sobre minha mãe

Minha mãe levava uma bolsa pequena. O dia que desfiz a bolsa juro que pensei em como era simples a vida da minha mãe, de uma simplicidade que chega a assustar a gente, sem batom e sem rímel, sem papéis amassados, sem um doce qualquer. Na carteira, no lugar dos documentos e cartões de banco que não se viam, uma foto minha da época em que saí da casa dela para viver a minha vida… Sozinha.

Esse estar só é um estado de quem se percebe sem ter com quem repartir o peso do mundo, talvez seja até mais egoísta, pode ser o pesar de não ter quem nos ampare com um ‘tudo vai ficar bem porque estou aqui ao seu lado, e assim ficarei’. A gente se dá conta de como as pequenas coisas são grandes.

“Assim como um trovão. Tanta coisa pra lembrar e fui me lembrar do beijo. ‘Eu não beijiei mamãe esta manhã, Artur, e não vou beijá-la nunca mais’, choraminguei, mordida de remorso. Ele não me respondeu, perdido que estava em algum lugar onde eu não podia penetrar.”

Como prosseguir a vida sem estar com quem desejamos estar, como avançar projetos e concluir pequenas alegrias tendo coragem para sorrir e brincar e seguir em frente?

Quando minha mãe perdeu a mãe dela, a desorientação foi tamanha que ela me disse que desejava morrer. Fiquei muito revoltada com aquela frase, não compreendi nada e nem queria porque era a minha mãe dizendo que não queria estar viva ao meu lado. Pobre de mim, não pude perceber a metáfora pra dor que ela sentia.

Poucos anos depois, eu chorava a morte de minha mãe. Atordoada entre pessoas que me diziam que eu deveria ser ‘forte’, e outras que me lembravam ‘você tem os seus filhos’, meu desejo era desfalecer, cair no chão frio daquele lugar frio em que nada fazia o menor sentido.

Eu tinha 42 anos quando perdi minha mãe, ela aos 63. Minha mãe tinha 60 quando perdeu minha avó com mais de 80…

Não sei por qual razão, pensar que eu ao menos tinha vivido com minha mãe durante a infância e a adolescência, assim como grande parte da vida adulta, aos poucos me confortava.Image result for sozinha edelbra editora

Sozinha, obra de Márcia Leite, conta a história de Júlia, uma adolescente que é surpreendida com a notícia de um acidente de automóvel que coloca fim à vida de sua mãe. Naquela manhã, ao se despedir da mãe e entrar na escola, como tantas outras manhãs iguais, Júlia não dá um beijo que seria o último.  A partir daquilo, com o mundo de cabeça pra baixo, Júlia tem que superar a dor na sua trajetória de autoconhecimento, tomando decisões e escolhendo caminhos para tornar sua vida possível.

Numa narrativa que começa por resgatar a tristeza profunda que Júlia, a personagem, vivencia durante sua perda – e que muitos de nós já conhece, a autora consegue transcender o sofrimento para alcançar diálogos que a menina teria com sua mãe e que, agora, acontecem dentro dela a partir das memórias dos dias em que as duas viviam juntas…

Aos poucos, Júlia e nós, como leitores de nossas próprias jornadas, restabelece um eixo de harmonia para os seus dias, assimilando a falta da presença da mãe no amor que resiste dentro dela, compreendendo a solidão como um estado e não a própria existência.

“Coragem, Júlia, vai dar tudo certo!”.

Sempre é bom ter alguém que não tenha receio de nos dizer isso no meio de um abraço.

 

 

 

 

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