a-ver-livros: 432

Já somos tão pouco
de repente menos ainda
um dia nada
meia dúzia de ossos presos
no tecido com que embrulhámos
a memória
um cheiro vago a terra
estrumada a dias vividos
meio litro de lágrimas
uma flor ou outra

O que fica de ti é isto que sou,
sal, pedra, fogo,
abençoada a nesga de sol
que me escondeu
o olhar

Ana Almeida

*este é um re-post da Ana Almeida, do blog de Portugal – Clube de Leitores. Esta conexão É giro!

Tenho mil irmãs para amar sem palavras – José Luís Peixoto

raquel

“Tenho mil irmãs para amar sem palavras.
Tenho aquela irmã que caminha encostada
às paredes e sem voz, tenho aquela irmã de
esperança, tenho aquela irmã que desfaz o
rosto quando chora. Tenho irmãs cobertas
pelo mármore de estátuas, reflectidas pela
água dos lagos. Tenho irmãs espalhadas por
jardins. Tenho mil irmãs que nasceram
antes de mim para que, quando eu nascesse,
tivesse uma cama de veludo. Agradeço com
amor a cada uma das minhas irmãs. São mil
e cada uma tem um rosto a envelhecer. As
minhas mil irmãs são mil mães que tenho.
Os olhos das minhas irmãs seguem-me com
bondade e, quando não me compreendem,
é porque eu próprio não me compreendo.
Tenho mil irmãs a esperar-me sempre, com
silêncio para ouvir-me e para proteger-me
no inverno. Tenho aquela irmã que é uma
menina que sai de casa cedo para chegar cedo
à escola e tenho aquela irmã que é uma
menina que sai de casa cedo para chegar cedo
à escola. Tenho irmãs como música, como
música. Tenho mil irmãs feitas de branco.
Eu sou o irmão de todas elas. Sou o guardião
permanente e incansável do seu sossego.
Eu tenho de ser feliz pelas minhas irmãs.
Eu tenho de ser feliz pelas minhas irmãs.”

José Luís Peixoto, in Gaveta de Papéis

Enquanto houver poetas, o mundo tem salvação – Maria Teresa Horta

Uma longa entrevista dada por Maria Teresa Horta ao portaldaliteratura.

Deixo-vos um trecho.

“(…) O mundo de hoje é um mundo muito complexo, porque é um mundo muito desencantado. As pessoas olham com um olhar muito desencantado e eu tenho muita dificuldade em olhar para um olhar desencantado. É uma grande tendência para encontrar algo positivo sempre e ir atrás da luta. Eu tenho um passado de luta muito grande. Não só antifascista como tenho um passado de luta feminina. E um lutador nunca pode cair no desânimo. Eu sou tudo menos uma mulher depressiva. Não sou. A primeira coisa que eu faço ao chegar ao fundo é vir logo cá acima, nem dou por ter estado no fundo. Tenho uma grande tendência em tentar entender aquilo que de vez enquanto me é difícil de perceber.


E ao mesmo tempo que digo “que época horrível, que época estranha”, onde os valores não existem, onde o ideal praticamente está diluído no meio de uma grande violência, onde as pessoas já não acreditam em nada, onde os valores são os valores do dinheiro, disto e daquilo, mas depois eu acho que os poetas continuam neste mundo. E eu acredito que enquanto o poeta existir no mundo, o mundo está salvo. O poeta quer dizer o sonho. O poeta é o alquimista do futuro. E é o alquimista porquê? Porque tudo o que o poeta toca, não transforma em ouro, não, transforma em sonho. E enquanto o homem e a mulher sonharem, é possível viver. E isto não é só o que o Egídio Gonçalves dizia. É como poeta. Não, é verdade. O poeta transforma o mundo. Enquanto o homem tiver no seu seio e a mulher tiver no seio da sociedade o poeta, enquanto ele for um ser que existe, enquanto houver asa, enquanto houver possibilidade de se sonhar, há possibilidade de sobrevivência. Mas tem que se ter um grande cuidado. Agora você pergunta-me: «Como é que vê o mundo?» Com um olhar que eu considero sobre o perigo. Há um grande perigo que pesa neste momento sobre a humanidade. Há o grande perigo de realmente o grande poeta desaparecer. Do sonho, do ideal, do sentido da coerência, da dignidade, dos valores não serem só os valores monetários. Há valores muito mais importantes dentro de nós que temos que manter. Porque senão isto pode-se transformar num grande circo romano, onde os mais fracos são completamente aniquilados permanentemente pelos mais fortes. E isso é um grande perigo. Acho que a sociedade está neste momento numa época em que vive no perigo de uma grande fissura, em que na realidade os valores e o ideal estão a desaparecer… É preciso agarrar isso. Agora se você diz “completamente desencantada”, de maneira nenhuma, não sou uma mulher desencantada, para mim existe esperança, porque se não existisse esperança eu já não existia. Não, não pode ser. Nós todos temos que ter esperança. Faz parte do ser humano. Porque senão não é possível viver. Nós vivemos porque acreditamos.”

