ler isto ou aquilo?

Certa vez, tive uma discussão com uma amiga sobre o tipo de livro que as pessoas andam lendo a partir das avaliações das listas de mais vendidos e nossa própria observação nos transportes públicos.

Nossas opiniões, na época, eram antagônicas. Enquanto eu dizia ‘que bom, as pessoas estão lendo’, ela respondia que ‘era melhor que não lessem nada porque estão escolhendo coisas muito ruins’. E eu pensei muito sobre as colocações que ela me fez.

Um livro mal escrito com temática piegas construída a partir de estereótipos, de fato pode rasgar o pensamento crítico do leitor em formação.

Eu não poderia, nem posso, discordar disso, afinal, na educação dos meus filhos, eu mesma impedi acesso a muita coisa que considerava inadequada não pelos padrões comuns de ‘moral e bom costume’, mas pela comercialização da infância, flagrante esvaziamento de conteúdo e abandono de pensamento elaboração crítica.

Meus filhos cresceram quase sem acesso à televisão aberta, também não eram incentivados a consumir livros de marcas licenciadas com brinquedos agregados ao produto e, talvez por isso, ambos são pessoas sem desejos incontroláveis por consumo.

Mas a miha opinião insiste no ‘que bom que as pessoas estão lendo’, muito embora eu tenha muita vontade de trocar os livros que eu vejo no trem ou metrô por outras obras que eu julgo mais interessantes… Sim, cabe um ‘porém’ ao fato de ser um julgamento pessoal do que é leitura interessante.

Então, chegamos a um dos pontos sobre a nevralgia: ler isto ou aquilo?

Duas meninas procurando um livro numa biblioteca. Eu, por acaso, estava próxima da prateleira que elas cutucavam à procura do tal cobiçado volume. Não resisti, perguntei pelo título. Disseram assim e assado e eu perguntei o interesse e não outro e elas, enfim, responderam de forma vaga a constar ‘capa bonitinha’ e a chave do desejo ‘parece legal, porque todo mundo quer’.

As duas garotas me pareceram ótimas. Faixa de 13, 14 anos, as duas interessadas em passear periodicamente na biblioteca à procura de um livro como companhia. Melhor do que isso, as duas me disseram que adoravam ler o mesmo livro para virar assunto entre elas. Poxa, de cara, as meninas mereciam alguns pontos extras para que nossa conversa continuasse e eu até me esquecesse da hora.

Papo bom vai e vem, puxamos umo livro, outro, mais outro. Quando pensei que não, ganhei abraços e as duas sairam da biblioteca com todos os livros que sugeri.

Voltei ao ponto zero da conversa; um leitor já é um leitor. O primeiro passo foi dado. Qual será o segundo passo?

Afeto, talvez. Como disse antes, o julgamento racional sobre a relevância de um livro, mesmo fundamentado, nunca deixa de ser pessoal. Já o afeto, manifestado na receptividade ao diálogo e na disposição em compartilhar, é uma linguagem universal.

Encontrei aquela amiga dia desses, aliás, a gente se encontrou num tipo de festinha para lançamento de livro. Curiosamente, ela voltou ao nosso velho assunto.

– Sabe, hoje eu concordo com você, é bom que as pessoas leiam seja o que for. Elas acabam gostando tanto de ter o livro como companhia, de se ver como leitoras, que isso vira conversa, isso transforma.

No mesmo sentido, tenho insistido que a leitura é um processo para além do livro. Somos leitores do mundo e como tais devemos compreender a necessidade de alimentar nossas mentes com símbolos, sons, texturas, paladares e palavras.

Talvez, a formação de leitores se dê pelo abandono do julgamento. Não é o que o outro lê, mas porque ele lê e como essa leitora é percebida por mim.

Olhar profundamente o outro é ler uma experiência que não é vivida por nós, mas que pode ser compartilhada conosco.

O afeto é o sal, elemento essencial para mudar a perspectiva da leitura.

Então, leia, leia muito, leia das propagandas nas ruas ao passo da senhora que leva sacolas e filhos. Leia com os olhos de quem acerta uma escolha justamente porque errou outras. Leia com infinito desejo de se conhecer.

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