íris

A morte é passagem. A morte é mistério. A morte é tristeza. A morte é novo começo. A morte é certa. A morte é silêncio. A morte é o que não sabemos dizer.

Por mais esforços que se faça para compreender a morte – talvez, na tentativa, que nasce frustrada, de superar a dor da separação e  ‘conter’ o medo, somos frágeis às nuances que permeiam esse assunto. Também, por isso, evitamos a conversa. Falar em morte ‘não é bom’, ainda mais quando o assunto é partilhado com ‘crianças’ que são inocentes e precisam viver só de ‘alegrias’. Um engano.

A definição de morte pode escapar, mas nós não escapamos da morte pela justa definição de vida.

A vida é processo contínuo de transformação que inclui a morte como etapa. Um ciclo natural.

Falar em morte é falar da vida, é garantir oportunidade de diálogo sobre algo que, na maioria das vezes, é o pior medo do ser humano. Assim como o imaginário monstro que mora embaixo da cama, alguns assuntos ganham garras quando não acendemos a luz sobre eles.

A história de Íris vem para tratar de morte com muita generosidade. Um texto especial nos conecta até a última página da história, e imagens que ajudam a transcender nossa percepção sobre a realidade.

Da noite para o dia, a família de Íris descobre que ela está gravemente doente e precisa ser hospitalizada. Por meio do ponto de vista terno e ingênuo de sua irmã mais nova, que narra os sentimentos que a afligem, o leitor compartilha dos acontecimentos que transformam a rotina familiar, juntamente com o medo, a esperança e a tristeza que os acompanham. Com lirismo e delicadeza, a narrativa apresenta uma temática delicada, especialmente para o universo infantil: a doença progressiva de uma pessoa querida.

O pulo do gato: as metafóricas ilustrações também contam a trajetória da doença da pequena Íris, numa sequência gradativa de imagens em que a menina é envolvida por flores de pétalas azuis, oferecendo uma leitura paralela e intensa ao texto, já repleto de sentimento.

Do que trata o livro: família, saúde, perda, superação, amadurecimento.

Uma leitura para adultos, jovens, velhos e crianças. Uma leitura para falar da vida.

o rato que roeu o rei

Ninguém sabe como ele entrou. Um dia, belo e pomposo, ele estava lá, exatamente no pé do rei: o rato. Tinha o tamanho exato de um rato. Roía como todo bom rato rói e faz qüiqüi (tanta falta nos faz o trema). Todavia (não cotovia), era um rato e só. Rato solitário, porém solidário, que pra não ser só um rato chamou o primo e o irmão do vizinho, o tio da avó e a comadre da dona rata sua amiga. Num piscar de olhos, o reino do rei era reino de rataiada.

Pra toda infestação, há de se ter uma solução!

Quem num sabe que pra se livrar de rato, nada melhor que um gato. Encantado por um flautista – que se chama Rudolfo e que em outra história já fez sucesso com sua notável habilidade de reunir bandos com sua música hipnotizante – a conta de três felinos para cada rato fez os roedores se escafederam.

Restaram os bigodudos, com aquele ar soberbo de quem reina até na almofada real.

Mas, pra toda infestação, há de se ter uma solução!

Por isso foi chamado Felisberto, o feiticeiro louco e tocador de rabeca. Foi ele quem agrupou cães e cadelas pra afugentar bichanos. E na caça não sobrou nenhum que pudesse contar história. Ficou a raça canina e uma infestação de pulgas que a acompanhava desde sempre…

Quando o rei os mandou embora, eles rosnaram, fincaram patas. A solução foi chamar Chico Lobo, pastor de todas as feras da floresta, para expulsar a cachorrada. Vieram lobos, raposas e hienas, que colocaram os cães para correr. Correu, até, Chico, esquecendo de dar o assovio de ordem contrária.

Será que pra toda infestação, há de se ter uma solução?

Uma cidade de bestas é uma cidade abestada. Cabe até atirar melancia pela janela por conta da instrução de um tal mágico das frutas que veio com a solução de invocar uma manada pra banir os invasores. Aquilo resultou bem se não fosse o incômodo enorme de uma cidade atolada em elefantes.

Mais infestação? E o que afugenta um elefante?

