O tempo de ouvir, o tempo de ler, o tempo de contar nossas histórias

A convite do Clube de Leitura Quindim, Penélope Martins conta…

 

 

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Fernand Leger  (1881 – 1955)

 

Quando eu era pequena, minha avó, mãe de minha mãe, sentava ao meu lado para ensinar o tricô. Minha avó contava os pontos. Laçadas. Tranças. Dizia: “é matemática pura!”. Contava que ela mesma tinha feito casaquinho e manta para me vestir bebê. Eu enchia os ouvidos dela com as minhas perguntas. Ela não perdia o ritmo, alfinete, linha, agulha, tec tec tec, entre as histórias também vinha uma canção da casinha com varanda na beira da praia: só vendo que beleza. Minha avó se chamava Laura, como as folhas de louro. O nome dela era um presente para desejar boa sorte.

Cresci perto de meu avô. Ele veio para o Brasil por causa de uma ditadura. Saiu de lá com seis filhos e ainda teve uma última aqui, brasileirinha. Meu avô era um homem de aldeia, arado, enxada, semente. Tinha jeito com as plantas. Um dia  eu perguntei: “avô, porque não plantamos flores nos canteiros?”; ele só repetia “flores não se comem, flores não se comem”. Depois ele virou pescador. Suas mãos eram magras e fortes, sua disposição para fazer e fazer e fazer. Além do mais, o avô tinha força na palavra, e o mesmo sotaque que eu escutava timidamente cantar na boca do meu pai. O nome de meu avô era Valentim, uma dádiva de bravura.

Minha mãe era brasileira, meu pai é português. Fui batizada com nome de rainha, Penélope, história de espera antiga, lá de antes da Grécia. Meu pai não queria esse nome, mas achou bonito porque foi minha mãe quem tinha escolhido. Cresci ouvindo as histórias daquela Penélope distante de mim e perdida numa história de mil fios. Os fios que minha avó tricotava enquanto meu avô, este mineiro, aumentava o volume do rádio para escutar a tristeza do Jeca.

Não tínhamos muitos livros para crianças quando eu era pequena. Minha família não lia livros. Eram todos trabalhadores braçais, feirantes, tricoteiras, caminhoneiros, agricultores… No entanto, todos eles me contavam histórias e ouviam com muita atenção o que eu tinha a dizer.

Hoje eu não tenho mais meus avós, faz imensa falta o cheiro do feijão na panela de minha avó, eu poderia comer sardinhas fritas na manhã de domingo, e nem minha mãe pode mais me telefonar para dizer que me ama. Todos eles me enchem de saudades. Acho injusto, inclusive, porque eu continuo tendo um monte de perguntas para fazer sobre as nossas histórias. O tempo passa depressa.

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Revisito minhas memórias para contar… A história da história é o encontro, uma trama que se tece aproximando nossa ancestralidade com os dias de hoje, numa composição múltipla que traduz nossas vidas. Cada palavra é um pequeno fio de linha, um botão, um elemento preciso. Quem ama sua história reconhece o peso de cada palavra dita, ouvida, guardada.

Crescer numa família que conta histórias não nos torna leitores de livros, mas faz com que possamos ler o mundo e suas gentes, vozes, formas, cores, movimentos. As histórias podem desenvolver em nós a sensibilidade para enxergar a narrativa de todo ser vivo e sua composição com o todo do qual também fazemos parte.

Mas é essencial não esquecer: o tempo é ágil e as histórias são muitas. Precisamos aproveitar cada segundo cultuando a experiência de trocar boa palavra por palavra de bem querer.

 

 


A imagem pode conter: uma ou mais pessoasPenélope Martins, escritora e narradora de histórias, pensa a história com desdobramentos para melhorar a vida cotidiana, transcendendo a obra para um fazer coletivo de leitores, uma possibilidade de reunirmo-nos com nossas memórias e características culturais para prática de empatia. Entre seus livros publicados estão A incrível história do menino que não queria cortar o cabelo, pela Editora Folia das Letras; Poemas do jardim, pela Editora Cortez, Quintalzinho, pela Editora Bolacha Maria; Princesa de Coiatimbora, pela Editora Dimensão; e Que amores de sons, pela Editora do Brasil.

cartas a povos distantes

Ele me convenceu que “a vida é feito pulga e que não é preciso ter pernas pequenas para brincar de criança”. Confesso que não compreendi tudo sobre a metáfora da pulga, mas afinal, alguém compreendeu tudo sobre a metáfora da vida?

Giramundo conhece todos os livros de geografia e cartografia possíveis para sua idade. Pratica horas e horas de línguas inventadas por eles para os lugares desconhecidos. É um ‘mexedor’ de mistérios, no tanto que mexeu acabou que mexeram com ele.

Um dia recebeu um envelope. No lugar do remetente somente o enigma ‘novo amigo’. Dentro, um papel amarelado trazia a localização geográfica e uma data de origem. Algo oco, surgido do nada e sem saber pra que é o convite que se espera para a curiosidade acelerar.

Luanda. África.

Quem diria que um novo amigo vinha de tão longe…

Eu também gostaria de ir para Luanda, mas ainda não fui e é por isso que imagino. Até misturei no ritmo da nossa conversa um maracatu, afinal as minhas pernas longas não me impedem se brincar de criança. Cantei para Giramundo a canção de  Alceu Valença enquanto ele me contava sua história.

Outro menino se juntou a nossa roda. Veio dizendo que “se de tanto insistir – pena vira antiquário, cabelo vira penteado, nariz cheira tempo bom”; contou que ele vingou depois de sete. “Foram de quatro em quatro: quatro saias e quatro calções. Eu, pequeno e já barrigudinho, nasci de rebento, final da cadeia produtiva. Último, caçula, dizem que o mais paparicado entre os meninos e meninas. No íntimo, sabia que minha mãe e meu pai não “miguelavam” carinho para os outros, mas comigo, no silêncio das minhas fantasias e desejos, o doce era um pouco mais doce”.

Respondi pro menino caçula, que minha sorte foi ser a primeira. A primeira de um trio de filhos, a primeira neta de uma dúzia tem sempre a vantagem da novidade. Claro que eu sabia que a avó, o avô, assim como os pais com o trio, não faziam diferença entre a criançada. Mas era a primeira, o doce um pouco mais doce.

