Acrobata da dor

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Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta …

Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d’aço. . .

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.

 

– Cruz e Souza (1861-1898)

* a fotografia que ilustra esse post foi colhida da internet e tem autoria desconhecida; informe se souber.

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verdades e mentiras sobre o camaleão

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O camaleão só nasce em dia de arco-íris

À noite todos os camaleões são pardos

Camaleão encanta quando vê borboleta e quando vê bruxa, apaga

É possível fazer um camaleão só com massinha verde

Camaleão muda de cor até sonhando.

 

*do livro “Lápis Encantado”, Leo Cunha e Graça Lima, ed. Quinteto, 2006.

a-ver-livros: 432

Já somos tão pouco
de repente menos ainda
um dia nada
meia dúzia de ossos presos
no tecido com que embrulhámos
a memória
um cheiro vago a terra
estrumada a dias vividos
meio litro de lágrimas
uma flor ou outra

O que fica de ti é isto que sou,
sal, pedra, fogo,
abençoada a nesga de sol
que me escondeu
o olhar

Ana Almeida

*este é um re-post da Ana Almeida, do blog de Portugal – Clube de Leitores. Esta conexão É giro!

Tenho mil irmãs para amar sem palavras – José Luís Peixoto

raquel

“Tenho mil irmãs para amar sem palavras.
Tenho aquela irmã que caminha encostada
às paredes e sem voz, tenho aquela irmã de
esperança, tenho aquela irmã que desfaz o
rosto quando chora. Tenho irmãs cobertas
pelo mármore de estátuas, reflectidas pela
água dos lagos. Tenho irmãs espalhadas por
jardins. Tenho mil irmãs que nasceram
antes de mim para que, quando eu nascesse,
tivesse uma cama de veludo. Agradeço com
amor a cada uma das minhas irmãs. São mil
e cada uma tem um rosto a envelhecer. As
minhas mil irmãs são mil mães que tenho.
Os olhos das minhas irmãs seguem-me com
bondade e, quando não me compreendem,
é porque eu próprio não me compreendo.
Tenho mil irmãs a esperar-me sempre, com
silêncio para ouvir-me e para proteger-me
no inverno. Tenho aquela irmã que é uma
menina que sai de casa cedo para chegar cedo
à escola e tenho aquela irmã que é uma
menina que sai de casa cedo para chegar cedo
à escola. Tenho irmãs como música, como
música. Tenho mil irmãs feitas de branco.
Eu sou o irmão de todas elas. Sou o guardião
permanente e incansável do seu sossego.
Eu tenho de ser feliz pelas minhas irmãs.
Eu tenho de ser feliz pelas minhas irmãs.”

José Luís Peixoto, in Gaveta de Papéis

Ana Hatherly, Saber

Saber
saber
é saber saber-te
sabermo-nos unir
unirmo-nos
é conhecermo-nos
sabermos ser
por fim sermos
é sabermos
sabermo-nos
conhecermos
a surda áspide

*Ana Hatherly, em “Um Calculador de Improbabilidades”
escolhido por Soraya Semenzato

*este é um re-post da Rodrigo Ferrão, do blog de Portugal – Clube de Leitores. Esta conexão É giro!

PARA QUE LOS OJOS

ilustra por Gabriel Pacheco

Ojos para ver
pasar la vida
por la avenida,
ojos solos
con antenas
de pestanas,

ojos con persianas
que se cierran
a su puro antojo
y no dejan ver
pasar la vida
por la avenida,

ojos coronados
por cejas
de sorpresa,
ojos y ojeras
que no descansan

si la vida pasa de frente
tan de repente,

ojos lluviosos
en tardes de enojo
o de tristeza,

ojos que no ven
sino a travez
de otros ojos:
los anteojos,

que apenas dejan
– de reojo-
mirar pasar
la vida
por la avenida

 

– por Francisco Hinojosa –

Olhos para ver
passar a vida
pela avenida,
olhos somente
com antenas
de pestanas,

olhos com persianas
que se fecham
por vontade própria
e não deixam ver
passar a vida
pela avenida,

olhos coroados
por sobrancelhas
de surpresa,
olhos e olheras
que não descansam

se a vida passa de frente
tão de repente,

olhos chuvosos
em tardes de incômodo
ou de tristeza,

olhos que não veem
se não através
de outros olhos:
os anteolhos,

que apenas deixam
– de relance-
ver passar
a vida
pela avenida

 

–  tradução por Penélope Martins –

 

a-ver-livros: 432

Já somos tão pouco
de repente menos ainda
um dia nada
meia dúzia de ossos presos
no tecido com que embrulhámos
a memória
um cheiro vago a terra
estrumada a dias vividos
meio litro de lágrimas
uma flor ou outra

O que fica de ti é isto que sou,
sal, pedra, fogo,
abençoada a nesga de sol
que me escondeu
o olhar

Ana Almeida

*AA é do Clube de Leitores, nossa ponte para Portugal