Ora, ora…

Neste conto circular, com humor inteligente que faz rir até um cão raivoso e escrita incontestavelmente impecável que faz aplaudir até rato de biblioteca, o premiado poeta paraibano André Ricardo Aguiar constrói, de forma muito original a divertida história O rato que roeu o rei, publicado pela Editora Rocco na seleção de Jovens Leitores.

Tô pra dizer que eu não perderia essa dica de leitura por nada desse mundo. Nem por um milhão de ratoeiras douradas. Nem por uma melancia cara melada. nem por um saquinho de amendoins.

Corram lá e infestem a livraria!

dia de folga

Alguns livros nos pegam pelo pé. Outros nos pegam pelas asas. Jacques Prévert me pegou no pé do pulo poleiro, e não tardou cocegar com suas penas as têmporas do meu pensamento.

Começamos com a receita ‘para fazer o retrato de um pássaro’. Encontrei sem querer (querendo) um vídeo contendo o poema animado.

Repeti a leitura do vídeo algumas vezes… Estava apaixonada pela complexa simplicidade desenhada a cada verso. Pintar um pássaro dependeria mais do que a capacidade de aprisionar uma ideia. Seria para além, tocar a alma, fazer cantar o pássaro.

Depois do primeiro poema, corri procurar o livro que abrigasse o tal retrato. E encontrei, felizmente, um dos livros hoje mais queridos da minha estante de poesia.

A ornitologia é a ciência que estuda os tipos de aves e sua distribuição pelo planeta. Talvez seja a única ciência em que os amadores efetivamente contribuam para crescentes descobertas. Aristóteles, por exemplo, foi um dos primeiros a escrever sobre as aves a partir de observações próprias.

Nesse campo, ciência e poesia se misturam com magnitude. Eu mesma não escapei da obsessão pelos emplumados e, junto da artista plástica Tati Móes, publiquei pela Editora Cortez nosso Poemas do Jardim, incluindo o soar de bigorna araponga e o êxtase de ser uirapuru.

A capacidade de voar  que esses bichinhos, tão frágeis e pequeninos, possuem, colocam em cheque a tal supremacia sobre o mundo animal que, alguns incautos seres humanos, pensam existir.

Sim, pensar pode dar asas, mas ainda assim não nos tira do chão o corpo. Somos presos no chão. Feitos de chumbo.

O desafio é compor leveza para viver pássaro. Alongar as asas depende muito da nossa capacidade de observação.

A contemplação da natureza pode ser uma porta aberta para compreendermos o milagre da existência. Ao menos é assim que percebo. Em Dia de Folga, composto pelos poemas de Jacques Prévert, temos surpresas de contemplação na mistura de malícia gatuna com tranquilidade de caramujo. Um livro que faz vibrar o coração com poemas como Canção do passarinheiro. Uma mistura elegante de significados e sonoridades.

Pus o meu quepe na gaiola

e saí com o pássaro na cabeça

Como é que é

não se bate mais continência?

perguntou o comandante

Não

não se bate mais continência

respondeu o pássaro

Ah bom

queira me desculpar eu pensei que se batesse continência

disse o comandante

Está desculpado qualquer um pode se enganar

disse o pássaro.

Reforço que os poemas na língua original, em francês, faz o leitor querer cantar os poemas em voz alta. A tradução de Carlito Azevedo, publicada no Brasil pela editora Cosac, segue com mesma graça e harmonia. Para felicidade geral, o livro é bilíngue. As ilustras são de Wim Hofman.

os gatos

O poeta T.S. Eliot nasceu em 1888, no Estado Norte-americano do Missouri, mas acabou se mudando para Inglaterra, onde se naturalizou cidadão, em 1927. Depois da guerra, nos anos 20, Eliot passou um bom tempo com outros amigos artistas em Paris, entre os tais, Man Ray, que fotografou o poeta.

A obra do poeta do simbolismo francês, Charles Baudelaire (1821-1867), exerceu grande influência sobre este poeta americano naturalizado inglês. Curiosamente, Baudelaire sofreu influências de um grande escritor americando, Edgar Allan Poe (1809-1849). Espetacularmente fantástico perceber elos estreitos entre escritores cujas obras marcam perídos distintos da Literatura.

