abc da água

“Novembro de 2012. Estava de acompanhante no hospital São Camilo onde meu companheiro de vida e poesia, o poeta José Santos fora internado às pressas para a retirada da vesícula. Na solidão daqueles corredores leio uma mensagem do meu querido amigo o fotógrafo Fernando Cohen. Ele me manda a dissertação de um certo Cassiano. Leio ao lado da cama do José, começo a ler em voz alta tamanho é o meu encantamento. Isso distrai meu companheiro cheio de dor e a mim provoca um desaguar de palavras.

Há muito queria escrever sobre a água, minha paixão desde pequena. Saia do mar, da piscina, quase no chicote. Tenho um tímpano de vaca, perfurei ele com tanta água que entrou. Não limite com esse brinquedo foi o que me ensinou a ser flexível com as pessoas. Ouço em baixo volume o que me falam. Quando ficar velhinha, serei daquelas que fica perguntando: o que?

O que escuto, compenso com a voz que nasce no meu coração e deságua palavras no mundo.

E assim,quando ouvi que no ano de 2013 eu viajaria o ano inteiro para ministrar aulas em Alagoas, meu coração se abriu na palavra ‘A Lagoas’. Um disparo nasceu. No primeiro embarque, dentro do avião eu já estava tomada por frases inspiradas no que vi naquela tese que chegou às minhas mãos no hospital. O dicionário de humor infantil do Pedro Bloch -que era estudo do Cassiano – trouxe o jeito que eu queria falar dela, a água. José tinha esse livro e me emprestou. Não consigo devolver a ele e carrego sempre comigo. Virou minha bíblia. E Alagoas meu altar de águas tão verdes, de um verde que só existe lá.

Eu me apaixonei por Alagoas e meus alunos e toda gente que conheci junto com Sandra Cordeiro, minha companheira do curso Brincar, onde encontrávamos 80 educadores da rede publica de todo estado.

A cada viagem, pesquisávamos muitas cidades e artesãos que fazem a cultura alagoana tão expressiva. Vimos, navegamos e nadamos no São Francisco, mesmo com tristeza sua hoje pouca água. Conhecemos o barqueiro Rureis, perguntei dos seus brinquedos de infância e ali mesmo, na beira do rio com seu facão, fez e colheu a Ingá. Nasceu um barquinho, dei R$10,00 a ele pela alegria que ele fez desaguar. Ele não acreditou no que fez a na turista louca com cara de galega. Ficamos amigos, as vezes ligo para ele. Para matar saudade das histórias fantásticas que ele contou do São Francisco.

Histórias de rio eu escuto navegando com barqueiros desde 1986, quando viajei 40 dias pela Amazônia e soube o que era a frase da Lina Bo Bardi, minha sempre fonte de inspiração: O Brasil é um país-rio.

Já estive em muitos rios deste pais. Em toda cidade que sou convidada a trabalhar, dou um jeito de entrar em suas águas. Rio Madeira, Xingu, Solimões, Amazonas, Negro, tantos outros que não lembro o nome. Amo meu país e falar de suas águas é meu jeito de dizer esse amor. ”

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Na segunda-feira passada, pedi que Selma Maria me contasse quando nasceu a ideia de fazer o livro ABC da Água. Selma com sua espontaneidade de gente que não sabe viver pela metade, já me respondeu assim, de pronto, com tudo ali: passado colhido em margem de rio, presente com lago, um futuro a mar…

Não resisti e reproduzi a resposta dela aqui para que todos pudessem beber dessa mulher fonte inesgotável de poesia.

O ABC da Água, como os outros livros da poeta, convida o leitor a brincar com a palavra que nunca diz só que aparentemente desenha. Selma é poeta do pode ser tudo isso e tantas outras coisas que a gente um dia quiser. Uma poesia que abre as fronteiras do pensamento.

O relato da poeta ao meu questionamento sobre o nascer do livro, dispensa qualquer coisa que eu possa complementar sobre o trabalho dela, sobre sua escrita, sobre suas obras.

Selma Maria Kuasne é água.

Junto dela, os desenhos no livro espumam a cativante linguagem visual de Nina Anderson, filha da poeta. Quem quiser saber mais sobre os desenhos, é só passear no site de Nina Anderson.

