um lugar chamado aqui

Lá pra mim era o lugar de onde veio meu pai. Lá era muito distante, durante anos foi mesmo inatingível; eu povoava aquele lugar com habitantes misteriosos que andavam sobre as pedras, cercados de oliveiras.Image result for mapa de portugal galizia

Ali para mim era um lugar quase perto, onde moravam meus avós maternos e mais adiante a gente colhia caquis e uvas nas parreiras. Quando viajávamos até ali, minha mãe cantava no carro e fazia brincadeiras com imaginação para chegarmos mais depressa – embora o relógio marcasse sempre o mesmo tempo.

Entre lá e ali, eu cresci em aqui. Um bairro operário, com casinhas idênticas onde só a cor do contorno das janelas e telhados faziam distinção. Nossa casa era branca e azul, grudada na casa vizinha que também era branca e azul. A próxima era branca e laranja, grudada em outra branca e laranja. E havia um terreno no meio da quadra que desenhava uma futura pracinha que eu nunca vi chegar. (A pracinha erá um lugar mais longe do que ali, mais inatingível do que lá.)

Estranho pensar no aqui da minha infância. Estranho e bom. É como um sonho igualitário e justo, onde todos saboreiam a mesma ausência de coisas e são felizes assim.

O aqui meu agora continua sendo um lugar operário só que crescido. Os prédios ganharam fachadas de vidro espelhado e as pessoas compram carros enormes para andar sozinhas.

Recentemente eu fui pra lá e chorei emocionada ao pisar o caminho de pedras e ver fileiras de oliveiras que meu avô plantou. Também olhei para a outra margem do rio da aldeia, e nas ruas as placas que misturam palavras trazidas de um tempo que já não existe.

Quando eu estive em lá, compreendi o mistério de sua gente.

Já em ali eu quase não estive mais, não fosse uma ida ao cemitério para levar o corpinho miúdo de minha tia… Minha tia que nasceu em lá.Image result for mapa antigo estação  mogi das cruzes

E eu aqui. O tempo escorrendo em distâncias.

Na vida eu tenho andado distraída em pensamentos que podem ser considerados filosóficos se não fossem tão desprovidos de ciência, levianos, poéticos.

O carteiro, por exemplo, é das pessoas que mais confio. Ele não me cobra nada e sempre sorri quando me vê. Sem contar que o carteiro corre pra lá, vai ali e chega aqui com mesmo entusiasmo de sempre.

Hoje pela manhã, um envelope chegou pelas mãos de uma moça que não era meu carteiro, por isso fiquei ressabiada. Não confio em envelopes que não tenham passado pelos pés do meu carteiro…

Abri com coração diminuto, aqui, algo não sabido. Os dias nos desafiam a cruzar imensas distâncias. O resto é invenção da história para que a gente se perceba sem lugar certo no mundo.

Um lugar chamado aqui
Um lugar chamado aqui, é o novo livro de Felipe Machado em conjunto com Daniel Kondo, com selo da editora SESI-SP.

 

 

Anúncios

2 comentários em “um lugar chamado aqui

  1. Cara Penélope, parabéns pelo lindo texto! Meu filho, Felipe Machado, escreveu este livro, que tem as ilustrações do querido e grande Daniel Kondo para pessoas como você! Ou que se tornem como você depois de lerem ‘Um lugar chamado aqui’. Um grande beijo, Helô Machado

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s