A inquietação de Eliot também pode ser percebida em seu interesse no estudo do sânscrito e das religiões orientais; ele teve um grande mestre armênio para orientar essa parte de sua educação.  Mais tarde, convertido ao cristianismo pela Igreja Anglicana, reconduziria sua produção literária.

– fotografia de Man Ray –

Uma produção diversificada não escaparia de T.S.Eliot escrever algo destinado ao público jovem. Se não diretamente com este propósito, na década de 1930, o poeta deu de presente a seus afilhados e amigos uma série de poemas de gatos. Enviados por carta – que ele assinava como “o velho gambá”, apelido cunhado por Ezra Pound -, esses poemas narravam a vida de um grupo de gatos, do temível Mac Anália (o “Napoleão do crime”) ao mágico Sr. Mistófelis, passando pelo velho Deuteronômio e pelo teimoso Rin Tim Tan Tam.

Àquela altura, Eliot já se consagrara um dos grandes nomes da literatura do século XX. Com seu épico Terra devastada ajudara a redefinir a poesia inglesa e, no papel de crítico, revelou e defendeu escritores como James Joyce e outros modernistas. Os poemas infantis, no entanto, surpreenderam seus amigos pela graça e sensibilidade para com a psicologia felina, e em 1939 ele foi convencido a publicá-los. O que era para ser uma brincadeira acabou por se tornar um de seus trabalhos mais conhecidos.

Eliot recebeu o Nobel de literatura, em 1948. Após sua morte, os poemas dos gatos serviram de base para o musical Cats, um dos mais longevos do West End londrino e da Broadway.

Em original, Old Possum´s Book of Practical Cats, reúne versos de precioso humor e musicalidade imbatível. Seria difícil, portanto, uma tradução a contento.

Mas, nem todos os leitores estão aptos para o original em inglês e, pelo bem de se fazer conhecer notável literatura, a tradução vem bem a calhar…

Na versão em português, editada pela Cia das Letrinhas, o poeta Ivo Barroso atravessa o desafio de transmitir ao leitor a magia dos gatos de T.S. Eliot. O livro vem muito bem acompanhado pelas ilustrações de Axel Scheffler.

O leitor desvendará a arte de dar nome aos gatos, mesmo que a tarefa faça-o parecer ‘doido igual a um chapeleiro’; mergulhará num mundo de tigelas de leite roubadas; gatos que desaparecem misteriosamente. Gatos atores, gatos pobres, ricos e de todas as espécies. E aprenderá também uma daquelas verdades que só os grandes poetas sabem nos dizer: um gato não é um cachorro.

A impressão que tenho é que Os Gatos de Eliot é o livro-vitrine que desfila a construção minuciosa desse poeta que conhece a velha poção mítica de versos, folhas de Baudelaire, pó cintilante de Krishna, passos sombrios de Poe e luzes maravilhosas de Lewis Carrol.

blogs para ler mais

Ler é pra lá de bom, a gente não tem dúvida, mas sempre há uma pergunta recorrente para quem é leitor ou está motivando novos leitores: QUAIS LIVROS?

Mas o livro não é o livro, ele é também uma ponte para outras possibilidades de leitura. O cinema é um exemplo disso, também a música e o teatro. Esse leque só faz aumentar a ansiedade da pergunta original sobre TODAS as escolhas possíveis.

Ufa, é quase um tormento pensar na estante imensa dos livros que eu ainda não li… E o tormento tempestuoso (exagerado) quando a mão tem de pegar apenas um por vez (ou cinco, como eu mesma faço – para ganhar tempo e aumentar a dose de loucura).

Por isso tudo, juntei três blogs que funcionam como bons indicadores de leitura, assim, para ajudar ou atrapalhar ainda mais, os leitores deste espaço podem mergulhar no mundo dos livros com mais profundidade. Os blogs são compostos escritos por gente apaixonada por ler, todos os espaços são recheados de boas dicas com a preocupação de informação precisa na relação com nome de obra, nome de autor, editora etc.

Além de livros, os blogs citados também relacionam outros aspectos da leitura, como a imagem, espetáculos, trabalhos musicais,exposições, áudios…

É claro que, parafraseando Cecília Meireles, no ‘ou isto, ou aquilo’ a gente sempre tem o que ganhar e o que perder. Mas vamos pensar assim, ao menos os blogueiros estão procurando com lupa e olho vivo para que as nossas escolhas sejam as mais divertidas possíveis.