*este é um re-post da Rodrigo Ferrão, do blog de Portugal – Clube de Leitores. Esta conexão É giro!

Ana Hatherly, Saber

Saber
saber
é saber saber-te
sabermo-nos unir
unirmo-nos
é conhecermo-nos
sabermos ser
por fim sermos
é sabermos
sabermo-nos
conhecermos
a surda áspide

*Ana Hatherly, em “Um Calculador de Improbabilidades”
escolhido por Soraya Semenzato

*este é um re-post da Rodrigo Ferrão, do blog de Portugal – Clube de Leitores. Esta conexão É giro!

Uma pequena história do Mundo, E. H. Gombrich

Gombrich escreve um livro obrigatório, diria, para todos os que quiserem ter uma luz de História Mundial, mas de uma forma bastante clara e objectiva. Resumiria este livro a uma aula, não a um semestre ou a um ano lectivo.

“Uma pequena história do Mundo” foi escrito tinha o autor 26 anos. Neste livro dirigido aos jovens (mas que qualquer adulto deve ter por perto), faz-se uma breve cronologia dos assuntos mais fracturantes da História.

Gombrich trata-nos na primeira pessoa e coloca várias perguntas. A melhor maneira de responder é lê-lo rápido.

Experimento deixar isto, sobre o Budismo:

“Buda pensava de forma diferente. Dizia que era possível controlar os nossos desejos, mas que para fazer isso era preciso trabalhar sobre nós próprios, se calhar durante vários anos, para que no fim só se tivesse os desejos que se queria ter. Por outras palavras, podemos tornar-nos senhores de nós mesmos, da mesma forma que um condutor de elefantes aprende a controlar o elefante. A maior realização que uma pessoa pode conseguir na Terra é chegar a um ponto em que deixa de ter desejos. É assim a «calma interior» de Buda, a paz abençoada de quem já não tem desejos, de quem é bondoso com toda a gente e não pede nada em troca. Buda também dizia que uma pessoa que conseguisse dominar todos os seus desejos deixava de reencarnar depois da morte. Só as almas que se agarram à vida é que voltam a nascer; é nisso que acreditam os seguidores de Buda. Quem deixa de se agarrar à vida liberta-se do ciclo interminável de nascimento e morte, e fica livre de todo o sofrimento. Os budistas chamam a este estado o «Nirvana».”

*este é um re-post da Rodrigo Ferrão, do blog de Portugal – Clube de Leitores.

Esta conexão É giro!

a-ver-livros: O pai da ‘república das bananas’

Se adoro livros – e já sabemos que adoro – não posso negar que quase tanto prazer me dá também cruzar-me com uma imagem que me leva para o interior de uma história. Como estas fotos, singelas diga-se, de uma homenagem escultórica em três peças ao escritor O. Henry, pseudónimo de William Sydney Potter (1862-1910), algures numa zona verde da cidadezinha de Greensboro, sua terra natal, no estado norte-americano da Carolina do Norte. Um livro seu à escala humana, uma estátua do próprio e outra do cão que entrou em várias das suas histórias, tudo com assinatura de Maria J. Kirby-Smith.

Dele sabia pouco mais do que o nome, apenas a fama de autor de contos – na senda do meu adorado Somerset Maugham e de Mark Twain. Sei hoje que foi homem de mil profissões – de marçano na botica do tio, em adolescente, a farmacêutico, pastor, rancheiro, cozinheiro, baby-sitter, desenhador técnico, caixa de banco, jornalista…

Descubro que, aos 20, era puto a modos que enfermo, que parte com o tio para o Texas para ver se escapa a uma tosse persistente. Recupera e dedica-se, nos tempos livres, a cantar, tocar e fazer teatro. É nessa fase que conhece Athol Estes, rapariguinha de 17, tuberculosa e podre de rica, com quem foge para casar. Curiosamente devia ser mesmo amor – e não interesse. É ela que, ao mesmo tempo que lhe dá um filho (que morreria poucas horas após nascer) e logo em seguida uma filha, o encoraja a escrever..

