Enquanto houver poetas, o mundo tem salvação – Maria Teresa Horta

Uma longa entrevista dada por Maria Teresa Horta ao portaldaliteratura.

Deixo-vos um trecho.

“(…) O mundo de hoje é um mundo muito complexo, porque é um mundo muito desencantado. As pessoas olham com um olhar muito desencantado e eu tenho muita dificuldade em olhar para um olhar desencantado. É uma grande tendência para encontrar algo positivo sempre e ir atrás da luta. Eu tenho um passado de luta muito grande. Não só antifascista como tenho um passado de luta feminina. E um lutador nunca pode cair no desânimo. Eu sou tudo menos uma mulher depressiva. Não sou. A primeira coisa que eu faço ao chegar ao fundo é vir logo cá acima, nem dou por ter estado no fundo. Tenho uma grande tendência em tentar entender aquilo que de vez enquanto me é difícil de perceber.


E ao mesmo tempo que digo “que época horrível, que época estranha”, onde os valores não existem, onde o ideal praticamente está diluído no meio de uma grande violência, onde as pessoas já não acreditam em nada, onde os valores são os valores do dinheiro, disto e daquilo, mas depois eu acho que os poetas continuam neste mundo. E eu acredito que enquanto o poeta existir no mundo, o mundo está salvo. O poeta quer dizer o sonho. O poeta é o alquimista do futuro. E é o alquimista porquê? Porque tudo o que o poeta toca, não transforma em ouro, não, transforma em sonho. E enquanto o homem e a mulher sonharem, é possível viver. E isto não é só o que o Egídio Gonçalves dizia. É como poeta. Não, é verdade. O poeta transforma o mundo. Enquanto o homem tiver no seu seio e a mulher tiver no seio da sociedade o poeta, enquanto ele for um ser que existe, enquanto houver asa, enquanto houver possibilidade de se sonhar, há possibilidade de sobrevivência. Mas tem que se ter um grande cuidado. Agora você pergunta-me: «Como é que vê o mundo?» Com um olhar que eu considero sobre o perigo. Há um grande perigo que pesa neste momento sobre a humanidade. Há o grande perigo de realmente o grande poeta desaparecer. Do sonho, do ideal, do sentido da coerência, da dignidade, dos valores não serem só os valores monetários. Há valores muito mais importantes dentro de nós que temos que manter. Porque senão isto pode-se transformar num grande circo romano, onde os mais fracos são completamente aniquilados permanentemente pelos mais fortes. E isso é um grande perigo. Acho que a sociedade está neste momento numa época em que vive no perigo de uma grande fissura, em que na realidade os valores e o ideal estão a desaparecer… É preciso agarrar isso. Agora se você diz “completamente desencantada”, de maneira nenhuma, não sou uma mulher desencantada, para mim existe esperança, porque se não existisse esperança eu já não existia. Não, não pode ser. Nós todos temos que ter esperança. Faz parte do ser humano. Porque senão não é possível viver. Nós vivemos porque acreditamos.”

*este é um re-post da Rodrigo Ferrão, do blog de Portugal – Clube de Leitores. Esta conexão É giro!

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