o medo de ter medo

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Eu sempre gostei de histórias de suspense e de terror.

Pera… Antes de falar de histórias há uma informação preciosa sobre minha infância. Eu tinha uma boneca descabelada por mim mesma que me metia medo, além de um poster, que minha mãe mandou fazer com uma fotografia minha, vestida de caipirinha, na frente de uma cortina cor vermelho sangue, que eu juro, por todos os seres sagrados e profanos, piscava e mexia o pescoço todas as noites.

Voltando, eu sempre gostei de histórias de suspense e de terror. Escolhi na prateleira da escola, O gênio do crime, de João Carlos Marinho, Eu, detetive, da Stella Carr, como companheiros de primeiras leituras. Junto com eles, claro que veio Drácula, de Bram Stocker, e Frankenstein, de Mary Shelley. Desde as primeiras seleções livreiras, eu tive a sorte de juntar a escrita de homens e das mulheres, autoria nacional e estrangeira, e isso certamente me formou como leitora que eu sou, aberta às variadas formas narrativas e com imenso interesse em expandir os horizontes sobre a linguagem.

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Mas não é só sobre isso que eu gostaria de falar aqui, ou é, também.

O medo me fascinava enquanto sentimento paralisante e desafiador, quando eu era criança. Lembro o dia de uma prova de olimpíada de matemática que eu, essa pessoa hoje das letras, estava selecionada para competir. Uma dor de barriga me petrificou na frente da escola e quase me matava. Falei pra minha mãe que eu não conseguia respirar. Tive que me investigar a sério naquele momento, com a ajuda da pedagogia de minha mãe, que não era das mais afáveis. O medo era de errar, o medo era de ser desclassificada na frente dos meus amigos. A final das olimpíadas era com dois garotos com os quais competi mais duas finais nos anos posteriores, um deles, um menino japonês com a fama ou o estigma de ser superior na arte exata de calcular. O outro era o Zé, que virou comediante, outra história. Morri na frente da minha mãe e ressuscitei, porque ela me empurrou pra fora do carro e me botou na vida sem dó. Minha mãe tinha várias facetas de bruxa má, outras de bruxa boa.

Senti medo. Eu sinto medo. Tive medo quando meu médico me falou, aos 13 anos, que eu teria que retirar um tumor do tamanho de uma laranja que crescia dentro da minha barriga. Ficou tudo bem no final, a palavra era substantivo feminino, benigna, mas o corte foi profundo, a recuperação foi dolorosa e vieram consequências. Passei pelo esfaqueamento, corri de mim zumbi, e aqui estou, quase com 46 anos.

Durante a recuperação daquela primeira cirurgia – olha só o que eu me lembrei agora – li um livro pesado, Christiane F. Sim, aos 13 anos. Meu argumento com a mãe foi dizer que se a história se passava com uma menina com a mesma idade, eu aguentaria. Minha mãe deixou numa faceta de bruxa boa, mas talvez com risada de bruxa má… Antes ela leu o livro, pra conversar comigo sobre a história. Foi dos livros mais importantes da minha vida. Passei a respeitar a dependência química, olhar os monstros internos com atenção, e ver o ser humano como um bicho frágil e, ao mesmo, imensamente corajoso. Fiquei impressionada como aquela menina do livro vencia o medo. E eu sentia medo por ela; queria que ela se livrasse daquele emaranhado de horror.

Adulta, descobri algo sobre esterilidade. Tive que ouvir coisas terríveis de mulheres que me consolavam sobre o ‘defeito’ em não poder ser mãe. Uma delas chegou a dizer que era esquisito alguém tão bonita por fora, como eu, ser defeituosa por dentro. Tive medo de ser uma mulher como aquela que me retalhava com palavras, e voltei a ser um Frankenstein, naqueles dias, tratado pela faca, ressurgido de um tumor, costurado às suas penas. Foi triste, confesso. Triste perceber que ser mulher, para algumas pessoas, era uma condição de parir.

Anos depois, eu aqui, com dois filhos, ainda consolo mulheres que me dizem não poder ser mãe. Todo mundo pode, meu bem, tem que ver se é o que se quer. Porque também tem o medo de não querer, e de ser julgada por isso. No mais, quero dizer que os filhos são anjos e bestas. Eles tiram o melhor e o pior da gente. Quebra-se o mito da perfeição, do amor incondicional, da lisura materna. É essa a grande bruxaria da vida.

