um esqueleto, em quadrinhos

Alguns equívocos estão prestes a ser corrigidos quanto à formação de jovens leitores. Sempre achei uma injustiça imensa o que muitos professores de língua portuguesa faziam conosco, os alunos, nenhuma luz acendiam para nos indicar um caminho prazeroso na descoberta da literatura.

Pois bem, agora não existe mais desculpa…

Inúmeras publicações invadiram o mercado editorial publicando títulos clássicos em quadrinhos. Isso, por si, já me contenta. Eu sempre gostei do formato revista em quadrinhos. Minha mãe não lia as revistas, por isso não se deu conta da Chiclete com Banana que eu carregava a tira colo desde meus… poucos anos. Agora já foi. Enfim…

Registro uma observação antes de seguir falando dos clássicos publicados na versão quadrinhos, este editorial conta com nomes preciosos para literatura contemporânea, como a iraniana Marjane Sartrapi, autora de Persépolis, Bordados e Frango com Ameixa – todos excepcionais na forma, no traço e no texto (publicados no Brasil pela Companhia das Letras – Quadrinhos); também o meu recém descoberto Miguel Montenegro, autor de Psicopatos (disponível em edição portuguesa da Babel).

Mas, os clássicos…ah, os clássicos.

A aula começa em tom de ameaça:

– Vocês terão de ler Machado de Assis! Farão prova sobre ele, inclusive!

E a gente murchava no desgosto o nome daquele tal senhor que se apresentava a machadadas. Frio e calculista.

Pois, agora é hora de desarmar o cerco.

O fantástico Machado de Assis ganhou uma edição ímpar do conto ‘Um esqueleto’. Os autores são Diego A. Molina, texto, e Márcio Koprowski, desenhos; pra lá de uma abordagem fluida que nos prende da primeira capa até o suspiro do fim, o livro vem recheado de referências para artes plásticas, devidamente catalogados em Inventário junto com um texto de apresentação da obra e biografias de autores.

Confesso que abrir o capítulo com Mucha, Verão – 1896, ganhou meu coraçãozinho. A partir daí eu já estava fisgada (e valeu a pena a cada novo estalar de virar de página).

Apresentar Machado de Assis com tanto vigor e beleza, torna possível o maior desafio na formação de leitores jovens: o encantamento para o prazer de ler.

Um Esqueleto é uma história narrada pela personagem Alberto que, entre amigos, suscita o nome de um tal Dr. Belém, um intelectual brilhante e homem excêntrico que o teria ensinado alemão.

Acontece que a amizade entre Alberto e Dr. Belém é marcada não só pelo interesse em mergulhos literários, mas com um sarcasmo macabro que perambula a casa com fantasmas do passado.

Os autores, Diego e Márcio, se tornaram presentes com a obra murmurando a história que salta dos quadrinhos com provocações aos sentidos. Há um condutor narrativo que não abandona o leitor em nenhum momento. Uma conexão dialógica entre texto e imagem que faz crescer a leitura.

Volto ao começo do que me trouxe aqui, nesta minha habitual coluna para gostar de ler, ainda bem que eu me salvei de um ou outro professor com ameaças de ‘tem que ler isso!’. Escapei por conta da minha própria curiosidade, por conta do talento afetivo de outros mestres, por conta da Revista Chiclete com Banana que cutucava meu cérebro com intersecções que eu desconhecia, por conta de histórias fantásticas como esta, Um Esqueleto, do senhor Assis que traz o Machado com precisão cirúrgica na nossa Literatura Brasileira.

Beneficiem-se do livro, caríssimos, descubram Machado de Assim como deve ser: imenso prazer de ler.

Um Esqueleto – em quadrinhos, de Diego A. Molina e Márcio Kropowski, direção editorial de Márcia Leite, selo da editora paulista Pulo do Gato.

 

 

 

 

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