Olívia tem dois papais

O título do livro já diz, Olívia tem dois papais, e isso significa falar sobre relações humanas e formação de núcleos familiares.

Curiosamente, ouvi da própria autora, Márcia Leite, que algumas vezes, pessoas comentaram, sem ler, que devia ser uma beleza de livro tratar da vida familiar de Olívia que tinha o pai e um padrasto, por conta de novo casamento da mãe.

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Essa ‘conclusão brilhante’ fez com que eu me lembrasse de algumas outras histórias, uma delas com a minha incursão no mundo como mãe de uma criaturinha a quem tenho a chance de chamar de filho.

Cansei de responder perguntas indesejáveis de pessoas estranhas e outras nada íntimas sobre a origem dos meus filhos. O mais velho, por uma diferença nos traços e na cor da pele, foi vítima, junto comigo, de comentários alheios na feira, no mercado, na porta da escola. A aproximação sempre abismada, ‘nossa, como pode, uma mãe tão branca’, ‘o pai dele é negro, é?’, e daí pra mais, com minha vontade de aprender a sair da cena sem me igualar aos praticantes de ignorância.Image result for olivia tem dois papais

O episódio com Olívia, também me fez lembrar de uma questão trazida recentemente pelo meu filho, que cresceu e é politicamente engajado. Ele me contou que levou um problema de lógica para a sala de aula e que ninguém decifrou o mistério. Teria um menino sofrido um acidente terrível com seu pai, que morreu na hora. Levado para o hospital, os paramédicos pediram ajuda à chefia da cirurgia, mas a pessoa disse que não teria condições de operar o próprio filho.

Mais da metade da turma gritou com espanto, ‘mas o pai dele morreu’, enquanto a outra metade disse que ‘o menino só pode ser filho de um casal gay’. Ninguém sugeriu que a mãe do menino fosse a chefe da cirurgia.

Mundo, mundo, vasto mundo…

Olívia tem dois papais, e não tem mamãe. É isso mesmo. Olívia é uma menina que integra uma família formada por adoção onde dois homens assumem juntos a paternidade. Existem famílias com duas mamães, eu mesma sou madrinha de uma linda que foi adotada recentemente.

Qual o problema disso? Pra mim e para muitos, óbvio que nenhum problema – aliás, óbvio é uma palavra que Olívia gosta de usar (o vocabulário dela é excepcional) – mas pra muita gente, essas crianças são vítimas de um equívoco, de um absurdo de decisão judicial que concede a adoção para casais homoafetivos.

Para não rolar nenhum tipo de ciúmes, deixo claro, também tenho uma filha. Ela tem excelente vocabulário e a mesmíssima dose de opinião de Olívia, sabe meter a colher em qualquer cumbuca. Quando a pequena chegou em casa, imensa com seus 40 e poucos centímetros em dois quilos de perninhas e bracinhos que sambavam dentro dos macacões, muita gente lançou olhares de discriminação: ‘como pode alguém abandonar uma filha?’

Eu não abandonei ninguém, e a filha era minha. Tentava deixar isso claro. Quando não era possível, eu simplesmente repetia a história que aprendi e que me disseram ser um velho ditado indígena norte americano: “uma pessoa só pode te julgar, depois de andar as mesmas léguas trilhadas com os teus sapatos”.

Curiosamente – olha essa palavra aqui, de novo -, ninguém comenta que os pais abandonam mulheres grávidas que muitas vezes não desejam seguir a gravidez, sem terem opção legal que garanta esse direito sobre o próprio corpo, ou que não possuem estrutura alguma para criar uma criança. Ao final, as mulheres são ‘culpadas’ pelo abandono. Lastimável…

Minha filha também teve que enfrentar muito preconceito no colégio quando mostrou fotos de seu tempo de bebê. Ela foi chamada de coisas terríveis e a escola não agiu até que eu me manifestasse. Pena que custei a saber… Minha filha, antes de me contar, resolveu agir sozinha e foi advertida por isso.

Olívia é uma narrativa que pode nos ajudar a pensar a agressão do preconceito junto de nossas crianças. A história re-significa os cotidianos familiares, mostra que somos capazes de nos adaptar e de criar relações a partir do afeto, além de manter uma postura fortalecedora para que a criança tenha autoconfiança e amorosidade.

Muita boa conversa pode sair dessa leitura… Basta ter coragem para falar sobre núcleo familiar sem afastar as possibilidades múltiplas, como as relações monoparentais, homoafetivas, a filiação por adoção, a formação de irmandade por filiação de núcleos diferentes, e tantas outras possibilidades de amar nesse mundo.

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– Olívia tem dois papais, Márcia Leite, ilustrações de Taline Schubach, Companhia das Letrinhas – –

 

 

 

 

 

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