METÁFORA BREVE, Rodrigo Ferrão

METÁFORA BREVE

por vezes penso que sou peixe
e tenho memória curta.
1,2,3.
um, dois, três.
I,
II,
III.
.
..

gastei uma vida!

o passado é a recordação do momento imediatamente anterior
e assim não há espaço para remorsos,
mágoas, tragédias ou fúrias.
já não assisto à loucura do telejornal,
enterro a tragédia da notícia.
deixo de perceber o significado de tudo ter um fim
ou do para sempre…
sempre acabar.
não sei nada sobre o joelho magoado,
não me importa o cigarro a queimar à minha porta.

desprezo por completo as dores crónicas do coração.

no presente sacio a fome,
mas logo a seguir já não sei o que é.
na presença de uma angústia,
respondo com euforia.
switch on,
switch off.
para quê preocupar-me com explicações se já não domino o que vivi?

o futuro não vem na gramática.
muito menos nas instruções
de — como
conduzir — a
—————-
—– existência —–
——

mas depois penso que se fosse um peixe
já não podia viver um amor para sempre,
recordar quem fui e o que sou,
aprender a contemplar a vista do topo de uma montanha,
fazer do sonho um caminho.
jamais compreenderia o significado
(e a metáfora que é)
o facto de haver flores que nascem
por
entre
as
fendas
das
pedras.

Rodrigo Ferrão

Foto: Rodrigo Ferrão
*Rodrigo Ferrão é nossa ponte no Clube de Leitores de Portugal 🙂
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