o meu chapéu

 

‘O Meu Chapéu / Consulta’ – Convidado especial: Ney Matogrosso CONVERSAS COM VERSOS – Géninha Melo e Castro canta Maria Alberta Menéres Letra: Maria Alberta Menéres Música: Camilo Carrara, Eduardo Queiróz Produção Musical: Eduardo Queiróz Ilustrações: Mariana Melo Animação e produção: Alexia Cooper, Simon Le Saint http://www.conversascomversos.com

© 2014 / Maria Alberta Menéres, Eugénia Melo e Castro, Mariana Melo – Todos os direitos reservados

Maria Alberta Menéres, com a sua imaginação, conversa em versos, inventa mundos, imagens e amigos, inventa perguntas e respostas, transporta a sua Poesia para o mundo das crianças eternas, e no tempo interno de cada uma provoca um espanto novo. Três gerações participam nesta nova edição: mãe, filha e neta. Maria Alberta Menéres escreve, Géninha Melo e Castro canta, Mariana Melo ilustra.

Sob o tempo, Gonçalo Naves

Às vezes as noites ganham asas e nunca acabam mas não faz mal porque entendi finalmente que o tempo é a única coisa que acontece a todos, desmorona-se sobre nós e dissolvemo-nos nele, revolve-nos as fundações como se fôssemos uma casa de madeira seca e não é que afinal de contas somos mesmo uma casa de madeira seca, apodrecemos-lhe aos pés e apesar de não consentirmos e procurarmos evitar o tempo entretem-se connosco e faz-nos pedinchar e suplicar e implorar e depois tanto se lhe dá como se lhe deu, dissipa-nos e desvanece-nos e oblitera-nos e então nós em sabe-se lá que lugar, o tempo é as orquídeas e os plátanos e as buganvílias mas é também o colchão demasiado bolorento e um buraquinho no estore pelo qual mil aragens e um bocado nosso abandonado para sempre.
Gonçalo Naves, nossa ponte com o Clube de Leitores, de Portugal

a-ver-livros: 432

Já somos tão pouco
de repente menos ainda
um dia nada
meia dúzia de ossos presos
no tecido com que embrulhámos
a memória
um cheiro vago a terra
estrumada a dias vividos
meio litro de lágrimas
uma flor ou outra

O que fica de ti é isto que sou,
sal, pedra, fogo,
abençoada a nesga de sol
que me escondeu
o olhar

Ana Almeida

*AA é do Clube de Leitores, nossa ponte para Portugal

O paraíso do avessO, Raquel Serejo Martins

O paraíso era uma paragem de autocarro.

Ele subia a rua.

Ela descia a rua.

Chegavam à mesma hora, quase à mesma hora, o mesmo horário a cumprir.

Quando chegava primeiro ficava ansioso, um formigueirinho, apesar de ela nunca ter faltado a um encontro.

Como se fosse um encontro! Não mais que obrigações laborais. O suficiente para concluir, supor, que funcionária exemplar no que tocava a pontualidade e assiduidade.

Será que tocava piano, falava francês?

Bonjour mademoiselle. – Pensava que dizia. Não dizia.

Assim, derivado da assiduidade, como um figo que mirra e seca, ao longo de meses, foi transformando a ânsia em certeza e, mesmo assim, enquanto esperava, um nervoso miudinho, o coração de passo, a trote, de trote a galope, coisa que aposta faz mal ao coração e ao resto do corpo, 2 minutos, 120 segundos, 3 minutos, 180 segundos, 4 minutos, 240 segundos, nunca mais do que isso.

Questiona-se se o seu coração aguentaria mais.

Duvida.

Pelo que quando chegava depois, um sentimento alívio, chegar e encontrá-la à sua espera.

Era como se estivesse à sua espera!

Estaria à sua espera?

Mas o que deveras o encantava, acontecia, em regra, uma vez por mês.

Meses compostos apenas por dias úteis, há dias inúteis.

Acontecia, por excepção, a tal que não sei porquê dizem confirma a regra, duas vezes no mesmo mês.

