o vento de oalab

É preciso cuidar da fala, mas não deixar engasgar o que precisa ser dito. Palavra tem corpo e alma, pode mastigar a gente por dentro, pode castigar um monte de outros por fora, mas, também, pode curar feridas tal qual bálsamo de ervas.

Palavra necessita voar pra ser ouvida, embora, antes da boca, a palavra já ecoe nas nossas entranhas.

O vento leva palavra antiga. Senti isso na beira do mar, um dia de visita por um povoado deserto. No alto do morro, um pequeno cemitério com cruzinhas brancas. Pra além da minha compreensão, a linha do horizonte era água sem fim tocando o céu com seu azul e sal.

Ouvi o sopro do vento, pensei:

– Antes de mim era esse mesmo mar sem fim tocando o céu no horizonte, com todo sal que ainda salga minha vida e todos os elementos que colorem o azul. Nada desapareceu da face da Terra, apenas tomou outra e outra forma…

O vento soprou uma palavra em língua ancestral que não precisamos repetir, depois desenrolou minha lágrima.

Tantas palavras já foram ditas no mundo, todas elas se fundem no mesmo vento onde o momento em que foram ditas já não importa, porque quem disse já passou muito tempo, e o tempo se estendeu tanto que a gente não consegue imaginar de tão lonnngoooooo perto da nossa vidinha curta, pequenina.

“O vento entra nas pessoas logo que nascem, na primeira vez que o bebê inspira.”

Uma beleza pensar algo tão sublime como o mesmo vento a soprar a face de um indiano pelas ruas de Bombai e de um turco vendedor de tapetes no mercado de Istambul. O mesmo vento que alivia o calor e balança a rede em Cabo Verde…

Mais fácil controlar os ventos do que o pensamento, disse pra mim a palavra repetida por mais de mil anos.

Pensamento venta palavras.

“E quando a pessoa chegar ao final de sua vida, o velho companheiro se despedirá daquele corpo, saindo pela última vez na forma de um longo suspiro.”

Que jeito bonito de pensar me veio, agora! No dia em que meu último suspiro sair pela boca, vou morar no vento e sair pelo mundo inspirando histórias com sussurros.

E quem quiser mais vento, palavra e pensamento, é só buscar a história contada por João Luiz Guimarães, em O vento de Oalab, com ilustras de Bruno Nunes, selo da SM Editora, de São Paulo.

Sinpse:

Um balão de pensamento vazio se desprende da página de uma história em quadrinhos e cria vida própria ao se dar conta de que é capaz de pensar. Impulsionado pela descoberta e feliz pela liberdade conquistada, aos poucos constrói sua identidade, refletindo sobre si mesmo e sobre as coisas do mundo, às quais ajuda a ter voz, expressando através dele. Nessa aventura fascinante, depara com questões existenciais de uma gema de ovo, meditações de uma goiaba insegura, o segredo ancestral do vento e as sutilezas da criação poética.

 

 

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