A editora do ABC da Água é a Panda Books, de São Paulo. São Paulo do Rio Tietê. São Paulo da Cantareira. São Paulo de um ABC que hoje espera ter mais – e melhor – vida de água, água de vida.

uma pergunta tão delicada

Dá dor de barriga. Dá vontade de chorar e rir feito bobo também. Dá mal jeito nas pernas, os joelhos ficam amolecidos no cada passo antes de encontrar com alguém. Dá cambalhota na cabeça. Dá esperança sem fim. Dá tanta coisa que a gente não entende como acontece tudo ao mesmo tempo.

“Todos escalaram até o topo da pequena colina, como faziam todos os anos.

O elefante estava sentado e tinha uma pergunta delicada a fazer.”

Sabe, é estranho quando alguém tem uma pergunta delicada para fazer. Uma pergunta delicada já se sabe sem resposta.

Um dia meu filho também me perguntou coisa assim. Lembro bem da carinha dele. Pobrezinho. Tão novo. Será que ele daria conta daquela montanha russa?

– Mãe, como a gente sabe que está apaixonado?

Doeu minha barriga. Deu piripaque na minha garganta, um fogo correu meu estômago. Deu moleza. Deu preguiça. Deu mal jeito nas costas. Deu vontade de chorar.

Também o elefante tinha uma pergunta delicada para fazer. Naquele dia, a formiga pensou que seria sua oportunidade de progredir na vida, afinal de contas, ela anotaria tudo e diria as coisas que se diz quando presidimos uma reunião. O oficial presidente, senhor tartaruga, não podia estar presente; ele cuidava de sua esposa doente.

A formiga estava radiante, todos prestariam atenção nela. Ela até se arrumou com um par de óculos para garantir a seriedade de cada pronunciamento. Mas a conversa que seguiu à pergunta delicada do elefante, não agradou em nada a formiga.

O mar dizendo que quando cansa, seu amor lhe dá um empurrãozinho. As nuvens suspirando um flutuar juntas mesmo depois de uma discussão, com direito a relâmpagos e trovões. E a maçã corando ao ver seu amor.

Ainda teve criança que recordou poemas, e que, apressadamente, a formiga interrompeu de serem ditos. Deixasse vir um poema, logo viria outro, a reunião não teria fim.

Ao final do dia, todos regressaram sem resposta para a pergunta tão delicada. O elefante, agradecido, foi o primeiro a ir andando.

A formiga achou aquilo tudo um absurdo. Devolveu as anotações para o senhor tartaruga e voltou sozinha para casa. Tão sozinha que lhe doía a barriga.

A história do elefante que nos conta é Leen Van Den Berg, em UMA PERGUNTA TÃO DELICADA”, com belíssimas ilustrações de Kaatje Vermeire. O livro, traduzido por Cristiano Zwiesele do Amaral, leva o selo da editora paulista Pulo do Gato.

Quando meu filho me perguntou como ele saberia se estava apaixonado, engraçado, lembrei dos dias de prova e daquelas apresentações teatrais – que eu levava muito a sério – que sempre me metiam em dores de fracasso, ainda que os momentos fossem igualmente felizes.

O amor é tudo isso, tal e qual os versos do poeta, Carlos Drummond de Andrade, quando segue o amor que pulou o muro e já está em tempo de estrepar… e já se vê o sangue.

“Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender…”

Para cada pergunta delicada, um monte de outras perguntas tecemos e todas as (im)possíveis respostas que colecionamos vale menos do que sentir.

Vovô não gosta de Gelatina (Será?)

“Acho que pisei em terreno fértil. Ainda bem criança, eu vivia na Biblioteca Pública Monteiro Lobato em São Bernardo do Campo, minha cidade natal. Cedo, conheci Alice, de Lewis Carroll, e o mundo brasileiro e fantástico de Francisco Marins. Cuidei da minha semente com mais livros, música, filmes e arte. No colégio Maria Iracema Munhoz, no coração da Praça Lauro Gomes, comecei a inventar minhas primeiras histórias. Fui para o mundo e fiz um montão de coisas: atuei e cantei. Passei a amar o teatro. Criei algumas peças e programas de TV. Trabalhei em rádio e, pelos caminhos da vida, acabei encontrando a escritora Eliana Martins, que me convidou para escrever um livro com ela. Aceitei e, desde então, meu ofício principal passou a ser o de contador de histórias.”

Compartilho com Manuel Filho não só o amor pelas histórias, como as aventuras na Biblioteca Pública Monteiro Lobato, em São Bernardo do Campo.

