quem conta um conto…

* Deu no Blog da Letrinhas; o texto reproduzido abaixo é para adoçar a palavra e preparar sua participação no Curso de Narração de História com Penélope Martins. Confira o link originário:  http://www.blogdaletrinhas.com.br/conteudos/visualizar/Quem-conta-um-conto-aumenta-um-ponto

Um bom contador de histórias é alguém que tece narrativas com destreza, cena após cena. Não perde jamais o fôlego, a pulsação da vida que proporciona o encantamento. É que, ao narrar uma história, “esticamos o fio no labirinto da memória”, diz a escritora Penélope Martins, que ministra um curso sobre o tema no dia 27 de maio, na Casa Vermelha, na zona oeste da cidade de São Paulo.

No curso Narração de história e livro em cena, ela aborda assuntos como as relações humanas apresentadas nas narrativas, o uso de objetos, músicas e jogos, a compreensão da linguagem, o aparelho vocal e os desdobramentos da leitura em voz alta, a memorização e a recomposição do enredo.

“Trabalho desconstruindo aquela visão comum de que a história precisa de aparatos, piadas prontas, chavões, objetos que ilustram cada cena”, diz a narradora, que colabora para o Blog da Letrinhas na seção Dois dedinhos de prosa. “A narração é algo dialógico, pessoas que escutam uma voz que conversa com suas vozes interiores”, completa.

Não há pré-requisitos para quem quer se aventurar a narrar. O curso é destinado a qualquer pessoa que queira desenvolver a sua habilidade de falar em público, de expor ideias sendo cativante. “Nem todo mundo vai contar histórias, mas tudo passa pela necessidade da capacidade de expressão, de discurso diante dos outros.”

Convidamos Penélope para um desafio brincante. Com a perspicácia de uma personagem mítica, ela desmancha narrativas óbvias e tece novas, a partir de inícios de frases, começos do que poderiam ser histórias. Ao contar um conto, tece outros pontos.

Confira as respostas da narradora-poeta (em negrito)!

Contar história é esticar o fio no labirinto da memória.

Se Sherazade não soubesse enredar o sultão com suas narrativas, ela teria que ter pernas muito boas para correr.

Quem conta um conto pode aumentar um ponto desde que não fique tonto.

Muriel Bloch, Toumani Kouyaté e meus avós, … excelentes narradores de histórias.

Se não era uma vez, lá vão duas pelas ruas.

Num reino não tão longe daqui…. uma história brotava num pé de voz.

Quando a memória enrosca, … a gente inventa!

A realidade é mais ou menos… uma pata de um elefante: melhor manter cautela.

Uma história cabeluda é… ambiente perfeito para piolhos.

Abre-te… corazón!

Anote na agenda

Curso Narração de história e livro em cena

Quando: dia 27 de maio, das 9h30 às 17h

Onde: Casa Vermelha (r. Tacito de Almeida, 147)

Mais informações: penelopemartins@uol.com.br

na tarde

Socorro Lira e Penélope Martins para ampliar nosso coração, na tarde de hoje, celebrando todas as mulheres poetas que fazem da palavra seu estar no mundo.

 

“Na tarde em que te beijei

Botei colibri no peito

Cresceu meu maior desejo

O que na boca calei.

Silêncio, olhos cerrados

Olhando por dentro de mim

Cheiro de mel e jasmim

Minha alma tinha tomado.

Um beijo mais fundo chorei

Sem pensar no que sentia

Sua boca tomando minha sina

Sua boca me assina, me ensina

O que já sei.

 

Amor, são meus olhos de chuva n’ocê

A principitar do céu a gentileza

De apagar essa brasa acesa

sem ter nem pra quê.

Amor são meus olhos chovendo manso

Brotar da terra entre nós

Rio passando vale, serra

Pedra da minha canção.

 

 

 

 

Por que contamos e recontamos histórias?

Há uma história muito, mas muito antiga que conta a saga de um príncipe para recuperar sua jovem e bela esposa que fora sequestrada por um rei maquiavélico.

Após o rapto, o maligno rei, que possuía asas e chifres como um demônio, levou a princesa para viver em seu palácio numa ilha perdida no meio do oceano, onde o príncipe jamais a alcançaria. Durante os dias seguintes, o rei molestador esteve diante da princesa com toda generosidade e delicadeza a fim de convencê-la a se tornar sua legítima esposa, mas a jovem só repetia palavras de fé em seu propósito de amar o príncipe de quem fora separada.

Passados muitos dias sem solução para a maldade feita ao casal, ao príncipe foi sugerido pedir auxílio para um poderoso monarca encantado, dono de poderes míticos e cujo corpo andrógino era de homem-macaco. Foi este monarca quem resolveu o drama. Depois de unir as mãos no centro do seu peito, agachar com suas pernas fortes e saltar sobre as águas, num único voo, alcançou a ilha, liquidou o rei diabólico e resgatou a princesa.

Toda sorte de coisa se passa nessa história de mais de quatro mil anos que eu brevemente (re)conto aqui. No final, quando o príncipe se vê diante de sua amada esposa, os deuses concedem ao monarca homem-macaco a realização de um desejo. E o que ele pede? Fé constante e confiança inabalável.

Revisitando a história, em busca de um significado puro para o amor que une o príncipe e a princesa, tomamos consciência que as grandes batalhas acontecem dentro de nós. Somos protagonistas e antagonistas das nossas demandas, usamos vestes de príncipe justo e imolado, mas também chifres de diabo; por vezes, lágrimas de sequestrado; em outras, coragem de bicho…

Talvez seja por isso que devemos preservar o ato de contar histórias, para nos auxiliar na reconstrução dos passos que damos pelo caminho da vida, para poder retornar ao começo e perceber o que antes passou despercebido, compreender nossas emoções, estabelecer em si mais força, mais altivez, a renovação da fé para continuar na estrada.

A narração de histórias encerra em si dois elementos essenciais para nossa possível humanidade: o primeiro deles é a própria escuta de sons, quer pelos ouvidos, quer pela vibração que vivifica a matéria no mundo, comprovando a mutabilidade inerente à vida; o segundo elemento é a busca da sabedoria pela investigação da razão e do sentimento que se propaga na ação humana.

Contamos histórias que vêm de muitos lugares, milhares delas sobreviveram os tempos que as sucederam, assim como transcenderam o lugar e a cultura em que surgiram por força de alguma espécie de virtude nelas contida.

Pela força que expressa, a história não se limita à figura do narrador; ao contrário, ela estabelece uma relação entre seres humanos. Movimentando sensações individuais, de dentro para fora, a história proporciona ambiente para o diálogo.

– Penélope Martins –

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* Este texto foi publicado no Blog da Letrinhas, na Seção Caraminholas, com  pequena biografia da autora.