Virado de Avesso, Gonçalo Naves

Não há meio de me habituar ao facto de não mais ser a minha mãe a cortar-me as unhas. Dizia-me ela faz uns poucos anos que hás-de tu estar casado e ainda te cortar eu as unhas. Nessa altura pensava eu que melhor coisa não podia haver que estar casado e não me ter que preocupar com as coisas das unhas porque lá havia de estar a minha mãe para tomar mão a esses problemas. Mas passou-se o tempo e nem uma coisa nem outra; nem casório houve (apesar de ter pretendentes que desde logo atraídas pela minha maravilhosa compleição física, mal sabem que sou um falhado na tarefa de cortar unhas declinam qualquer possível envolvimento) nem me corta a minha mãe as unhas. A parte do não haver casório suporto com facilidade, afinal de contas sempre é isso sinónimo de poupar em chinês e em máquinas de secar roupa e em bugigangas da feira das Almas ao Sábado de manhã e naquelas coisas chamadas Bimbi que não tenho bem noção do propósito a que se destinam. Nesse ponto em que é o meu casamento inexistente corre-me a vida com grande feição. O pior é quando me começam as unhas a crescer tanto que fica impossível disfarçar o contraste entre a parte mais esbranquiçada e a parte mais rosa. Começo então eu numa busca pelo corta unhas, levo que tempos a encontrá-lo, vasculho por toda a casa de banho, nas gavetas onde descansam os pensos, nas portinholas de um armário minúsculo onde deviam haver cremes para a minha beleza mas afinal de contas só nódoas de ferrugem e em todas essas outras acomodações onde é provável que esteja o fugido (que por sinal é da minha mãe, roubei-o numa ocasião em que me vi sozinho em casa dos meus pais, calculo que desde então nunca mais tenham cortado as unhas). Só quando desisto da procura é que finalmente encontro o dito num sítio que quase sempre o mais caricato do mundo (nas fendas do sofá, debaixo do tapete do escritório, dentro da pasta de dentes, coisas desta ordem). Lá corto eu as unhas. Grande dificuldade, um trabalho quase impossível, no mínimo uma tarde perdida, no máximo dois dias. Não fui talhado para coisas desta natureza, ficam-me umas com um vértice finíssimo no meio, outras demasiado imperfeitas e terrivelmente lascadas, há sempre uma que protesta e fica por cortar.

Crescem-me com rapidez demasiada as unhas, cresci eu da mesma forma. Dos meus amigos sou o único cujas unhas não são cortadas pela mãe. Dos meus amigos sou o único que não estou casado. De todos eles fui padrinho, tenho imenso jeito, desconfio que ser padrinho de casamento é de facto a única atividade que me cabe desenvolver na vida. Prometo que um dia vou deixar que me cresçam as unhas até me ser impossível manusear o instrumento para as cortar. Nesse momento vou ter com a minha mãe. Com certeza mas cortará ela, numa das mãos um género de pires e na outra um paninho branco, não podem as lascas perderem-se espalhadas pelo soalho. Talvez me ensine os truques do ofício, talvez aprenda eu a cortar as unhas com a mesma perfeição que ela. Nessa altura talvez arranje uma moça inteligente e bem apetrechada de atributos físicos para desenvolvermos vida conjunta, de preferência sem gosto por chinês e por bugigangas ao Sábado de manhã. Nessa altura talvez volte a ter alguém que me corte as unhas.
Gonçalo Naves
(nossa conexão no Clube de Leitores, em Portugal)
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