cartas a povos distantes

Ele me convenceu que “a vida é feito pulga e que não é preciso ter pernas pequenas para brincar de criança”. Confesso que não compreendi tudo sobre a metáfora da pulga, mas afinal, alguém compreendeu tudo sobre a metáfora da vida?

Giramundo conhece todos os livros de geografia e cartografia possíveis para sua idade. Pratica horas e horas de línguas inventadas por eles para os lugares desconhecidos. É um ‘mexedor’ de mistérios, no tanto que mexeu acabou que mexeram com ele.

Um dia recebeu um envelope. No lugar do remetente somente o enigma ‘novo amigo’. Dentro, um papel amarelado trazia a localização geográfica e uma data de origem. Algo oco, surgido do nada e sem saber pra que é o convite que se espera para a curiosidade acelerar.

Luanda. África.

Quem diria que um novo amigo vinha de tão longe…

Eu também gostaria de ir para Luanda, mas ainda não fui e é por isso que imagino. Até misturei no ritmo da nossa conversa um maracatu, afinal as minhas pernas longas não me impedem se brincar de criança. Cantei para Giramundo a canção de  Alceu Valença enquanto ele me contava sua história.

Outro menino se juntou a nossa roda. Veio dizendo que “se de tanto insistir – pena vira antiquário, cabelo vira penteado, nariz cheira tempo bom”; contou que ele vingou depois de sete. “Foram de quatro em quatro: quatro saias e quatro calções. Eu, pequeno e já barrigudinho, nasci de rebento, final da cadeia produtiva. Último, caçula, dizem que o mais paparicado entre os meninos e meninas. No íntimo, sabia que minha mãe e meu pai não “miguelavam” carinho para os outros, mas comigo, no silêncio das minhas fantasias e desejos, o doce era um pouco mais doce”.

Respondi pro menino caçula, que minha sorte foi ser a primeira. A primeira de um trio de filhos, a primeira neta de uma dúzia tem sempre a vantagem da novidade. Claro que eu sabia que a avó, o avô, assim como os pais com o trio, não faziam diferença entre a criançada. Mas era a primeira, o doce um pouco mais doce.

E se Giramundo lia os mapas do mundo, o menino caçula vinha espalhando livros de poesia, Castro Alves, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, na mesma estante em que reinavam memórias de Emília, Pinóquio e Alice. Sim, respondi aos dois que os livros também me vieram dizer alguma coisa. Fiz força para lembrar de uns realmente bons, mas Giramundo insistiu com cruzar o oceano para alcançar Luanda e eu acabei cantarolando:

“Navegar é preciso, viver não é preciso.”

E não disse nada sobre a Pessoa que tinha inventado aquilo.

O novo amigo. Sim, o novo amigo de Luanda é assunto ainda para Giramundo contar. Fábio, o menino caçula, teve tempo de dizer que viajou muitas vezes nas bibliotecas da Escola Cônego Rochael de Medeiros e João Barbalho no Recife (essa última também frequentada em outros tempos por Clarice Lispector); “foram meus pontapés para uma leitura do prazer na infância. Foram tantas histórias, tantas viagens para mundos tão distantes dos meus, foram tantos percursos feitos com a língua, a linguagem, a fantasia do corpo lançado ao desconhecido”.

Talvez tenha sido por causa disso que Fábio inventou Giramundo…

“A escrita veio diluída nisso tudo. Primeiro os gestos, depois as palavras, depois o registro, depois a subversão. Escrevo subvertendo a ordem, desafiando o sentido, instigando o leitor a pensar sobre o não dito. É assim que gosto, é assim que uso a palavra pensada-escrita-falada, não necessariamente nessa lógica, não necessariamente como comando. A palavra manda em mim. Ela vai saindo e virando ideia. Toma forma, vira história e não é mais minha.

 Isso me interessa como leitor e escritor.

O livro “Cartas a povos distantes” aconteceu nesse desejo. Uma maneira de escrever para o outro, um encontro com outro que também está em mim. Esse outro que abre um livro e espera o desvelar de uma história que precisa dele para ser completada. Um encontro entre criador de palavras e imagens com alguém que a transforma em subjetividades e fantasias.”