Eu tive a sorte de ter a Tia Maria no Colégio São José, dona de uma livraria simpática de nome Corujinha que, entre outros carinhos, me adotou como leitora experimental. Aquilo que eu não podia comprar, eu lia na loja, antes de voltar pra casa. Eu era pequena para caminhar sozinha pela Cidade, tinha por volta de uns sete anos, mas Tia Maria já me contava sobre a Biblioteca Municipal, um lugar onde se pode ler tudo que quiser, sem precisar comprar os livros. Eu achava a ideia muito revolucionária.

Tal e qual, Manuel Filho, me tornei frequentadora da Biblioteca. Faz muitos anos que não coloco meus pés lá…

Talvez nos falte disciplina para cultivar amor pela nossa gente, nas nossas cidades, nossas histórias.

“Produzir um livro exige bastante disciplina e boa dose de paciência. É uma luta entre o prazer e o grande esforço. Já ganhei alguns prêmios, entre eles, o Jabuti, em 2008 (NO CORAÇÃO DA AMAZÔNIA). Escrever é reescrever e reescrever.”

Escrever e reescrever. A vida nos convida a este exercício. Em algum momento a gente assiste a uma cena que, no futuro, estaremos aptos a protagonizar. Aptos? Nem sempre com aptidão no sentido de habilidade, mas como encontro, uma escola contínua de aprender a ser na presença do outro.

Um dia convidei Manuel para um café em minha casa. Trocamos segredinhos simpáticos e livros. Presenteei Manuel com meu menino que não queria cortar o cabelo e, sem piolhos, Manuel me deu seu Vovô.

Vovô não gosta de gelatina começa com um grupo de amigos que se reunem para abraçar o cinema que vai fechar. Logo na porta do imóvel abandonado, um dos avôs expressa o longo tempo que ficou sem visitar o lugar. “Sim, foi por isso que faliu”, o outro comenta.

Isso me fez lembrar minhas poucas visitas às Bibliotecas Públicas. Tudo bem, elas não precisam do meu dinheiro para comprar os livros que ali são de graça. Mas não existe uma Biblioteca sem gente, sem leitores, sem encontros…

“Várias coisas legais acontecem na vida de um escritor, uma delas é o encontro com os leitores. É um momento de troca, de aprendizagem e de escutar todos os comentários com carinho. Frequentemente me perguntam qual é o meu favorito dentre os mais de quarenta que já escrevi. A resposta é sempre a mesma: não sei. Todos são, de fato, filhos desejados. De qualquer forma, vou citar um caso.  Quando eu era menino, lia frequentemente os títulos da série Vaga-lume, editora Ática. Se alguém me contasse que, um dia, um exemplar criado por mim faria parte dela, eu daria uma grande risada. E isso aconteceu logo na minha primeira publicação individual: O OURO DO FANTASMA. Tenho muito orgulho disso.”

Vovô não gosta de gelatina é desses livros que nos trazem a sensação de ter o autor ali, contando a história, conversando com a gente. A história começa com simplicidade de ambiente familiar e acaba por amarrar o leitor numa sútil trama de física quântica. E os ponteiros de um velho relógio… O tempo que é, por vezes já foi.

Manuel Filho me fez lembrar do cine Hawaí, da minha relação com a Biblioteca Municipal da Cidade onde eu morava quando criança, até da rua do meu antigo colégio e as pessoas todas que me acompanharam naquele tempo. Você também teve um cinema de rua predileto? E uma biblioteca?

sala restaurada do Cine Marabá, no Centro de São Paulo

Agora, Manuel está finalizando outro livro sobre a história dos bancos da Praça Lauro Gomes, certamente será outro filhote querido do autor.

Quem quiser saber mais sobre Manuel Filho, pode passear no site: http://manuelfilho.wix.com/manuel-filho, também pode procurar pelos livros nas bibliotecas e livrarias. Alguns títulos são  A MENINA QUE PERDEU O TREM, Editora Besouro Box, SENSOR, O GAME, Editora do Brasil, DESATANDO OS NÓS, Melhoramentos, DESAFIO NAS MISSÕES, Saraiva, ALÉM DA PAREDE MÁGICA, Editora Baobá, e, claro, o delicioso VOVÔ NÃO GOSTA DE GELATINA, com selo da editora Panda Books.

E pra juntar livro, cinema, gelatina, vovô contador de histórias, um filme convida para a história:

O mar que banha a ilha de Goré

Mais uma vez, Kiusam de Oliveira entoa canções para os corações dos pequenos viajantes deste Mundo.

