Histórias de ninar para garotas rebeldes

 

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Uma das histórias de mulheres que mais me impressionou, ouvi de minha avó Laura. Aquilo ficou martelando durante a adolescência, mas acho que só depois de adulta é que fui entender a dimensão do estrago…

Minha avó foi uma das filhas de uma casamento entre um italiano e uma portuguesa da Ilha da Madeira. Enquanto o pai era super pra frentex, a ponto de levá-la para cantar no rádio aos 13 anos, a mãe se tornou uma exímia conservadora, chegou a bater na minha avó com um pedaço de madeira e cravar um prego em uma de suas pernas. (Minha avó sempre me mostrava a cicatriz.)

A bisavó perdeu o marido muito cedo e ficou só, com cinco filhas mulheres, na sina de criar todas para o bom casamento, longe das línguas ferinas que, vez por outra, falavam que o bolo ia desandar naquela casa onde uma viúva não tinha um homem pra botar pulso firme.

Não posso me queixar do meu avô. Era amoroso comigo, pelo menos. Foi ele quem me ensinou a escutar o rádio com atenção e valorizar cada verso dos cantadores de viola. Não é por acaso que tenho essa referência tão forte quando lido com o letramento pela oralidade. Acontece que  esse mesmo homem, ainda namorado da avó, foi culpado por múltiplas violências contra a minha avó e contra os filhos que tiveram juntos… Um dia, foi buscar a moça para um passeio e a encontrou com as unhas esmaltadas de vermelho.

– Vá tirar esse esmalte, Laura. Isso num é coisa de mulher direita.

Minha avó ficou indignada. Ela trabalhava desde muito cedo na fábrica das alpargatas. Tinha salário, tinha jeito com as pessoas. Laura poderia ter sido uma administradora tamanha era sua habilidade com a matemática e com a gestão de recursos (meu avô foi prova disso por décadas, enquanto ela controlava todos os gastos da casa no esmero de não dever pra ninguém, fazendo render os poucos bifes – quando havia bife).

A madrinha de Laura estava na casa, naquele dia fatídico do esmalte vermelho e da voz de comando.

– Obedece seu noivo, menina. O que custa tirar um esmalte?

Custou. Foram 54 anos de um casamento custoso. Minha avó não foi mais trabalhar fora de casa. Nunca mais ousou cores, nem opiniões. Quer dizer, nunca mais até completar os tais 54 anos de casada, no seu aniversário de 72 anos, quando ela fez a malinha de roupas e deixou pra trás a casa e o avô.

O vidro de acetona transformou Laura num coração agingantado batendo com todo esforço, e pouco ar nos pulmões.

Eu compreendi a dimensão da história só quando me despedi da minha avó. Ela tinha tudo para se tornar uma mulher rebelde no melhor sentido da palavra.

Vermelho é cor de vida, feito o sangue da gente.

(Hoje, insisto contar histórias que libertam minha filha.)

 

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