a-ver-livros: O pai da ‘república das bananas’

Se adoro livros – e já sabemos que adoro – não posso negar que quase tanto prazer me dá também cruzar-me com uma imagem que me leva para o interior de uma história. Como estas fotos, singelas diga-se, de uma homenagem escultórica em três peças ao escritor O. Henry, pseudónimo de William Sydney Potter (1862-1910), algures numa zona verde da cidadezinha de Greensboro, sua terra natal, no estado norte-americano da Carolina do Norte. Um livro seu à escala humana, uma estátua do próprio e outra do cão que entrou em várias das suas histórias, tudo com assinatura de Maria J. Kirby-Smith.

Dele sabia pouco mais do que o nome, apenas a fama de autor de contos – na senda do meu adorado Somerset Maugham e de Mark Twain. Sei hoje que foi homem de mil profissões – de marçano na botica do tio, em adolescente, a farmacêutico, pastor, rancheiro, cozinheiro, baby-sitter, desenhador técnico, caixa de banco, jornalista…

Descubro que, aos 20, era puto a modos que enfermo, que parte com o tio para o Texas para ver se escapa a uma tosse persistente. Recupera e dedica-se, nos tempos livres, a cantar, tocar e fazer teatro. É nessa fase que conhece Athol Estes, rapariguinha de 17, tuberculosa e podre de rica, com quem foge para casar. Curiosamente devia ser mesmo amor – e não interesse. É ela que, ao mesmo tempo que lhe dá um filho (que morreria poucas horas após nascer) e logo em seguida uma filha, o encoraja a escrever..

O entusiasmo paternal e literário deve tê-lo distraído – William é um bocado trafulha e é afastado do banco onde trabalha então por suspeitas de desfalque. É nessa altura que dá o salto para os jornais, com uma coluna humorística que lhe ia grangeando popularidade. Diz-se que arranjava ideias para os seus escritos passando horas sentado na entrada de hotéis a observar e a falar com as pessoas com que se ia cruzando.

Neste meio tempo uma auditoria no banco confirma o desfalque de que andava suspeito e William é engavetado. O sogro, já aceite que estava o casamento à sorrelfa, chegou-se à frente e pagou a fiança para lhe tirar os costados da cadeia. Mas no dia em que era suposto aparecer para o julgamento, o réu deu às de vila-diogo, primeiro para Nova Orleães e depois para as Honduras. Pois foi precisamente por lá, imagine-se!, refundido num hotel manhoso de Trujillo, entretido a escrever “Cabagges and Kings”, que lhe surgiu a expressão “república das bananas” – que, se em determinada altura se referia apenas a pequenos e instáveis países da América Latina, hoje serve para meio mundo que nem sonha de onde a dita surgiu.

Adiante na história: Athol e a filha, se estão a interrogar-se, tinham ficado a viver com os pais dela. Mas quando a saúde da mulher se deteriora de vez e surge prenúncio de morte, William volta para o Texas e entrega-se. O sogro volta a pagar fiança e permite-lhe assim que acompanhe Athol nos últimos dias. Ela morre em Julho de 1897 e, meio ano depois, ele vai passar cinco na penitenciária. Tanta sorte que, consta que graças à sua anterior profissão de farmacêutico, acaba por arranjar trabalho lá dentro e até lhe dão um quarto na ala hospitalar. Nessa fase da cadeia publica cá fora 14 contos sob vários pseudónimos, um deles ganhando força: O. Henry.

Três anos cumpridos, corria 1901, o escritor sai por bom comportamento, junta-se à filha, então com onze anos e convencida de que o pai tinha estado fora em trabalho, e muda-se para Nova Iorque. É nesta cidade que vive a sua fase mais prolífica: 381 contos, um por semana para o New York World Sunday Magazine, com grande êxito. Em 1907 volta a casar-se, agora com Sallie, uma namoradinha de infância que reencontra numa visita à Greensboro natal. Mas, bebedor cada vez mais inveterado, saúde a definhar, ela abandona-o no ano seguinte, a escrita começa a esboroar-se e ele morre no verão de 1910, com apenas 47 anos.

Talvez vos deixe uma pulga atrás da orelha literária se vos disser que um dos seus contos mais conhecidos, “Ransom of Red Chief”, conta a história de dois homens que raptam um miúdo de dez anos tão reguila que, no final, são os raptores que pagam aos pais para o aceitarem de volta. Se isso não é o enredo-base do filme “Sozinho em Casa”, macacos me mordam. Ah, e o pseudónimo por que ficou conhecido: O. Henry. O escritor deu várias explicações para a origem do nome. Esqueçam, provavelmente nenhuma é verdadeira, vindas como vinham de um tipo cujo talento maior era contar histórias. Acho muito mais divertido revelar-vos que existe um O. Henry Hall, edifício administrativo da Universidade do Texas, e que anteriormente era, imagine-se, o tribunal onde foi condenado por desfalque. Que tal, como curiosa ironia do destino?

P.S: Amazon, here I come! Em inglês, uma excelente selecção dos melhores contos. http://www.amazon.com/Short-Stories-Henry-Modern-Library/dp/0679601228

Para quem preferir ler em português, há que comprar via Brasil, onde há vários livros, nomeadamente publicados pela editora Hedra. http://hedraonline.posterous.com/48698774

Não conheço qualquer edição da obra deste autor em Portugal. Corrijam-me caso esteja enganada. – e pronto, fui corrigida. Existem, pelo menos, “A Teoria e o Cão/Os Caminhos que Tomamos” da Assírio & Alvim, e também “Polícias e Ladrões”, na colecção Vampiro, da Livros do Brasil. Muito obrigada, Redonda e Ubik!

*este é um re-post da Ana Almeida, do blog de Portugal – Clube de Leitores.

Esta conexão É giro!

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