a marujada conta história

“Quem me ensinou a nadar, quem me ensinou a nadar, foi, foi, marinheiro, foi os peixinhos do mar. Ê nós que viemo, de outras terras, de outro mar, temos pólvora, chumbo e bala, nós queremo é guerrear.”

Começa a marujada. Canto e dança para receber o povo que vem do mar. E a festa ganha o interior subindo os rios que cortam nosso Brasil. Música de mar que inunda o nosso sertão.

A marujada no Brasil é uma colagem que reúne recortes de clássicos da literatura portuguesa, cantigas de guerra, louvores devocionais a São Benedito, histórias de pescador e o grito de liberdade. Nesse caldo de cultura, não se pode deixar de fora os batuques africanos que regem a musicalidade brasileira, assim como os cultos aos orixás que teve de ser resignado ao sincretismo religioso.

Na marujada todos são irmãos, seguem lado a lado como peixinhos.

A tradição tem tanta força que se espalhou em brincadeiras de roda para vivificar a infância, mesmo que muita gente nem saiba de onde isso vem.

“Eu não sou daqui, eu não tenho amor, eu sou da Bahia, de São Salvador. Ô marinheiro, marinheiro, quem te ensinou a nadar, ou foi o tombo do navio, ou foi o balanço do mar. Marinheiro só. Lá vem, lá vem, ele vem faceiro, todo de branco, com seu bonezinho.”

Não há criança que não tenha entrado de roda e, se ainda não brincou – o que é uma pena – é porque os adultos a sua volta se esqueceram de lhe dar o direito de brincar. E isso é muito sério (e triste).

A roda é dança e cantiga, mas nos coloca lado a lado para igualar a todos. É a irmandade de que falam as marujadas. O corpo conta história, o canto conta história. O ritual é dizer quem somos, no crescer do discurso, consagrando o poder da palavra que o constrói e possibilita o diálogo. A dança de roda – movimento de ondas – liberta a alma e desenha os sentimentos.

E não me venham os puristas corrigir as concordâncias nas cantigas; a linguagem nasce antes da gramática. Puro é saber transitar entre mundos sensíveis. Ritmos que iluminam nossas leituras de mundo.

A marujada é um ritual de celebração pelo retorno daqueles que enfrentaram tormentas no mar bravio para conquistar o mundo. Metáfora que nos serve para a luta da vida cotidiana, a travessia das dificuldades, as tempestades que atormentam dentro e fora da gente.

Cantar e dançar nessa roda, junto com os irmãos, faz lembrar que precisamos uns dos outros, necessitamos de união e força para atravessar as ondas. A irmandade da roda personifica o espírito de liberdade.

A marujada conta a história e nos convida a saudar as forças da natureza, com a gana de remar sem perder o ritmo e a fé.

“Seu marinheiro sua morada é no mar, eu vou, eu vou remando, remando para o mar. Seu marinheiro que balanço é esse? É seu barquinho que vai para o mar levando flores belas pra Mãe Iemanjá.”

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