A minha vida tem sido não chegar a parte nenhuma

Em nenhum dos meus dias consigo fazer outra coisa que não a desgraça de não chegar a parte nenhuma. Bem que tento não sou rapaz de desistências todos isso sabem, encho-me de força avanço de punhos cerrados o olhar focado e no pensamento
-É desta vai ser desta é só acreditar
E desde logo sofro todo um conjunto de vergonhas e tristes acasos que podem ir desde bater com a cabeça na ombreira da porta (sempre fui muito alto dizem que veio o gene de um bisavô) e imediatamente um grande galo e como consequência eu uma semana de cama ou até levar um encontrão de um senhor com maior corpulência que rapidamente me faz dar três ou quatro voltas sobre mim próprio e só parar quando estendido sobre a calçada ou então pode ainda dar-se a tristeza de em sítio inoportuno começar a sentir necessidades do corpo e pronto, nesse caso é uma carga de trabalhos de resolução bastante árdua
Mas atenção, se verdade é que não vou a parte nenhuma em nenhum aspeto da minha vida mais verdade é que o faço com grande elegância, dos falhados sou sem dúvida o mais fantástico e prodigioso, falho de forma fenomenal e incomparavelmente melhor que qualquer outro falhado, aliás volta e meia um amigo
-Tu realmente és sublime a não ir a parte nenhuma
E eu a querer agradecer o elogio mas mal abro a boca para falar escorrega-me a placa com a dentição percorrendo-me todo o corpo no sentido descendente só parando quando já mais caminho não pode percorrer e imobilizando-se quietinha e bastante simétrica em relação ao padrão presente no chão (calçada mosaicos carpetes não importa, a minha placa sempre perfeita e sempre no mais harmonioso contraste com o mundo). Lá me baixo a fim de alcançar a placa que entretanto ganhou vida e insiste em fugir-me mas quando menos espero um estalido nas costas e rapidamente eu apenas feito de
– Ai ai ai alguém que me acuda alguém que me acuda
E como resultado fico três semanas de cama trancado no meu quarto o que até se me afigura bastante positivo porque não tenho que falar com ninguém nem tenho que passar por baixo de portas e muito menos corro o risco de levar um encontrão e de me ver estendido no chão
De maneiras que me vou dando por contente por ser um sujeito com tanta graciosidade e ligeireza no ato das desgraças, há por aí uns outros colegas que bem tentam alcançar o meu nível (grandes treinos fazem, trabalham imenso, têm massagistas treinadores e fisioterapeutas a tempo inteiro) mas nem perto chegam, como digo isto de ser péssimo é um dom devendo-se cada um contentar com os atributos que por sorte ou acaso ostenta
Gonçalo Naves, do Clube de Leitores – Portugal. A nossa ponte 🙂
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