a alma secreta dos passarinhos

 

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Houve um dia, em Lisboa, que eu me aninharia numa conversa com um amigo tão querido quanto a beleza que aquela Cidade sempre me oferece. Falávamos muitos assuntos, histórias por nós inventadas e outras tantas ondas que nos vinham como grandes desafios para desvendarmos. E veio a dor e a perda e algumas lágrimas contidas num sorriso ora maroto, ora tímido. Foi naquela tarde que ele retirou as xícaras que repousavam nos pires, depois do café. Os dois pires idênticos.

– Pen, esses pires são muito parecidos, podemos dizer que são idênticos, não?

Respondi que sim, claro, obviamente. Eram dois pires sem tirar nem por de tão iguais. Um poderia substituir o outro plenamente.

Ele pôs a mão sobre um dos pires e me disse que aquele era o segredo que poderíamos compartilhar, falar sobre ele, elaborar nossas questões e questionar sobre sua importância.

Um silêncio pequenino se fez, ele ficou tranquilo como se tudo já tivesse sido dito.

– E o outro? – perguntei agitada como é sempre o meu estado de ser, como uma criança que quer saber.

A resposta me foi oferecida como ‘o mistério’, aquilo que pensamos, por ledo engano, ser idêntico a um segredo que podemos dissecar meticulosamente até conhecer sua causa e seus efeitos.

Albeto Caeiro me veio à cabeça. Um dia em casa, o pai me perguntava como eu aprendera a gostar de poesia já que na nossa casa não havia leitor de poesia, bem pouca coisa da literatura também. A par eu ter crescido numa casa onde a poesia entrava todos os dias com a canção e ainda assim meu pai pensava que não líamos poesia, ocupei-me de convidar o pai a ouvir.

– Se você não gostar desse poema, pai, não tem mais jeito e nunca mais insistirei com qualquer outro verso seja lá o que for.

Ele sorriu, permitiu, ouviu atentamente, e levantou as sobrancelhas quando eu lia “Não acredito em Deus porque nunca o vi”, nas linhas de ‘Há metafísica bastante em não pensar em nada”; mas, por fim, veio ter conosco a presença do mistério; “Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?”, e os olhos de meu pai deixaram cair as lágrimas de maravilhamento e os meus olhos choraram os olhos de meu pai.

O segredo íntimo das coisas…

Meu pai,  aquele homem que nasceu num lugar de chão de pedras onde o inverno dura 9 meses. Meu pai, aquele homem que teve um pássaro que lhe pousava no ombro e aceitava carinho. Meu pai, aquele homem que dá jeito em telhados. Meu pai, aquele homem que me cozinha o almoço de domingo. Meu pai, quem chegava perto da meia-noite cansado pra sair ao trabalho antes das 5h, sem nunca deixar de ir à beira da cama para me dizer ‘eu te amo’.

O mistério que nos habita e nos oferece um olhar curioso sobre o que é o próprio mistério.

Talvez eu acredite em deus justamente porque eu o sinto como mistério, e porque eu não quero dissecar esse meu fio de inocência.

Alguns poemas nos trazem visão sutil do mistério, cito aqui o Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro, heterônimo do meu poeta favorito (Fernando Pessoa), e A alma secreta dos passarinhos, de Paulo Venturelli, recentemente transformado em livro com ilustrações de Elisabeth Teixeira, inaugurando as edições da Olho de Vidro.

E que os pássaros nos venham visitar, para pousar nos nossos ombros e aceitar nossos carinhos como quem nos oferece carinho…

 

 

 

 

 

 

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