O primeiro menino

Muitas vezes a gente se depara com a pergunta ‘para que serve um livro?’, e as respostas são inúmeras, das mais românticas, que incluem o ‘serve para sonhar’, às mais pragmáticas, do argumento ‘servem para educar’.

Eu sempre me pergunto para que não serve o livro. Parafraseando Bojunga, eu já usei livro para tanta coisa na vida, assim como transformei em livro tanta coisa que era outra…

Sentada na sala eu lia os encartes dos discos dos meus pais. Na aula de música, com flauta doce, a gente ensaiava um tal prelúdio que era grego para muitos, não para mim – a menina que lia os encartes dos dicos na sala sentada ao pé de uma vitrola.

Éramos tão meninos e Luiz Vieira, o compositor da canção, parecia contar segredos do mundo.

Minha cabeça ficava viajando na sonoridade das palavras que diziam a canção, “quando estou nos braços teus sinto o mundo bocejar…”, e eu podia sentir o vento passar por mim no refrão “sou menino passarinho com vontade de voar”.

Um livro serve para recordar. Um livro serve para esquecer. Também serve, o livro, para não servir, assim como não servem as perguntas que encontram respostas em outras perguntas. Não servem porque não são coisas de servir. Não servem porque são de natureza diferente. São impálpaveis e imprescindíveis. São as cordas que afinam nosso “vir a ser”…

Assim seria. É.

“Como a música do mar cabe num caracol?”

Perguntou o primeiro menino.

“O caracol carrego o eco do nascimento do mundo?”

Eu reperguntei.

“Um pássaro sabe que é leve?”

O primeiro menino triperguntou.

“O amor é leve como a pluma?”

Eu quadripliquei.

E fomos assim, eu e ele, afinando nossos instrumentos.

O PRIMEIRO MENINO

Edimilson de Almeida Pereira convida os leitores a descobrir para que serve o não servimento do livro, com seu ‘O primeiro menino’, traços de prosa poética recheado de perguntas que transcendem a vida cotidiana e os requerimentos das coisas que sempre devem servir para alguma coisa (dessa vez eu retomo as palavras de Alice Vieira, em sua Arca do Tesouro).

O livro, pra lá de livro, é um portal para dentro, é um mergulho no infinito imaginar. Voltamos a roda do nome das coisas, o significado impresso que pode sofrer mutações para quem ousar brincar com eles, perguntar por eles…

Em boa companhia, Edimilson tem suas palavras ilustradas pelo trabalho encantador de Anabella López, uma artista que tem entre seus dons a capacidade de provocar no leitor o desejo de produzir imagens, de conversar com desenhos.

O primeiro menino não é um conto fácil, um livro fácil, de sentar e ler e ter resposta pra tudo e fim. Muito pelo contrário. O primeiro menino é o livro da pergunta sobre a pergunta, leitura para fazer e refazer no fazer de novo. Para ler em voz alta. Para desenhar as perguntas. Para tecer um caminho de estrelas. Para caminhar além dos nossos passos óbvios.

– fotografia de Penélope Martins sobre o livro O primeiro menino, de Edimilson de Almeida Pereira e Anabella López.

Em tempo, O primeiro menino, de Edimilson de Almeida Pereira com imagens de Anabella López, recebe o selo da Mazza Edições, de São Paulo.

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