mamãe tem medo

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Quando eu era pequena, com longos cabelos pescoço bem fino, tinha muito medo, mesmo muito medo de vampiro. Na hora de dormir eu pedia para meu anjo de guarda ficar atento ao pé da minha cama. Minha mãe não era religiosa e, por isso, não existia nenhuma cruz na minha cabeceira – o que era um mal sinal pra mim… e bom para o vampiro. Lembro como eu enrolava os cabelos ao redor do pescoço. E pensava:  “ele pode até morder, mas vai comer cabelo antes de acertar a carne do meu pescoço”.

Minha mãe nunca me proibiu de ler histórias de terror ou de asssitir coisas horripilantes na tevê. Ela sabia, no entanto, que eu tinha um medo danado, mas muito medo danado  de vampiro.

– Vampiros não existem. – Alguém diria nessa hora, ou em qualquer outra hora que outro alguém revelasse que sente pavor causado por coisa que não existe.

–  Mas se o medo não é coisa de comer, nem coisa de vestir, o medo também não existe. E quem é que não tem medo de alguma coisa?

O fato é que cresci, fiquei alta e meu pescoço não é tão fino. Cortei os cabelos, quase nem penso em vampiro. Hoje, sou mãe de dois filhos e não me aborreço quando eles querem ler histórias tenebrosas ou assistir  filmes de monstros, zumbis, serras elétricas, serpentes devoradoras, sangue, gosma… Eu gosto de olhar de perto pro medo que essas histórias trazem. Eu gosto de fazer nascer coragem e de ter humor para rir do medo. Tem tanto medo que, no final das contas, num se aproxima em nada da realidade, não é?

Meus medos de hoje eu tento sarar com conversa. Principalmente medos de mãe, que são de uma espécie ruim – uma mãe nunca terá olhos suficientes, nem braços e nem pernas, para afastar os perigos que podem (ou que nunca poderão) atingir seus filhos.

O primeiro medo que tive com meu primeiro filho foi que ele não gostasse de mim. Que medo absurdo. Eu ficava olhando para aquela cara de bebê  e pensava que seria terrível se ele simplesmente não gostasse de mim. Mas e se ele não gostasse de mim?

– Você parecia uma velha toda enrugada e vermelha, um filhote de coruja amassado. Sorte ter olhinhos azuis, uma criaturinha tão feia… – Minha mãe me dizia isso sem nenhum constrangimento. Era uma piada? Para cada um dos meus irmãos ela tinha uma história desse tipo. Era uma piada.

Quando eu virei mãe, quis que meus filhos se sentissem bonitos. Mas não muito. O suficiente para se amarem. Sem exageros. Um tanto de esquisitice nos singulariza e nos recorda que a qualquer momento podemos ficar exageradamente feios. É preciso cuidar para não nos transformarmos em monstros, zumbis, ou até gostar de vampirizar outros pescoços.

Tenho tentado cuidar dos meus filhos. Minha mãe foi excelente nisso, embora eu tenha passado por algumas coisas ruins e sobrevivido. Também por causa disso administro meu medo de mãe – sentimento que diminui à medida que meus filhos crescem. O tempo na função de mãe me ensina que não tenho olhos suficientes, nem braços e nem pernas, para afastar os perigos que podem (ou que nunca poderão) atingir meus filhos.

No mais, muitas vezes nossas crianças sabem ser mais chatas do que pastel de camarão estragado. Dá nó na tripa de  nervoso (que vontade de comer esses cabritinhos com purê de maçã) (conte até três, se não resultar, conte outra vez).

É o que sempre digo, ser mãe é não ter medo de admitir que os filhos despertam o melhor da gente e  uma dose do pior, também.

 

* Se você quer mais história de medo de mãe e medo de filho, procure Mamãe tem medo, de Beatrice Masini e Alizera Goldouzian, com tradução de Márcia Leite, e selo da Editora Pulo do Gato.

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