sertão

“Quando eu vim do sertão, seu moço, do meu Bodocó, a malota era um saco e o cadeado era um nó. Só trazia a coragem e a cara, viajando num pau-de-arara, eu penei, mas aqui cheguei.”

N0 ano de 1996, saí de São Paulo para atravessar alguns dos Estados do Nordeste Brasileiro. A primeira cena que me emocionou foi ver um caminhão com todo tipo de coisa amarrada por cima da carga, e um cachorrinho ali deitado com resignação na nuvem de poeira.

O coração da gente é uma morada recortada por sertões, um vale verdejante que, em muitos, resiste bravamente.

Na Bahia, um menino me olhou como se nunca tivesse visto um alguém do meu tipo. “Teuzóio são que nem água”, ele me fez sorrir da minha fragilidade diante do brilho verdadeiro que faiscavam dentro de seus olhos de jabuticaba.

No som do carro, a canção diz a coragem do povo sertanejo.

As vezes me dava uma vontade de chorar, outras vezes eu chorava.

Em Sergipe, uma senhora de meia idade com suas mãos centenárias me pediu desculpas ‘de alguma coisa’. Não aceitei as desculpas, mas me demorei num abraço.

O coração da gente é um olhar pela janela que espera poder ver voltar as asas do abraço do amigo querido.

Durante os meus dias entre aquele povo meu, brasileiro como eu, fui colorindo meu imaginário de histórias de migração com tons de verde seco, flor de mandacaru, terra trincada de promessas.

Só a coragem inabalável para fazer continuar. E a fé.

O coração da gente é uma reza valente para fazer verter a chuva abundante que faz  brotar o afeto.

Naqueles dias eu aprendi que precisamos sair do nosso lugar ‘seguro’ de saber a vida só com os nossos olhos para poder ver com os olhos dos outros, perceber as paisagens que moram em outros dias, criar empatia com as dores que afligem tantos e que passam distante da gente – as vezes a gente nem sabe, e todo sabor, cor, espera…

E se pra já não dá pra sair do lugar, há de existir uma janela entre as páginas de um livro, que expanda nossa humanidade.

Sertão, de Fábio Monteiro e Mauricio Negro, é um chamado para que nossa imaginação voe nas asas de um pássaro levando boas notícias para o amigo que espera o sabor e a cor das chuvas. A paisagem sertaneja nos encantos do menino Tonho, que relata a sua amizade com um pássaro, faz a gente sair do lugar para pensar a chuva, a guerra, a dor, e novas descobertas do que é humano. O autoconhecimento se traduz da seca à abundância.

Sertão reporta-nos aos laços de amizade e ligação sentimental que vão se construindo no contato. Propõe, também, um modo muito lírico na descoberta de realidades diferentes.

O coração da gente é um convite que pode ser decifrado por alguns.

 

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