gostar de ler

 

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Este mês, encerro um contrato para realização de um trabalho em Paraisópolis, no Instituto Prof. Minha proposta era trabalhar narrativas com crianças de 6 a 13 anos, incluindo, é claro, a apresentação do livro como um objeto a ser conquistado. Comecei as visitas no Instituto em fevereiro, e já se foram dez meses de muitas descobertas.

O desafio de encantar para leitura sempre aparece como um esqueleto atrás da porta (opa, isso não é um romance da Stella Carr?). Mas o esqueleto sempre se mexe, sacode, dança, desmonta e remonta até conseguir contar sua história…

Com os pequenos leitores, o grupo iniciante com idades entre 6 e 7 anos, foi muito fácil começar. As crianças pequenas estão muito próximas do contato físico; um com abraço já quebra barreiras suficientes para se estabelecer um elo. Os meninos não só queriam ouvir histórias como explorar o livro, em todos os elementos: como é a capa, se tem orelhas (seria engraçado se fossem 7 orelhas – e isto também é nome de livro), quais os nomes da ficha catalográfica, que número tão grande na ficha, quem deu o título, nomes de autores e o que cada um fez no livro, biografias com fotos (eles realmente adoram), o que é miolo do livro (e não miolo do pão feito em casa – outra história aqui) etc. Digo etc porque o livro vira de tudo quanto é lado com criança curiosa.

O grupo seguinte, idades entre 8 e 9 anos, não foi muito diferente. Ainda são pequeninos e muito interessados em ouvir histórias. Eis aqui o pulo do gato (epa, isso não é nome de editora?).

Despertar a criança para leitura nos dá uma ideia de desenvolver neles a escuta de uma boa história para que exista o desejo de procurar por outras mais.

– Isso, Isso! (Pera, não, Peirópolis! Isso, isso é livro também!)

Mas e a nossa escuta? Será que no desafio de formar leitores a gente se harmoniza na própria escuta?

O desafio muda de nível com crianças com idade igual ou superior a 10 anos. Já não estão tão fáceis de apanhar num abraço; já não gostam da gente de primeira; já sabem responder dando de ombros; já aprimoraram argumentos e birras, inclusive; já estão tempo demais sem escuta…

E daí vem a percepção do leitor investigativo somada às lições de disciplina do amor (um livro que eu fiz criar raízes na minha cabeceira, tanto tempo que ficou comigo):

– Quem é você, criança, qual é a sua história?

Durante o período em que estive com as crianças e adolescentes do Instituto Prof fiz várias vezes perguntas parecidas com esta. Também não me afastei quando me perguntaram quem eu era, sou e gostaria de ser…

No meio disso tudo eu dizia um poema, contava uma história, compartilhava um curta-metragem, cantava uma moda, inventava uma memória (com Manoel de Barros) e andava sempre com livros, pra cima e pra baixo.

O tempo, sempre sentido como algo diminuto, curto mesmo – as vezes só temos meia hora para mudar a nossa vida, seja com canção, seja com romance de Alice Vieira, ou os dois – faz com que a gente se esqueça de escutar o outro para poder escutar a si mesmo.

O que é ler, afinal, se não um jeito de olhar ao redor e se compreender melhor para poder seguir em frente?

Escuta. Depois de um ano de trabalho com esses meninos eu reforço em mim o poder da escuta. Escuta até pra ouvir que ‘isso é muito chato’, desfeito pelo momento seguinte do ‘eu posso tentar fazer um verso, também?’, na complexa atividade que é estar vivo.

No meio disso tudo, por não saber viver de outro modo, continuo eu com os livros, pra cima, pra baixo, pro lado, pro outro, carregando destemida todo o peso do mundo (como eu fiz dizer a formiga nos Poemas do Jardim)… afinal, eu sempre usei livro pra tudo, até pra altear pé de mesa, igualzinho Lygia Bojunga.

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