Em ‘O mar que banha a ilha de Goré’, a menina Kika parte para a Ilha de Goré, na direção de Dakar, a capital da República do Senegal, lugar que, no passado, serviu como entreposto no comércio ilegal de africanos escravizados para o Brasil.

Kika fará o caminho inverso: uma busca ao passado, uma visita ao cenário que causou imenso sofrimento e ainda reflete sinais.

Durante a viagem, Kika  tem a companhia da Mãe Mar, a voz que conta a história dos seus filhos acorrentados. E Kika vai reconhecendo a si mesma na história do seu povo.

A autora do texto, Kiusam de Oliveira, mantém narrativa contundente sem afastar a doçura. O ambiente fica semeado por velhas histórias que afastam as sombras da ignorância para trazer o diálogo entre as culturas, valorizar nosso poder de reflexão e apostar na reconstrução das relações a partir do conhecimento.

A autora das imagens, Taisa Borges, desperta nosso olhar com grafismos e cores que compõem o legado africano e que expressam sem dúvida alguma o imagético brasileiro, capturando na obra o entrelaçar íntimo das culturas.

O mar que banha a ilha de Goré leva o selo da Editora Peirópolis de São Paulo.

No ano passado, contei para uma turma de crianças outra história das mesmas autoras, O mundo no black power de Tayó. Durante a narração, alguém expressou que o nariz da menina Tayó era ‘feio’ demais. Parei a narração para tentar perguntar aonde estava o feio, mas, antes de mim e com olhos atentos no amigo, outra criança disse:

– Feio é achar que tudo igual é que é bonito. Tayó é linda, o nariz grande dela é lindo e o black power é lindo, anos 70. Eu sei tudo sobre black power porque minha mãe me contou.

De repente, as crianças foram levadas para outros rumos da história. Quase não terminamos o livro, mas é certo que começamos algo…

Kika, personagem de O mar que que banha a ilha de Goré, certamente trará novos pensamentos sobre velhos assuntos. Velhos assuntos ainda cercados de velhas manias que carecem de vozes contundentes e doces para melhor contar a história.

Para quem não conhece, Kiusam de Oliveira é professora de danças afro-brasileiras, coreógrafa, pedagoga com habilitações em Orientação Educacional, Administração Escolar e Deficiência Intelectual e também doutora em Educação e mestre em Psicologia pela Universidade de São Paulo.

Para quem deseja saber mais sobre a autora das imagens do livro em outros trabalhos surpreendentes, pode aproveitar o dia e mergulhar no site de Taisa Borges.

subversivo carnaval

Quando eu era menina, junto das meninas do bairro, brincava de ser outra. Minha amiga era a típica mulher maravilha: esperta, alta, forte e com longos cabelos negros. Eu não me encaixava na força, nos quadris, nem nos cabelos negros. Também não queria ser boazinha.

Minha mãe tinha um par de luvas com pontinhas que pareciam garras. Eu vestia as luvas e calçava as botas de salto alto. É claro que minha mãe não sabia, não até que eu partisse os saltos da bota. Lembro que foi bem difícil superarmos o episódio.

Mas, enfim, eram essas as pequenas subversões artísticas da mulher gato.

A menina loirinha não quer ser a fada madrinha?

Não, minha gente, a menina quer ser vilã, e não aceita não como resposta.

Meu filho passou bem uns quatro anos se vestindo de homem aranha. Era uma baita economia de roupas. As vezes, o pai dele ralhava comigo.

– Parece que esse menino não tem mais nada pra vestir.

E eu respondia, perguntando:

– Você não vai querer seu filho vestido de homem aranha aos 30 anos, atirando teias nas pessoas durante as filas de supermercado. Ou vai?

André era super herói, afinal. Estávamos a salvo.

Pensando bem, Aranha é mais um daqueles heróis incompreendidos que adotam o anonimato e vivem enfrentando problemas com os tiras. Mais um subversivo na família.

Esta semana foi a vez da Clara se rebelar (mais um pouco, para quem a conhece).

– Mãe, quero uma fantasia de gata, todinha preta.

Se filho de peixe, peixinho é, imagino que a filha da mulher gato salte 7 andares por um prato de sardinhas frescas.

Não encontrei a fantasia completa, tivemos que recorrer às adaptações. Com tiara de orelhas, rabo, colant preto, sandalinhas mais charmosas do que botas de vovó, Clara vai subverter no bloco das princesas.

