saudade de caqui

A imagem pode conter: atividades ao ar livre

 

“Cresci num sítio em Itaquera, na capital de São Paulo. Era uma colônia de imigrantes japoneses, as famílias muito unidas. Todos os anos ganhávamos frutas dos vizinhos, frutas que não tínhamos em casa. Em casa tínhamos caqui, abacate e jabuticaba, que não eram muito, mas o suficiente para comermos só um tipo de fruta por vários dias.  Enjoava, mas depois dava saudade. Espremíamos a criatividade para  inventar receitas com abacate e jabuticaba. O caqui comíamos assim mesmo, fruta pura.”

Cresci num bairro de periferia, numa cidade metalúrgica, mas meus avós e padrinhos moravam longe, longe, perto do lugar onde eu nasci e que haviam chácaras com criações e plantações. Todos os anos eu passava as férias dividindo dias com avós e padrinhos. Minha avó já não tinha horta, apenas o quintal que guardava brincadeiras de roda. Mas minha madrinha tinha um limoeiro grande, tomateiros, parreiras e uma trilha de morangos.

“O que aconteceu com o pé de caqui no livro foi de verdade. E o doce existiu mesmo.”

Achei pena ver caído o pé de caqui da infância. Eu também visitava o pé de caqui no quintal do tio da minha madrinha, ele criava coelhos e cordonas e eu brincava com os bichinhos achando que a criação era pra só isso. Quando eu saía do viveiro, pedia pra madrinha me dar um caqui do pé. Eles estavam sempre amarrentos, tinham ‘cica’ como explicava a madrinha, mas eu nem sabia o que era cica, nem me privava de ter os lábios colados naquilo. Minha avó brigava comigo quando eu contava que tinha comido um caqui daquele jeito. A avó achava que eu podia ter piriri.

“Eu gostava mesmo era de ver a mesa da minha avó cheia de caquis de ponta-cabeça. “Esse ainda não está bom, pega este”. E eu comia porque era bonito demais.

Tenho muita saudade de minha avó. Uma saudade que gosto de sentir porque é uma espécie de gratidão por eu ter vivido com ela. Talvez ela mesma tenha me ensinado a gostar de sentir esse tipo de saudade. A casa dela era enfeitada de lembranças do Japão e de meu avô. Acho que cresci cultivando saudade como um tesouro.”

Minha avó era metade italiana e metade portuguesa. Minha madrinha também portuguesa. A gente comprava uvas de uma família de japoneses e eles eram tão diferentes de nós, tinham paciência de sobra e fala sempre mansa. Na casa dessas mulheres a voz sempre saía mais alto, mas sem braveza. Era uma voz que parecia colher de pau mexendo doce de abóbora, sempre firme e forte. Cheirando a doce.

“Fico lembrando do sítio e para mim parece tudo tão bonito. Só meu lado racional sabe como era cansativa a vida rural. As memórias só me mostram o movimento do sol, a música do vento nas árvores, os cachorros deitados no sol. O dente de leão fofinho, a maria-sem-vergonha forrando o morro todo. Minha avó cozinhando devagar, minha mãe cantando, meu pai abrindo o portão da varanda, meus irmãos cada um do seu jeito.  A infância me parece infinita assim lembrando.”

Fico lembrando do dia em que eu descobri que os coelhos e as codornas eram pra venda porque haviam pessoas que comiam coelhos e codornas. Eu nunca comi coelhos e codornas, por respeito aos meus amigos de infância. Tão pouco aprendi a comer caqui, porque eu nunca gostei de caquis, só gostava mesmo era de brincar com a cica na boca amarrando toda palavra que queria sair…

“E fico curiosa: que lembranças meus filhos terão de suas infâncias?”

Tô sempre curiosa com as infâncias das nossas crianças, principalmente quando a gente se senta ao pé um do outro para contar histórias como essas, de caquis, coelhos, avós e saudades.

A imagem pode conter: comida

* Márcia Misawa traz seu novo livro para nós. Saudade de Caqui. É um livro lindo que mistura palavra com imagem numa travessia poética das memórias de infância. O selo é da editora Baba Yaga, de São Paulo. Eu mal posso esperar pelo próximo fruto doce que Márcia nos trará.

 

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