Giramundo se calou para ouvir a voz do dono da voz. É como o personagem fica quando o autor conta de onde ele surgiu. Fica “observativo” para fazer o jogo da invenção de palavras.

Fábio Monteiro é meu novo amigo escritor. Não é de Luanda, mas me fez viajar o desejo de encontrar terras distantes com seu novo livro CARTAS A POVOS DISTANTES (Editora Paulinas), ilustrado por André Neves, esse outro amigo que sabe brincar com imagens e palavras sem perder a curiosidade da criança.

Engraçado que eu cantei Alceu Valença para Giramundo, personagem do livro, sem saber que Fábio Monteiro assim como André Neves são meninos do Recife.

Então, Luanda, Luanda, venha nos contar sua história que é a nossa, histórias de povos que viram no navegar a vida imprecisa…

O primeiro menino

Muitas vezes a gente se depara com a pergunta ‘para que serve um livro?’, e as respostas são inúmeras, das mais românticas, que incluem o ‘serve para sonhar’, às mais pragmáticas, do argumento ‘servem para educar’.

Eu sempre me pergunto para que não serve o livro. Parafraseando Bojunga, eu já usei livro para tanta coisa na vida, assim como transformei em livro tanta coisa que era outra…

Sentada na sala eu lia os encartes dos discos dos meus pais. Na aula de música, com flauta doce, a gente ensaiava um tal prelúdio que era grego para muitos, não para mim – a menina que lia os encartes dos dicos na sala sentada ao pé de uma vitrola.

Éramos tão meninos e Luiz Vieira, o compositor da canção, parecia contar segredos do mundo.

Minha cabeça ficava viajando na sonoridade das palavras que diziam a canção, “quando estou nos braços teus sinto o mundo bocejar…”, e eu podia sentir o vento passar por mim no refrão “sou menino passarinho com vontade de voar”.

Um livro serve para recordar. Um livro serve para esquecer. Também serve, o livro, para não servir, assim como não servem as perguntas que encontram respostas em outras perguntas. Não servem porque não são coisas de servir. Não servem porque são de natureza diferente. São impálpaveis e imprescindíveis. São as cordas que afinam nosso “vir a ser”…

Assim seria. É.

“Como a música do mar cabe num caracol?”

Perguntou o primeiro menino.

“O caracol carrego o eco do nascimento do mundo?”

Eu reperguntei.

“Um pássaro sabe que é leve?”

O primeiro menino triperguntou.

“O amor é leve como a pluma?”

Eu quadripliquei.

E fomos assim, eu e ele, afinando nossos instrumentos.

O PRIMEIRO MENINO

Edimilson de Almeida Pereira convida os leitores a descobrir para que serve o não servimento do livro, com seu ‘O primeiro menino’, traços de prosa poética recheado de perguntas que transcendem a vida cotidiana e os requerimentos das coisas que sempre devem servir para alguma coisa (dessa vez eu retomo as palavras de Alice Vieira, em sua Arca do Tesouro).

O livro, pra lá de livro, é um portal para dentro, é um mergulho no infinito imaginar. Voltamos a roda do nome das coisas, o significado impresso que pode sofrer mutações para quem ousar brincar com eles, perguntar por eles…

Em boa companhia, Edimilson tem suas palavras ilustradas pelo trabalho encantador de Anabella López, uma artista que tem entre seus dons a capacidade de provocar no leitor o desejo de produzir imagens, de conversar com desenhos.

O primeiro menino não é um conto fácil, um livro fácil, de sentar e ler e ter resposta pra tudo e fim. Muito pelo contrário. O primeiro menino é o livro da pergunta sobre a pergunta, leitura para fazer e refazer no fazer de novo. Para ler em voz alta. Para desenhar as perguntas. Para tecer um caminho de estrelas. Para caminhar além dos nossos passos óbvios.

– fotografia de Penélope Martins sobre o livro O primeiro menino, de Edimilson de Almeida Pereira e Anabella López.

Em tempo, O primeiro menino, de Edimilson de Almeida Pereira com imagens de Anabella López, recebe o selo da Mazza Edições, de São Paulo.