Minhas pesquisas, camelando por uma fantasia de gata para uma menina de 9 anos, resultou no seguinte: as meninas estão condenadas a viver como Bela, Cinderela, Sininho, Rapunzel, e uma outra do polo norte que quase não sabe como se portar nesse calor brasileiro. Sem contar na fantasia de Minnie Mouse.

Com sorte, algumas lojas sugerem vestidos de joaninha e abelinha. Combinam com o clima tropical. Melindrosas também retornam nessa época do ano. As garotas nem sabem o que é isso, nem suas mães.

Mas Clara gosta de gatos e gatos não gostam de marchinhas. A música de carnaval, qual será?

Olha, não me estranha nada passar o sábado inteiro ouvindo o Bruno Mars. Não precisa nem me espremer, confesso que canto junto com a filha. Se a gente não pode vencê-los…

Por via das dúvidas, tenho uma carta na manga: a tuba do Serafim.

Afinal, carnaval é subversivo, vale juntar pop, rock, fox trote e marchinha. Vale tudo pra brincar, de princesa, vilão, rei, bobo. Vale pular, dançar até ficar tonto.

Saudade

Era uma vez um Rei sábio que sabia tudo e falava todas as línguas.

O primeiro dia da semana, segunda-feira, é dedicado à Lua, por isso no espanhol a denominação Lunes.

Toda segunda-feira, o Rei lança um desafio. Qualquer pessoa pode se inscrever e, se for selecionada, pode fazer qualquer pergunta ao Rei.  Naquela segunda-feira em que começava a história, a vez era de um tal Fernando.

– Excelentíssima Excelência, queria saber o que é a “saudade”.

E o Rei se calou. E a corte ficou boquiaberta. O Rei sabia a resposta para todo tipo de pergunta, mas não sabia a resposta para a pergunta de Fernando.

Mandou o homem voltar depois de seis dias para ter a resposta.

Fernando vinha de uma cidade onde as calçadas têm desenhos em preto e branco, que, a medida que o tempo avança, vão mudando de forma. Fernando era um homem que usava terninho preto, uma gravatinha, um bigodinho, e uns óculos pequeninos. Fernando levava consigo uma pastinha, de onde tirava seu caderninho com dúvidas e perguntas…

A terça-feira é dedicada ao planeta Marte, por isso no francês se chama Mardi.

O Rei partiu à biblioteca. Começou pelos dicionários. Espanhol, francês, inglês, alemão e nada. Quase a perder o almoço, o Rei alcançou o dicionário de português.

Saudade. Saudade é saudade.

Como? Como se pode definir uma palavra com a mesma palavra?

Não, aquilo não ia bem. Na biblioteca estava só o Rei. Quase só, pois a pergunta era fantasma a repetir ‘quem sou’.

Na quarta-feira, dia dedicado ao planeta Mercúrio (por isso que no italiano se chama Mercoledí), os assessores da Coroa diziam que não poderiam definir a tal Saudade, mas tinham uma sugestão para o Rei sentisse o que é.

O Rei fez as malas. Deveria partir por um dia inteiro. Só poderia regressar ao palácio no dia seguinte, na mesma hora da partida.

O Rei se despediu da esposa com um beijo na boca, dos filhos com um beijo na testa, do cão com um beijo no focinho, e saiu pela mesma porta por onde, na segunda-feira, tinha surgido Fernando com a tal pergunta.

Frio da noite com o pouco agasalho, espirro, tosse e febre. Sim, febre. Saudade parecia ser febre.

O Rei voltou antes do horário combinado com a resposta, mas Fernando recusou, porque saudade não poderia ser denominada como febre, embora pudesse causar o mal.

Era quinta-feira, dia de Júpiter, por isso em romeno o dia é Joi.

A pergunta de Fernando não deixava o Rei em paz.

E veio a sexta-feira, a inquietação aumentava. Por sorte, a Rainha teve a ideia de ajudar o esposo na busca pelo significado de Saudade.

Sexta-feira é dia dedicado ao planeta Vênus. Vênus também é o nome romano para Afrodite, a deusa do amor. Talvez seja a sexta-feira o dia ideal para a Rainha exercer seu domínio sobre a questão que atormentava o seu querido marido.

Enfim. O sábado traz respostas infalíveis. Sábado em holandês é Zaterdag, porque é o dia dedicado ao planeta Saturno.

