olhe para mim

Quando eu era pequena, por volta dos 9 anos, recebi meu irmão Rodrigo. Ele era tão lindo que eu até me descontrolava nos apertos, em abraços e beijos.

A história da nossa irmandade é bem complexa. Rodrigo não foi adotado pela nossa família porque Rodrigo tinha e tem sua mãe, Terezinha. Mesmo assim, ele se tornou meu irmão, passamos todos a viver na mesma casa.

Terezinha  se casou e logo engravidou do meu irmão, só que seu marido sofreu um grave acidente e Rodrigo perdeu o pai antes que pudesse conhecê-lo. Minha mãe soube da história, se tornou amiga de Terezinha, e, junto com meu pai, convidaram-na para morar na nossa casa. Meus pais, portanto, adotaram Rodrigo como filho e Terezinha adotou eu e meu irmão como filhos dela.

A nossa família ficou com uma configuração maluca de duas mães, um pai e três filhos, cada um com sua particularidade. Teco era chorão, Rodrigo, aprontão, e eu, uma pessoinha pequena com ares de adulto. Crescemos nesse meio de pura alteridade: pai português; mãe que trabalhava fora de casa feito doida; mãe baiana no puro carinho, voz mansa e passos lentos; e nós, as crianças deles. Ainda depois, veio outra irmã…

Rodrigo era tão apaixonado por mim que um dia, aos cinco anos, quis me dar beijo na boca igual namorados. Eu repreendi. “Somos irmãos e isso não pode!”, disse com tom sério. Ele se magoou um tanto, mas entendeu.

Este ano Rodrigo vai se casar. E eu vou chorar muito. Porque a vida nos deu a irmandade, pra lá de todas as nossas particularidades de termos mães e pais diferentes, sermos de origens diferentes, pintados de cores diferentes.

Dos presentes que darei a Rodrigo, por conta do casamento, devo incluir a história de Kitoko, um menino que também cresceu numa família diferente. Um menino, assim como Rodrigo, que começou a vida pela morte de seus entes queridos.

Kitoko foi adotado por uma família de outra cultura. Sua nova mãe está grávida e ele se pergunta se continuará a ser amado depois que sua irmãzinha branca nascer.

Enquanto espera pela mãe no Museu onde ela trabalha restaurando pinturas, Kitoko adormece e sonha com a África. Em sonhos, Kitoko relembra a vida com sua primeira família e se sente inteiro cada vez que sua irmã Ayosha o ampara e conforta.

Agora a vida dá a Kitoko a oportunidade de ser o irmão acolhedor, o mais velho… Um desafio de receber uma irmã que, embora fisicamente diferente dele, também espera uma trajetória de amor.

O livro conta com a escrita sensível de Ed Frank, premiado e traduzido escritor belga com mais de 70 livros publicados, apreciado pela poesia e profundidade com que trata de temas complexos, como a violência e as desigualdades. A vida de Kitoko é representada por uma abrangente série de ilustrações inspiradas em obras de consagrados pintores de diferentes escolas, estilos e nacionalidades, como Monet, Picasso, Gauguin, Escher, Miró, Renoir, Matisse, Dalí, entre outros. Um passeio pelo mundo da arte apresentado pela segunda mãe, com o olhar de uma criança à procura de sua identidade. As artes são de Kris Nauerlaerts, artista natural da República Democrática do Congo, professor universitário na Bélgica, autor de inúmeros livros ilustrados.

Aqui no Brasil o livro pode ser encontrado com selo da editora Pulo do Gato.

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