Quintalzinho

quintalzinho

O quintal da minha infância tinha besouro, lagartixa, joaninha, e formigueiros mágicos que cresciam de um dia para o outro.

Quando o grupo de crianças de juntava era para morar no olho da rua, onde os quintais se uniam em um grande espaço mundo.

Corríamos no pega-pega, pulávamos amarelinha, cabra-cega não faltava, banho de mangueira quando o calor aparecia, todos os disparates poderiam ser inventados naqueles dias em que brincávamos no quintal.

E quando não estava em casa, na casa da avó era o mesmo: areia peneirada, panelinha de lata, chuva de folhas e canto de pássaros, bolas de gude pintando o chão.

Era tão bom quando vovó desenhava no caderno um novo modelo de casaco, buscava as agulhas e me fazia escolher a cor do fio para tricotar o passo a passo da nossa conversa na varanda da casa. Uma varanda encarnada com lustro de cera também servia para patinar vestindo grossas meias. Não para todos os dias, mas sempre que podia, meu avô vinha com sorvetes de palito com sabor de fruta.

O quintal da minha infância crescia para dentro de mim e eu nunca mais me separaria dele.

Tornei-me escritora, talvez poeta eu já fosse desde aqueles dias, e reuni um conjunto de poesias para o qual dei o nome QUINTALZINHO, memórias dos dias em que mais valia uma bacia de areia peneirada do que qualquer outro tesouro de valor mensurável. Não deixei de fora os dias de agora, meu olhar sobre as crianças que despertam a criança que ainda existe (resiste) em mim.

Para minha sorte e felicidade, a amiga Tatiana Móes que já era parceria na obra Poemas do Jardim, acolheu os poemas com seus desenhos, intervenções na disposição do texto, elaboração estética do livro todo.

Juntamos nossos quintais ao selo da Bolacha Maria Editora e pronto! temos aqui um grande passo para a brincadeira de ler o mundo com os olhos de criança sempre aptos a experimentar o novo num tempo que é o único que nos importa: o tempo de agora.

Afinal…

– Um pedaço de quintal hoje,

amanhã conquistamos o mundo!



quintal3

Quintalzinho, de Penélope Martins e Tati Móes, tem o selo da Bolacha Maria Editora e pode ser encontrado nas Livrarias, também na página Quintalzinho.

melhor que um pássaro na mão!

Um livro é só um livro, mas também é o LIVRO quando se entra na dança da história com valentia e rima.

Chegou pelo correio para mim, ‘Quem ri por último rima melhor’, composição de brincadeiras com provérbios de Daniel Medina com  divertidos desenhos – da tão divertida quanto – Renata Bueno.

De cara, a dedicatória é acompanhada com a imagem de baita jacaré nadando de braçada… Suavemente deslizam as palavras dentro nossa mente para escrever o que não foi dito na brancura do papel. Se tem piranha no caldo, jacaré é precavido (ou mais sabido?).

Os provérbios fazem parte de nossa tradição popular. São frases que expressam comportamentos que identificam o senso comum.

O humor é inerente aos ditados. A rima que não aparece escrita, é o próprio espírito do que se quer dizer, das coisas que se combinam perfeitamente para ilustrar uma ideia.

É brincadeira pintar de surreal o nosso senso comum, dar ao ditado mais do que a repetição de um conceito perpetuado numa cultura, embaralhar os sentidos e provocar investigações no leitor – além do imediatamente lido. Brincadeira que Daniel e Renata convidam os leitores para jogar.

Então não é mesmo, se filho de peixe peixinho é, também filho de peixe pode ser pangaré. Pode, pode mesmo. Afinal de contas a gente nem é do jeito e da forma dos nossos pais.

Na rima e na letra, o escritor Daniel Medina não esqueceu de botar os macacos todos sobre os calos, opa, galhos, e desatar filosofia na cabeça de quem não resiste brincar com as palavras. Então, se cada macaco fica no seu galho sem saber do calo alheio, na hora que sofre enxovalho não lhe socorrem os companheiros. Dá até para cantarolar isso.

Lá por volta da página 16, gosto do número que na soma dá 7 (porque 7 e 7 são 14 e com mais 7… deixa pra lá), tem uma carona de bolacha a dizer que ‘quem vê cara vê olhos, nariz e orelhas!’. Eu já tinha percebido – mesmo – que o LIVRO do Daniel e da Renata não era sério.

