O mundo começa na cabeça

Lembrei da minha meninice no colo da avó. Ela me trançava os cabelos de uma maneira tão rica, colocava fitas para que eu me sentisse uma princesa. Meu mundo pequeno acontecia entre o quintal e o único quarto – que abrigava a cama e a penteadeira com grampos, talco, uma imagem da Nossa Senhora da Aparecida preservada em oratório de vidro barato.

Meus cabelos tinham cor de ouro e a gente era pobre de marré de si. Mas na história a gente podia tudo, até grampos cravejados de diamantes.

Minha imagem no espelho se misturava ao reflexo da avó e o que eu seria no futuro. Junto de nós a imagem da Rainha de manto azul marinho, brocados dourados e o cabelo escondido por detrás do véu, por baixo daquela coroinha. Como seria o cabelo da Mãe do céu?

Quando eu fiquei mocinha, lá pela maravilha dos doze ou treze anos, quis enrolar os meus cabelos. De nada adiantava a teima. Enrolava, trançava, mas eles alisavam feito quiabo, rabo de peixe. Não parava história nenhuma. Nem fivela. Nem chiquinha. Nem grampo, nem nada.

Na escola eu não entendia a rebeldia da minha amiga de cabelos fartos, enrolados até a raiz. Os cabelos dela sustentavam um mundo, enquanto os meus eram água de rio, pedra limosa.

Bem mais tarde eu cortei, pintei, fiz que fiz e até raspei a cabeça toda para ver como era a verdade dos meus olhos sem moldura nenhuma.

Muitos se espantaram com a falta dos cabelos. Muitos disseram que eu estava louca. Muitos pensaram que eu estava doente…

Cabelo cresce, eu dizia.

E enquanto ele demorava eu colocava lenço, turbante, flor. Até um manto azul com brocados dourados eu poderia vestir na minha cabeça, igual aquele mantinho da Mamãe do oratório de vidro barato que olhava para mim enquanto a avó trançava meus cabelos de água de rio.

Hoje soube a história da menina Minosse, na maravilha dos dez anos, descobridora da liberdade de ter os pés no chão, as mãos na terra, e os cabelos que sustentam janelas abertas para o mundo todo.

Pensei primeiro o que seria Minosse, esse nome de minúcia, os pequenos detalhes que se prendem no fio. Uma borboletinha, poderia ser. Minosse ou minueto, a dança elegante de um prá lá, dois pra cá. Ou Minosse filha de Minos, o Rei de Creta, origem do povo grego, Minosse princesa. Seria por isso que os cabelos dela carregavam histórias da ancestralidade nossa?

Na vida de Minosse também a avó lhe trançava os cabelos. Os dela de ouro negro, com adereços que enfeitam o tempo, transformam os gestos em encantos das mulheres da família.

“Para elas, o cabelo feminino é como a raiz da árvore, o lugar onde tudo começa. Quanto mais encaracolado o cabelo, mais próximo às histórias que os antigos contavam sobre os cabelos que hospedavam os pássaros ao final de suas longas migrações.”

Quis brincar com Minosse e seus cabelos encaracolados de ouro negro que carregam penas coloridas de pavão, pérolas do mar, trovões e estrelas das noites de carinho. Quis brincar com Minosse que era menina da cor da Mãe do Céu, Rainha dos brocados dourados.

Quis chorar com Minosse derramando meu cabelo água de rio.

Se ela abrigasse pássaros nos cabelos, eu também os queria para dar a eles água de rio de beber.

O fenônemo dos nossos cabelos, tão diferentes entre si, eu e Minosse, tantas histórias que se trançam como as mãos que se enlaçam para uma dança elegante.

Hoje Minosse me fez sentir saudades de brincar de ciranda.

***

Esse meu pequeno texto foi inspirado na história da poeta e escritora Prisca Augustoni, presente no livro “O Mundo Começa na Cabeça”, com imagens da minha tão querida Tati Móes.

O livro traz um pouco da magia de Minosse, uma menina que pratica com as mulheres de sua família a tradicional dança de trançar os cabelos, passada de geração a geração junto com as histórias dos ancestrais. Trançar os cabelos para Minosse é forma de se expressar, é uma maneira silenciosa de comunicar a magia.

A história me fez pensar nos cabelos crespos, lisos e também nas cabeças peladas. Se tudo começa na cabeça, cada cabeça é uma voz a dizer todo o universo.

Para os leitores atentos,  “O Mundo Começa na Cabeça”, texto de Prisca Augustoni e imagens de Tati Móes, é da EDitora Paulinas, de São Paulo.

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