conta de novo

É maio e o mês começa com a celebração do dia das mães. Pode parecer banal para uns, configurar cena consumista para outros, mas a verdade é que é um dia especialmente voltado para celebrarmos nossa chegada nesse mundo, a revelação da vida seguida pelos cuidados que nos envolveram, os passos suportados por alguém que tem capacidade de amar incondicionalmente.

Eu tinha muitas diferenças com minha mãe. Ela sempre foi uma mulher dinâmica com opinião forte para fazer valer a educação que nos dava. Isso atrapalhou um bocado os planos que eu desenvolvia para minha adolescência. Vida dura quando a mãe põe a gente de castigo aos quinze anos. Enfim.

Casei e a coisa começou a mudar. Eu tinha minha casa e tudo poderia ser feito da minha maneira. Mas, muitas vezes sem perceber, eu repetia a forma da minha mãe. Até as palavras, eu repetia. Eu tinha me tornado uma cópia daquela mulher dinâmica e com opinião forte que, um dia, atrapalhou alguns planos para minha adolescência.

Confirmei isso várias vezes, com meu marido repetindo ‘você é igual a sua mãe’. Eu recebia como elogio porque meu marido tem mesmo signo que a minha mãe, os dois se dão tão bem que ela é capaz de defendê-lo de mim. Beira o absurdo para uma filha que diz não ter ciúmes. Enfim.

O ápice da consagração materna em mim, era de se esperar, chegou com meu filho. Ele nasceu num dia 5 e veio para os meus braços pelos braços de minha mãe, que acompanhava todos os movimentos no processo de adoção.

Naquele dia eu disse para minha mãe que ela iluminava meu segundo nascimento. Era eu a mãe, agora. Minha mãe, a mãe da mãe, também avó.

Pouco consegui chorar. A emoção era tão grande a vislumbrar aquele serzinho pequeno, perfeito, único. Eu me enamorava dos dedos dos pés, das orelhas, do umbigo, das curvinhas do joelho, dos sons, do perfume de açúcar mascavo que eu sentia nele. Eu sentia crescer dentro de mim uma força antes desconhecida.

Já nos primeiros dias, com meu filho para ninar, ensaiei histórias sobre o nosso encontro nessa vida.

Meu filho não tinha nascido de mim, eu é que tinha renascido dele. Nosso cordão umbilical era o querer absoluto.

E minha mãe dizia para mim que eu era melhor mãe do que ela foi. Impossível, mãe. Se foi com ela que eu aprendi a ser mulher e mãe. Foi com ela que aprendi a desenhar os traços de uma mulher dinâmica, que faz valer opinião forte.

Minha mãe. Meu mel.

Então, se existe datas especiais para nossos calendários, nada mais justo que haja uma data para nos lembrar origem de tudo.

Mãe, eu te amo. E obrigada por fazer naufragar a maioria dos meus planos de adolescência. Eu era ruim de planejamento. Enfim.

PS. Para mamães por adoção e outras que também adotam para filhos do coração os seus filhos biológicos, após nascimento, super recomendo o livro ‘CONTA DE NOVO a história da noite em que eu nasci”. No livro de Jamie Lee Curtis, ilustrado por Laura Cornell, uma menina pede para a mãe contar a história da noite de seu nascimento, enquanto ela mesma sabe descrever em todos os detalhes: o telefonema no meio da noite, o susto, a emoção, a pressa para chegar ao hospital, a viagem de avião… A menina repete de cor a narrativa de sua história, enquanto ilustra, com desenhos e fotos, sua ‘árvore genealógica’… Delicado e simples, o livro celebra, com emoção e beleza, a chegada de uma criança, por adoção, em uma família que tanto a espera. Editora Salamandra.

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