contar uma história

A cada dia que passa, além dos cabelos brancos, coleciono mais apreço na arte de me comunicar com palavras. E quando eu digo ‘arte de me comunicar com palavras’ não me limito a pensar no texto literário em si, mas em toda e qualquer comunicação escrita ou falada que estabeleço com outras pessoas.

Já faz bom tempo  que eu compreendi que palavra tem peso, forma, cor; uma palavra pode fixar um novo conceito ou reforçar um paradigma que se pretendia (em teoria) desconstruir… Basta uma palavra para começar uma discussão, assim como uma única palavra pode literalmente salvar uma vida. Saber se comunicar, portanto, é mais do um bem necessário, é imprescindível.

Mas a comunicação carrega outro desafio: as palavras se conectam ao organismo vivo e mutante que é a língua. E é aí que a história enrola um pouco mais…

Recentemente, comecei a procurar os fundamentos da narração de história no meio corporativo e me deparei com mais de um vídeo vendendo cursos especializados para formar o profissional de ‘storytelling’.

Se eu fosse uma adolescente afetada pelo fenômeno disney ‘chanel’, eu diria ‘oh, my God’, mas como eu mantenho intimidade com minha língua mátria, digo ‘oxe, que abestagem é essa, minha gente?’, em tom suave.

Minha curiosidade não parou por aí. Assisti a algumas entrevistas, vídeos de propagandas dos cursos e até apresentações.

Resumo da ópera: inventaram de colocar um nome gringo na narração de história para poder empacotar o produto, rotular e vender numa prateleira de importados.

Alguém pode estar pensando ‘tudo bem, é a globalização, todo mundo usa termos em inglês’, assim seria mesmo – tranquilo – se toda gente tivesse o inglês como segundo idioma, consequente comunicação limpa para alcance de ideias e objetivos.

Ainda com a fluência em qualquer idioma, há um diferencial tocante em  estabelecer comunicação na nossa língua originária; foi através dela que as coisas nos foram apresentadas pela primeira vez e os sentimentos surgiram e se transformaram.

Não sou do tipo radical que nunca diz um gringuismo ou outro, nem se trata disso o assunto, a questão é a compreensão no universo da comunicação, a observação da profundidade que cada palavra desenha na nossa mente e de como isso interfere na nossa história de vida.

Posso dizer por experiência de conversadeira profissional que muitas angústias e ansiedades estão associadas diretamente ao uso inadequado ou a falta de compreensão de palavras numa comunicação confusa, turbulenta, caótica.

Então, como essas pessoas contam as suas histórias?

Outro dia, uma nova amiga me ofereceu carona e contou sua experiência com um primeiro casamento. Durante a narrativa de sua desventura, ela se desculpava dizendo ‘eu fui burra, eu fui boba, eu fui muito burra mesmo’. Eu ouvi tudo, cada detalhe que ela desejou que eu soubesse. Depois de nosso bate-papo, perguntei pra ela porque se achava boba ou burra se, na verdade, ela tinha sido honesta, sincera, amorosa. A nossa conversa se estendeu ida e volta de um longo percurso, gratificante a comunicação aberta que estabelecemos naquela viagem.

Daí eu volto lá nos tais meios corporativos, nas reuniões de equipe e treinamento de colaboradores de uma empresa, e pergunto: com tantos desafios para dinamizar a força e o empenho de cada pessoa dentro de um grande grupo, porque afastar o instrumento mais precioso de comunicação – a língua que tornou possível o pensamento e traduziu o sentir?

Comunicar-se, contar a própria história, depende de intimidade com as palavras para saber qual o peso de cada uma, a cor, a forma, a profundidade, a leveza, a aspereza… Quanto mais as pessoas são motivadas a se comunicar com um instrumento adequado, mais afinação é obtida.

Posso dizer que cheguei a muitas conclusões com o material  visitado até agora, a tal ‘reunião de técnicas e dispositivos para compartilhar histórias no meio empresarial’. Continuo eu mesma, brincando com o rico dicionário da língua portuguesa que sempre se apresenta como uma cartola mágica de significados, convicta que para me dispor a contar histórias é preciso que eu exercite empatia, é dela que flui conversa.

O resto, eu deixo aonde estava, na prateleira de importados, para usar com moderação.

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