E se Giramundo lia os mapas do mundo, o menino caçula vinha espalhando livros de poesia, Castro Alves, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, na mesma estante em que reinavam memórias de Emília, Pinóquio e Alice. Sim, respondi aos dois que os livros também me vieram dizer alguma coisa. Fiz força para lembrar de uns realmente bons, mas Giramundo insistiu com cruzar o oceano para alcançar Luanda e eu acabei cantarolando:

“Navegar é preciso, viver não é preciso.”

E não disse nada sobre a Pessoa que tinha inventado aquilo.

O novo amigo. Sim, o novo amigo de Luanda é assunto ainda para Giramundo contar. Fábio, o menino caçula, teve tempo de dizer que viajou muitas vezes nas bibliotecas da Escola Cônego Rochael de Medeiros e João Barbalho no Recife (essa última também frequentada em outros tempos por Clarice Lispector); “foram meus pontapés para uma leitura do prazer na infância. Foram tantas histórias, tantas viagens para mundos tão distantes dos meus, foram tantos percursos feitos com a língua, a linguagem, a fantasia do corpo lançado ao desconhecido”.

Talvez tenha sido por causa disso que Fábio inventou Giramundo…

“A escrita veio diluída nisso tudo. Primeiro os gestos, depois as palavras, depois o registro, depois a subversão. Escrevo subvertendo a ordem, desafiando o sentido, instigando o leitor a pensar sobre o não dito. É assim que gosto, é assim que uso a palavra pensada-escrita-falada, não necessariamente nessa lógica, não necessariamente como comando. A palavra manda em mim. Ela vai saindo e virando ideia. Toma forma, vira história e não é mais minha.

 Isso me interessa como leitor e escritor.

O livro “Cartas a povos distantes” aconteceu nesse desejo. Uma maneira de escrever para o outro, um encontro com outro que também está em mim. Esse outro que abre um livro e espera o desvelar de uma história que precisa dele para ser completada. Um encontro entre criador de palavras e imagens com alguém que a transforma em subjetividades e fantasias.”

Giramundo se calou para ouvir a voz do dono da voz. É como o personagem fica quando o autor conta de onde ele surgiu. Fica “observativo” para fazer o jogo da invenção de palavras.

Fábio Monteiro é meu novo amigo escritor. Não é de Luanda, mas me fez viajar o desejo de encontrar terras distantes com seu novo livro CARTAS A POVOS DISTANTES (Editora Paulinas), ilustrado por André Neves, esse outro amigo que sabe brincar com imagens e palavras sem perder a curiosidade da criança.

Engraçado que eu cantei Alceu Valença para Giramundo, personagem do livro, sem saber que Fábio Monteiro assim como André Neves são meninos do Recife.

Então, Luanda, Luanda, venha nos contar sua história que é a nossa, histórias de povos que viram no navegar a vida imprecisa…

O primeiro menino

Muitas vezes a gente se depara com a pergunta ‘para que serve um livro?’, e as respostas são inúmeras, das mais românticas, que incluem o ‘serve para sonhar’, às mais pragmáticas, do argumento ‘servem para educar’.

Eu sempre me pergunto para que não serve o livro. Parafraseando Bojunga, eu já usei livro para tanta coisa na vida, assim como transformei em livro tanta coisa que era outra…

Sentada na sala eu lia os encartes dos discos dos meus pais. Na aula de música, com flauta doce, a gente ensaiava um tal prelúdio que era grego para muitos, não para mim – a menina que lia os encartes dos dicos na sala sentada ao pé de uma vitrola.

Éramos tão meninos e Luiz Vieira, o compositor da canção, parecia contar segredos do mundo.

Minha cabeça ficava viajando na sonoridade das palavras que diziam a canção, “quando estou nos braços teus sinto o mundo bocejar…”, e eu podia sentir o vento passar por mim no refrão “sou menino passarinho com vontade de voar”.

Um livro serve para recordar. Um livro serve para esquecer. Também serve, o livro, para não servir, assim como não servem as perguntas que encontram respostas em outras perguntas. Não servem porque não são coisas de servir. Não servem porque são de natureza diferente. São impálpaveis e imprescindíveis. São as cordas que afinam nosso “vir a ser”…

Assim seria. É.

“Como a música do mar cabe num caracol?”

Perguntou o primeiro menino.

“O caracol carrego o eco do nascimento do mundo?”

Eu reperguntei.

“Um pássaro sabe que é leve?”

O primeiro menino triperguntou.

“O amor é leve como a pluma?”

Eu quadripliquei.

E fomos assim, eu e ele, afinando nossos instrumentos.

O PRIMEIRO MENINO

Edimilson de Almeida Pereira convida os leitores a descobrir para que serve o não servimento do livro, com seu ‘O primeiro menino’, traços de prosa poética recheado de perguntas que transcendem a vida cotidiana e os requerimentos das coisas que sempre devem servir para alguma coisa (dessa vez eu retomo as palavras de Alice Vieira, em sua Arca do Tesouro).

O livro, pra lá de livro, é um portal para dentro, é um mergulho no infinito imaginar. Voltamos a roda do nome das coisas, o significado impresso que pode sofrer mutações para quem ousar brincar com eles, perguntar por eles…

Em boa companhia, Edimilson tem suas palavras ilustradas pelo trabalho encantador de Anabella López, uma artista que tem entre seus dons a capacidade de provocar no leitor o desejo de produzir imagens, de conversar com desenhos.

O primeiro menino não é um conto fácil, um livro fácil, de sentar e ler e ter resposta pra tudo e fim. Muito pelo contrário. O primeiro menino é o livro da pergunta sobre a pergunta, leitura para fazer e refazer no fazer de novo. Para ler em voz alta. Para desenhar as perguntas. Para tecer um caminho de estrelas. Para caminhar além dos nossos passos óbvios.

– fotografia de Penélope Martins sobre o livro O primeiro menino, de Edimilson de Almeida Pereira e Anabella López.

Em tempo, O primeiro menino, de Edimilson de Almeida Pereira com imagens de Anabella López, recebe o selo da Mazza Edições, de São Paulo.

Quintalzinho

quintalzinho

O quintal da minha infância tinha besouro, lagartixa, joaninha, e formigueiros mágicos que cresciam de um dia para o outro.

Quando o grupo de crianças de juntava era para morar no olho da rua, onde os quintais se uniam em um grande espaço mundo.

Corríamos no pega-pega, pulávamos amarelinha, cabra-cega não faltava, banho de mangueira quando o calor aparecia, todos os disparates poderiam ser inventados naqueles dias em que brincávamos no quintal.

