Leitura e juventude: porque devemos reforçar vínculos afetivos com as narrativas

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Penélope Martins em narração de história na Biblioteca Pró-Saber, 2019.

Muitos são os debates sobre a necessidade de ampliarmos o público leitor, quer pela sobrevivência de selos editoriais que funcionam como um registro do pensamento contemporâneo e da cultura de um povo, quer pela objetividade que a leitura contém em si de promover meios para o exercício da cidadania plena.

Primeiro, é preciso investigar o que se entende por cidadania plena, algo que compõe a consciência do indivíduo sobre seus direitos e deveres somado à percepção de que a defesa desses direitos se efetiva na vida comum e coletiva.

A fase etária compreendida como adolescência antecede uma condição da ação de cidadania plena capaz de contrair obrigações variadas, sem a necessidade de autorização de outra pessoa. Aliás, na própria adolescência um dos direitos primordiais de cidadania se torna possível no Brasil: eleger representantes políticos para o exercício das funções públicas legislativas e executivas. Sem contar a emancipação por maternidade e casamento na adolescência, algo infelizmente comum em diferentes cenários do país.

Explícita é a relevância da autonomia crítica do pensamento na juventude: um sujeito de direito, prestes ou já votante, que responde criminalmente por seus atos e que se estabelece a apenas um passo de exercer todos os atos da vida civil sem interferência ou outorga de qualquer outra pessoa, ou seja, tornando-se responsável por si mesmo e frente aos demais, com as consequências pertinentes ao seu poder decisório.

Mas o que a leitura, especificamente a leitura literária, pode ofertar de suporte nessa dinâmica de instrumentalização da vida política do leitor e da leitora?

Sem dúvida, os livros são portadores de conhecimentos variados e não por acaso estão intimamente ligados ao universo escolar e acadêmico. Inegável o valor da educação de ensinamentos que constituem o fundamento do raciocínio, do exercício lógico, da vida prática com a linguagem, inclusive matemática.

E qual o papel da ficção nessa dinâmica do saber? Qual o papel da instrução subjetiva, metafórica, criativa?

A partir da construção de um imaginário individual e também coletivo, signos e significados são coletados, colecionados, decodificados, interpretados e correlacionados para construir uma identidade de pensamento.

Da experiência leitora depreende-se para além de quem se é o que os demais integrantes da nossa sociedade pensam e necessitam. Essa relação íntima que se processa de uma forma silenciosa e ativa ao mesmo tempo, uma vez que lemos com a permissão do não julgamento social, enfrentando em si mesmo, entre as múltiplas questões e sentimentos que emergem da leitura, o que somos e novas formas de pensar possíveis sobre o que somos. Essa imersão aparentemente focada no próprio universo particular de cada leitor e leitora conduz para a concretização de empatia social, a identificação com outras vidas e outras geografias humanas, algo que, em essência, é o motor das ações transformadoras e da criação de novas relações sociais.

Obviamente não estamos abordando que a leitura literária por si vá conduzir a pessoa leitora a agir com mais altruísmo social porque, como já expresso, o imaginário se forma a partir da subjetividade de cada um. Porém, nesse aspecto, reforçamos outro elemento imprescindível, a presença da mediação na leitura, as vozes que dialogam com a leitura significando alimento para esse imaginário, substancialmente auxiliando a elaboração de um raciocínio investigativo capaz de revelar esse tear social em que todos nós estamos inseridos, uma vida intimamente ligada à outra por fundamentos comuns que precisam ser assegurados independentemente de condições alheias à nossa vontade.

Por intermédio da leitura literária podemos viver tantas vidas distintas das nossas quanto quisermos, e nessas jornadas de personagens percebermos similaridades para além de quaisquer aparentes diferenças. Voltamos ao ponto em que a leitura funciona como uma intersecção de conhecimentos, uma escolha pela coragem de promover o próprio esclarecimento. Acompanhando múltiplas vozes narrativas, no laboratório ficcional do pensamento, passamos a vislumbrar o que almejamos como bem estar social para nós no todo. E nesse contexto compreendemos que o direito à vida, o direito à liberdade, o direito à igualdade, não podem estar atrelados à etnia, à classe social, ao gênero, à formação e ao desenvolvimento psíquico e intelectual, são direitos comuns a todos nós e que precisam da vigília e da participação constante de cada pessoa para que se garantam.

O papel de quem acompanha a vida de crianças e jovens é justamente ler com eles os livros e o mundo, não somente para ensinar a partir de suas próprias experiências, mas, e talvez principalmente, para refletir com eles caminhos para a humanidade.


foto Patrícia Ribeiro
Fotografia de Patrícia Ribeiro

* Penélope Martins é escritora, narradora de histórias, criadora e intermediadora da revista virtual Toda Hora Tem História, um espaço para reflexões e partilhas de conteúdos literários para todas as idades. Entre seus livros, destaca-se para o público jovem Minha vida não é cor-de-rosa, publicado em 2018, pela Editora do Brasil, ganhador do primeiro lugar do Prêmio da Biblioteca Nacional, em 2019.

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