quando você não está aqui

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Quando eu era pequena, não tão pequena, rabisquei a porta do quartinho de bagunças que ficava embaixo da escada. Não rabisquei, na verdade, fiz uma intervenção artística e assinei meu nome e tudo. Projeto completo. Quando meus pais chegaram, eu culpei meu irmão.
Meus pais nunca foram cães raivosos do tipo que mordem, espancam, babam por cima. Ao contrário, havia um sermão constante para que nos tornássemos responsáveis.
Fizeram com que eu ficasse na frente da porta junto com meu irmão que era mais novo do que eu; esticamos os braços pra ver quem conseguia escrever na parte de cima da porta. Eu ganhei a competição, desajeitadamente.
Ainda tentei argumentar que ele usou a escada…
Num foi tão péssima, assim, a infância toda. Meu irmão chorava demais, era chato e boboca, muitas vezes era feito de tonto pelos meninos que moravam na nossa rua.
Tínhamos lá muitas diferenças, é certo. Gênios distintos. Um pra ação, outro pra molenguice.
Minha mãe muitas vezes me dizia que eu era estúpida. Eu lembro disso. Lembro da mãe também achando meu irmão frágil, enquanto meu pai queria que ele reagisse, não fosse feito de tonto por causa de brinquedos ou coisas assim…
A vida muda a gente, a gente cresce, uns amolecem, outros endurecem. Eu fiquei mole, choro fácil. Meu irmão num sei por onde anda. Talvez ele ainda seja um menino magoado com as brigas de criança, por causa de portas rabiscadas, uns tapas aqui e ali, umas bandas de chocolate que lhe foram roubadas.
Fazer o quê?
Somos adultos e, hoje, a ausência parece um oco do qual não podemos fugir.
Apelar pra memória é a distração das perdas. Pelo menos temos as histórias que coleciamos no fundo esquisito da alma nossa e dos baús de outros…
“Quando você não está aqui, não tenho que dividir nada com ninguém.”
– María Hergueta – do livro, Quando você não está aqui, com tradução de Márcia Leite, Editora Pulo do Gato.
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Mais…
” Eu era bem pequena, uns seis anos, talvez, … tímida (como ainda sou, só que um pouco menos). Fui sorteada na escola pra ganhar um bolo, os cinco irmãos mais velhos, gritaram meu nome, e eu abri o maior berreiro de vergonha. Disparei disparei correndo, sem o bolo, sozinha por um quilômetro de estradinha da chão, direto pra casa. Os cinco foram lá, juntos, pegaram o bolo e trouxeram cuidadosamente pra nossa mãe.”
*
“Por falar em manteiga no pão, meu irmão, para não dividir comigo o pão com manteiga comigo, lambia ele inteiro. Era delícia quando os mais velhos me deixavam fazer as rabiolas das pipas. Eu amava.”
*
“Meu irmão corinthiano. Fim.”
*
“Eu brincava de boneca e de escola, ela andava de bicicleta e jogava bola. Eu acordo cedíssimo, ela é DJ. Eu namoro meninos, ela namora meninas. Somos diferentes em quase tudo… Quase, porque quando pequenas, a gente se juntava pra brigar, uma com a outra ou as duas contra alguém. Gostar de brigar é coisa em comum da gente. “
*
“Sou filha única :(“
*
“Eu sou filho do meio. Precisa falar mais?”
 *
PS. Os comentários foram cedidos por amigos na rede social depois de uma provocação minha sobre a irmandade.
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