Por conta disso tudo, e mais um monte de histórias, sigo apreciadora das narrativas de pânico, terror, sombras, desilusão, desamparo, medo. Meus filhos comigo assistem filmes, leem livros, contam histórias, e, juntos, rimos dessa condição abismal da nossa espécie, ser bicho frágil e potencialmente de pura coragem.

Recentemente, uma polêmica sobre ler ou não histórias de bruxas e outros seres assombrosos para crianças me fez pensar em compartilhar minha experiência levando em consideração a nossa cultura, nosso jeito de pensar… Bom, só há um jeito de viver: sendo pego de surpresa pela dor, ou se preparando para enfrentá-la. Eu escolho a segunda. Por isso, escolho ler quem pensa o medo na minha cultura, com a diversidade de simbologia que forma o meu país; isso tudo está no meu imaginário e conversa comigo e me identifica enquanto sujeitinha pensante. De que me adianta ler somente os russos ou os ingleses se eles não carregam intimidade com o barulho do samba, nem tem em mente a beleza do golpe de capoeira, tão pouco eles compreenderiam esse amor que temos pela língua que massacrou, ao se instalar oficial, liquidando tantas outras línguas e culturas… As bruxas, é nossas são tipicamente sulamericanas e com elas que devemos nos entender.

Já tive oportunidade de ver uma criança pedir para eu parar a narração de histórias quando o lobo apareceu para pegar sua vítima. A mãe, numa atitude de bruxa boa, fechou os ouvidos do menino. Eu parei, fiz a bruxa má, disse: – Menino, esse lobo é de mentira, só existiu nessa história e você tá aqui vivo e forte. Ele secou as lágrimas e ouviu até o final. Ficamos todos bem. Vivos, e mais experientes.

Então, se é que eu posso dar um conselho sobre a leitura na vida, digo: enriqueça suas viagens em narrativas lúdicas de humor, de amor, de terror, de desamparo, de solidão, de recomeço. Misture na escolha a autoria de autores com origens e gêneros diversos, porque cada qual vê o mundo e permeia relações sociais a partir do que é, e a empatia nasce de admiração dessas variadas pessoas e de nossa identificação com elas.

No mais, saibam que o carnaval é uma festa pagã que foi batizada pelo cristianismo como tempo do diabo solto; e o diabo, minha gente, é a ignorância.

Ilumine-mo-nos, pois, com glitter e histórias.

*

Agora, com um olho na mão e outro no meio da testa, faço a lista dos primeiros 13 que lembrei, esse número de sorte, e minha gata, Nina Simone, que está dormindo debaixo da escada enquanto eu mando essas dicas, mia pro além como se visse espírito. Ela vê. E, pensando num carnaval que passei em Paranapiacaba, relembro A menina que perdeu o trem, de Manuel Filho (Besouro Box), frio na espinha. Recomendo que apaguem a luz do abajour e deixem entrar a neblina… Pra já, esperta,

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de 13 na lista, eu saltei para o infinito… Toma que vai ser de arrepiar:Related image

  1. A Lenda do Batatão, de Marco Haurélio com ilustras de Jô de Oliveira, Editora Sesi;
  2. Sete histórias de gelar o sangue, de Antônio Schimeneck, Besouro Box;
  3. Contos de fadas sangrentos, de Rosana Rios com ilustras de Jean-claude Alphen, Farol Editorial;
  4. Medo? Eu, heim?, de Moreira de Acopiara, Editora Duna Dueto;
  5. Encontros folclóricos de Benito Folgaça, de Alexandre de Castro Gomes, Editora do Brasil;Image result for alex gomes de castro livro cemiterio
  6. Um esqueleto em quadrinhos, texto de Machado de Assis no desenho de Diego Molina e Márcio Koprowski, Editora Pulo do Gato;
  7. Histórias mal assombradas de Portugal e Espanha, e os demais livros que acompanham a coleção, de Adriano Messias, Editora Biruta;
  8. Fábulas ao anoitecer, de Georgette Silen, Giz Editorial;
  9. Sete histórias para sacudir o esqueleto, de Angela Lago, Cia das Letrinhas;
  10. Se eu abrir esta porta agora…, de Alexandre Rampazzo, Editora Sesi;
  11. Histórias do velho Nestor contando seus contos de horror, de Janine Rodrigues com ilustras de Fernanda Castanho, Editora Piraporiando;
  12. A caveira rolante, a mulher lesma, e outras histórias indígenas de assustar, de Daniel Munduruku com ilustras de Maurício Negro;
  13. Cidade dos deitados, de Heloisa Prieto, Coleção Ópera Urbana…Related image
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