o grande amigo

No começo deste ano, em oficina de narrativa, convidei minha turma de crianças para uma jornada no espelho.

Ofereci um papel e um lápis para cada um e pedi que retratassem no papel aquilo que eles viam ou gostariam de ver no espelho.

Comentei que o espelho era uma espécie de bobo da corte, um brincalhão que joga com nossa percepção de realidade nos desvios da imaginação.

As crianças quiseram saber o porquê.

Escrevi uma frase no papel e mostrei para o espelho. A frase ficou invertida e as crianças se danaram a rir, alguns dizendo:

– Ihhh, a gente fica ao contrário no espelho, também.

Do lado do avesso, ao contrário, de pernas pro ar, em rebuliço. Para além da própria imagem refletida, há sempre milhões de partes do que sou eu mesmo.

Também num mergulho pelo autoconhecimento, Katia Canton conta a história de Rodrigo, ume menino tímido que deseja fazer amigos mas que não sabe como…

No primeiro passo, a conquista de seus pais, com boas notas no boletim e um comportamento impecável na escola, traz a decepção para Rodrigo. Seus pais nem notam o esforço em ganhar atenção, eles estão certos que o filho tem bom desempenho.

Nos dias seguintes, no bairro, na praça, na praia, na escola, no futebol, Rodrigo não desistiu de fazer amigos, embora suas tentativas fossem sucessivamente frustradas por culpa de sua tristeza esquisita, por conta de gestos estranhos, por um silêncio constrangedor, pelo pedido solitário… Nem com os animais Rodrigo tinha jeito.

“Até que um dia, ele finalmente desistiu de buscar amigos.”

E pensou, quieto e distraído o suficiente para cair no sono. E acordou, distraído e quieto como de costume enquanto escovava os dentes em frente ao espelho.

O espelho que também espiava Rodrigo. Rodrigo enxaguou a boca, fez caretas. Mostrou a língua, piscou. Uma conversa consigo mesmo disparou o riso.

Rodrigo se viu engraçado e gostou do que viu. Era um cara legal, um garoto expressivo. Um amigo.

Depois dessa primeira amizade vieram muitas outras.

O livro O grande amigo, com texto de Katia Canton, acompanha a narrativa de imagens de Renato Moriconi, que escolheu o carvão sobre papel como técnica para elaborar retratos do próprio Rodrigo e de seus possíveis amigos. Renato Moriconi posiciona as personagens de costas para o leitor, explorando mais do que a mera curiosidade, mas uma reflexão ativa sobre o medo e a ansiedade que podem surgir a cada novo encontro com um desconhecido.

O livro é da editora Panda Books e está disponível em livrarias.

Aproveitem para olhar no espelho e sorrir!

 

 

 

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