Pois bem, já que estamos de brincadeira.

Copiei a folha 17, onde Renata aprontou um monte de desenhos de narizes, bocas, olhos torcidos e olhos expressivos, chapéus e beicinhos. Copiei para recortar. Pois, no caso do LIVRO que me foi dado, ‘achado não é roubado’ e os desenhos dela são agora meus com intervenções.

Engraçado? Muito.

Um livro é somente um livro, mas pode ser o LIVRO se a gente se liberta nele e entra na roda com rima e valentia. Rima para brincar e valentia para nunca deixar de fazê-lo.

Aqui em casa também tem escritores e desenhadores, por isso, a casa do ferreiro tem esperto cara de pau para chamar de nosso o LIVRO do Daniel Medina e da Renata Bueno.

E quem quiser mais que vá buscar o seu. Oras bolas…

* Quem ri por último rima melhor – Brincadeiras com provérbios, Daniel Medina e Renata Bueno, Editora Moderna, de São Paulo.

conta de novo

É maio e o mês começa com a celebração do dia das mães. Pode parecer banal para uns, configurar cena consumista para outros, mas a verdade é que é um dia especialmente voltado para celebrarmos nossa chegada nesse mundo, a revelação da vida seguida pelos cuidados que nos envolveram, os passos suportados por alguém que tem capacidade de amar incondicionalmente.

Eu tinha muitas diferenças com minha mãe. Ela sempre foi uma mulher dinâmica com opinião forte para fazer valer a educação que nos dava. Isso atrapalhou um bocado os planos que eu desenvolvia para minha adolescência. Vida dura quando a mãe põe a gente de castigo aos quinze anos. Enfim.

Casei e a coisa começou a mudar. Eu tinha minha casa e tudo poderia ser feito da minha maneira. Mas, muitas vezes sem perceber, eu repetia a forma da minha mãe. Até as palavras, eu repetia. Eu tinha me tornado uma cópia daquela mulher dinâmica e com opinião forte que, um dia, atrapalhou alguns planos para minha adolescência.

Confirmei isso várias vezes, com meu marido repetindo ‘você é igual a sua mãe’. Eu recebia como elogio porque meu marido tem mesmo signo que a minha mãe, os dois se dão tão bem que ela é capaz de defendê-lo de mim. Beira o absurdo para uma filha que diz não ter ciúmes. Enfim.

O ápice da consagração materna em mim, era de se esperar, chegou com meu filho. Ele nasceu num dia 5 e veio para os meus braços pelos braços de minha mãe, que acompanhava todos os movimentos no processo de adoção.

Naquele dia eu disse para minha mãe que ela iluminava meu segundo nascimento. Era eu a mãe, agora. Minha mãe, a mãe da mãe, também avó.

Pouco consegui chorar. A emoção era tão grande a vislumbrar aquele serzinho pequeno, perfeito, único. Eu me enamorava dos dedos dos pés, das orelhas, do umbigo, das curvinhas do joelho, dos sons, do perfume de açúcar mascavo que eu sentia nele. Eu sentia crescer dentro de mim uma força antes desconhecida.

Já nos primeiros dias, com meu filho para ninar, ensaiei histórias sobre o nosso encontro nessa vida.

Meu filho não tinha nascido de mim, eu é que tinha renascido dele. Nosso cordão umbilical era o querer absoluto.

E minha mãe dizia para mim que eu era melhor mãe do que ela foi. Impossível, mãe. Se foi com ela que eu aprendi a ser mulher e mãe. Foi com ela que aprendi a desenhar os traços de uma mulher dinâmica, que faz valer opinião forte.

Minha mãe. Meu mel.

Então, se existe datas especiais para nossos calendários, nada mais justo que haja uma data para nos lembrar origem de tudo.

Mãe, eu te amo. E obrigada por fazer naufragar a maioria dos meus planos de adolescência. Eu era ruim de planejamento. Enfim.