E quando não estava em casa, na casa da avó era o mesmo: areia peneirada, panelinha de lata, chuva de folhas e canto de pássaros, bolas de gude pintando o chão.

Era tão bom quando vovó desenhava no caderno um novo modelo de casaco, buscava as agulhas e me fazia escolher a cor do fio para tricotar o passo a passo da nossa conversa na varanda da casa. Uma varanda encarnada com lustro de cera também servia para patinar vestindo grossas meias. Não para todos os dias, mas sempre que podia, meu avô vinha com sorvetes de palito com sabor de fruta.

O quintal da minha infância crescia para dentro de mim e eu nunca mais me separaria dele.

Tornei-me escritora, talvez poeta eu já fosse desde aqueles dias, e reuni um conjunto de poesias para o qual dei o nome QUINTALZINHO, memórias dos dias em que mais valia uma bacia de areia peneirada do que qualquer outro tesouro de valor mensurável. Não deixei de fora os dias de agora, meu olhar sobre as crianças que despertam a criança que ainda existe (resiste) em mim.

Para minha sorte e felicidade, a amiga Tatiana Móes que já era parceria na obra Poemas do Jardim, acolheu os poemas com seus desenhos, intervenções na disposição do texto, elaboração estética do livro todo.

Juntamos nossos quintais ao selo da Bolacha Maria Editora e pronto! temos aqui um grande passo para a brincadeira de ler o mundo com os olhos de criança sempre aptos a experimentar o novo num tempo que é o único que nos importa: o tempo de agora.

Afinal…

– Um pedaço de quintal hoje,

amanhã conquistamos o mundo!



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Quintalzinho, de Penélope Martins e Tati Móes, tem o selo da Bolacha Maria Editora e pode ser encontrado nas Livrarias, também na página Quintalzinho.

melhor que um pássaro na mão!

Um livro é só um livro, mas também é o LIVRO quando se entra na dança da história com valentia e rima.

Chegou pelo correio para mim, ‘Quem ri por último rima melhor’, composição de brincadeiras com provérbios de Daniel Medina com  divertidos desenhos – da tão divertida quanto – Renata Bueno.

De cara, a dedicatória é acompanhada com a imagem de baita jacaré nadando de braçada… Suavemente deslizam as palavras dentro nossa mente para escrever o que não foi dito na brancura do papel. Se tem piranha no caldo, jacaré é precavido (ou mais sabido?).

Os provérbios fazem parte de nossa tradição popular. São frases que expressam comportamentos que identificam o senso comum.

O humor é inerente aos ditados. A rima que não aparece escrita, é o próprio espírito do que se quer dizer, das coisas que se combinam perfeitamente para ilustrar uma ideia.

É brincadeira pintar de surreal o nosso senso comum, dar ao ditado mais do que a repetição de um conceito perpetuado numa cultura, embaralhar os sentidos e provocar investigações no leitor – além do imediatamente lido. Brincadeira que Daniel e Renata convidam os leitores para jogar.

Então não é mesmo, se filho de peixe peixinho é, também filho de peixe pode ser pangaré. Pode, pode mesmo. Afinal de contas a gente nem é do jeito e da forma dos nossos pais.

Na rima e na letra, o escritor Daniel Medina não esqueceu de botar os macacos todos sobre os calos, opa, galhos, e desatar filosofia na cabeça de quem não resiste brincar com as palavras. Então, se cada macaco fica no seu galho sem saber do calo alheio, na hora que sofre enxovalho não lhe socorrem os companheiros. Dá até para cantarolar isso.

Lá por volta da página 16, gosto do número que na soma dá 7 (porque 7 e 7 são 14 e com mais 7… deixa pra lá), tem uma carona de bolacha a dizer que ‘quem vê cara vê olhos, nariz e orelhas!’. Eu já tinha percebido – mesmo – que o LIVRO do Daniel e da Renata não era sério.

Pois bem, já que estamos de brincadeira.

Copiei a folha 17, onde Renata aprontou um monte de desenhos de narizes, bocas, olhos torcidos e olhos expressivos, chapéus e beicinhos. Copiei para recortar. Pois, no caso do LIVRO que me foi dado, ‘achado não é roubado’ e os desenhos dela são agora meus com intervenções.

Engraçado? Muito.

Um livro é somente um livro, mas pode ser o LIVRO se a gente se liberta nele e entra na roda com rima e valentia. Rima para brincar e valentia para nunca deixar de fazê-lo.

Aqui em casa também tem escritores e desenhadores, por isso, a casa do ferreiro tem esperto cara de pau para chamar de nosso o LIVRO do Daniel Medina e da Renata Bueno.

E quem quiser mais que vá buscar o seu. Oras bolas…

* Quem ri por último rima melhor – Brincadeiras com provérbios, Daniel Medina e Renata Bueno, Editora Moderna, de São Paulo.

conta de novo

É maio e o mês começa com a celebração do dia das mães. Pode parecer banal para uns, configurar cena consumista para outros, mas a verdade é que é um dia especialmente voltado para celebrarmos nossa chegada nesse mundo, a revelação da vida seguida pelos cuidados que nos envolveram, os passos suportados por alguém que tem capacidade de amar incondicionalmente.

Eu tinha muitas diferenças com minha mãe. Ela sempre foi uma mulher dinâmica com opinião forte para fazer valer a educação que nos dava. Isso atrapalhou um bocado os planos que eu desenvolvia para minha adolescência. Vida dura quando a mãe põe a gente de castigo aos quinze anos. Enfim.

Casei e a coisa começou a mudar. Eu tinha minha casa e tudo poderia ser feito da minha maneira. Mas, muitas vezes sem perceber, eu repetia a forma da minha mãe. Até as palavras, eu repetia. Eu tinha me tornado uma cópia daquela mulher dinâmica e com opinião forte que, um dia, atrapalhou alguns planos para minha adolescência.

Confirmei isso várias vezes, com meu marido repetindo ‘você é igual a sua mãe’. Eu recebia como elogio porque meu marido tem mesmo signo que a minha mãe, os dois se dão tão bem que ela é capaz de defendê-lo de mim. Beira o absurdo para uma filha que diz não ter ciúmes. Enfim.

O ápice da consagração materna em mim, era de se esperar, chegou com meu filho. Ele nasceu num dia 5 e veio para os meus braços pelos braços de minha mãe, que acompanhava todos os movimentos no processo de adoção.

