, em frente ao stand da Manati. A conversa corria solta entre Silvia Negreiros (editora) e umas professoras. Uma moça com um vestido colorido e pasta-portfólio na mão procurava alguém da editora para apresentar o trabalho e deixar o cartão. Eu me apresentei, falei a ela que era melhor esperar um pouco para falar com Silvia e fui dando uma olhada no material INCRÍVEL que ela tinha ali. Papo findo, aprensentei as duas, ela mostrou o Portfólio, deixou o cartão e, antes de sumir pelos corredores, me deu um cartão, dois beijos no rosto e um abraço tímido. Eu olhei para o cartão e achei o nome bem legal: Jana Glatt. Eu não sabia qual, mas tive a certeza de que faríamos um livro juntos em algum momento. Quando Tatiana, meses depois topou fazer o livro, me perguntou se eu tinha alguma sugestão de ilustrador(a). Não tive dúvidas. Indiquei a Jana. E a Tati também não teve dúvidas! E foi lindo demais trabalhar com essa turma!

E foi assim, repleto da coragem de sair por aí abraçando e fazendo novas amizades, que nasceu o livro UM ABRAÇO PASSO A PASSO (Panda Books).

Desejo muitos abraços e ótimas leituras a todos. Hakuna Matata!”

– Tino Freitas –

* TINO FREITAS é escritor, músico e jornalista. É também voluntário do projeto Roedores de Livros, o qual reúne crianças e livros num local onde antes não havia espaço para a literatura.

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