PS. Para mamães por adoção e outras que também adotam para filhos do coração os seus filhos biológicos, após nascimento, super recomendo o livro ‘CONTA DE NOVO a história da noite em que eu nasci”. No livro de Jamie Lee Curtis, ilustrado por Laura Cornell, uma menina pede para a mãe contar a história da noite de seu nascimento, enquanto ela mesma sabe descrever em todos os detalhes: o telefonema no meio da noite, o susto, a emoção, a pressa para chegar ao hospital, a viagem de avião… A menina repete de cor a narrativa de sua história, enquanto ilustra, com desenhos e fotos, sua ‘árvore genealógica’… Delicado e simples, o livro celebra, com emoção e beleza, a chegada de uma criança, por adoção, em uma família que tanto a espera. Editora Salamandra.

abc da água

“Novembro de 2012. Estava de acompanhante no hospital São Camilo onde meu companheiro de vida e poesia, o poeta José Santos fora internado às pressas para a retirada da vesícula. Na solidão daqueles corredores leio uma mensagem do meu querido amigo o fotógrafo Fernando Cohen. Ele me manda a dissertação de um certo Cassiano. Leio ao lado da cama do José, começo a ler em voz alta tamanho é o meu encantamento. Isso distrai meu companheiro cheio de dor e a mim provoca um desaguar de palavras.

Há muito queria escrever sobre a água, minha paixão desde pequena. Saia do mar, da piscina, quase no chicote. Tenho um tímpano de vaca, perfurei ele com tanta água que entrou. Não limite com esse brinquedo foi o que me ensinou a ser flexível com as pessoas. Ouço em baixo volume o que me falam. Quando ficar velhinha, serei daquelas que fica perguntando: o que?

O que escuto, compenso com a voz que nasce no meu coração e deságua palavras no mundo.

E assim,quando ouvi que no ano de 2013 eu viajaria o ano inteiro para ministrar aulas em Alagoas, meu coração se abriu na palavra ‘A Lagoas’. Um disparo nasceu. No primeiro embarque, dentro do avião eu já estava tomada por frases inspiradas no que vi naquela tese que chegou às minhas mãos no hospital. O dicionário de humor infantil do Pedro Bloch -que era estudo do Cassiano – trouxe o jeito que eu queria falar dela, a água. José tinha esse livro e me emprestou. Não consigo devolver a ele e carrego sempre comigo. Virou minha bíblia. E Alagoas meu altar de águas tão verdes, de um verde que só existe lá.

Eu me apaixonei por Alagoas e meus alunos e toda gente que conheci junto com Sandra Cordeiro, minha companheira do curso Brincar, onde encontrávamos 80 educadores da rede publica de todo estado.

A cada viagem, pesquisávamos muitas cidades e artesãos que fazem a cultura alagoana tão expressiva. Vimos, navegamos e nadamos no São Francisco, mesmo com tristeza sua hoje pouca água. Conhecemos o barqueiro Rureis, perguntei dos seus brinquedos de infância e ali mesmo, na beira do rio com seu facão, fez e colheu a Ingá. Nasceu um barquinho, dei R$10,00 a ele pela alegria que ele fez desaguar. Ele não acreditou no que fez a na turista louca com cara de galega. Ficamos amigos, as vezes ligo para ele. Para matar saudade das histórias fantásticas que ele contou do São Francisco.

Histórias de rio eu escuto navegando com barqueiros desde 1986, quando viajei 40 dias pela Amazônia e soube o que era a frase da Lina Bo Bardi, minha sempre fonte de inspiração: O Brasil é um país-rio.

Já estive em muitos rios deste pais. Em toda cidade que sou convidada a trabalhar, dou um jeito de entrar em suas águas. Rio Madeira, Xingu, Solimões, Amazonas, Negro, tantos outros que não lembro o nome. Amo meu país e falar de suas águas é meu jeito de dizer esse amor. ”

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Na segunda-feira passada, pedi que Selma Maria me contasse quando nasceu a ideia de fazer o livro ABC da Água. Selma com sua espontaneidade de gente que não sabe viver pela metade, já me respondeu assim, de pronto, com tudo ali: passado colhido em margem de rio, presente com lago, um futuro a mar…

Não resisti e reproduzi a resposta dela aqui para que todos pudessem beber dessa mulher fonte inesgotável de poesia.