Naquele dia eu disse para minha mãe que ela iluminava meu segundo nascimento. Era eu a mãe, agora. Minha mãe, a mãe da mãe, também avó.

Pouco consegui chorar. A emoção era tão grande a vislumbrar aquele serzinho pequeno, perfeito, único. Eu me enamorava dos dedos dos pés, das orelhas, do umbigo, das curvinhas do joelho, dos sons, do perfume de açúcar mascavo que eu sentia nele. Eu sentia crescer dentro de mim uma força antes desconhecida.

Já nos primeiros dias, com meu filho para ninar, ensaiei histórias sobre o nosso encontro nessa vida.

Meu filho não tinha nascido de mim, eu é que tinha renascido dele. Nosso cordão umbilical era o querer absoluto.

E minha mãe dizia para mim que eu era melhor mãe do que ela foi. Impossível, mãe. Se foi com ela que eu aprendi a ser mulher e mãe. Foi com ela que aprendi a desenhar os traços de uma mulher dinâmica, que faz valer opinião forte.

Minha mãe. Meu mel.

Então, se existe datas especiais para nossos calendários, nada mais justo que haja uma data para nos lembrar origem de tudo.

Mãe, eu te amo. E obrigada por fazer naufragar a maioria dos meus planos de adolescência. Eu era ruim de planejamento. Enfim.

PS. Para mamães por adoção e outras que também adotam para filhos do coração os seus filhos biológicos, após nascimento, super recomendo o livro ‘CONTA DE NOVO a história da noite em que eu nasci”. No livro de Jamie Lee Curtis, ilustrado por Laura Cornell, uma menina pede para a mãe contar a história da noite de seu nascimento, enquanto ela mesma sabe descrever em todos os detalhes: o telefonema no meio da noite, o susto, a emoção, a pressa para chegar ao hospital, a viagem de avião… A menina repete de cor a narrativa de sua história, enquanto ilustra, com desenhos e fotos, sua ‘árvore genealógica’… Delicado e simples, o livro celebra, com emoção e beleza, a chegada de uma criança, por adoção, em uma família que tanto a espera. Editora Salamandra.

abc da água

“Novembro de 2012. Estava de acompanhante no hospital São Camilo onde meu companheiro de vida e poesia, o poeta José Santos fora internado às pressas para a retirada da vesícula. Na solidão daqueles corredores leio uma mensagem do meu querido amigo o fotógrafo Fernando Cohen. Ele me manda a dissertação de um certo Cassiano. Leio ao lado da cama do José, começo a ler em voz alta tamanho é o meu encantamento. Isso distrai meu companheiro cheio de dor e a mim provoca um desaguar de palavras.

Há muito queria escrever sobre a água, minha paixão desde pequena. Saia do mar, da piscina, quase no chicote. Tenho um tímpano de vaca, perfurei ele com tanta água que entrou. Não limite com esse brinquedo foi o que me ensinou a ser flexível com as pessoas. Ouço em baixo volume o que me falam. Quando ficar velhinha, serei daquelas que fica perguntando: o que?

O que escuto, compenso com a voz que nasce no meu coração e deságua palavras no mundo.

E assim,quando ouvi que no ano de 2013 eu viajaria o ano inteiro para ministrar aulas em Alagoas, meu coração se abriu na palavra ‘A Lagoas’. Um disparo nasceu. No primeiro embarque, dentro do avião eu já estava tomada por frases inspiradas no que vi naquela tese que chegou às minhas mãos no hospital. O dicionário de humor infantil do Pedro Bloch -que era estudo do Cassiano – trouxe o jeito que eu queria falar dela, a água. José tinha esse livro e me emprestou. Não consigo devolver a ele e carrego sempre comigo. Virou minha bíblia. E Alagoas meu altar de águas tão verdes, de um verde que só existe lá.

Eu me apaixonei por Alagoas e meus alunos e toda gente que conheci junto com Sandra Cordeiro, minha companheira do curso Brincar, onde encontrávamos 80 educadores da rede publica de todo estado.

A cada viagem, pesquisávamos muitas cidades e artesãos que fazem a cultura alagoana tão expressiva. Vimos, navegamos e nadamos no São Francisco, mesmo com tristeza sua hoje pouca água. Conhecemos o barqueiro Rureis, perguntei dos seus brinquedos de infância e ali mesmo, na beira do rio com seu facão, fez e colheu a Ingá. Nasceu um barquinho, dei R$10,00 a ele pela alegria que ele fez desaguar. Ele não acreditou no que fez a na turista louca com cara de galega. Ficamos amigos, as vezes ligo para ele. Para matar saudade das histórias fantásticas que ele contou do São Francisco.

Histórias de rio eu escuto navegando com barqueiros desde 1986, quando viajei 40 dias pela Amazônia e soube o que era a frase da Lina Bo Bardi, minha sempre fonte de inspiração: O Brasil é um país-rio.

Já estive em muitos rios deste pais. Em toda cidade que sou convidada a trabalhar, dou um jeito de entrar em suas águas. Rio Madeira, Xingu, Solimões, Amazonas, Negro, tantos outros que não lembro o nome. Amo meu país e falar de suas águas é meu jeito de dizer esse amor. ”

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Na segunda-feira passada, pedi que Selma Maria me contasse quando nasceu a ideia de fazer o livro ABC da Água. Selma com sua espontaneidade de gente que não sabe viver pela metade, já me respondeu assim, de pronto, com tudo ali: passado colhido em margem de rio, presente com lago, um futuro a mar…

Não resisti e reproduzi a resposta dela aqui para que todos pudessem beber dessa mulher fonte inesgotável de poesia.

O ABC da Água, como os outros livros da poeta, convida o leitor a brincar com a palavra que nunca diz só que aparentemente desenha. Selma é poeta do pode ser tudo isso e tantas outras coisas que a gente um dia quiser. Uma poesia que abre as fronteiras do pensamento.

O relato da poeta ao meu questionamento sobre o nascer do livro, dispensa qualquer coisa que eu possa complementar sobre o trabalho dela, sobre sua escrita, sobre suas obras.

Selma Maria Kuasne é água.

Junto dela, os desenhos no livro espumam a cativante linguagem visual de Nina Anderson, filha da poeta. Quem quiser saber mais sobre os desenhos, é só passear no site de Nina Anderson.