O entusiasmo paternal e literário deve tê-lo distraído – William é um bocado trafulha e é afastado do banco onde trabalha então por suspeitas de desfalque. É nessa altura que dá o salto para os jornais, com uma coluna humorística que lhe ia grangeando popularidade. Diz-se que arranjava ideias para os seus escritos passando horas sentado na entrada de hotéis a observar e a falar com as pessoas com que se ia cruzando.

Neste meio tempo uma auditoria no banco confirma o desfalque de que andava suspeito e William é engavetado. O sogro, já aceite que estava o casamento à sorrelfa, chegou-se à frente e pagou a fiança para lhe tirar os costados da cadeia. Mas no dia em que era suposto aparecer para o julgamento, o réu deu às de vila-diogo, primeiro para Nova Orleães e depois para as Honduras. Pois foi precisamente por lá, imagine-se!, refundido num hotel manhoso de Trujillo, entretido a escrever “Cabagges and Kings”, que lhe surgiu a expressão “república das bananas” – que, se em determinada altura se referia apenas a pequenos e instáveis países da América Latina, hoje serve para meio mundo que nem sonha de onde a dita surgiu.

Adiante na história: Athol e a filha, se estão a interrogar-se, tinham ficado a viver com os pais dela. Mas quando a saúde da mulher se deteriora de vez e surge prenúncio de morte, William volta para o Texas e entrega-se. O sogro volta a pagar fiança e permite-lhe assim que acompanhe Athol nos últimos dias. Ela morre em Julho de 1897 e, meio ano depois, ele vai passar cinco na penitenciária. Tanta sorte que, consta que graças à sua anterior profissão de farmacêutico, acaba por arranjar trabalho lá dentro e até lhe dão um quarto na ala hospitalar. Nessa fase da cadeia publica cá fora 14 contos sob vários pseudónimos, um deles ganhando força: O. Henry.

Três anos cumpridos, corria 1901, o escritor sai por bom comportamento, junta-se à filha, então com onze anos e convencida de que o pai tinha estado fora em trabalho, e muda-se para Nova Iorque. É nesta cidade que vive a sua fase mais prolífica: 381 contos, um por semana para o New York World Sunday Magazine, com grande êxito. Em 1907 volta a casar-se, agora com Sallie, uma namoradinha de infância que reencontra numa visita à Greensboro natal. Mas, bebedor cada vez mais inveterado, saúde a definhar, ela abandona-o no ano seguinte, a escrita começa a esboroar-se e ele morre no verão de 1910, com apenas 47 anos.

Talvez vos deixe uma pulga atrás da orelha literária se vos disser que um dos seus contos mais conhecidos, “Ransom of Red Chief”, conta a história de dois homens que raptam um miúdo de dez anos tão reguila que, no final, são os raptores que pagam aos pais para o aceitarem de volta. Se isso não é o enredo-base do filme “Sozinho em Casa”, macacos me mordam. Ah, e o pseudónimo por que ficou conhecido: O. Henry. O escritor deu várias explicações para a origem do nome. Esqueçam, provavelmente nenhuma é verdadeira, vindas como vinham de um tipo cujo talento maior era contar histórias. Acho muito mais divertido revelar-vos que existe um O. Henry Hall, edifício administrativo da Universidade do Texas, e que anteriormente era, imagine-se, o tribunal onde foi condenado por desfalque. Que tal, como curiosa ironia do destino?

P.S: Amazon, here I come! Em inglês, uma excelente selecção dos melhores contos. http://www.amazon.com/Short-Stories-Henry-Modern-Library/dp/0679601228

Para quem preferir ler em português, há que comprar via Brasil, onde há vários livros, nomeadamente publicados pela editora Hedra. http://hedraonline.posterous.com/48698774

Não conheço qualquer edição da obra deste autor em Portugal. Corrijam-me caso esteja enganada. – e pronto, fui corrigida. Existem, pelo menos, “A Teoria e o Cão/Os Caminhos que Tomamos” da Assírio & Alvim, e também “Polícias e Ladrões”, na colecção Vampiro, da Livros do Brasil. Muito obrigada, Redonda e Ubik!

*este é um re-post da Ana Almeida, do blog de Portugal – Clube de Leitores.

Esta conexão É giro!

Dorme Sobre o Meu Seio, Pessoa

Caricatura: Hugo Enio Braz

Dorme Sobre o Meu Seio

Dorme sobre o meu seio,
Sonhando de sonhar…
No teu olhar eu leio
Um lúbrico vagar.
Dorme no sonho de existir
E na ilusão de amar.

Tudo é nada, e tudo
Um sonho finge ser.
O ‘spaço negro é mudo.
Dorme, e, ao adormecer,
Saibas do coração sorrir
Sorrisos de esquecer.

