Nacos de Nuvem, Maiakóvski

A série Playing with Clouds (Brincando com Nuvens), do fotógrafo Elio Pallard.

No céu flutuavam trapos
de nuvem – quatro farrapos:

do primeiro ao terceiro – gente;
o quarto – um camelo errante.

A ele, levado pelo instinto,
no caminho junta-se um quinto.

Do seio azul do céu, pé-ante-
pé, se desgarra um elefante.

Um sexto salta – parece.
Susto: o grupo desaparece.

E em seu rastro agora se estafa
o sol – amarela girafa.

1917-18
(Tradução de Augusto dos Campos)

Os homens ocos*, de T.S.Eliot

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam – se o fazem – não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

– * primeira parte, com tradução de Ivan Junqueira.

Círculo Vicioso

machado de assis

Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
“Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!”
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

“Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela”
Mas a lua, fitando o sol com azedume:

“Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume”!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

“Pesa-me esta brilhante auréola de nume…
Enfara-me esta luz e desmedida umbela…
Por que não nasci eu um simples vagalume?”

–    Machado de Assis    –

Sempre acabo tomando o caminho errado

que falta me faz um mapa

que me levasse pela mão

– fotografia de autoria desconhecida –

* poema colhido do capítulo ” Cartografias”, do “O livro das semelhanças”, de Ana Martins Marques.

São Paulo: Editora Companhia das Letras.

Alguns Animais

Era o crepúsculo do iguana.

Da arcoirisada rosácea
sua língua como um dardo
fundia-se na verdura,
o formigueiro monacal pisava
com melodioso pé a selva,
o guanaco* fino como o oxigênio
nas largas alturas pardas
ia calçando botas de ouro,
enquanto a lhama abria cândidos
olhos na delicadeza
do mundo cheio de rocio.
Os macacos trançavam um fio
interminavelmente erótico
nas ribeiras da aurora,
derrubando muros de pólen
e espantando o voo violeta
das borboletas de Muzo. **
Era a noite dos jacarés,
a noite pura e pululante
dos focinhos saindo do lodo,
e dos lamaçais sonolentos
um ruído opaco de armaduras
retornava à origem terrestre.

O jaguar tocava as folhas
com a sua ausência fosforescente,
o puma corre nas ramagens
como o fogo devorador
enquanto ardem nele os olhos
alcoólicos da selva.
Os texugos coçam os pés
do rio, farejam o ninho
cuja delícia palpitante
atacaram com dentes rubros.

E no fundo da água magma,
como o círculo da terra,
está a sucuri gigante
coberta de barros rituais,
devoradora e religiosa.

– Pablo Neruda –

(Tradução por Paulo Mendes Campos)

* Guanaco: espécia de lhama americana.
** Muzo: município da Colômbia em cujos arredores abundam borboletas e outros insetos de rara beleza.

Via Láctea, de Olavo Bilac

Noite estrelada sobe o Ródano , 1888, Vincent Van Gogh.

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.

– Olavo Bilac –

Pássaro, de Cecília Meireles

Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.

Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.

Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.

Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.

um farol não é só um farol

um farol é antes uma luz que

navega os teus olhos e

faz chorar um punhado de sal

dentro de mim.

e isso, de serem teus olhos

um punhado de sal,

isso é um poema.

– Penélope Martins –

Anita Malfatti (1889-1964)

A Poesia Vai Acabar, de Manuel António Pina

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?»    E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —

Manuel António Pina, in “Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde”

albininha despintada

albina

albininha despintada chegou para morar no bairro.

seus olhos são pedras d’água. já viu a cor dos seus cabelos?

gosta de vestir camisa branca, saia branca rodada também.

onde já se viu, essa menina cor de lua

toda vestida de bruma, pensando montes de névoas

desfilando entre nós, os coloridos pobres mortais.

– texto de Penélope Martins

para ilustra de Bárbara de Carvalho –

Balõezinhos, de Manuel Bandeira

fotografia de autoria desconhecida. quem souber, favor informar.

Na feira do arrabaldezinho
Um homem loquaz apregoa balõezinhos de cor:
— “O melhor divertimento para as crianças!”
Em redor dele há um ajuntamento de menininhos pobres,
Fitando com olhos muito redondos os grandes balõezinhos muito redondos.

No entanto a feira burburinha.
Vão chegando as burguesinhas pobres,
E as criadas das burguesinhas ricas,
E mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza.

Nas bancas de peixe,
Nas barraquinhas de cereais,
Junto às cestas de hortaliças
O tostão é regateado com acrimônia.

Os meninos pobres não vêem as ervilhas tenras,
Os tomatinhos vermelhos,
Nem as frutas,
Nem nada.

Sente-se bem que para eles ali na feira os balõezinhos de cor são a única mercadoria útil e verdadeiramente indispensável.

O vendedor infatigável apregoa:
— “O melhor divertimento para as crianças!”
E em torno do homem loquaz os menininhos pobres fazem um círculo inamovível de desejo e espanto.