A editora do ABC da Água é a Panda Books, de São Paulo. São Paulo do Rio Tietê. São Paulo da Cantareira. São Paulo de um ABC que hoje espera ter mais – e melhor – vida de água, água de vida.

uma pergunta tão delicada

Dá dor de barriga. Dá vontade de chorar e rir feito bobo também. Dá mal jeito nas pernas, os joelhos ficam amolecidos no cada passo antes de encontrar com alguém. Dá cambalhota na cabeça. Dá esperança sem fim. Dá tanta coisa que a gente não entende como acontece tudo ao mesmo tempo.

“Todos escalaram até o topo da pequena colina, como faziam todos os anos.

O elefante estava sentado e tinha uma pergunta delicada a fazer.”

Sabe, é estranho quando alguém tem uma pergunta delicada para fazer. Uma pergunta delicada já se sabe sem resposta.

Um dia meu filho também me perguntou coisa assim. Lembro bem da carinha dele. Pobrezinho. Tão novo. Será que ele daria conta daquela montanha russa?

– Mãe, como a gente sabe que está apaixonado?

Doeu minha barriga. Deu piripaque na minha garganta, um fogo correu meu estômago. Deu moleza. Deu preguiça. Deu mal jeito nas costas. Deu vontade de chorar.

Também o elefante tinha uma pergunta delicada para fazer. Naquele dia, a formiga pensou que seria sua oportunidade de progredir na vida, afinal de contas, ela anotaria tudo e diria as coisas que se diz quando presidimos uma reunião. O oficial presidente, senhor tartaruga, não podia estar presente; ele cuidava de sua esposa doente.

A formiga estava radiante, todos prestariam atenção nela. Ela até se arrumou com um par de óculos para garantir a seriedade de cada pronunciamento. Mas a conversa que seguiu à pergunta delicada do elefante, não agradou em nada a formiga.

O mar dizendo que quando cansa, seu amor lhe dá um empurrãozinho. As nuvens suspirando um flutuar juntas mesmo depois de uma discussão, com direito a relâmpagos e trovões. E a maçã corando ao ver seu amor.

Ainda teve criança que recordou poemas, e que, apressadamente, a formiga interrompeu de serem ditos. Deixasse vir um poema, logo viria outro, a reunião não teria fim.

Ao final do dia, todos regressaram sem resposta para a pergunta tão delicada. O elefante, agradecido, foi o primeiro a ir andando.

A formiga achou aquilo tudo um absurdo. Devolveu as anotações para o senhor tartaruga e voltou sozinha para casa. Tão sozinha que lhe doía a barriga.

A história do elefante que nos conta é Leen Van Den Berg, em UMA PERGUNTA TÃO DELICADA”, com belíssimas ilustrações de Kaatje Vermeire. O livro, traduzido por Cristiano Zwiesele do Amaral, leva o selo da editora paulista Pulo do Gato.

Quando meu filho me perguntou como ele saberia se estava apaixonado, engraçado, lembrei dos dias de prova e daquelas apresentações teatrais – que eu levava muito a sério – que sempre me metiam em dores de fracasso, ainda que os momentos fossem igualmente felizes.

O amor é tudo isso, tal e qual os versos do poeta, Carlos Drummond de Andrade, quando segue o amor que pulou o muro e já está em tempo de estrepar… e já se vê o sangue.

“Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender…”

Para cada pergunta delicada, um monte de outras perguntas tecemos e todas as (im)possíveis respostas que colecionamos vale menos do que sentir.

Vovô não gosta de Gelatina (Será?)

“Acho que pisei em terreno fértil. Ainda bem criança, eu vivia na Biblioteca Pública Monteiro Lobato em São Bernardo do Campo, minha cidade natal. Cedo, conheci Alice, de Lewis Carroll, e o mundo brasileiro e fantástico de Francisco Marins. Cuidei da minha semente com mais livros, música, filmes e arte. No colégio Maria Iracema Munhoz, no coração da Praça Lauro Gomes, comecei a inventar minhas primeiras histórias. Fui para o mundo e fiz um montão de coisas: atuei e cantei. Passei a amar o teatro. Criei algumas peças e programas de TV. Trabalhei em rádio e, pelos caminhos da vida, acabei encontrando a escritora Eliana Martins, que me convidou para escrever um livro com ela. Aceitei e, desde então, meu ofício principal passou a ser o de contador de histórias.”

Compartilho com Manuel Filho não só o amor pelas histórias, como as aventuras na Biblioteca Pública Monteiro Lobato, em São Bernardo do Campo.

Eu tive a sorte de ter a Tia Maria no Colégio São José, dona de uma livraria simpática de nome Corujinha que, entre outros carinhos, me adotou como leitora experimental. Aquilo que eu não podia comprar, eu lia na loja, antes de voltar pra casa. Eu era pequena para caminhar sozinha pela Cidade, tinha por volta de uns sete anos, mas Tia Maria já me contava sobre a Biblioteca Municipal, um lugar onde se pode ler tudo que quiser, sem precisar comprar os livros. Eu achava a ideia muito revolucionária.

Tal e qual, Manuel Filho, me tornei frequentadora da Biblioteca. Faz muitos anos que não coloco meus pés lá…

Talvez nos falte disciplina para cultivar amor pela nossa gente, nas nossas cidades, nossas histórias.

“Produzir um livro exige bastante disciplina e boa dose de paciência. É uma luta entre o prazer e o grande esforço. Já ganhei alguns prêmios, entre eles, o Jabuti, em 2008 (NO CORAÇÃO DA AMAZÔNIA). Escrever é reescrever e reescrever.”

Escrever e reescrever. A vida nos convida a este exercício. Em algum momento a gente assiste a uma cena que, no futuro, estaremos aptos a protagonizar. Aptos? Nem sempre com aptidão no sentido de habilidade, mas como encontro, uma escola contínua de aprender a ser na presença do outro.

Um dia convidei Manuel para um café em minha casa. Trocamos segredinhos simpáticos e livros. Presenteei Manuel com meu menino que não queria cortar o cabelo e, sem piolhos, Manuel me deu seu Vovô.

Vovô não gosta de gelatina começa com um grupo de amigos que se reunem para abraçar o cinema que vai fechar. Logo na porta do imóvel abandonado, um dos avôs expressa o longo tempo que ficou sem visitar o lugar. “Sim, foi por isso que faliu”, o outro comenta.

