Sapatos rotos, de Natália Ginzburg

 

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Tenho os sapatos rotos, e a amiga com quem vivo neste momento também tem os sapatos
rotos. Quando estamos juntas, falamos sempre de sapatos. Se lhe falo do tempo em que
serei uma escritora velha e famosa, ela logo me pergunta: “Com que sapatos?”. Então lhe
digo que terei sapatos de camurça verde, com uma grande fivela de ouro ao lado.

Pertenço a uma família em que todos têm sapatos sólidos e saudáveis. Aliás, minha mãe
teve até de fazer um armarinho só para guardar os sapatos, de tantos pares que tinha.
Quando volto para casa, soltam altos gritos de dor e indignação ao verem meus sapatos.
Mas sei que também se pode viver com sapatos rotos. No período alemão eu estava sozinha aqui, em Roma, e tinha apenas um par de sapatos. Se fosse levá-los ao sapateiro,
teria de passar dois ou três dias na cama, e isso não era possível. Assim continuei a usá-
los, e para piorar chovia, sentia que eles se desfaziam lentamente, moles e informes, e
sentia o frio do piso sob a planta dos pés. É por isso que ainda hoje uso sempre sapatos
rotos, porque me lembro daqueles, e então estes não me parecem tão ruins em
comparação, e se tenho dinheiro prefiro gastá-lo com outras coisas, porque os sapatos já
não me parecem algo de muito essencial. Fui mimada pela vida de antes, sempre cercada
de um afeto terno e atento, mas naquele ano aqui, em Roma, estive sozinha pela  rimeira vez, e por isso gosto tanto de Roma, apesar de carregada de história para mim, carregada de lembranças angustiantes, poucas horas alegres. Também minha amiga tem os sapatos rotos, e por isso estamos bem juntas. Minha amiga não tem ninguém que a reprove pelos sapatos que usa, tem apenas um irmão que vive no campo e circula com botas de caçador. Ela e eu sabemos o que ocorre quando chove, e as pernas estão nuas e olhadas, e nos sapatos entra água, e então há aquele pequeno rumor a cada passo, aquela espécie de chapinhar.

Minha amiga tem um rosto pálido e másculo, e fuma numa piteira preta. Quando a vi pela primeira vez, sentada a uma mesa, óculos com armação de tartaruga e rosto misterioso e altivo, com a piteira preta entre os dentes, pensei que parecia um general chinês. Na época eu não sabia que ela usava sapatos rotos. Soube mais tarde.

A gente se conheceu poucos meses atrás, mas é como se fosse há anos. Minha amiga não tem filhos; já eu tenho filhos, e para ela isso é estranho. Ela nunca os viu senão em fotografias, porque eles estão no interior com minha mãe, e isso para nós também é estranhíssimo, ou seja, que ela nunca tenha visto meus filhos. Em certo sentido, ela não tem problemas e pode ceder à tentação de jogar a própria vida aos cães; eu, ao contrário, não posso fazer isso. Meus filhos estão morando com minha mãe, e por enquanto não têm sapatos rotos. Mas como serão quando crescerem? Quero dizer: que sapatos terão na idade adulta? Que caminhos escolherão para seus passos? Preferirão excluir de seus
desejos tudo o que é agradável, mas não necessário, ou dirão que tudo é necessário e que
um homem tem o direito de ter nos pés sapatos sólidos e sadios?

Eu e minha amiga conversamos longamente sobre isso e também sobre como vai ser o mundo quando eu for uma velha escritora famosa e ela estiver girando o mundo com uma mochila nas costas, como um velho general chinês, e meus filhos seguirem seu caminho com sapatos sadios e sólidos nos pés e o passo firme de quem não renuncia, ou com sapatos rotos e o passo frouxo indolente de quem sabe o que não é necessário.

Às vezes combinamos casamentos entre meus filhos e os filhos do irmão dela, aquele que vagueia pelos campos com botas de caçador. Discorremos assim até noite alta, bebendo chá preto e amargo. Temos um colchão e uma cama, e toda noite tiramos no par ou ímpar quem de nós duas deve dormir na cama. De manhã, quando levantamos, nossos sapatos rotos nos esperam no tapete.

Minha amiga às vezes diz que está cheia de trabalhar e queria jogar a vida aos cães.
Queria se fechar num boteco e beber todas as suas economias, ou então enfiar-se na
cama e não pensar em mais nada, deixar que venham cortar a luz e o gás, deixar que tudo vá à deriva bem devagar. Diz que vai fazer isso quando eu for embora. Porque nossa vida em comum durará pouco, em breve vou partir e voltar para minha mãe e meus filhos, para uma casa onde não me será permitido andar de sapatos rotos. Minha mãe tomará conta de mim, me impedirá de usar alfinetes em vez de botões, de escrever até altas horas. E eu por minha vez tomarei conta de meus filhos, vencendo a tentação de jogar a vida aos cães. Voltarei a ser séria e maternal, como sempre acontece quando setou com eles, uma pessoa diferente de agora, uma pessoa que minha amiga desconhece inteiramente.

Vou olhar o relógio e controlar o tempo, vigilante e atenta a cada coisa, e cuidarei que
meus filhos tenham os pés sempre enxutos e aquecidos, porque sei que é assim que deve
ser sempre que possível, pelo menos na infância. Aliás, para aprender mais tarde a
caminhar com sapatos rotos talvez seja bom ter os pés enxutos e aquecidos quando se é
criança.
NATALIA GINZBURG, (1916-1991)

 

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