Então, é só usar e abusar da trindade abaixo.

PS. E prometo solenemente falar de mais outros bons blogs em futura postagem.

  1. Esconderijos do Tempo é o blog da Cristiane Rogério. No esconderijos você encontra resenhas de livros, entrevistas, roteiros para visitas culturais, clássicos da literatura, filmes, trilhas musicais. Uma característica do blog é harmonizar sortimento de informações com textos fluídos, agradáveis de serem lidos na tela do computador. A apresentação é super simpática e você encontra vídeos produzidos pela própria blogueira. 
  2. Hipopómatos na Lua é o blog conduzido por Nazaré de Sousa. Além do nome, a proposta do Hipopómatos é visitar a fantasia e o maravilhamento no mundo do livro. As resenhas contém entusiasmo que fomenta a leitura, não faltam imagens para degustação das obras selecionadas. A blogueira mantém, ainda, outros blogs bisbilhoteiros de livros – todos igualmente interessantes.
  3. Clube de Leitores é o blog composto por um coletivo de escritores. Rodrigo Ferrão, Ana Almeida,Raquel Serejo Martins, Helder Magalhães, Gonçalo Naves, e José Ferreira, mantêm postagens diárias com crônicas, contos, poemas, sugestões de leitura, indicações de filmes, frases, pinturas relacionadas com livros e tudo mais que convergir com o mundo das palavras. O Clube faz ponte com o nosso blog Toda Hora Tem História, ligando leitores de Portugal e Brasil.

En-cantar as leituras para um feliz dia das crianças!

Tá chegando dia 12 de outubro e me pego pensando nas coisas que eu mais gostava de fazer quando era criança.

Brincar de cantar era uma das festinhas favoritas. Usava a escova de cabelos como microfone e a televisão da sala servia de espelho, para que eu avaliasse a perfomance.

O que eu cantava? Rita Lee, sempre, ovelha negra desde tenra idade. E por causa da Rita, os Mutantes, e por causa dos Mutantes, também Secos e Molhados.

Cantava Caetano por causa da tia, cantava Lamartine Babo por causa da avó. Cantava Vinícius e Maria Creuza por causa dos pais, e Jackson do Pandeiro porque a sorte me acompanhava.

Minha coletânea de músicas da infância era bem servida.

E é claro que o showzinho não se limitava ao espaço da sala.Organizava um espetáculo no quintal com os amigos da rua. A gente era artista de teatro, contorcionista da dança, prêmio ouro da canção e sei lá mais quanta coisa.

Parti o salto de umas botas lindas que minha mãe guardava com todo cuidado do mundo no fundo do armário (acho que ela nem se lembra disso, mas se lembra – desculpa, mãe!). Perdi as contas das vezes que eu desfilei o microfone-escova-de-cabelo com as mãos cobertas por um par de luvas vermelhas (isso era da mãe, também, e eu queria tanto tê-las guardado – que pena…). As luvas me faziam lembrar o poema da Cecília Meireles que problematizava meu gosto de menina vaidosa (sempre barroca em acessórios): ou visto as luvas e não ponho o anel, ou ponho o anel e adeus pras queridinhas luvas!

Minha meninice foi de música e letra. Tenho absoluta certeza que foi por causa de tanta música que eu acabei me encantando com a sonoridade das palavras, a plasticidade dos re-significados, o que me conduziu ao mundo da literatura.

Dizem (nem sei quem é tão tonto) que poesia é o gênero que menos se lê. Eu fui um caso do avesso. A poesia estava lá na saia da comadre Sebastiana.

Fui leitora com olhos e ouvidos, para cada história eu já sabia a trilha sonora do filme. A tela era na minha cabeça.

Por isso, joguei na rede a brincadeira e pesquei dos amigos o livro favorito de infância com trilha sonora sugerida para compor a leitura. As respostas, vocês lerão abaixo.