Isso me fez lembrar minhas poucas visitas às Bibliotecas Públicas. Tudo bem, elas não precisam do meu dinheiro para comprar os livros que ali são de graça. Mas não existe uma Biblioteca sem gente, sem leitores, sem encontros…

“Várias coisas legais acontecem na vida de um escritor, uma delas é o encontro com os leitores. É um momento de troca, de aprendizagem e de escutar todos os comentários com carinho. Frequentemente me perguntam qual é o meu favorito dentre os mais de quarenta que já escrevi. A resposta é sempre a mesma: não sei. Todos são, de fato, filhos desejados. De qualquer forma, vou citar um caso.  Quando eu era menino, lia frequentemente os títulos da série Vaga-lume, editora Ática. Se alguém me contasse que, um dia, um exemplar criado por mim faria parte dela, eu daria uma grande risada. E isso aconteceu logo na minha primeira publicação individual: O OURO DO FANTASMA. Tenho muito orgulho disso.”

Vovô não gosta de gelatina é desses livros que nos trazem a sensação de ter o autor ali, contando a história, conversando com a gente. A história começa com simplicidade de ambiente familiar e acaba por amarrar o leitor numa sútil trama de física quântica. E os ponteiros de um velho relógio… O tempo que é, por vezes já foi.

Manuel Filho me fez lembrar do cine Hawaí, da minha relação com a Biblioteca Municipal da Cidade onde eu morava quando criança, até da rua do meu antigo colégio e as pessoas todas que me acompanharam naquele tempo. Você também teve um cinema de rua predileto? E uma biblioteca?

sala restaurada do Cine Marabá, no Centro de São Paulo

Agora, Manuel está finalizando outro livro sobre a história dos bancos da Praça Lauro Gomes, certamente será outro filhote querido do autor.

Quem quiser saber mais sobre Manuel Filho, pode passear no site: http://manuelfilho.wix.com/manuel-filho, também pode procurar pelos livros nas bibliotecas e livrarias. Alguns títulos são  A MENINA QUE PERDEU O TREM, Editora Besouro Box, SENSOR, O GAME, Editora do Brasil, DESATANDO OS NÓS, Melhoramentos, DESAFIO NAS MISSÕES, Saraiva, ALÉM DA PAREDE MÁGICA, Editora Baobá, e, claro, o delicioso VOVÔ NÃO GOSTA DE GELATINA, com selo da editora Panda Books.

E pra juntar livro, cinema, gelatina, vovô contador de histórias, um filme convida para a história:

O mar que banha a ilha de Goré

Mais uma vez, Kiusam de Oliveira entoa canções para os corações dos pequenos viajantes deste Mundo.

Em ‘O mar que banha a ilha de Goré’, a menina Kika parte para a Ilha de Goré, na direção de Dakar, a capital da República do Senegal, lugar que, no passado, serviu como entreposto no comércio ilegal de africanos escravizados para o Brasil.

Kika fará o caminho inverso: uma busca ao passado, uma visita ao cenário que causou imenso sofrimento e ainda reflete sinais.

Durante a viagem, Kika  tem a companhia da Mãe Mar, a voz que conta a história dos seus filhos acorrentados. E Kika vai reconhecendo a si mesma na história do seu povo.

A autora do texto, Kiusam de Oliveira, mantém narrativa contundente sem afastar a doçura. O ambiente fica semeado por velhas histórias que afastam as sombras da ignorância para trazer o diálogo entre as culturas, valorizar nosso poder de reflexão e apostar na reconstrução das relações a partir do conhecimento.

A autora das imagens, Taisa Borges, desperta nosso olhar com grafismos e cores que compõem o legado africano e que expressam sem dúvida alguma o imagético brasileiro, capturando na obra o entrelaçar íntimo das culturas.

O mar que banha a ilha de Goré leva o selo da Editora Peirópolis de São Paulo.

No ano passado, contei para uma turma de crianças outra história das mesmas autoras, O mundo no black power de Tayó. Durante a narração, alguém expressou que o nariz da menina Tayó era ‘feio’ demais. Parei a narração para tentar perguntar aonde estava o feio, mas, antes de mim e com olhos atentos no amigo, outra criança disse:

– Feio é achar que tudo igual é que é bonito. Tayó é linda, o nariz grande dela é lindo e o black power é lindo, anos 70. Eu sei tudo sobre black power porque minha mãe me contou.

De repente, as crianças foram levadas para outros rumos da história. Quase não terminamos o livro, mas é certo que começamos algo…

Kika, personagem de O mar que que banha a ilha de Goré, certamente trará novos pensamentos sobre velhos assuntos. Velhos assuntos ainda cercados de velhas manias que carecem de vozes contundentes e doces para melhor contar a história.

Para quem não conhece, Kiusam de Oliveira é professora de danças afro-brasileiras, coreógrafa, pedagoga com habilitações em Orientação Educacional, Administração Escolar e Deficiência Intelectual e também doutora em Educação e mestre em Psicologia pela Universidade de São Paulo.

Para quem deseja saber mais sobre a autora das imagens do livro em outros trabalhos surpreendentes, pode aproveitar o dia e mergulhar no site de Taisa Borges.

subversivo carnaval

Quando eu era menina, junto das meninas do bairro, brincava de ser outra. Minha amiga era a típica mulher maravilha: esperta, alta, forte e com longos cabelos negros. Eu não me encaixava na força, nos quadris, nem nos cabelos negros. Também não queria ser boazinha.

Minha mãe tinha um par de luvas com pontinhas que pareciam garras. Eu vestia as luvas e calçava as botas de salto alto. É claro que minha mãe não sabia, não até que eu partisse os saltos da bota. Lembro que foi bem difícil superarmos o episódio.

Mas, enfim, eram essas as pequenas subversões artísticas da mulher gato.

A menina loirinha não quer ser a fada madrinha?

Não, minha gente, a menina quer ser vilã, e não aceita não como resposta.

Meu filho passou bem uns quatro anos se vestindo de homem aranha. Era uma baita economia de roupas. As vezes, o pai dele ralhava comigo.

– Parece que esse menino não tem mais nada pra vestir.

E eu respondia, perguntando:

– Você não vai querer seu filho vestido de homem aranha aos 30 anos, atirando teias nas pessoas durante as filas de supermercado. Ou vai?

André era super herói, afinal. Estávamos a salvo.

Pensando bem, Aranha é mais um daqueles heróis incompreendidos que adotam o anonimato e vivem enfrentando problemas com os tiras. Mais um subversivo na família.

Esta semana foi a vez da Clara se rebelar (mais um pouco, para quem a conhece).

– Mãe, quero uma fantasia de gata, todinha preta.

Se filho de peixe, peixinho é, imagino que a filha da mulher gato salte 7 andares por um prato de sardinhas frescas.

