o elefante entalado

Eu me lembro do momento revelador quando conheci a lenda sobre o nascimento de Ganesha. O deus indiano, que tem corpo de homem e cabeça de elefante, teria sucumbido à espada de Shiva, seu pai, depois de defender a entrada da casa de sua mãe. É uma longa e boa narrativa, repleta de símbolos e significados. Mas, de todo surrealismo contido no mito do deus elefante, o que me encantou foi saber que Ganesha é transportado por um rato. Um pequenino rato.

Como pode um ser tão gigantesco, pesado, forte, se equilibrar sobre um rato sem esmagá-lo por completo? Ganesha me faz pensar na misteriosa força da delicadeza. Os antagonismos do mundo.

Imagine, por exemplo, uma cidade enorme, movimentada por gente apressada que já não tem tempo nem para ter amigos. Imagine esse absurdo. Agora, imagine, entre tantos edifícios, um elefante entalado numa janela. Não, não imagine uma janela no andar térreo. Suba a imaginação e coloque o elefante no 13° andar, cabeça pra dentro do quarto de um menino e corpo pra fora, rodopiando um rabinho entre as patas traseiras.

Seria mais fácil ver um coelho de casaca atravessando a Avenida Paulista. Seria mais fácil uma passeata virtual.

Tudo isso parece não existir.

Luís é o menino da história. Ele passa todos os dias da semana sozinho no apartamento, depois de voltar da escola, pois seus pais trabalham até tarde da noite. Ele tem um celular e muitos amigos na rede social, gente que não para de curtir e compartilhar a foto que ele fez com o elefante.

O menino quer tirar o elefante da janela. Desentalar tal criatura sem que o pior aconteça parece tarefa hercúlea, porém, até aquele momento, nada além de elefantes entalados vieram visitar a realidade.

Uma força tarefa poderia resolver o problema.

Quem estaria disposto a ajudar um elefante pendurado na janela do 13° andar?

O elefante entalado é uma fábula urbana sobre o real e o imaginário nos dias de hoje. O final mítico surpreende com a magia de ver o mundo através do fabuloso e, candidamente, pelo olhar de um menino.

O texto é incrível, do tipo que gruda na gente até a última página. O autor é Alonso Alvarez, poeta e escritor de livros premiados. As ilustrações são de Fê, com edição da Ficções (São Paulo).

Não vale a pena somente ler, vale a pena se deixar surpreender pela delicada força da história d’ “O Elefante Entalado”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s