O cão e o gato, de António Torrado

Essa história começa assim:

“O cão e o gato não eram amigos, mas faziam de conta. Viviam ambos abrigados no casebre de uma pobre velha, que com eles repartia o pouco que tinha. – Sejam amiguinhos. Sejam amiguinhos – estava sempre ela a dizer-lhes. ”

Diz-se que uma mentira dita mil vezes se torna verdade. Pode ser que a pobre velha acreditasse que, de tanto repetir ao cão e ao gato que fossem amiguinhos, ao final de mil noites, eles desfrutariam de uma bela amizade.

Acontece que essa história é logo triste, a velhota morreu. Os filhos e os netos que vieram ao casebre enxotaram o cão e o gato. Os dois animais foram para o olho da rua, sem abrigo e sem ter o que comer.

Encurralados, com frio e fome, o cão e o gato se internaram em uma gruta muito, muito comprida (acreditem, era uma gruta mesmo muito comprida). Foi lá no fundo da gruta que encontraram um gênio:

– O que querem de mim? – Disse-lhes o tal genial.

Então, o que dizer do querer de um cão e um gato desabrigados. Bom prato, cama quente e afago? Sim, isso parece perfeito para ambos.

Isso é tão simples dito assim, mas o cão e o gato não eram amiguinhos como queria a velha que os abrigava, e havia uma condição para realizar o desejo dos dois.

Trocar de pele. Para ganharem o que desejavam, seria antes necessário cão passar a gato, gato passar a cão. Depois disso viriam os dias de glória. Um lar, um dono, um abrigo com cama quente, prato cheio de boa comida e sem contar os maravilhosos cafunés.

Quem não aceitaria? Isso é simples dito assim, mas…

Pense em alguém que você não gosta, deve existir aí alguém que você não simpatiza ou que realmente reconhece ser seu inimigo.

Pois bem, depois de pensar no tal sujeito, imagine um pedido que salve sua vida e a vida dessa pessoa ao mesmo tempo.

Agora é fácil, é só imaginar uma gruta muito comprida (muito mesmo) com um gênio que possa realizar qualquer tipo de desejo.

Cão passar a gato, gato passar a cão. Você aceitaria trocar de pele, também, com seu inimigo?

Ver a vida com os olhos do outro, andar com os pés do outro, ter as dificuldades do outro, viver se equilibrando no corpo do outro tudo isso parece uma boa maneira de mudar nossas impressões sobre quem é o outro.

Sim, eu sei que isso não justifica um monte de coisas não muito legais que as pessoas fazem umas às outras (e que nós fazemos às pessoas, ainda que sem querer), mas vale pensar – pelo menos duas vezes – antes de manter uma inimizade.

Nessa história isso aconteceu, o cão passou a gato e o gato passou a cão. O final eu não conto, mas dou a dica onde podem encontrar, no livro de António Torrado, com publicação no Brasil pela Editora Peirópolis.

No mais, se andam por aí a pensar que alguém é mesmo muito, muito, muito chato (muito mesmo), cuidem para não entrar em uma gruta muito comprida, onde um gênio pode cutucar seu desejo mais precioso com a condição de que você troque de pele com seu inimigo…

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