Não encontrei a fantasia completa, tivemos que recorrer às adaptações. Com tiara de orelhas, rabo, colant preto, sandalinhas mais charmosas do que botas de vovó, Clara vai subverter no bloco das princesas.

Minhas pesquisas, camelando por uma fantasia de gata para uma menina de 9 anos, resultou no seguinte: as meninas estão condenadas a viver como Bela, Cinderela, Sininho, Rapunzel, e uma outra do polo norte que quase não sabe como se portar nesse calor brasileiro. Sem contar na fantasia de Minnie Mouse.

Com sorte, algumas lojas sugerem vestidos de joaninha e abelinha. Combinam com o clima tropical. Melindrosas também retornam nessa época do ano. As garotas nem sabem o que é isso, nem suas mães.

Mas Clara gosta de gatos e gatos não gostam de marchinhas. A música de carnaval, qual será?

Olha, não me estranha nada passar o sábado inteiro ouvindo o Bruno Mars. Não precisa nem me espremer, confesso que canto junto com a filha. Se a gente não pode vencê-los…

Por via das dúvidas, tenho uma carta na manga: a tuba do Serafim.

Afinal, carnaval é subversivo, vale juntar pop, rock, fox trote e marchinha. Vale tudo pra brincar, de princesa, vilão, rei, bobo. Vale pular, dançar até ficar tonto.

Saudade

Era uma vez um Rei sábio que sabia tudo e falava todas as línguas.

O primeiro dia da semana, segunda-feira, é dedicado à Lua, por isso no espanhol a denominação Lunes.

Toda segunda-feira, o Rei lança um desafio. Qualquer pessoa pode se inscrever e, se for selecionada, pode fazer qualquer pergunta ao Rei.  Naquela segunda-feira em que começava a história, a vez era de um tal Fernando.

– Excelentíssima Excelência, queria saber o que é a “saudade”.

E o Rei se calou. E a corte ficou boquiaberta. O Rei sabia a resposta para todo tipo de pergunta, mas não sabia a resposta para a pergunta de Fernando.

Mandou o homem voltar depois de seis dias para ter a resposta.

Fernando vinha de uma cidade onde as calçadas têm desenhos em preto e branco, que, a medida que o tempo avança, vão mudando de forma. Fernando era um homem que usava terninho preto, uma gravatinha, um bigodinho, e uns óculos pequeninos. Fernando levava consigo uma pastinha, de onde tirava seu caderninho com dúvidas e perguntas…

A terça-feira é dedicada ao planeta Marte, por isso no francês se chama Mardi.

O Rei partiu à biblioteca. Começou pelos dicionários. Espanhol, francês, inglês, alemão e nada. Quase a perder o almoço, o Rei alcançou o dicionário de português.

Saudade. Saudade é saudade.

Como? Como se pode definir uma palavra com a mesma palavra?

Não, aquilo não ia bem. Na biblioteca estava só o Rei. Quase só, pois a pergunta era fantasma a repetir ‘quem sou’.

Na quarta-feira, dia dedicado ao planeta Mercúrio (por isso que no italiano se chama Mercoledí), os assessores da Coroa diziam que não poderiam definir a tal Saudade, mas tinham uma sugestão para o Rei sentisse o que é.

O Rei fez as malas. Deveria partir por um dia inteiro. Só poderia regressar ao palácio no dia seguinte, na mesma hora da partida.

O Rei se despediu da esposa com um beijo na boca, dos filhos com um beijo na testa, do cão com um beijo no focinho, e saiu pela mesma porta por onde, na segunda-feira, tinha surgido Fernando com a tal pergunta.

Frio da noite com o pouco agasalho, espirro, tosse e febre. Sim, febre. Saudade parecia ser febre.

O Rei voltou antes do horário combinado com a resposta, mas Fernando recusou, porque saudade não poderia ser denominada como febre, embora pudesse causar o mal.

Era quinta-feira, dia de Júpiter, por isso em romeno o dia é Joi.

A pergunta de Fernando não deixava o Rei em paz.

E veio a sexta-feira, a inquietação aumentava. Por sorte, a Rainha teve a ideia de ajudar o esposo na busca pelo significado de Saudade.

Sexta-feira é dia dedicado ao planeta Vênus. Vênus também é o nome romano para Afrodite, a deusa do amor. Talvez seja a sexta-feira o dia ideal para a Rainha exercer seu domínio sobre a questão que atormentava o seu querido marido.

Enfim. O sábado traz respostas infalíveis. Sábado em holandês é Zaterdag, porque é o dia dedicado ao planeta Saturno.

Sábado, o Rei acordou só. Levantou só, caminhou só, tomou só o seu desjejum que ele sozinho preparou. Não se ouviam as crianças pelos corredores do castelo. O cão tinha desaparecido. O som doce da voz da Rainha havia sumido.

Nesse momento, Fernando espreitou pela janela e o Rei pediu que ele não dissesse nada.

Diz uma lenda que a palavra saudade surgiu no período dos descobrimentos. Era uma definição para a solidão dos portugueses que estavam no Brasil longe de seu país e de seus familiares.

A melancolia se combinava a nostalgia, o saudoso só sabia que sentia saudades, muitas saudades de tudo como era, como hoje estava e no mais, aquilo que ainda poderia ter sido.

Domingo é o dia dedicado ao Sol, talvez seja perfeito para a folga semanal justamente pelo brilho do Astro nas nossas vidas. Dia para que nos aproximemos de tudo que nos faz bem, mesmo que a gente não sabia definir o que é, nem o porquê de assim ser.

A história do Rei sábio e sua mais sábia Rainha, está no livro especial de Claudio Hochman, SAUDADE, editado no Brasil pela Companhia das Letrinhas. Hochman é autor argentino que vive em Lisboa, desde 2002, sobre as calçadas branco e preto distantes demais dos casarios coloridos de Buenos Aires…

Para os saudosos, deixo uma prenda.

compartilhar leituras

O blog Toda Hora Tem História nasceu da ideia de compartilhar leituras pela internet, não só para propiciar a ampliação do acervo virtual que os leitores conectados podem e devem cultivar, mas, principalmente, para fortalecer os laços de afeto entre leitor e livro.

Toda quinta-feira, escrevo uma coluna de histórias para o Jornal ABCD Maior que também é publicada no blog sob a categoria Gostar de Ler. É claro que o nome Gostar de Ler não foi escolhido por acaso. Quando eu era criança e leitora, lia e colecionava a coleção Para Gostar de Ler que trazia nomes como Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Fernando Sabino, Mário Quintana, Vinícius de Moraes e Cecília Meireles.