O ABC da Água, como os outros livros da poeta, convida o leitor a brincar com a palavra que nunca diz só que aparentemente desenha. Selma é poeta do pode ser tudo isso e tantas outras coisas que a gente um dia quiser. Uma poesia que abre as fronteiras do pensamento.

O relato da poeta ao meu questionamento sobre o nascer do livro, dispensa qualquer coisa que eu possa complementar sobre o trabalho dela, sobre sua escrita, sobre suas obras.

Selma Maria Kuasne é água.

Junto dela, os desenhos no livro espumam a cativante linguagem visual de Nina Anderson, filha da poeta. Quem quiser saber mais sobre os desenhos, é só passear no site de Nina Anderson.

A editora do ABC da Água é a Panda Books, de São Paulo. São Paulo do Rio Tietê. São Paulo da Cantareira. São Paulo de um ABC que hoje espera ter mais – e melhor – vida de água, água de vida.

uma pergunta tão delicada

Dá dor de barriga. Dá vontade de chorar e rir feito bobo também. Dá mal jeito nas pernas, os joelhos ficam amolecidos no cada passo antes de encontrar com alguém. Dá cambalhota na cabeça. Dá esperança sem fim. Dá tanta coisa que a gente não entende como acontece tudo ao mesmo tempo.

“Todos escalaram até o topo da pequena colina, como faziam todos os anos.

O elefante estava sentado e tinha uma pergunta delicada a fazer.”

Sabe, é estranho quando alguém tem uma pergunta delicada para fazer. Uma pergunta delicada já se sabe sem resposta.

Um dia meu filho também me perguntou coisa assim. Lembro bem da carinha dele. Pobrezinho. Tão novo. Será que ele daria conta daquela montanha russa?

– Mãe, como a gente sabe que está apaixonado?

Doeu minha barriga. Deu piripaque na minha garganta, um fogo correu meu estômago. Deu moleza. Deu preguiça. Deu mal jeito nas costas. Deu vontade de chorar.

Também o elefante tinha uma pergunta delicada para fazer. Naquele dia, a formiga pensou que seria sua oportunidade de progredir na vida, afinal de contas, ela anotaria tudo e diria as coisas que se diz quando presidimos uma reunião. O oficial presidente, senhor tartaruga, não podia estar presente; ele cuidava de sua esposa doente.

A formiga estava radiante, todos prestariam atenção nela. Ela até se arrumou com um par de óculos para garantir a seriedade de cada pronunciamento. Mas a conversa que seguiu à pergunta delicada do elefante, não agradou em nada a formiga.

O mar dizendo que quando cansa, seu amor lhe dá um empurrãozinho. As nuvens suspirando um flutuar juntas mesmo depois de uma discussão, com direito a relâmpagos e trovões. E a maçã corando ao ver seu amor.

Ainda teve criança que recordou poemas, e que, apressadamente, a formiga interrompeu de serem ditos. Deixasse vir um poema, logo viria outro, a reunião não teria fim.

Ao final do dia, todos regressaram sem resposta para a pergunta tão delicada. O elefante, agradecido, foi o primeiro a ir andando.

A formiga achou aquilo tudo um absurdo. Devolveu as anotações para o senhor tartaruga e voltou sozinha para casa. Tão sozinha que lhe doía a barriga.

A história do elefante que nos conta é Leen Van Den Berg, em UMA PERGUNTA TÃO DELICADA”, com belíssimas ilustrações de Kaatje Vermeire. O livro, traduzido por Cristiano Zwiesele do Amaral, leva o selo da editora paulista Pulo do Gato.

Quando meu filho me perguntou como ele saberia se estava apaixonado, engraçado, lembrei dos dias de prova e daquelas apresentações teatrais – que eu levava muito a sério – que sempre me metiam em dores de fracasso, ainda que os momentos fossem igualmente felizes.

O amor é tudo isso, tal e qual os versos do poeta, Carlos Drummond de Andrade, quando segue o amor que pulou o muro e já está em tempo de estrepar… e já se vê o sangue.

“Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender…”

Para cada pergunta delicada, um monte de outras perguntas tecemos e todas as (im)possíveis respostas que colecionamos vale menos do que sentir.