deus talvez exista

Outro dia, numa conversa sobre a existência de deus e o significado para a vida, ouvi a opinião de não ter sentido algum em nada disso.

Achei triste. Achei profundamente triste. Eu não tenho religião, mas achei triste demais.

Não ter sentido é como uma embalagem a vácuo. Nada se cria no vácuo. Nem uma ilustre bactéria.

Eu tive uma formação espiritual pluralista. Vou explicar. Fui educada em colégio de freiras, fiz dois anos de catecismo para primeira comunhão, depois eu fui crismada; minha avó materna me levava na Dona Esmeralda, uma benzedeira de mão cheia e fartos galhos de arruda; minha família paterna nunca falou de religião, mas tinham entre si uma frequente estimulação pagã de cantos e histórias; na casa de meus pais, tive a felicidade de conviver com duas mães baianas – o que explica muita coisa em mim; frequentei umbanda, passei pelo kardecismo, fui estudar filosofia, descambei de tanta metafísica poética me cutucando e acabei num curso intensivo de yoga. Cheguei a sonhar inúmeras vezes com Krishna… Tatuei uma pena de pavão em homenagem ao poeta, príncipe, reencarnação do deus Vishnu.

Ufa.

Misturei tudo com suco de frutas no liquidificador.

Nunca orientei meus filhos com princípios de alguma religião conhecida ou desconhecida por mim. Resolvi no sincretismo a minha necessidade de “sentido da vida” e fui estimulando minhas crianças a pensarem um mundo com respeito à vida.

Ainda hoje, com o café da manhã, comparei nossa existência com as folhas caídas pela calçada. O homem tem uma tendência a se achar superior aos outros seres vivos, mas a gente olha de perto e vê que tudo é matéria orgânica.

E o espírito? Ah, o espírito é o compartilhar da própria vida.

E por que eu estou falando disso tudo mesmo? Por causa da leitura.

Tenho me envolvido em ações de fomento à leitura. Passo meus dias motivando pessoas a se aproximar das narrativas, lendo poemas em voz alta, contando histórias, escrevendo livros livros e cantando trechos dos meus autores favoritos.

Não tenho um método definido ou uma geometria perfeita de conceitos, tenho o sincretismo e a necessidade de achar um sentido para a vida.

Algo decepciona quando vejo as pessoas se engessarem no debate sobre a divindade do livro.

Eu gosto muito de livros. Se eu fosse para uma ilha deserta, como naquela brincadeira de imaginar, certamente abdicaria de muitas coisas para levar um livro a mais. Compreendo, portanto, o anseio de quem torna o livro uma divindade, um espírito para um altar. Mas antes do livro se dá a palavra, e antes da palavra se dá a linguagem, e antes da linguagem se dá uma espécie de centelha.

Pronto, voltamos ao topo do texto, embora eu não esteja falando de de deus. Quer saber, nem me ocupo disso. Se deus existe, ele deve ser um cara muito além da vaidade de querer ser citado por todo canto. Fora que ele deve ser um tipo bem ocupado. Enfim. Estou falando de mistério e nisso, felizmente, meu sincretismo me ajudou um bocado.

Meu sincretismo espiritual também é cultural. Eu sempre me motivei por diversidade nas leituras de mundo. Vou explicar, agora e de novo.

Outra vez, estava eu com o amigo poeta, de quem gosto imenso, numa rua do centro de Taubaté. A gente voltava pro hotel onde estavam hospedados todos os autores do evento literário, para o qual fomos, os dois, convidados. Estranhamente, o melhor de nossas perfomances não foi vista.

Os dois subiam a rua, sem dizer palavra, apenas conversando com o som dos próprios passos. Ele batia com o pé, eu respondia com a ponta. Eu tilintava nos saltos, ele dizia arrastando o solado de couro. E assim dialogávamos um mundo nosso.

Aqui, um parênteses, quando duas pessoas compartilham suas leituras de mundo para criar um lugar que lhes seja comum, a existência de deus é incontestável.

O comungar da linguagem, com celebração do diálogo com palavras, expressões, imagens, sons, toques, certifica que nossa leitura de mundo deve ser ampliada até alcançar o lugar comum a todos, o pertencimento no mundo.

Parece que não tem nada a ver juntar deus, sapatos, livros, tambor e benzedeiras, porém, meu amigo, a leitura é tudo isso.

Precisamos dar conta de encontrar significados para nossa própria narrativa, para compreendermos quem somos e como estamos no mundo.

É por isso que é tão mágico ter um livro com o qual nos identificamos. As personagens são nossas faces refletidas no espelho.

Igualmente, a canção que traz nossas lágrimas; a visão de um pequeno inseto atravessando a parede em desamparo; a contemplação de uma pintura que aconchega; o ritmo da chuva e o cheiro que exala a terra ao final dos pingos; tudo isso nos transforma porque estamos lendo o mundo com nossa ânsia de dar sentido à vida.

Eu sei que parece confuso, eu sei que eu poderia simplesmente indicar um bom livro e ir me embora – aliás este espaço é para isso. Mas eu também sei que não se pode subestimar a capacidade de criação de ninguém.

Leiam livros também. Tantos bons livros. Mas não se esqueçam de ler a vida como uma possibilidade única de estarmos no mundo a cada dia, um mistério como a existência de um ser divino.

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