RELAÇÃO TEMPO-IMAGEM-NARRATIVA em “PRINCESA DE COIATIMBORA”, por Alexsander Martins Vianna

Alexander Martins Vianna, é Mestre e Doutor em História Social pela UFRJ. Professor de História Moderna no DHRI-UFRRJ. Ex-coordenador do PROFHISTÓRIA-UFRRJ, no qual atuou como pesquisador e orientador na linha “Linguagens e Narrativas Históricas”, também desenvolve pesquisa sobre a relação entre teatro, materialidade editorial e religião nos contextos protestantes da Inglaterra Elisabetana e Jacobita, com foco nas peças teatrais associadas ao nome ‘Shakespeare’.

A seguir, Alexsander provoca nossa reflexão percorrendo a leitura com sua resenha detalhada sobre a a RELAÇÃO TEMPO-IMAGEM-NARRATIVA em “PRINCESA DE COIATIMBORA”, texto de Penélope Martins e ilustrações de Flávio Fargos, numa literatura para infância sem infantilismo idiotizante.

Um convite para ler atentamente o livro e a própria leitura, como veremos:

Estou aqui me experimentando numa resenha sobre o livro Princesa de Coiatimbora. Estou particularmente interessado pelo efeito final da relação tempo-ilustração-narrativa. Estou menos voltado para a intenção psicológica de Penélope Martins e de Flávio Fargas do que para a “intenção enquanto efeito final do discurso”, a sua operação, mesmo que inconsciente, de uma “máquina de gênero”…

No processo ilustrativo da história da princesa, optou-se pelo desenho associado à colagem fotográfica, além da materialização viva, também como colagem, das palavras novas do vocabulário vivo do seu ambiente imaginativo. Coiatimbora é princesa sem castelo, sem redenção de príncipe, com macacão e pais imaginativos que se expandem em suas brincadeiras… Vê-la em sua soltura é evocar, para século XXI, um tipo de energia criativa de infância, com sua complexidade não maniqueísta, o que me reporta a Tom Sawyer (mas sem seus códigos de época)…

Coiatimbora tem potencial para vários rodopios em outras narrativas de aventuras imaginativas (textuais, visuais e audiovisuais) para além do quintal, para além da família, para além das páginas planas…, com tincuns e firulás fantabulásticos ao lado do seu cãozinho malhado Puli-Pulá… Em seu mundo, manga chupada é mágica para quem sabe “des-ver”, como provocaria – de outro lugar quintaneiro imaginativo – o velho Manoel de Barros.

Eis a inquietação viva da infância em expansão, com perguntas e dobras figurativas que desmontam os hábitos adultos. Coiatimbora guarda em si um potencial de “rústico filosófico” ao modo de Barros, do tipo que diz: “Faz olhar de árvore, sapo!”. Tudo isso ali guardado na fenda das artes de Penélope e Flávio!… Pluralidade dá frutos no ‘sapere audi’ da infância que se expande sem traumas adultos: “FURTIPLURI!”…

E, finalmente, venho ao meu ponto no início enunciado: a relação tempo-imagem-narrativa no livro ilustrado de Penélope e Flávio… As principais marcas de tempo e as suas passagens de vínculos causais se fundem numa efetiva paralaxe dos dois elementos (texto e imagem). Se tento ler o texto separado da ilustração (e das palavras ilustradas que provocam neologismos deliciosos e sonoros em suas marcas humorais), percebo que as ancoragens causais de tempo não estão no texto, no qual há uma espécie de suspensão da narrativa textual que depende da forma como a ilustração de Flávio concebe preenchimento temporal.

Tudo isso cria um efeito especial na narrativa global: nenhuma das artes reduz a outra; elas não formam paralelos mutuamente ilustrativos; elas já formam a paralaxe, ou seja, dois processos de criação artística que têm pontos de partidas distintos e sobreiam uma intercessão que cria outro discurso, já não só de Penélope, nem só de Flávio, mas algo que não pertence a ambos, porque a paralaxe é estruturalmente despertencente e vai na fronteira do gênero, apontando para possibilidades de outros enredos…”

Sobre a narração da história produzida pela autora do texto, Penélope Martins, que também é narradora, e permeada por canções de Joel Costa Mar, Alexsander estende sua leitura:

“Confesso que fiquei com muita vontade de ver a performance deste livro com o tempo da narrativa musical de Joel CostaMar com Penélope, que é outra forma de preencher a narrativa com o corpo cênico de ambos na interatividade viva e desprevenida das crianças em suas contações (en)cantadas… Que preenchimentos de tempo e voz-corpo emergem disso? A performance texto-imagem em página já vi… Falta-me ver ambos em ação ao vivo, fazendo o livro escapar das páginas, sendo outro, sendo vivo, sendo fímbria… contra os buracos dos Roçacaxixas que ainda circulam por aí…traumatizando infâncias com seus tempos funcionais…”

– Alexsander Martins Vianna –

 

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