E, uma única vez, a excepção à excepção, aconteceu três vezes no mesmo mês, uma ocorrência rara, que não serve de exemplo, apenas lembra um cometa.

Faz e tem a estatística controlada.

O que deveras o encanta, o tal dia imprevisível e imperscrutável em que em sincronia chegam à paragem e em sincronia se arrumam lado a lado.

Ele a subir a rua.

De tão consolado, leva um sorriso a fermentar dentro do estômago.

Ela a descer a rua.

Cena de filme pouco realizável na realidade, porque a realidade diferente dos filmes, não há ensaios, cortes e repetições, a realidade é o lugar, o momento, onde apesar do boletim meteorológico, a chuva e o sol inesperados, e tudo é apenas o que pode ser.

Se o banco estiver vazio, sentam-se lado a lado.

Podem sentar-se lado a lado.

Oferece-lhe um sorriso.

Pode oferecer-lhe um sorriso.

O sorriso, como um balão, a subir do estômago para a boca.

Ela, como se ao espelho, outro sorriso.

Bonjour mademoiselle. – Quase que diz, sem nada dizer.

Porque apesar dos sorrisos, nada pesados, leves, flutuantes como balões, nunca falaram, nem da banalidade do tempo, está um dia lindo não está, dizem que não vai chover, que o tempo assim toda a semana, que se tu ao meu lado, assim até ao fim dos meus dias.

Depois culpa o tempo ou desculpa-se com a falta de tempo.

Porque num ápice chega o 42 que a leva para o outro lado da cidade ou chega o 128 e, resignado, enfia-se nas suas entranhas.

Assim, ou ao contrário, sem regra.

Assim, de segunda a sexta: o paraíso.

Depois o inferno, o paraíso do avesso, adverso, perverso, sem poesia, sem verso.

O inferno são os Sábados e os intermináveis Domingos.

O inferno são os meses quentes de Verão, quando um ou outro de férias.

Raquel Serejo Martins, do Clube de Leitores, Portugal

Foto: Vitorino Coragem

sorriso, Helder Magalhães

sorriso

calha de algures
por uma fome de infinito
a estrada desembocar
na curva do horizonte
que avança lenta
no crepúsculo da espuma
esperamos o cair
da noite entre o dorso
e o rútilo espelha-se
sobre a fina camada
de que é feito
o sorriso da eternidade.

Helder Magalhães

Fotografia de Andreia Amorim

*nossa correspondência com Clube de Leitores, Portugal

SEMÁFORO, Rodrigo Ferrão

SEMÁFORO

a cidade está deserta
e ao longe o semáforo verde dá-me ordem para seguir.
prossegue a vida, diz.

mas ele fecha mal chego ao seu encontro,
sinal inequívoco da necessidade de parar
e ceder passagem.

olho para a direita.
olho para a esquerda.
olho em frente.
espreito o retrovisor.
os meus olhos apontam ao céu.

e ninguém cruza.

conto os segundos, bato o pé de impaciência.
escuto as batucadas do coração,
descompensadas pela ausência de alguém que as eduque.

penso em mim.
penso na ausência de ti.
como seria bom que alguém trouxesse a tua solidão numa caixa.
poderia então juntar a minha tristeza à tua,
agitar os nossos medos
e daí resultar alegria.

o semáforo abre.
olho para todos os cantos onde tu possas estar.

mas não estás.
simplesmente não.

sigo viagem, volto a contar o tempo e penso na esperança que me guia até ao cruzamento seguinte.

será aí que morro?
ou será o destino em que te descubro
e convido a vires morrer comigo?

Rodrigo Ferrão

Foto: Rodrigo Ferrão

*A nossa ponte com o Clube de Leitores, de Portugal. Não perca!

Quanto Morre um Homem, Ruy Belo

Quanto Morre um Homem

Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?
Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?

*Ruy Belo, in Aquele Grande Rio Eufrates

*Esse post é giro! A nossa ponte com o Clube de Leitores, de Portugal