O leitor se forma na diversidade e, para minha felicidade, eu me formei entre os encartes dos discos de vinil, a coleção de livrinhos em edições econômicas de papel amarelado, as idas ao cinema, as rodas de histórias e violão.

Escrever o blog Toda Hora Tem História foi mexer nesse baú. Não, mexer não. Foi colocar o baú no meio da praça para todo mundo mexer e remexer, criando histórias a toda hora.

E como a praça é pública, outros baús aparecem para compartilhar suas leituras.

Esconderijos do Tempo, Estante de Letrinhas, e Garatujas Fantásticas são indispensáveis para quem pretende se aproximar de boas informações sobre o universo da leitura, além de ser garantida a diversão na forma como os redatores dos sites expõe suas ideias.

Também não ficam de fora da brincadeira autores como Alexandre de Castro Gomes, que mantém ativo Blogão, recheado de resenhas, entrevistas e dicas, e Nara Vidal, a escritora brasileira que reside em lá Londres ou lá longe, mas nos alimenta com mini contos e outras boas no seu Lugar Comum.

Temos até ponte de leituras que aproximam países geograficamente distante, como acontece no Toda Hora Tem História com as publicações Blog Clube de Leitores, directamente de Portugal.

Com essa ciranda de gente entusiasmada em ler junto, também está a Associação dos Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil, a AEILIJ, que publicou este mês um super anuário com livros de todo canto e todo tipo, a partir de sinopses dos próprios escritores e ilustradores associados à entidade. São mais de 160 livros para ler, cantar, entoar, brincar, espalhar pela casa e compartilhar com os amigos.

Quem editou o material foi o já citado Alex Gomes. O anuário recebeu capa de Maurício Veneza, ilustrações de Thais Linhares e Marcelo Pimentel; pode ser lido em revista virtual:

Um encanto!

Entre os títulos do anuário, está meu favorito futebol Folclore de Chuteiras, dos craques Alex Gomes e Visca, da Editora Peirópolis, a paisagem dos Poemas do Jardim, versos de Penélope Martins com desenhos de Tati Moes, da Editora Cortez, também ABCenário com textos de Leo Cunha nas ilustras de Alex Lutkus, da editora Autêntica

Agora é só clicar e viajar nas boas possibilidades de correr livrarias e bibliotecas atrás de uma bela história.

Mas não se esqueçam de voltar aqui na net para compartilhar com os blogs de leitura o que encontraram por aí.

Divirtam-se!

investigando a casa da árvore,

Ontem, fizemos um passeio noturno no parque. Na chegada, Clarinha decidiu correr na pista com o irmão, Para espanto de todos os adultos que faziam ‘a sério’ seus exercícios físicos, passava minha menina magrelinha com seu dispositivo natural de energia nuclear, levantando os joelhos até a linha da cintura.

Clarinha é um motor contínuo de curiosidade, desejo e força.

Na segunda volta ela pediu para brincar no balanço e eu saí da pista para ter com ela o que seria um dos momentos mais sublimes da minha vida.

Fizeram uma casa na árvore. Uma imensa casa na árvore. Daquelas que se vê em filmes e que a gente cobiça (e até chora por ela).

Para subir na casa, uma rede serve de escada. É claro que Clara clareou passinhos pela tal rede: para cima, para cima, para cima… Descendo pelo escorrega. E eu dizendo pra ter cuidado. Ela respondendo:

– Mãe, fica tranquila, eu tenho muita sorte.

Tanto ir e vir, a menina cismou que eu subisse com ela. Não disse que não, mas fiquei receosa se era certo uma pessoa adulta escalar aquilo. Teriam feito para as crianças, não? Acabou que Clara me convenceu com o argumento:

– Mãe, você consegue. Vamos lá, eu ajudo.

Subimos juntas. Ela no auge dos 22 quilos que pesa, aos 9 anos, ainda segurou minha mão.

Escorreguei meio ressabiada, deslizando pouco. Falei pra Clara que eu devo ser pesada demais para escorregar, ou já não sei fazer direito. Foi, então, que a pequena soltou a frase que só reforça o entendimento sobre o papel dos filhos na educação dos pais, não o contrário.

– Sabe, mãe, é por causa disso que as pessoas tem saudade da infância. Vocês esquecem o que é se divertir.

Voltamos felizes pra casa, ela ainda com energia para a leitura perguntou no caminho:

– Antes de dormir, podemos continuar a ‘operão dragão amarelo’?

– Filha, o que você gosta nesse livro?

– Eu gosto que o leitor também faz a história. É o leitor quem descobre os mistérios.

– Bem que a Julia disse que o livro é bacana para sua idade.

– Mãe, fala pra Julia que o livro é muito legal também para crianças menores, de 6 anos, por exemplo. Os pais podem ler toda noite uma parte para a criança procurar o enigma na ilustração. Eu mesma sei ler muito bem sozinha, mas quando você lê pra mim é muito mais legal.

– Igual o parque, né, a gente juntas…

– É.

PS: Para os leitores de plantão, Operação Dragão Amarelo envolve os personagens Felipe, Tino e Carolina, três irmãos que, além de adorarem balas, têm uma agência de detetives.

Quando entram em férias, são convidados pelo tio para visitar seu castelo, e assim que chegam lá deparam com um enigma: o desaparecimento de uma moeda rara. Mas, ao contrário dos romances de mistérios comuns, desta vez quem tem de solucionar o caso é o próprio leitor. A cada capítulo, pistas são deixadas nas ilustrações que, combinadas com as informações relatadas pelos personagens durante a história, apontam para o próximo passo da investigação. Em uma brincadeira que mistura observação, raciocínio e aventura, é preciso coletar pistas, juntar os fatos e, com a ajuda da Turma do Alcaçuz desvendar o crime. (E é melhor ter cuidado, já que nem sempre as pessoas falam a verdade…) Um quebra-cabeça diferente, que só pode ser montado pelo verdadeiro detetive da história, o leitor. A sinopse foi retirada do site da Companhia das Letrinhas.

PS2: A casa na árvore fica na Avenida Dom Pedro II, em Santo André, dentro do Parque Celso Daniel. Invistam em passeios noturnos. Além do frescor da noite, sempre existe a possibilidade de cruzar um sapo ou um morcego…