Dorme sobre o meu seio,
Sem mágoa nem amor…

No teu olhar eu leio
O íntimo torpor
De quem conhece o nada-ser
De vida e gozo e dor. 


*Fernando Pessoa, in Cancioneiro

Este é um post do Blog Clube de Leitores – de Portugal para o Toda Hora Tem História  -do Brasil, na conexão É giro!
Rodrigo Ferrão, correspondente do Clube de Leitores.

Posições de Leitura

O ilustrador Jean Jullien cativou-me em 2011. Escrevi sobre ele – o pouco que dele sabia no espaço do Clube. De então para cá tenho acompanhado o seu crescimento, a sua evolução. Continuo a aplaudi-lo como no primeiro dia.

Em agosto de 2016, a exposição Flat Out trouxe sua primeira mostra a solo de escultura, em Ghent, na Bélgica. Isto é, uma mostra de algumas das suas ilustrações transpostas para três dimensões, em que os livros têm também (como sempre tiveram) um papel de relevo.

Deixo-vos algumas imagens. Há apetites que devem ser despertados.

Ana Almeida, do Blog Clube de Leitores – de Portugal para o Toda Hora Tem História  -do Brasil, na conexão É giro!
  

 

o meu chapéu

 

‘O Meu Chapéu / Consulta’ – Convidado especial: Ney Matogrosso CONVERSAS COM VERSOS – Géninha Melo e Castro canta Maria Alberta Menéres Letra: Maria Alberta Menéres Música: Camilo Carrara, Eduardo Queiróz Produção Musical: Eduardo Queiróz Ilustrações: Mariana Melo Animação e produção: Alexia Cooper, Simon Le Saint http://www.conversascomversos.com

© 2014 / Maria Alberta Menéres, Eugénia Melo e Castro, Mariana Melo – Todos os direitos reservados

Maria Alberta Menéres, com a sua imaginação, conversa em versos, inventa mundos, imagens e amigos, inventa perguntas e respostas, transporta a sua Poesia para o mundo das crianças eternas, e no tempo interno de cada uma provoca um espanto novo. Três gerações participam nesta nova edição: mãe, filha e neta. Maria Alberta Menéres escreve, Géninha Melo e Castro canta, Mariana Melo ilustra.

Sob o tempo, Gonçalo Naves

Às vezes as noites ganham asas e nunca acabam mas não faz mal porque entendi finalmente que o tempo é a única coisa que acontece a todos, desmorona-se sobre nós e dissolvemo-nos nele, revolve-nos as fundações como se fôssemos uma casa de madeira seca e não é que afinal de contas somos mesmo uma casa de madeira seca, apodrecemos-lhe aos pés e apesar de não consentirmos e procurarmos evitar o tempo entretem-se connosco e faz-nos pedinchar e suplicar e implorar e depois tanto se lhe dá como se lhe deu, dissipa-nos e desvanece-nos e oblitera-nos e então nós em sabe-se lá que lugar, o tempo é as orquídeas e os plátanos e as buganvílias mas é também o colchão demasiado bolorento e um buraquinho no estore pelo qual mil aragens e um bocado nosso abandonado para sempre.
Gonçalo Naves, nossa ponte com o Clube de Leitores, de Portugal

a-ver-livros: 432

Já somos tão pouco
de repente menos ainda
um dia nada
meia dúzia de ossos presos
no tecido com que embrulhámos
a memória
um cheiro vago a terra
estrumada a dias vividos
meio litro de lágrimas
uma flor ou outra

O que fica de ti é isto que sou,
sal, pedra, fogo,
abençoada a nesga de sol
que me escondeu
o olhar

Ana Almeida

*AA é do Clube de Leitores, nossa ponte para Portugal

O paraíso do avessO, Raquel Serejo Martins

O paraíso era uma paragem de autocarro.

Ele subia a rua.

Ela descia a rua.

Chegavam à mesma hora, quase à mesma hora, o mesmo horário a cumprir.

Quando chegava primeiro ficava ansioso, um formigueirinho, apesar de ela nunca ter faltado a um encontro.

Como se fosse um encontro! Não mais que obrigações laborais. O suficiente para concluir, supor, que funcionária exemplar no que tocava a pontualidade e assiduidade.

Será que tocava piano, falava francês?

Bonjour mademoiselle. – Pensava que dizia. Não dizia.

Assim, derivado da assiduidade, como um figo que mirra e seca, ao longo de meses, foi transformando a ânsia em certeza e, mesmo assim, enquanto esperava, um nervoso miudinho, o coração de passo, a trote, de trote a galope, coisa que aposta faz mal ao coração e ao resto do corpo, 2 minutos, 120 segundos, 3 minutos, 180 segundos, 4 minutos, 240 segundos, nunca mais do que isso.