Sábado, o Rei acordou só. Levantou só, caminhou só, tomou só o seu desjejum que ele sozinho preparou. Não se ouviam as crianças pelos corredores do castelo. O cão tinha desaparecido. O som doce da voz da Rainha havia sumido.

Nesse momento, Fernando espreitou pela janela e o Rei pediu que ele não dissesse nada.

Diz uma lenda que a palavra saudade surgiu no período dos descobrimentos. Era uma definição para a solidão dos portugueses que estavam no Brasil longe de seu país e de seus familiares.

A melancolia se combinava a nostalgia, o saudoso só sabia que sentia saudades, muitas saudades de tudo como era, como hoje estava e no mais, aquilo que ainda poderia ter sido.

Domingo é o dia dedicado ao Sol, talvez seja perfeito para a folga semanal justamente pelo brilho do Astro nas nossas vidas. Dia para que nos aproximemos de tudo que nos faz bem, mesmo que a gente não sabia definir o que é, nem o porquê de assim ser.

A história do Rei sábio e sua mais sábia Rainha, está no livro especial de Claudio Hochman, SAUDADE, editado no Brasil pela Companhia das Letrinhas. Hochman é autor argentino que vive em Lisboa, desde 2002, sobre as calçadas branco e preto distantes demais dos casarios coloridos de Buenos Aires…

Para os saudosos, deixo uma prenda.

compartilhar leituras

O blog Toda Hora Tem História nasceu da ideia de compartilhar leituras pela internet, não só para propiciar a ampliação do acervo virtual que os leitores conectados podem e devem cultivar, mas, principalmente, para fortalecer os laços de afeto entre leitor e livro.

Toda quinta-feira, escrevo uma coluna de histórias para o Jornal ABCD Maior que também é publicada no blog sob a categoria Gostar de Ler. É claro que o nome Gostar de Ler não foi escolhido por acaso. Quando eu era criança e leitora, lia e colecionava a coleção Para Gostar de Ler que trazia nomes como Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Fernando Sabino, Mário Quintana, Vinícius de Moraes e Cecília Meireles.

O leitor se forma na diversidade e, para minha felicidade, eu me formei entre os encartes dos discos de vinil, a coleção de livrinhos em edições econômicas de papel amarelado, as idas ao cinema, as rodas de histórias e violão.

Escrever o blog Toda Hora Tem História foi mexer nesse baú. Não, mexer não. Foi colocar o baú no meio da praça para todo mundo mexer e remexer, criando histórias a toda hora.

E como a praça é pública, outros baús aparecem para compartilhar suas leituras.

Esconderijos do Tempo, Estante de Letrinhas, e Garatujas Fantásticas são indispensáveis para quem pretende se aproximar de boas informações sobre o universo da leitura, além de ser garantida a diversão na forma como os redatores dos sites expõe suas ideias.

Também não ficam de fora da brincadeira autores como Alexandre de Castro Gomes, que mantém ativo Blogão, recheado de resenhas, entrevistas e dicas, e Nara Vidal, a escritora brasileira que reside em lá Londres ou lá longe, mas nos alimenta com mini contos e outras boas no seu Lugar Comum.

Temos até ponte de leituras que aproximam países geograficamente distante, como acontece no Toda Hora Tem História com as publicações Blog Clube de Leitores, directamente de Portugal.

Com essa ciranda de gente entusiasmada em ler junto, também está a Associação dos Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil, a AEILIJ, que publicou este mês um super anuário com livros de todo canto e todo tipo, a partir de sinopses dos próprios escritores e ilustradores associados à entidade. São mais de 160 livros para ler, cantar, entoar, brincar, espalhar pela casa e compartilhar com os amigos.

Quem editou o material foi o já citado Alex Gomes. O anuário recebeu capa de Maurício Veneza, ilustrações de Thais Linhares e Marcelo Pimentel; pode ser lido em revista virtual:

Um encanto!

Entre os títulos do anuário, está meu favorito futebol Folclore de Chuteiras, dos craques Alex Gomes e Visca, da Editora Peirópolis, a paisagem dos Poemas do Jardim, versos de Penélope Martins com desenhos de Tati Moes, da Editora Cortez, também ABCenário com textos de Leo Cunha nas ilustras de Alex Lutkus, da editora Autêntica

Agora é só clicar e viajar nas boas possibilidades de correr livrarias e bibliotecas atrás de uma bela história.

Mas não se esqueçam de voltar aqui na net para compartilhar com os blogs de leitura o que encontraram por aí.

Divirtam-se!