a bailarina e o lobo

Cansei de pedir aulas de piano para minha mãe. Também me faria muito bem um piano, que não tive porque não cabia em casa o piano, nem tal compra na conta bancária dos meus pais. As aulas de piano ficaram por conta de uma professora com problemas sérios de humor ou mau feitio (ou outra coisa qualquer que adulto esconde e não diz o nome com medo de pegar doença).

Larguei o piano porque eu gostava mesmo era de cantar e tocar a bossa nova e a professora queria que eu me fizesse no clássico, com aquelas chatices da pobre Elise que anuncia a venda do gás. E o solfejo. A professora levava muito a sério as aulas de solfejo.

Larguei o piano e arranjei umas aulas de violão com uma amiga adolescente. Também não daria certo uma empreitada que começava mesmo mal: eu andava enlouquecida com Caio Fernando Abreu e Caetano Veloso, minha professorinha era o sonho dourado da boa aluna e filha mais-do-que-perfeita. Terminou que eu consegui tocar a Tigresa. Já era algo.

Larguei as aulas de canto, quase recentemente. Comecei anunciando com clareza que eu queria cantar assim sem muito jeito de cantora mas com melhor fôlego. Vieram os tais exercícios para dar conta e eu, pronto.

Nem preciso dizer que lá atrás, por conta de não saber virar estrela, fui retirada da vontade de aprender o ballet.

Acho que eu não nasci para princesa de história, meu caso estava mais para bruxa, duende, ogro, lobo… E digo isso também pelas amizades: meu apetite voraz para conversas intensas magoava coraçõezinhos.Capa

Princesas perfeitas terminam tudo o que começam e são sempre as primeiras alunas da classe. São as princesas as meninas disputadas para ir na frente dos carros de desfile, das rodas de quadrilha, das fotos do colégio, das escolhas dos times.

Eu estava do lado das esfarrapadas e hoje faço isso com muito gosto.

Ainda bem que me deixei com o “muito sem terminar”, tornei-me uma adulta com lacunas e imperfeições que preencho todos os dias de infância perene, experimentando, brincando, rodopiando sem dar estrela (porque para mim não é boa ideia), abrindo minha boca de lobo para dizer coisas com dentes enormes que se ajustam no tamanho do meu abraço.JOSEFINA QUER SER BAILARINA

Para os adultinhos e crianças que queiram ler sobre bailarinas e lobos, recomendo os livros Josefina quer ser bailarina, de Claudia Souza e Alexandre Rampazo (editora do Brasil); e Este é o lobo, de Alexandre Rampazo (editora DCL).

Ah, e só para reforçar, aqui em casa temos um piano herdado da avó. Ninguém faz aulas, ainda, mas todo mundo toca lá umas coisinhas.

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