era uma vez um menino que ia para longe, de Walt Whitman

 

Era uma vez um menino que ia para longe todos os dias
E o primeiro objeto que encontrava, nesse objeto se tornava,
E esse objeto se tornava parte dele o resto do dia ou uma fração do dia,
Ou muitos anos ou longos ciclos de anos.

Os primeiros lilases se tornaram parte desse menino,
E a relva e as ipoméias brancas e vermelhas, e o trevo branco e vermelho, e o canto do papa-mosca,
E os cordeiros de três meses e a ninhada rósea da porca, e o potro da égua e o bezerro da vaca,
E as crias barulhentas no terreiro ou na lama à beira da lagoa,
E os peixes que se suspendiam tão curiosamente lá embaixo, e o líquido curioso e bonito,
E as plantas aquáticas de cabeças chatas graciosas, todos se tornaram parte dele.

Os rebentos do campo de quatro e cinco meses se tornaram parte dele,
Os grãos de inverno e os grãos do milho amarelo-claro, e as raízes comestíveis do jardim,
E as macieiras cheias de flores e depois de frutos, e as videiras virgens, e as ervas daninhas mais comuns na beira da estrada,
E o velho bêbado que ia cambaleando para casa, vindo do anexo da taverna de onde acabara de se levantar,
E a professora da escola primária que passava a caminho da escola,
E os meninos bonzinhos que passavam, e os meninos briguentos,
E as meninas arrumadas e de faces fresquinhas, e o negrinho e a negrinha descalços,
E todas as mudanças da cidade e do campo aonde ele fosse.

Os próprios pais, ele, que o gerou, e ela, que o concebeu no útero e o trouxe à luz,
Deram a esse menino mais de si mesmos do que isso,
Deram a ele mais tarde todos os dias, tornaram-se parte dele.

A mãe em casa pondo serenamente os pratos na mesa de jantar,
A mãe com palavras meigas, limpas a touca e a camisola, um aroma saudável se desprendendo dela e das roupas quando ela passava,
O pai, forte, convencido, másculo, mesquinho, irado, injusto,
O tapa, a rápida palavra gritada, o acordo lacônico, a sedução matreira,
Os costumes da família, o linguajar, as visitas, os móveis, o coração ansioso e inchado,
Afeto que não será negado, a noção do que é real, o pensamento de que no final das contas não seria irreal,
As dúvidas das horas do dia e as dúvidas das horas da noite, o curioso se e como,
Se o que parece assim é assim, ou é só clarões e borrões?
Homens e mulheres se dando encontrões às pressas nas ruas, se não são clarões e borrões, o que são?
Mesmo as ruas e as fachadas das casas, e as mercadorias nas vitrinas,
Veículos, parelhas, o pesado cais de madeira, a gigantesca travessia das balsas,
O vilarejo no interior visto à distância no pôr-do-sol, o rio no meio,
Sombras, auréola e névoa, a luz incidindo sobre telhados e cumeeiras brancas ou marrons a quatro quilômetros,
A escuna próxima descendo sonolenta na maré, o vagaroso barquinho a reboque,
As ondas afobadas aos tombos, cristas logo quebradas, jogadas,
As camadas de nuvens coloridas, a comprida barra marrom-acastanhado solitária à parte, a extensão de pureza em que permanece imóvel,
A beira do horizonte, o corvo-marinho a voar, a fragrância do brejo salgado e do barro do litoral,
Todos eles se tornaram parte desse menino que ia para longe todos os dias, e que agora vai, e sempre irá, para longe todos os dias.

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