No mais, divirtam-se no dia das crianças. Usem a escova-microfone, soltem o bicho! Cantem, porque quem canta suas histórias encanta…

1.André não precisou fugir da regra, recomendou Monteiro Lobato, A chave do tamanho, com trilha do Gil, Sítio do Pica-Pau Amarelo.

2. Vivi não economizou espaço na estante e mandou a coleção inteira de Os Pioneiros, de Laura Ingalls, com Ennio Moricone, The Good, The Bad, The Ugly.

3. Prisca trouxe, junto com a máquina de macarrão, o incrível Rodari, combinado com Vinícius de Moraes, A Casa.

4. Marcos não elegeu no melhor de três, Os Colegas, de Lygia Bojunga Nunes, A Terra dos Meninos Pelados, de Graciliano Ramos e, por fim, Tistu- O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon. Mas na trilha se perdeu em tantos sambas, por isso eu ajudei com raiz, Monsueto, Mora na Filosofia.

5. Por fim, Penélope por mim mesma, faz o salto para dentro do buraco do coelho de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, com disco completo surreal, de 1973, dos Secos e Molhados.

o livro do palavrão

Que ela é uma poeta escrivinhadora imprescindível nas nossas cabeceiras, isso todo mundo já sabe (e se num sabe é bom correr pra saber).

Que ela é uma provocadora de marca maior que mexe com os miolos da gente batucando ideias novas e tirando o mofo da caxola pra deixar sair o que num vale nada, isso eu bem sei.

Que ela faz com a palavra imagem e com a imagem palavra e com as duas juntas ela canta, dança e sapateia, isso eu também sei, sim senhora e sim senhor.

Mas agora ela abusou! Ela tá falando palavrão pela boca do João!

É que “Joãozinho cismou que queria ser gente grande de verdade e, para sua ideia dar certo, ele começou a falar palavrão.

Isso virou uma confusão!”

Fico imaginando a mãe do Joãozinho horrorizada dizendo: “quanto palavrão cabe na boca desse menino?”

E a senhora doutora professora na escola correndo atrás de Joãzinho enquanto ele corre atrás da bola que ele chama de bolão.

“Joãozinho, não é nada disso não!”

Desatino sem desatenção, Selma Maria Kuasne botou Joãozinho para falar palavrão!

Isso acontece no seu novo livro, com ilustrações da  super poeta e texto da incrível artista plástica – ou seria o contrário?

Selma, Selma, sua sapeca.

Crescer não é tarefa fácil, por isso a brincadeira de João vem mesmo a calhar. Para ele, crescer foi falar palavrão. Ele começou a falar melão quando ia dizer mel, e usar balão para bola de sabão que deslizava lá no céu.

Mas o céu respondeu para João, num dia escuro feito noite: “trovão, trovão TROVÃO!”

Joãozinho foi parar debaixo da colcha, mas em cima do colchão.

Sorte que a mãe de Joãozinho sabe de trova e de rima. Acarinhou o menino, fez ele ficar quietinho, com pensamento bem sossegado.

Depois do bom colo, talvez crescer possa ser palavrinha mais fácil de dizer.

Palavrinha ou palavrão, certo é que não faltará imaginAÇÃO com Selma Maria por perto dos nossos leitores.

A paulistana Selma Maria, formada em Artes Plásticas pela FAAP, cedo se envolveu com o universo da arte-educação. Além de atuar como professora de artes em várias instituições culturais, Selma mantém dedicada pesquisa a Cultura da Infância, abordando as formas de brincar das crianças que vivem distantes de centros urbanos. Essa pesquisa a levou a viajar pelo interior do Brasil, especialmente à região onde Guimarães Rosa cresceu, em busca das raízes da infância do escritor. Lá realizou oficinas com apoio das prefeituras de Morro da Garça, Cordisburgo e Três Marias para crianças de diversas idades. O resultado desse trabalho gerou a exposição “Meninos quietos – um olhar sobre os brinquedos do sertão”, visitada por 50 mil pessoas durante dois meses do ano de 2006, no Sesc-Pinheiros, em São Paulo. Suas atividades junto às crianças geraram Um pequeno tratado de brinquedos para meninos quietos, seu primeiro livro de poemas. Depois vieram outros livros, como Isso Isso, Lesma Mesma, e outros mais como O LIVRO DO PALAVRÃO, com selo da Editora do Brasil.