Questiona-se se o seu coração aguentaria mais.

Duvida.

Pelo que quando chegava depois, um sentimento alívio, chegar e encontrá-la à sua espera.

Era como se estivesse à sua espera!

Estaria à sua espera?

Mas o que deveras o encantava, acontecia, em regra, uma vez por mês.

Meses compostos apenas por dias úteis, há dias inúteis.

Acontecia, por excepção, a tal que não sei porquê dizem confirma a regra, duas vezes no mesmo mês.

E, uma única vez, a excepção à excepção, aconteceu três vezes no mesmo mês, uma ocorrência rara, que não serve de exemplo, apenas lembra um cometa.

Faz e tem a estatística controlada.

O que deveras o encanta, o tal dia imprevisível e imperscrutável em que em sincronia chegam à paragem e em sincronia se arrumam lado a lado.

Ele a subir a rua.

De tão consolado, leva um sorriso a fermentar dentro do estômago.

Ela a descer a rua.

Cena de filme pouco realizável na realidade, porque a realidade diferente dos filmes, não há ensaios, cortes e repetições, a realidade é o lugar, o momento, onde apesar do boletim meteorológico, a chuva e o sol inesperados, e tudo é apenas o que pode ser.

Se o banco estiver vazio, sentam-se lado a lado.

Podem sentar-se lado a lado.

Oferece-lhe um sorriso.

Pode oferecer-lhe um sorriso.

O sorriso, como um balão, a subir do estômago para a boca.

Ela, como se ao espelho, outro sorriso.

Bonjour mademoiselle. – Quase que diz, sem nada dizer.

Porque apesar dos sorrisos, nada pesados, leves, flutuantes como balões, nunca falaram, nem da banalidade do tempo, está um dia lindo não está, dizem que não vai chover, que o tempo assim toda a semana, que se tu ao meu lado, assim até ao fim dos meus dias.

Depois culpa o tempo ou desculpa-se com a falta de tempo.

Porque num ápice chega o 42 que a leva para o outro lado da cidade ou chega o 128 e, resignado, enfia-se nas suas entranhas.

Assim, ou ao contrário, sem regra.

Assim, de segunda a sexta: o paraíso.

Depois o inferno, o paraíso do avesso, adverso, perverso, sem poesia, sem verso.

O inferno são os Sábados e os intermináveis Domingos.

O inferno são os meses quentes de Verão, quando um ou outro de férias.

Raquel Serejo Martins, do Clube de Leitores, Portugal

Foto: Vitorino Coragem

sorriso, Helder Magalhães

sorriso

calha de algures
por uma fome de infinito
a estrada desembocar
na curva do horizonte
que avança lenta
no crepúsculo da espuma
esperamos o cair
da noite entre o dorso
e o rútilo espelha-se
sobre a fina camada
de que é feito
o sorriso da eternidade.

Helder Magalhães

Fotografia de Andreia Amorim

*nossa correspondência com Clube de Leitores, Portugal

SEMÁFORO, Rodrigo Ferrão

SEMÁFORO

a cidade está deserta
e ao longe o semáforo verde dá-me ordem para seguir.
prossegue a vida, diz.

mas ele fecha mal chego ao seu encontro,
sinal inequívoco da necessidade de parar
e ceder passagem.

olho para a direita.
olho para a esquerda.
olho em frente.
espreito o retrovisor.
os meus olhos apontam ao céu.

e ninguém cruza.

conto os segundos, bato o pé de impaciência.
escuto as batucadas do coração,
descompensadas pela ausência de alguém que as eduque.

penso em mim.
penso na ausência de ti.
como seria bom que alguém trouxesse a tua solidão numa caixa.
poderia então juntar a minha tristeza à tua,
agitar os nossos medos
e daí resultar alegria.

o semáforo abre.
olho para todos os cantos onde tu possas estar.

mas não estás.
simplesmente não.

sigo viagem, volto a contar o tempo e penso na esperança que me guia até ao cruzamento seguinte.

será aí que morro?
ou será o destino em que te descubro
e convido a vires morrer comigo?

Rodrigo Ferrão

Foto: Rodrigo Ferrão

*A nossa ponte com o Clube de Leitores, de Portugal. Não perca!

Quanto Morre um Homem, Ruy Belo

Quanto Morre um Homem

Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?
Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?

*Ruy Belo, in Aquele Grande Rio Eufrates

*Esse post é giro! A nossa ponte com o Clube de Leitores, de Portugal